O Problema dos Três Corpos
7. Três corpos: o rei Wen Dezhou e a longa noite
7. TRÊS CORPOS: O REI WEN DE
ZHOU E A LONGA NOITE
Wang ligou para Ding Yi. Só quando Ding atendeu o telefone foi que Wang se deu conta de que j á era um a da m anhã.
— Aqui é Wang Miao. Sinto m uito por ligar tão tarde.
— Não tem problem a. Não consigo dorm ir m esm o.
— Eu… vi algo e gostaria de sua aj uda. Você conhece algum a instituição na China que estej a observando a radiação cósm ica de fundo em m icro-ondas?
Em bora Wang sentisse vontade de conversar com alguém sobre o que estava acontecendo, achou que seria m elhor não deixar m uita gente saber da contagem que só ele enxergava.
— Radiação cósm ica de fundo em m icro-ondas? Por que você se interessou por isso? Acho que você deve ter encontrado m esm o algum problem a… Já foi ver a m ãe de Yang Dong?
— Ah… sinto m uito. Esqueci.
— Sem problem a. Hoj e em dia, m uitos cientistas j á viram … algo, com o você. Todo m undo está distraído. Mas ainda acho que é m elhor você fazer um a visita à m ãe de Yang, que está bastante idosa e se recusa a contratar um a cuidadora. Se ela tiver algum a coisa que não consiga fazer sozinha na casa, por favor, dê um a aj uda… Ah, sim , a radiação cósm ica de fundo em m icro-ondas. Pode perguntar isso para a m ãe de Yang. Antes de se aposentar, ela era astrofísica. Conhece bem essas instituições da China.
— Ótim o! Vou visitá-la hoj e, depois do trabalho.
— Então j á agradeço agora. Realm ente não consigo m ais olhar para nada que m e lem bre Yang Dong.
Depois de desligar o telefone, Wang se sentou na frente do com putador e im prim iu um a tabela sim ples de código Morse. Já estava calm o o bastante para não pensar m ais na contagem regressiva. Ficou refletindo sobre a Fronteiras da Ciência, Shen Yufei e o j ogo de com putador que ela estava rodando. A única certeza que tinha em relação a Shen era que ela não era o tipo de pessoa que gostava de j ogos de com putador. Shen era m onossilábica e sem pre dava a im pressão de ser extrem am ente fria. Não era a frieza que algum as pessoas adotam com o um a m áscara — a frieza de Shen a preenchia por com pleto.
De m odo inconsciente, Wang pensou nela com o o sistem a operacional extrem am ente obsoleto DOS: um a tela preta vazia, um a orientação de com ando “C:\>” sim ples, um cursor piscante. O que fosse digitado, o com ando repetia. Nenhum a letra a m ais, nenhum a m udança. Só que Wang descobrira que por trás do “C:\>” havia um abism o infinito.
Ela está mesmo interessada em um jogo? Um jogo que exige um traje V? Ela não tem filhos, então comprou o traje para uso próprio. Esse pensamento é absurdo.
Wang digitou o endereço da página no navegador. Tinha sido fácil decorar: www.3corpos.net. O site indicava que o j ogo só oferecia acesso via traj e V. Wang lem brou que a sala de descanso dos funcionários no Centro de Pesquisa em Nanotecnologia tinha um traj e V. Ele saiu do laboratório principal, que j á estava vazio, e foi até a sala da segurança para pegar a chave. Na sala de descanso, passou por m esas de sinuca e aparelhos de ginástica e viu o traj e V do lado de um com putador. Penou para vestir a j aqueta de resposta sensorial, colocou o capacete com visor panorâm ico e ligou o com putador.
Após entrar no j ogo, Wang se viu no m eio de um a planície desolada ao am anhecer. A planície era parda, indistinta, e era difícil perceber qualquer detalhe. Ao longe, um fiapo de luz branca no horizonte. O resto do céu estava coberto por estrelas cintilantes.
Aconteceu um a explosão barulhenta, e duas m ontanhas incandescentes caíram na terra distante. Um a lum inosidade verm elha banhou a planície inteira. Quando a poeira enfim baixou, Wang avistou duas palavras gigantescas erguidas entre a terra e o céu: TRÊS CORPOS.
Em seguida, um a tela de cadastro. Wang criou o login “Hairen” e entrou.1
A planície continuava desolada, m as agora os com pressores do traj e V zum biram e com eçaram a funcionar, e Wang sentiu raj adas de ar frio no corpo. Diante dele, apareceram duas figuras cam inhando, duas silhuetas escuras contra a luz da alvorada. Wang correu até elas.
Constatou que as duas figuras eram m asculinas. Os dois usavam longos m antos esburacados e se cobriam com peles de anim ais suj as. Cada um portava um a espada curta e larga de bronze. Um deles, que carregava um baú de m adeira com m etade de sua altura, se virou para encarar Wang. O rosto do hom em estava tão suj o e enrugado quanto a pele de anim al que o protegia, m as seus olhos eram aguçados e vivos, e as pupilas cintilavam com o brilho da m anhã.
— Está frio — disse ele.
— Sim , m uito frio.
— Este é o Período dos Reinos Com batentes — disse o hom em , com o baú nas costas. — Eu sou o rei Wen de Zhou.
— Se não m e engano, o rei Wen não pertence ao Período dos Reinos
Com batentes — disse Wang.2
— Ele sobreviveu até agora — respondeu o outro hom em . — O rei Zhou
de Shang3 tam bém está vivo. Eu sou um seguidor do rei Wen. Na verdade, o m eu login é este: “Seguidor do rei Wen de Zhou”. Ele é um gênio, sabia?
— Meu login é “Hairen”. O que você está levando nas costas?
O rei Wen colocou o baú retangular no chão e o deixou em pé. Abriu um a das laterais com o se fosse um a porta e revelou cinco com partim entos internos. Com a luz fraca, Wang viu que todas as cam adas tinham um m ontinho de areia. Cada com partim ento parecia receber areia do com partim ento de cim a, por um buraco pequeno.
— Um a espécie de am pulheta. A cada oito horas, toda a areia vai para a base. Ao virarm os três vezes, contam os um dia. Só que m uitas vezes eu m e esqueço de virar, então preciso do Seguidor para m e lem brar.
— Vocês parecem estar percorrendo um a j ornada m uito longa. É preciso levar um relógio tão grande?
— De que outra form a m ediríam os o tem po?
— Um relógio solar portátil seria m uito m ais conveniente. Ou então bastaria olhar para o sol e estim ar o horário.
O rei Wen e o Seguidor trocaram um olhar e, em seguida, se viraram ao m esm o tem po para Wang, olhando-o com o se fosse um idiota.
— O sol? Com o é que o sol pode nos dizer a hora? Estam os no m eio de um a Era Caótica.
Wang estava prestes a perguntar o que significava aquele estranho term o quando o Seguidor soltou um grito de lam ento.
— Está m uito frio! Vou m orrer de frio!
Wang tam bém sentia m uito frio. Porém , com o na m aioria dos j ogos bastava tirar o traj e V para que o sistem a deletasse o login im ediatam ente, ele não podia tirá-lo.
— Quando o sol nascer, vai esquentar — disse.
— Você está fingindo ser algum oráculo? Nem m esm o o rei Wen consegue prever o futuro. — O Seguidor balançou a cabeça, cheio de desdém .
— O que é que isso tem a ver com prever o futuro? É claro que o sol vai nascer daqui a um a ou duas horas. — Wang apontou para o fiapo de luz em cim a do horizonte.
— Esta é um a Era Caótica!
— O que é um a Era Caótica?
— Sem contar as Eras Estáveis, todas as outras épocas são Eras Caóticas — respondeu o rei Wen, com o se tivesse falado com um a criança ignorante.
Com o para pontuar suas palavras, a luz no horizonte dim inuiu e desapareceu logo depois. A noite cobriu tudo. As estrelas no céu ficaram ainda m ais brilhantes.
— Então aquilo foi o crepúsculo, e não a alvorada? — perguntou Wang.
— Agora é m anhã. Mas nem sem pre o sol nasce de m anhã. Assim são as Eras Caóticas.
Wang estava achando difícil suportar o frio.
— Parece que o sol vai dem orar m uito para sair — disse, estrem ecendo e apontando para o horizonte indistinto.
— Por que você acha isso? É im possível ter certeza. Já falei, esta é um a Era Caótica. — O Seguidor se virou para o rei Wen. — Posso com er um pouco de peixe desidratado?
— De j eito nenhum . — O tom da voz do rei Wen não adm itia discussão. — O que eu tenho m al dá para m im . Precisam os garantir que eu chegue a Zhao Ge,
não você.4
Enquanto eles falavam , Wang percebeu que o céu com eçou a clarear em outra parte do horizonte. Não sabia ao certo as direções da bússola, m as tinha certeza de que, dessa vez, a direção era diferente da anterior. O céu ficou m ais claro, e logo o sol daquele m undo nasceu. Era pequeno e azulado, com o um a lua m uito lum inosa. Ainda assim , Wang sentiu um pouco de calor e pôde ver m elhor a paisagem ao redor. Mas o dia não durou. O sol percorreu um arco pequeno por cim a do horizonte e logo se pôs. A noite e o frio congelante voltaram a dom inar tudo.
Os três viaj antes pararam diante de um a árvore m orta. O rei Wen e o Seguidor pegaram as espadas de bronze para cortar lenha, e Wang fez um a pilha com as toras. O Seguidor apanhou um a pedra e bateu com ela na lâm ina da espada, até produzir faíscas. O calor da fogueira logo aqueceu a parte da frente do traj e V de Wang, m as as costas continuavam frias.
— Devíam os queim ar alguns dos corpos desidratados — disse o Seguidor. — Aí poderíam os fazer um a fogueira forte!
— Tire essa ideia da cabeça. Só o tirano rei Zhou faria algo assim .
— Vim os m uitos corpos desidratados espalhados pela estrada. Com o estavam rasgados, não poderão ser revividos quando forem reidratados. Se sua teoria funcionar de fato, que im porta se queim arm os um ou outro? Podem os até com er alguns. O que são algum as vidas com paradas à im portância de sua teoria?
— Pare com esse absurdo! Som os intelectuais!
Depois que a fogueira se extinguiu, os três continuaram a viagem . Com o não conversaram m uito, o sistem a do j ogo acelerou a passagem do tem po. O rei Wen girou depressa a am pulheta nas costas seis vezes, indicando o transcorrer de dois dias. O sol não nasceu nenhum a vez, nem sequer um vislum bre de luz no horizonte.
— Parece que o sol não vai nascer nunca m ais — com entou Wang. Ele abriu o m enu do j ogo para dar um a olhada na barra de vida que, por causa do frio extrem o, estava dim inuindo constantem ente.
— Você está fingindo de novo que é um oráculo — disse o Seguidor. Porém , dessa vez, ele e Wang term inaram a frase j untos. — Esta é um a Era Caótica!
No entanto, pouco depois, a aurora despontou no horizonte. O céu se ilum inou rapidam ente, e o sol subiu. Wang percebeu que, dessa vez, o sol era gigantesco. Quando apenas m etade dele tinha nascido, ocupava pelo m enos um quinto do horizonte visível. Os três viaj antes foram cobertos por ondas de calor, e Wang sentiu-se revigorado. Mas, quando olhou para o rei Wen e o Seguidor, viu que a expressão dos dois era de terror, com o se estivessem diante de um dem ônio.
— Rápido! Encontrem um a som bra! — gritou o Seguidor. Wang correu j unto com eles. Os três se abaixaram atrás de um a pedra grande. A som bra da pedra foi dim inuindo aos poucos. A terra ao redor ardia tanto que parecia estar em cham as. O gelo perpétuo abaixo deles derreteu depressa, e a superfície rígida do chão se transform ou em um m ar de lam a, agitado por ondas de calor. Wang suava em profusão.
Quando o sol estava a pino, os três cobriram a cabeça com as peles de anim al, m as a luz intensa ainda atravessava com o flechas os buracos e as frestas. Eles contornaram a pedra até conseguirem abrigo em um a nova som bra, que tinha acabado de se form ar do outro lado.
Após o pôr do sol, o ar continuou quente e abafado. Ensopados de suor, os viaj antes se sentaram em cim a da pedra.
— Viaj ar durante um a Era Caótica é com o cam inhar no inferno — disse o Seguidor, desanim ado. — Não aguento m ais. E ainda por cim a não com i nada porque você não quis m e dar nenhum peixe desidratado e não quer m e deixar com er os corpos desidratados. O que…
— A única opção é desidratar você — disse o rei Wen, abanando-se com um pedaço de pele.
— Você não vai m e abandonar depois, vai?
— Claro que não. Prom eto levá-lo a Zhao Ge.
O Seguidor tirou o m anto encharcado e, nu, se deitou no chão lam acento. Com os últim os raios de luz do sol j á abaixo do horizonte, Wang viu água escorrendo do corpo do Seguidor. Ele sabia que não era m ais suor. Toda a água do corpo dele estava sendo elim inada e esprem ida. O líquido form ou alguns córregos pequenos na lam a. O corpo am oleceu e se deform ou, com o um a vela derretida.
Dez m inutos depois, toda a água fora expelida. No chão, o Seguidor tinha se transform ado em um pedaço de couro com form ato de hom em . Os traços do rosto haviam se apagado e estavam indistintos.
— Ele m orreu? — perguntou Wang, que se lem brava de ter visto pedaços de couro com form ato de hom ens espalhados pela estrada. Alguns estavam rasgados e incom pletos. Im aginou que fossem os corpos desidratados que o Seguidor havia m encionado.
— Não — respondeu o rei Wen. Depois de lim par a lam a e a poeira, ele estendeu a pele do Seguidor em cim a da pedra, enrolando-a com o um balão sem ar. — Ele vai se recuperar daqui a pouco, quando o puserm os na água. É que nem quando colocam os cogum elos desidratados na água.
— Até os ossos ficaram m oles?
— Sim . O esqueleto dele foi transform ado em fibras desidratadas. Assim fica fácil de carregar.
— Neste m undo, qualquer um pode se desidratar e ser reidratado?
— Claro. Você tam bém . Caso contrário, seria im possível sobreviver às Eras Caóticas. — O rei Wen entregou a pele enrolada para Wang. — Leve o Seguidor. Se abandoná-lo na estrada, ele vai ser queim ado ou com ido.
Wang recebeu a pele, um rolo apertado. Segurou aquilo debaixo do braço, e a sensação não foi assim tão estranha.
Com o Seguidor desidratado a cargo de Wang e a am pulheta nas costas do rei Wen, os dois retom aram a árdua viagem . Com o nos dias anteriores, o progresso do sol não possuía nenhum padrão naquele m undo. Após um a noite longa e gélida que durava um período equivalente a vários dias, podia acontecer um dia curto e escaldante, e vice-versa. Os dois dependiam um do outro para sobreviver, acendendo fogueiras para resistir ao frio e m ergulhando em lagos para fugir do calor.
Pelo m enos o j ogo acelerava o tem po. Um m ês podia passar em m eia hora de partida. Com isso, a viagem pela Era Caótica ao m enos era tolerável para Wang.
Certo dia, após um a longa noite que durou quase um a sem ana (conform e a m edição da am pulheta), o rei Wen deu um grito súbito de alegria ao apontar para o céu noturno.
— Estrelas voadoras! Duas estrelas voadoras!
Na verdade, Wang j á havia percebido aqueles estranhos corpos celestes. Eram m aiores que as estrelas e pareciam discos m ais ou m enos do tam anho de bolas de pingue-pongue. Deslocavam -se pelo céu a um a velocidade alta o bastante para que fosse possível identificar o m ovim ento a olho nu. Mas era a prim eira vez que um a dupla aparecia ao m esm o tem po.
— Sem pre que aparecem duas estrelas voadoras — explicou o rei Wen —, significa que está prestes a com eçar um a Era Estável.
— Já vim os estrelas voadoras antes.
— Sim , m as só um a de cada vez.
— O m áxim o que dá para ver são duas?
— Não. Às vezes, aparecem três, m as não m ais que isso.
— Se aparecerem três estrelas voadoras, é sinal de um a era ainda m elhor?
O rei Wen encarou Wang com um a expressão assustada.
— O que você está falando? Três estrelas voadoras… reze para que isso nunca aconteça.
O rei Wen tinha razão. A desej ada Era Estável logo teve início. A aurora e o pôr do sol com eçaram a seguir um padrão. O ciclo de dias e noites passou a se estabilizar em um período de dezoito horas. A alternância sistem ática do dia e da noite fez com que o clim a ficasse agradável e am eno.
— Quanto tem po dura um a Era Estável? — perguntou Wang.
— Pode ser breve com o um dia ou longa com o um século. Ninguém consegue prever a duração. — O rei Wen se sentou na am pulheta e levantou a cabeça para olhar o sol do m eio-dia. — Segundo docum entos históricos, a dinastia Zhou Ocidental viveu um a Era Estável que durou dois séculos. Que sorte nascer em um a época assim !
— Então quanto tem po dura um a Era Caótica?
— Já falei. Tirando as Eras Estáveis, as dem ais são Eras Caóticas. Cada um a ocupa o tem po não utilizado pelas outras.
— Quer dizer que este é um m undo onde não existem padrões?
— Exatam ente. A civilização só pode se desenvolver no clim a am eno das Eras Estáveis. Na m aior parte do tem po, a hum anidade precisa se desidratar e perm anecer arm azenada. Quando chega um a Era Estável duradoura, todos são revividos através da reidratação. E então as pessoas com eçam a construir e produzir.
— Com o é possível prever a chegada e a duração de cada Era Estável?
— Com o j á disse, ninguém conseguiu fazer isso. Quando chega um a Era Estável, o rei decide com base na intuição se deve com eçar a reidratação em m assa. Muitas vezes as pessoas são revividas, as plantações são sem eadas, as cidades são construídas, a vida está prestes a ser retom ada… e aí a Era Estável acaba. Frio e calor extrem os logo destroem tudo. — O rei Wen estava apontando para Wang, com um brilho nos olhos. — Agora você sabe o obj etivo deste j ogo: usar o intelecto e o conhecim ento para analisar todos os fenôm enos até descobrir o padrão dos m ovim entos do sol. A sobrevivência da civilização depende disso.
— Com base em m inhas observações, não existe padrão nenhum para os m ovim entos do sol.
— Isso se deve ao fato de que você não com preende a natureza fundam ental do m undo.
— E você com preende?
— Sim . Por isso m esm o estou indo a Zhao Ge. Vou apresentar ao rei Zhou um calendário detalhado.
— Mas não vi sinal algum nesta viagem de que sej a possível criar algo parecido.
— Prever o deslocam ento do sol é possível apenas em Zhao Ge, pois é lá que y in e y ang se encontram . Som ente lá a sorte tirada é correta.
Os dois prosseguiram em m eio às condições severas de m ais um a Era Caótica, interrom pida brevem ente por um a curta Era Estável, até enfim chegarem a Zhao Ge.
Wang ouviu um rugido incessante que parecia um trovão. O som era gerado pelos vários pêndulos gigantes espalhados ao longo de Zhao Ge, todos com dezenas de m etros de altura. Cada pêndulo era com posto por um a rocha gigante suspensa por um a corda grossa, presa a um a ponte que ligava o topo de duas torres finas de pedra.
Todos os pêndulos estavam balançando, e o m ovim ento era m antido por soldados em arm aduras. Entoando cantos incom preensíveis, esses soldados puxavam de m aneira ritm ada cordas ligadas às rochas gigantes, aum entando o arco dos pêndulos quando eles perdiam velocidade. Wang percebeu que todos os pêndulos oscilavam em sincronia. De longe, a cena era m agnífica: era com o se vários relógios gigantescos tivessem sido erguidos na Terra, ou com o se sím bolos abstratos colossais tivessem caído do céu.
Os pêndulos gigantes cercavam um a pirâm ide ainda m ais im ensa, um a m ontanha alta em m eio às trevas da noite. Era o palácio do rei Zhou. Wang acom panhou o rei Wen por um a porta baixa na base da pirâm ide, diante da qual alguns soldados patrulhavam na escuridão, silenciosos com o fantasm as. A porta se abria para um túnel escuro, longo e estreito, que avançava pirâm ide adentro, ilum inado por algum as tochas.
O rei Wen conversava com Wang enquanto cam inhavam .
— Durante um a Era Caótica, o país inteiro é desidratado. Mas o rei Zhou perm anece desperto, um com panheiro para a terra inerte. Para sobreviver a um a Era Caótica, é preciso m orar em edifícios de paredes grossas com o este e levar um a vida com o no subterrâneo. Só assim é possível evitar o calor e o frio extrem os.
Depois de percorrerem o túnel por m uito tem po, os dois enfim chegaram ao Grande Salão no centro da pirâm ide. Na verdade, o salão nem era tão grande assim , e Wang achou que lem brava um a caverna. Sem dúvida, o hom em sentado em um estrado e coberto por um a pele m ulticolorida era o rei Zhou. Porém , o que cham ou a atenção de Wang foi um hom em vestido todo de preto. O m anto preto se m isturava com as som bras densas do Grande Salão, e o rosto pálido parecia estar flutuando.
— Este é Fu Xi5 — disse o rei Zhou, apresentando o hom em de preto a Wang e ao rei Wen. Ele falou com o se Wang e o rei Wen j á estivessem ali e o hom em de preto fosse o recém -chegado. — Ele acredita que o sol sej a um deus tem peram ental. Quando o deus está acordado, seu hum or é im previsível, o que resulta em um a Era Caótica. Mas, quando dorm e, sua respiração norm aliza, o que resulta em um a Era Estável. Fu Xi sugeriu que eu construísse e deixasse aqueles pêndulos que vocês viram lá fora em m ovim ento constante. Afirm a que os pêndulos podem exercer um efeito hipnótico no deus sol e fazê-lo m ergulhar em um sono prolongado. Com o podem os ver, até agora o deus sol continua acordado, em bora de vez em quando pareça tirar um cochilo rápido.
O rei Zhou fez um gesto com as m ãos, e alguns criados trouxeram um a panela de barro e a depositaram na pequena m esa de pedra diante de Fu Xi. Mais tarde, Wang descobriu que era um a panela de sopa condim entada. Fu Xi suspirou, ergueu a panela e bebeu em goles enorm es: o barulho de sua garganta ecoou na escuridão com o os batim entos de um coração gigante. Após engolir m etade da sopa, virou o restante da panela sobre o próprio corpo. Em seguida, j ogou a panela no chão e foi até um im enso caldeirão de bronze, suspenso acim a de um a fogueira no canto do Grande Salão. Subiu na beirada do caldeirão e pulou para dentro, fazendo subir um a nuvem de vapor.
— Sente-se, Ji Chang6 — pediu o rei Zhou. — Vam os com er daqui a pouco. — Ele apontou para o caldeirão.
— Feitiçaria insensata — disse o rei Wen, lançando um olhar desdenhoso para o caldeirão.
— O que você descobriu sobre o sol? — perguntou o rei Zhou. A luz das cham as dançava em seus olhos.
— O sol não é um deus. O sol é y ang, e a noite é y in. O m undo existe no equilíbrio entre y in e y ang. Em bora não possam os controlar o processo, podem os prevê-lo. — O rei Wen apanhou a espada de bronze e traçou um sím bolo de y in-y ang no chão, sob a fraca luz da fogueira. Em seguida, escavou os 64 hexagram as do I Ching em volta do sím bolo, e o conj unto todo parecia um a roda de calendário. — Meu rei, este é o código do universo. Com ele, posso oferecer à sua dinastia um calendário preciso.
— Ji Chang, preciso saber quando virá a próxim a Era Estável longa.
— Vou prevê-la para o senhor agora m esm o — respondeu o rei Wen. Ele se sentou de pernas cruzadas no m eio do sím bolo de y in-y ang. Ergueu a cabeça para o teto do Grande Salão, e seu olhar parecia atravessar as pedras grossas da pirâm ide e alcançar as estrelas. Os dedos das m ãos com eçaram um a série de m ovim entos rápidos e com plexos, com o peças de um a m áquina de calcular. Em m eio ao silêncio, apenas a sopa no caldeirão em itia algum ruído, fervendo e borbulhando com o se o xam ã que estava sendo cozido ali dentro falasse durante o sono.
O rei Wen se levantou no m eio do sím bolo de y in-y ang. Com a cabeça ainda apontada para o teto, ele disse:
— A próxim a será um a Era Caótica de quarenta e um dias. Depois virá um a Era Estável de cinco dias. Em seguida, um a Era Caótica de vinte e três dias, e então um a Era Estável de dezoito dias. Depois terem os um a Era Caótica de oito dias. Mas, quando essa Era Caótica term inar, a Era Estável duradoura tão esperada pelo senhor, m eu rei, com eçará. Essa Era Estável vai durar três anos e nove m eses. Terá um clim a tão am eno que será um a época dourada.
— Antes precisam os verificar suas previsões iniciais — disse o rei Zhou, im passível.
Wang ouviu um trem or alto vindo de cim a. Um a placa de pedra no teto do Grande Salão se abriu, revelando um a passagem quadrada. Wang se aj eitou e viu que a passagem levava a outro túnel, que subia pelo centro da pirâm ide. No final desse túnel, avistou algum as estrelas cintilantes.
O tem po do j ogo se acelerou. De tantos em tantos segundos do tem po real, dois soldados giravam a am pulheta trazida pelo rei Wen, indicando a passagem de oito horas do tem po do j ogo. A abertura no teto exibia luzes aleatórias, e de vez em quando um raio solar de um a Era Caótica irrom pia no Grande Salão. Às vezes, a luz era fraca, com o o luar. Às vezes, era m uito forte, e o quadrado branco incandescente proj etado no chão brilhava tanto que fazia as tochas do Grande Salão parecerem fracas.
Wang continuou contando as viradas da am pulheta. Depois de m ais ou m enos cento e vinte viradas, o aspecto da luz solar que entrava pelo buraco no teto se regularizou. Tratava-se do com eço da prim eira das Eras Estáveis previstas.
Passadas m ais quinze viradas da am pulheta, a luz cintilante da abertura voltou a ficar aleatória, o com eço de m ais um a Era Caótica. Seguiu-se outra Era Estável e outra Caótica. Os pontos de início e a duração das diversas eras não batiam exatam ente com as previsões do rei Wen, m as chegavam perto. Ao fim de m ais um a Era Caótica de oito dias, a Era Estável duradoura prevista por ele com eçou.
Wang continuou contando as viradas da am pulheta. Passaram -se vinte dias, e a luz que entrava no Grande Salão seguiu um padrão preciso. O tem po do j ogo voltou à velocidade norm al.
O rei Zhou gesticulou com a cabeça para o rei Wen.
— Construirei um m onum ento em sua hom enagem , m aior ainda que este palácio.
O rei Wen fez um a reverência profunda.
— Meu rei, desperte sua dinastia e perm ita que ela prospere!
O rei Zhou se levantou no estrado e abriu os braços, com o se quisesse envolver o m undo inteiro. Com um a voz estranha e transcendental, com eçou a entoar:
— Re-i-dra-tar…
Assim que a ordem foi dada, todo m undo que estava no Grande Salão correu para a porta. Wang seguiu o rei Wen de perto, e os dois saíram da pirâm ide pelo túnel com prido por onde haviam entrado. Do lado de fora, Wang viu o sol de m eio-dia cobrir a terra de calor. Em um a brisa no ar, sentiu as fragrâncias da prim avera. O rei Wen e Wang foram j untos até um lago ali perto. O gelo na superfície da água havia derretido, e a luz do sol dançava em m eio às m arolas suaves.
Um a coluna de soldados urrava “Reidratar! Reidratar!” ao passar correndo na direção de um grande edifício de pedra, com a form a de um silo, situado perto do lago. Na estrada que levava a Zhao Ge, Wang vira m uitos edifícios sem elhantes, e o rei Wen contara que eram cham ados de desidratórios, depósitos que arm azenavam os corpos desidratados. Os soldados abriram as pesadas portas de pedra do desidratório e tiraram rolos de peles em poeiradas. Cada um andou até a m argem do lago e j ogou os rolos na água. Assim que encostavam na água, as peles com eçavam a se desenrolar e esticar. Em pouco tem po, o lago estava coberto por um a cam ada de peles flutuantes de form ato hum ano, e cada um a se expandia ao absorver água. Aos poucos, as silhuetas hum anas de pele se transform aram em corpos de carne e osso, que com eçaram a m ostrar sinais de vida. Um a a um a, as pessoas se levantavam com esforço no lago, com a água batendo na cintura. Todas encaravam o m undo ensolarado com olhos escancarados, com o se tivessem acabado de acordar de um sonho.
— Reidratar! — gritou um hom em .
— Reidratar! Reidratar! — repetiram alegrem ente outras vozes.
Todos saíram do lago e correram nus até o desidratório. Pegaram m ais peles e j ogaram na água: ainda m ais pessoas revividas saíram do lago. A cena se repetiu em cada lago e em cada lagoa. O m undo inteiro estava voltando à vida.
— Oh, céus! Meu dedo!
No m eio do lago, Wang viu um hom em que havia acabado de ser revivido. Ele estava segurando um a das m ãos e chorando. A m ão estava sem o dedo m édio, e o ferim ento j orrava sangue na água. Outras pessoas, tam bém recém -revividas, passaram felizes por ele em direção à m argem , ignorando-o.
— Você ainda teve sorte — alguém disse ao hom em . — Alguns perderam o braço ou toda a perna. Outros tiveram a cabeça inteirinha roída por ratos. Se a reidratação dem orasse m ais, talvez todo m undo acabasse virando com ida dos ratos das Eras Caóticas.
— Ficam os desidratados por quanto tem po? — perguntou um dos revividos.
— Dá para ter um a ideia pela cam ada de poeira em cim a do palácio. Ouvi dizer agora há pouco que o rei não é m ais o m esm o. Mas não sei se é o filho ou o neto do rei antigo.
O trabalho de reidratação levou oito dias. Todos os corpos desidratados que estavam arm azenados foram revividos, e o m undo ganhou vida nova. Ao longo desses oito dias, o povo desfrutou de ciclos regulares de aurora e pôr do sol, cada ciclo com exatam ente vinte horas de duração. Aproveitando o clim a de prim avera, todos pronunciaram louvores em ocionados ao sol e aos deuses que regiam o m undo.
Na noite do oitavo dia, as fogueiras espalhadas pelo m undo pareciam ainda m ais num erosas que as estrelas no céu. As ruínas das cidades abandonadas durante as Eras Caóticas voltaram a se encher de sons e luzes. Com o em todas as reidratações em m assa do passado, as pessoas passariam a noite toda celebrando a vida nova que com eçaria após o am anhecer.
Mas o am anhecer não veio.
Todo dispositivo de m edição de tem po indicava que a hora do nascer do sol j á havia passado, m as o horizonte perm anecia escuro em todas as direções. Mesm o depois de dez horas, nada de sinal do sol, nem sequer um a insinuação m ínim a de alvorada. A noite eterna durou um , dois dias inteiros. O frio agora pesava sobre a terra com o um a m ão gigantesca.
Dentro da pirâm ide, o rei Wen se aj oelhou diante do rei Zhou.
— Meu rei — im plorou ele —, por favor, não perca a fé em m im . Esta é um a situação tem porária. Eu vi o y ang do universo se agrupar, e o sol nascerá logo. A Era Estável e a prim avera continuarão!
— Vam os com eçar a esquentar o caldeirão — disse o rei Zhou, suspirando.
— Rei! Rei! — Um m inistro chegou correndo aos trancos pela entrada cavernosa do Grande Salão. — Tem … tem três estrelas voadoras no céu!
As pessoas dentro do Grande Salão ficaram atordoadas. O ar pareceu congelar. Só o rei Zhou perm aneceu im passível. Ele se virou para Wang, com quem nunca havia trocado um a palavra.
— Você ainda não com preende o que o aparecim ento das três estrelas voadoras representa, não é? Ji Chang, que tal você explicar?
— Elas indicam a chegada de um longo período de frio extrem o, suficiente para transform ar pedra em pó.
O rei Wen suspirou.
— De-si-dra-tar… — entoou m ais um a vez o rei Zhou naquela voz estranha e transcendental. Fora da pirâm ide, as pessoas j á haviam com eçado o processo, se transform ando outra vez em corpos desidratados para sobreviver à longa noite que se aproxim ava. Os m ais sortudos tiveram tem po de ser estocados nos desidratórios, m as m uitos sem a m esm a estrela foram abandonados nos cam pos vazios.
O rei Wen se levantou devagar e foi até o caldeirão em cim a da fogueira intensa no canto do Grande Salão. Ele subiu na beirada do caldeirão e parou por uns segundos antes de pular para dentro. Talvez tivesse visto o rosto com pletam ente cozido de Fu Xi rindo no m eio da sopa.
— Deixem o fogo baixo — ordenou o rei Zhou, com a voz fraca. Virando-se para os outros, disse: — Vocês podem sair, se quiserem . O j ogo não é m ais divertido quando chega neste ponto.
Um a placa verm elha com a palavra SAÍDA apareceu em cim a da entrada cavernosa do Grande Salão. Os j ogadores seguiram em sua direção, logo sendo acom panhados por Wang. Eles percorreram o túnel com prido até enfim chegarem ao lado de fora da pirâm ide. Foram recebidos por um a nevasca pesada sob o céu noturno. Wang trem eu com o frio penetrante, e um sinalizador em um canto do céu indicou que o tem po do j ogo fora acelerado de novo.
A neve prosseguiu sem trégua durante dez dias. A essa altura, os flocos eram grandes e pesados, com o sólidos pedaços de escuridão.
— A neve agora é com posta de dióxido de carbono solidificado — sussurrou alguém perto de Wang. — Em outras palavras, gelo seco. — Wang se virou e percebeu que o interlocutor era o Seguidor.
Ao fim de m ais dez dias, os flocos ficaram finos e translúcidos. Sob a luz fraca das poucas tochas na entrada do túnel com prido, os flocos de neve em itiam um brilho azulado suave, com o se fossem pedaços dançantes de m ica.
— Esses flocos agora são com postos de oxigênio e nitrogênio sólido. A atm osfera está desaparecendo por sedim entação, o que significa que a tem peratura está perto do zero absoluto.
Aos poucos, a neve soterrou a pirâm ide. As cam adas inferiores eram form adas por neve de água; j á as seguintes eram com postas de gelo seco; por fim , no topo, havia um a cam ada de neve feita de oxigênio e nitrogênio. O céu noturno ficou extraordinariam ente lím pido, e as estrelas brilhavam com o um cam po de fogueiras prateadas. Um a linha de texto apareceu na tela estrelada.
A noite longa durou quarenta e oito anos. A civilização núm ero 137 foi destruída pelo frio extrem o. Antes de sucum bir, essa civilização havia avançado até o Período dos Reinos Com batentes.
A sem ente da civilização perm anece. Ela germ inará
e voltará a desabrochar no m undo im previsível de Três Corpos.
Convidam os você a entrar novam ente.
Antes de sair do j ogo, Wang percebeu as três estrelas voadoras no céu. Próxim as entre si, elas giravam com o em um a estranha dança acim a do abism o do espaço.
1. Hairen (UT) significa “Hom em do Mar”. É um trocadilho com o nom e de Wang Miao (SR), que pode significar “m ar”.
2. O Período dos Reinos Com batentes se estendeu de 465 a.C. até 221 a.C. Mas o rei Wen de Zhou governou m uito antes, entre 1099 a.C. e 1050 a.C. Ele é considerado o fundador da dinastia Zhou, que derrocou a corrupta dinastia Shang.
3. O rei Zhou de Shang governou entre 1075 a.C. e 1046 a.C. Foi o últim o rei da dinastia Shang e um notório tirano na história da China.
4. Zhao Ge era a capital da China de Shang, onde ficava a corte do rei Zhou.
5. Fu Xi é o prim eiro dos Três Soberanos, um a figura m itológica chinesa. Ele foi um dos progenitores da raça hum ana, j unto com a deusa Nüwa.
6. Ji Chang é o nom e de nascim ento do rei Wen.