Origens da dialética do trabalho: estudo sobre a lógica do jovem Marx

5. O indivíduo e a espécie

condição humana.53

Feito o resumo, passemos ao comentário e à explicação das dificuldades do texto. Em primeiro lugar estudaremos como se estabelecem as relações entre indivíduo e espécie, o que nos conduzirá à análise da noção de praxis. Em seguida, examinaremos o processo de abstração e de negação para, finalmente, por intermédio do estudo do conceito de perfeição, tentarmos indicar de um modo geral como a dialética materialista de Feuerbach redunda no idealismo mais delirante.

 

5. O indivíduo e a espécie

Cada ser é infinito no seu gênero. No entanto, como por ser somente se entenderá a espécie, a existência do indivíduo será mediada pelo universal. De um lado temos pois o individual, o subjetivo, o prático, o finito e o existente; de outro o genérico, o objetivo, o teórico, o infinito e o essencial. Como se apresenta cada uma dessas partes? Como a primeira nada mais há de ser do que a face isolada da segunda? “A infinidade coloca-se imediatamente junto da unidade, a finidade junto da pluralidade. Finidade, no sentido metafísico, diz respeito à diferença entre existência e essência, entre individualidade e espécie: a infinidade, à unidade da existência e da essência. Finito é por isso o que pode ser comparado com os outros indivíduos da mesma espécie, infinito o que apenas é igual a si mesmo, não possui seu igual e, em consequência, não se coloca como o indivíduo sob uma espécie, mas inseparavelmente é a unidade da espécie e do indivíduo, da

essência e da existência”.54. A infinidade possui então a unidade semelhante à do número irracional que se desdobra de imediato numa multiplicidade de dígitos sistematicamente não periódicos. Como número definido é uno e imutável mas, ao ser calculado, transforma-se num conjunto enumerável de dígitos, isto é, num conjunto ilimitado de números finitos. Nessa sequência cada elemento não existe de per si mas é definido pela posição que ocupa e pelo papel que desempenha na expressão do infinito. Considerar contudo cada dígito como número autônomo equivaleria a cometer o mesmo erro em que caiu o Cristianismo ao isolar o indivíduo da espécie, ao atribuir-lhe a substancialidade absoluta que só encontra seus limites em Deus. Na verdade, filósofos cristãos, como São Tomás, defenderam a tese dos antigos de que o indivíduo é mediado pela espécie e o todo é anterior à parte. Essa anterioridade porém vale apenas para o mundo das coisas que os cristãos degradam a mero reflexo da substância divina. No céu o indivíduo integra-se imediatamente em Deus sem que necessite

passar pela mediação dos outros elementos da espécie,55 e a figura de Cristo, ademais, realiza a unidade imediata, fantástica e irracional do indivíduo e da espécie, do homem e de Deus, da parte

e do todo. 56

Isso posto, logo que se abandone o caminho da imediação tomado pelo pensamento religioso e se volte para o processo no qual a essência se efetua, há de desaparecer a ambiguidade e a irracionalidade da identificação entre o indivíduo e a espécie. A dificuldade está em compreender a natureza desse processo. Ora, a mesma força que reside em todos os indivíduos existe em cada um, mas de tal forma determinada e amoldada que parece independentemente e autônoma e nada dever às outras forças

singulares.57 Cabe-nos pois investigar a maneira pela qual se delimitam e determinam os indivíduos sem que seja alterada essa base genérica.

Tendo em vista o primado da realidade humana sobre as outras formas do real, tendo em vista ser o homem o único sujeito que, ao ter a sua própria essência como objeto, toma consciência de si e de suas limitações, sendo, por conseguinte, o único indivíduo a tomar consciência de sua individualidade e com isso a levando a cabo até suas últimas consequências, convém deixar de lado o problema da individualidade de todos os seres vivos diferentes do homem. Além do mais, Feuerbach se contenta em tratar a individualidade humana, deixando de esclarecer como os outros objetos que não possuem autoconsciência chegam assim mesmo a individualizar-se de forma mais ou menos precisa. O indivíduo é pois antes de tudo sujeito, eu a tornar-se incompreensível se não estiver relacionado com o outro que o limita e por sua vez o transforma em objeto, de maneira que a consideração do eu redunda imediatamente na consideração do tu. Qual é porém a primeira relação entre ambos? É a necessidade na relação sexual de um outro, relação que, destarte, surge como o primeiro vínculo de indivíduo a indivíduo e, por esse intermédio, do

indivíduo à espécie.58 Nessas relações cada pessoa completa a outra, corrigindo-a e melhorando-a, de modo que cada um realiza um aspecto essencial e imprescindível do gênero cuja efetuação seria impossível através das determinações comuns e assexuadas. Desde logo constatamos pois que a relação entre indivíduo e espécie não é concebida nos termos tradicionais, onde a forma inteligível subsume variedade infinita de casos singulares, como se a forma residisse incólume em cada coisa e só estivesse à espera do intelecto para alçar-se à dignidade da ideia. Esta é apenas a impressão imediata. Ao contrário, cada ser singular cumpre uma função biológica que o outro é incapaz de realizar, cada termo efetua uma diferença específica disjuntiva de modo a completar paulatinamente as determinações do gênero. A realização da espécie se faz pela disjunção natural e pela oposição dos sexos, de forma a implicar a multiplicidade de indivíduos que se sucedem no tempo. Assumindo posição absolutamente antagônica a Espinosa, que inegavelmente lhe serve de modelo, Feuerbach faz da essência infinita no seu gênero um processo que se resolve na duração, que se enriquece e dá provas cabais de sua infinidade na medida em que se desdobram suas determinações. “Cada novo homem é como novo predicado, novo talento da humanidade. Tantos são os

homens, tantas são as forças da humanidade”. 59 O que vem a ser a essência do homem, sua humanidade, depende pois da nova determinação que cada indivíduo representa. Fossem iguais todos os indivíduos, novos seres seriam inúteis, desapareceria a história e o indivíduo se identificaria imediatamente com a espécie. É o que se dá, por exemplo, com Cristo, que realizando imediata e fantasticamente essa unidade é o fim da história e não necessita de

formação alguma. 60 Como porém a unidade se faz pela mediação dos opostos, a história surge como o processo de progressiva

eliminação das limitações de que os indivíduos padecem”.61

Se o outro entretanto se apresenta como o representante da humanidade em geral, a relação sexual primitiva converte-se no amor, no vínculo que realiza no plano do sentimento a universalidade da espécie. “Sem espécie o amor é impossível. O amor nada mais é do que o autossentimento da espécie no interior das diferenças sexuais. No amor a verdade da espécie, que de outra forma é apenas ente de razão, objeto do pensamento, é ente e verdade do sentimento, pois no amor o homem exprime a insatisfação de sua individualidade para si, postula a existência de outrem como necessidade do coração, pertence a outro como à própria essência e torna claro que somente a vida que se liga pelo amor é verdadeira, humana e correspondente ao conceito do

homem, isto é, à espécie”.62 Além disso, o amor comporta um processo de objetivação e de universalização equivalente à passagem do sentimento ao intelecto. De fato, reedita no nível do sentimento a mesma universalidade genérica que o entendimento exprime na linguagem. “O amor é a existência subjetiva da espécie,

assim como a razão é sua existência 63 objetiva” . Assim sendo, posto que o intelecto não é mero pensamento abstrato mas existe no sentimento e na energia de viver, posto de outra parte que o intelecto é a lei da espécie, não há dificuldade alguma em transformar o amor no elo vivo a conduzir o indivíduo finito à infinidade da espécie. Em suma, o amor é forma de praxis que objetiva e universaliza as determinações individuais.

Operando paralelamente ao amor, a praxis não pode deixar de ter a subjetividade como ponto de partida; isto não significa porém que se justifique o apego exagerado a tudo que diz respeito aos interesses pessoais e egoístas. Como já vimos, o sujeito só se realiza no objeto e, ademais, o objeto em sua perfeição é a essência como processo temporal de complementação dos predicados, de sorte que a praxis verdadeira exprimirá tão somente a passagem entre a limitação do sujeito e a totalidade da espécie. Dado isso, não há praxis que não tenha como objeto uma universalidade, quer imaginária quer real, isto é, não há praxis que não se conduza por uma teoria. Na verdade, a objetivação do indivíduo pode ser viciada por um erro de perspectiva. Ao invés de visar o gênero como o meio mais correto e eficaz de adquirir realidade, o sujeito, acreditando-se substância autônoma e separada, passa a agir exclusivamente tendo em vista seu proveito pessoal. “Onde ao contrário o homem se situa unicamente do ponto de vista prático, dele considera o mundo e transforma o ponto de vista prático em teórico, então se separa da natureza, pois a transforma na serva mais submissa de

seu interesse egoísta, de seu egoísmo prático”. 64 É de notar primeiro que não existe propriamente a perspectiva prática a fechar-se sobre si mesma e a satisfazer-se com ações isoladas, pois se assim fosse algumas ações humanas não se regeriam pela autoconsciência, o que seria contrário a tudo o que Feuerbach nos ensina. Na base da prática individual mais egoísta está pois a crença de que o indivíduo agindo em seu proveito nada mais faz além de realizar imediatamente a união com a espécie, com o outro que tem dentro de si. Esse é o motivo pelo qual a religião, que adota o ponto de vista do egoísmo pessoal e da unidade imaginária do indivíduo e da espécie, não pode chegar senão a uma prática fantástica e ineficaz, mas que nem por isso deixa de fundar-se numa atividade que visa a essência. Por mais alienada e egoísta que seja sua perspectiva, corresponde sempre à primeira tomada de consciência da universalidade do homem. Em segundo lugar, observamos que, para Feuerbach, adotar uma filosofia prática não significa nem cair no pragmatismo e no utilitarismo, nem mesmo assumir a posição clássica que faz do conhecimento o instrumento de domínio da natureza. Cabe a todos os homens, ao contrário, servi-la, submeter-se às suas forças a fim de ser revelada a riqueza que a humanidade comporta. Somente a religião arraigada no seu subjetivismo e, por conseguinte, no seu desprezo pela natureza é capaz de tomar posição contrária. Historicamente foram os judeus que, ajudando a desagregar o mundo antigo que ainda mantinha a absoluta anterioridade do todo sobre a parte, fizeram da natureza um simples meio de satisfação do egoísmo, transformando-a em mero objeto de vontade.

Em seguida, com o advento do Cristianismo, o ponto de vista prático-judaico espiritualiza-se e redunda na divinização da pessoa humana, em prejuízo de sua humanidade. Com efeito, “o judaísmo é

o 65 cristianismo mundano , o cristianismo o judaísmo espiritual” . E logo abaixo: “o cristianismo espiritualizou numa subjetividade o

egoísmo 66 do judaísmo”, frases em que reconhecemos a chave da Questão Judia de Marx.

Na qualidade de conversão do indivíduo à espécie, a praxis comporta portanto uma atividade orientada (Zwecktätigkeit) que visa quer a universalidade abstrata do homem, de que a religião toma consciência, quer a universalidade autêntica da espécie que o intelecto revela na medida em que a ela se amolda. Nesse último caso, ocorre a famosa união da teoria e da praxis, cujo sentido já nos parece muito diferente do que podia parecer à primeira vista. De fato, a unificação se realiza porque ambos se tornam aspectos diversos do mesmo processo de atingir a verdade. “O homem racional vive e pensa, completa a falta do pensar pela vida e a falta da vida pelo pensar, tanto teoricamente, pois a partir da razão se convence da realidade da sensibilidade, como praticamente, pois

vincula a atividade vital à atividade espiritual”.67 Convém entretanto notar desde logo que, na medida em que o movimento desemboca no gênero, firma-se a superioridade das determinações intelectuais que passam a orientar todo o processo. “A teoria, tomada no sentido mais original e mais universal, no sentido da intuição objetiva e da

experiência, razão e ciência em geral” 68 torna-se, prossegue Feuerbach na nota da mesma página, “a fonte da praxis verdadeira e objetiva”. Essa primazia noemática do teórico e do universal não implica porém era retroceder ao racionalismo clássico e retirar da praxis toda e qualquer função constitutiva? O retruque imediato lembraria que a verdade adquiriu novas dimensões, de forma às determinações intelectuais ganharem concretidade e vitalidade antes desconhecidas. “A verdade não existe no pensamento, não existe no saber de per si. A verdade é apenas a totalidade da vida

humana e de sua essência”.69 No entanto, já nos termos em que é feita a reafirmação do caráter prático da verdade, descobrimos a brecha que nos conduzirá a diminuir muito o valor dessa afirmação. Não se trata com certeza da verdade que surge e se constitui a partir do entrelaçamento das ações individuais que como tais não são nem falsas nem verdadeiras. Se cada um agisse por si a visar exclusivamente o proveito pessoal não ocorreria “astúcia da razão” alguma pela qual a ação singular redundasse no proveito da coletividade e na constituição de um sistema de relações sociais diferente da soma das relações individuais. Muito ao contrário, a verdade se define como realidade da essência humana, como o conjunto de determinações essenciais a que o homem há de se subordinar, quer efetivamente no amor da humanidade, quer imaginariamente na prática alienada da religião. No último caso, embora haja conversão ao gênero e portanto apreensão dos predicados essenciais do homem de um modo grosseiro e primitivo, o comportamento religioso é considerado patológico, já que entre ele e comportamento inteiramente socializado estende-se a diferença entre o certo e o errado. Em outras palavras, não há constituição da verdade pela praxis porque desde o início se estabelece o critério que julga a verdade dos comportamentos individuais segundo se afastem ou se aproximem do comportamento geral e naturalizado da espécie. A realidade, a natureza é a verdade. Ao homem cabe apenas submeter-se.

É possível contudo nos arguir em outra direção. Por praxis de fato Feuerbach entende a conversão ao gênero, a apreensão e realização dos predicados da essência. Esta porém não é concebida como o processo de eliminação das limitações individuais, como realidade que se desdobra na duração? Assim sendo, as determinações essenciais não possuiriam fixidez alguma e as diferenças entre essência e existência serviriam apenas para marcar a diferença entre o individual e o coletivo, com o fito de salientar o primado deste último. No entanto, basta reportar-nos à análise da noção de diferença feita por Feuerbach para que essas ilusões se desfaçam. “O mundo tem seu fundamento em si mesmo, assim como tudo o que no mundo reivindica o nome de verdadeira essencialidade. A differentia specifica, a essência característica, o que faz uma essência ser o que é, em geral é sempre obscuro e inderivável, é por seu próprio intermédio e possui em si seu

fundamento”.70 Não só portanto a diferença é concebida como dado primitivo mas ainda constitui átomo indivisível e autônomo, diante do qual o entendimento não encontra outra função a não ser a de constatar sua veracidade. Nenhuma derivação e, por conseguinte, nenhuma constituição pode ocorrer entre as determinações específicas. Se alguma dedução houver é no interior da própria essência que, como as mônadas, não possuem janelas. “A diversidade real só pode ser derivada a partir de uma essência que já é diversa em si mesma. Eu situo todavia a diversidade unicamente na essência originária, porque para mim originariamente a diversidade é uma verdade e uma essencialidade. Onde e quando a diversidade não é em si mesma, então nenhuma diversidade é pensada em princípio. Ponho a diversidade como essencialidade e verdade quando a derivo da essência originária e vice-versa: ambos são a mesma coisa. A expressão racional é: a diversidade encontra-

se na razão como a unidade”.71 Na ânsia de se distanciar do idealismo alemão que deriva a diferença da unidade do eu, Feuerbach postula a diversidade originária do mundo, uma primitiva multiplicidade do sensível, que limita e amolda a unidade do eu. Não se limita porém a revalorizar o sensível; inscreve a diferença no âmbito primitivo da essência e, conferindo a cada predicado a fixidez e a imobilidade que lhe competem como verdade em e por si (lembremos que destrói o conceito de dedução, acaba por retirar da ação e do trabalho qualquer função constitutiva, em que pese à identificação da essência com sua potentia agendi, cujo papel se resume então em revelar e compatibilizar no tempo as determinações preexistentes. “A última diferença em que posso pensar é a diferença de uma essência de si mesma e dentro de si mesma. A diferença de uma essência com uma outra compreende-se por si própria, pois é posta por sua existência e consiste numa

verdade sensível: são duas”.72 No máximo Feuerbach encontra a diferença por excelência: “Toda magnificência da natureza, todo seu poder, toda sua sabedoria e profundidade concentram-se e

individualizam-se na diferença sexual”.73 Mas se o sexo constitui a forma mais depurada de diferença, não se arvora em diferença primitiva, fundamento de onde todas as outras derivassem: Feuerbach não advoga um pansexualismo.

Dado isso, compreende-se enfim que a conversão ao gênero operada pela praxis exprime tão- somente a apreensão intuitiva e contemplativa das determinações naturalizadas da espécie humana. Tanto a história como a praxis em geral nada constituem do ponto de vista da essência. Dado o estoque primitivo dos predicados humanos, a duração, o esforço e o trabalho nada mais fazem do que desanuviar, desvendar e compatibilizar predicados cuja determinabilidade é imutável. Pouco importa que se invoque durante o processo a intervenção da natureza e da matéria, pouco importa que o intelecto se defina pela iluminação das determinações práticas. Conferida à diferença um caráter primitivo e inalterável, o valor da praxis se limita em transportar o subjetivo para o objetivo que, se na verdade não reside imediatamente no singular, nem por isso deixa de ter sido dado pela natureza em si. Compreendemos agora o verdadeiro sentido da sociabilidade originária que Feuerbach postula na base de todo comportamento humano. O homem não forma a vida social através do jogo das forças individuais que criariam, como no atomismo moderno, novas estruturas e, por conseguinte, novas realidades a partir de partículas elementares; nem sobretudo a forma a partir dos elementos que o modo de produção anterior fornece ao posterior a fim de que esse último elabore a melhor estrutura possível que os dados históricos anteriores possibilitam. A sociabilidade está dada para sempre com todas as suas condições de possibilidade. A vida social do homem seria semelhante àquela que teriam as formigas se, porventura, a natureza lhes concedesse a consciência como capacidade de reconhecer a espécie e seus limites. Tomada pela consciência, cada formiga se individualizaria, tornar-se-ia uma subjetividade que de imediato desconhece sua vinculação com a essência social e, nessa condição, por-se-ia em busca da unidade perdida.

O acerto de nossa interpretação se corrobora com a análise do conceito de educação (Bildung) tal qual surge no pensamento de Feuerbach. Até o aparecimento de sua filosofia, acredita ele, o homem ainda não tinha alcançado a consciência cabal do significado genérico da vida. Na verdade a religião corresponde a uma forma primitiva e canhestra desse reconhecimento mas, em virtude de fundar-se principalmente no sentimento e na imaginação, não havia chegado a uma consciência inteiramente racional, de modo que é ilusória a superação dos limites individuais que propõe. Por mais que o religioso anseie por voltar à sociabilidade fundamental, seus esforços não têm outra consequência do que o reconhecimento da similitude dos predicados humanos e os predicados divinos. Quando porém todos se convencerem da verdade da nova filosofia e de corpo e alma se consagrarem ao amor da humanidade, ocorrerá uma completa reviravolta na história. De forma alguma Feuerbach acredita ser suficiente a abstrata tomada de consciência do caráter genérico de nossa essência para que se resolvam todos os problemas do homem. O advento da verdade não consiste num clarão que de um só golpe persuadisse a todos. A prática imaginária da religião há de ceder lugar à prática

efetiva e sensível do amor,74 e muito esforço, muita pena e muito trabalho serão dispendidos antes que a humanidade reencontre seu caminho. No entanto, desde logo o filósofo oferece o programa completo da reforma. Depois de ter mostrado que a consciência de Deus nada mais é do que a consciência da espécie, que o homem deve ultrapassar os limites de sua personalidade, só nos resta esperar que todos se convertam à verdade, pois o necessário ponto

de inflexão da história75 já ocorreu. Assim como a qualidade dos predicados permanece imutável, a verdade está encerrada na natureza como o ouro na preciosa mina. Descoberta, a tarefa é persuadir e educar.

Observamos em geral as doutrinas que não atribuem à praxis o papel de conformar a verdade darem muita ênfase à pedagogia. Dado o estoque de verdades originárias, seja ele eterno ou vinculado à época, o importante é por certo apreendê-lo, tê-lo como norma das boas ações. Desse modo, o processo de educação não afeta o corpo primitivo de verdades, os valores deste ou daquele mundo, que permanecem inalteráveis e alheios ao esforço dos educandos. Não se trata de chegar à consciência da situação e da classe por meio de sua organização efetiva, de tal maneira que essa consciência, paralela à nova estruturação, passe a constar como novo fator da realidade, mas, antes de tudo, de o aluno ser guiado pelo mestre e pela escola, depositários do bem e da verdade, a fim de ser possuído pela ideia que, pouco a pouco, como mancha de tinta, iluminará e explicitará os recessos rebeldes da matéria. Feuerbach nos dá um excelente exemplo dessa posição. Primeiramente, para ele educação significa objetivação e exteriorização de si próprio (Selbstentäusserung), de sorte que quem vive na consciência do gênero transforma seu ser em público