Origens da dialética do trabalho: estudo sobre a lógica do jovem Marx
4. O ser genérico
O sujeito converte-se no objeto, mas o objeto, no fim, nada mais é do que sujeito objetivado, o sujeito que se confirmou a si mesmo. Para o sujeito, sair de si nada mais significa, por conseguinte, do que retomar-se e voltar a si mesmo. No entinto, o processo de reflexão do homem não é idêntico ao do animal, pois somente o primeiro é capaz de ter sua própria espécie como objeto. Tocamos num dos pontos fundamentais da doutrina de Feuerbach: a essência genérica do homem, fonte da alienação religiosa e base da nova antropologia. Antes de prosseguirmos em nossos comentários convém entretanto reproduzir os momentos essenciais da nova concepção do homem, tal como é exposta no primeiro capítulo da Essência do Cristianismo. Este não é apenas o texto mais completo que conhecemos, mas também é aquele que nos conduzirá aos problemas mais cruciais da doutrina. Trataremos pois de resumir a argumentação geral, conservando sempre que possível as próprias palavras do Autor, deixando de lado, entretanto, tudo o que acreditamos ser prescindível ao encadeamento das ideias.
O animal possui o sentimento de si mesmo, é capaz de sentir e de sentir-se como singularidade independente. O homem porém vai mais longe. Além de se propor a si mesmo como objeto, apreende-se como gênero e espécie, como indivíduo a visar sua própria universalidade. É em suma ser genérico (Gattungswesen) consciente de si como universal e infinito, possuindo assim autoconsciência ou consciência no sentido estrito, que só aparece quando o ser tiver como objeto seu gênero e sua essencialidade. Enquanto o animal leva por isso uma vida simples, o homem se desdobra na vida interior e na exterior, uma que se interioriza na consideração do gênero e passa a dialogar consigo mesma, outra que se exterioriza na execução das funções genéricas, em estreita dependência de outros indivíduos e em estreita similitude com a vida animal. O homem é pois ao mesmo tempo eu e tu, consciência e autoconsciência, isto é, consciência das coisas e de si mesmo que, para conhecer-se, diferencia-se no outro real ou possível e
deste modo tanto é o outro de si mesmo como semelhante a si. 51
A diferença de essência entre o homem e o animal é o fundamento e ainda mais o próprio objeto da religião que se define como a consciência do infinito. Esta consciência porém não há de ser outra que o reconhecimento da infinidade da consciência humana. Posto que os limites do ser é da essência são os limites da consciência, o ser finito está privado da consciência do infinito. Para a lagarta que vive numa folha nada existe além do raio de sua ação que lhe serve de mundo e de espaço infinitos, sem contudo essa infinidade chegar à sua consciência. Na religião porém o homem conhece o infinito, que, ao exprimir a infinidade da consciência humana, traduz do mesmo modo a infinidade de seu poder. Cabe então demonstrar que a consciência do infinito não é ilusória e que por conseguinte é verdadeira a infinidade da essência humana. O que constitui no homem a essência e sua autêntica humanidade? A razão, a vontade e o coração. Não há homem perfeito que não possua essas três forças em sua plenitude. Cada urna entretanto vale por si mesma, já que o homem não ama para raciocinar, mas simplesmente ama etc., de forma que, existindo de per si, as três faculdades comprovam-se livres e perfeitas. Verdadeiros, perfeitos e divinos são os seres que as exercem. A trindade constitui enfim a perfeição máxima a sobrepujar cada indivíduo, embora não deixe de nele residir.
Feuerbach passa então a examinar como o homem nada é sem seu objeto e como a sua objetivação coincide com a expansão e ostentação de suas faculdades infinitas. Seja qual for o poder que um objeto possa exercer sobre ele, nada mais exprimirá em última instância além do próprio poder do homem. Ademais, cada faculdade fecha-se num círculo de determinações homogêneas: o sentimento só é determinado pelo sentimental, a razão pelo racional etc., formando-se entre a faculdade e seu objeto, portanto, a mais absoluta identidade, que somente pode ser desfeita se tomarmos indevidamente a perspectiva do indivíduo. Por isso, qualquer que seja o objeto de que tomarmos consciência, estaremos sempre a reconhecer nele a nossa própria essência; nunca atuamos sobre o outro sem atuarmos em nós mesmos. E já que o exercício das faculdades é indiscutível perfeição, essencialidade e realidade, torna-se impossível virmos a sentir com a razão, a razão como força limitada c finita, ou melhor, como força nula, já que finidade identifica-se à nulidade e à futilidade. O mesmo vale para a vontade e o coração. Não é possível pensar, amar e querer sem reconhecer a perfeição que essas atividades comportam e a alegria infinita que despertam. Consciência é o Ser-objeto-de-si-próprio de uma essência (Sich-selbst-Gegenstand-Sein eines Wesen), de sorte que nada existe, ao se tornar consciente, que dela se distinga. Consciência pois, como autoafirmação, autocomprovação e fruição de si, caracteriza o ser perfeito e somente nele pode aparecer.
Assim sendo, é ilusória toda limitação da razão e da essência humana em geral. Sem dúvida o indivíduo reconhece seus limites, mas isto só é possível porque, ao contrário do animal que não divisa fronteiras, tem a infinidade e a perfeição do gênero como objeto. Acreditando todavia que sua identidade com a espécie é imediata, cada pessoa transfere as limitações individuais para a humanidade. Nada porém é mais absurdo e ridículo do que delimitar e dar como finita a natureza do homem, a essência da espécie que constitui a essência do indivíduo. Cada ser, cada essência basta-se a si mesmo e nenhum ser, nenhuma essência pode negar sua essencialidade. Ao contrário, cada ser é em si e para si infinito, tem seu próprio Deus e se na verdade possui uma limitação qualquer, esta só será visível para um ser situado além dele. O que constitui portanto o próprio ser e comprova seu talento e suas capacidades não deve ser tomado como ausência e privação. Como é possível perceber o ser como não ser, a riqueza como penúria, o talento como incapacidade? Tivessem as plantas olhos, gosto e capacidade de julgar, cada planta não teria sua flor como a mais bela? É evidente que sim, posto que seu intelecto e seu gosto não iriam além da força produtiva da essência (produzierende Wesenskraft). Esta determina o âmbito das faculdades fundamentais que apenas traduzem em linguagem própria o que a força da essência circunscreveu. A medida da essência, isto é, o raio de ação de sua
força e de seu carecimento 52 (Bedürfnis) decreta a medida do entendimento, da vontade e do coração. A separação entre o entendimento e a essência, entre a força do pensamento e a força de produção da consciência humana é então aparente e provém dos erros cometidos pelo indivíduo ao transformar sua perspectiva na perspectiva do gênero.
Isso posto, pensar o infinito é pensar a infinidade da capacidade de pensar, o mesmo acontecendo mutatis mutandis para as outras faculdades. Essa igualação mostra que o objeto de cada faculdade nada mais é além da própria faculdade objetivada: o objeto da razão, por exemplo, é a razão objetivada e a razão resolve-se no objeto racional. Tudo aquilo que para a especulação filosófica ou religiosa aparece como derivado, instrumental, subjetivo e humano possui na verdade o significado de divino, originário, essencial e objetivo. Se, por exemplo, faz-se do sentimento o órgão da religião e o atributo fundamental de Deus, isto apenas quer dizer que o sentimento é uma das mais nobres formas do ser do homem e que o sentimento de Deus é uma maneira alienada de ele objetivar-se. Compreende-se ainda melhor o exemplo se lembrarmos que é indiferente para o sentimento ter como objeto esta ou aquela coisa, desde que o excite da mesma maneira. Se no entanto alguém se fixar num objeto do sentimento, declarar verdadeiro esse sentimento sem contudo enriquecê-lo por intermédio da reflexão, não lhe restará outro recurso do que diferenciar o seu sentimento individual da essência e da natureza do sentimento, que passa a pertencer à espécie separada da pessoa. Entretanto, o objetivado nada mais é do que a natureza do sentimento residindo em cada indivíduo e que, na qualidade de sua força essencial e específica, o sobrepuja. O que é pois subjetivo ou possui da parte do homem a significação do ser e da essência, também possui objetivamente ou da parte do objeto a significação do ser e da essência. Não cabe ao homem porém ultrapassar os limites de sua espécie. Ainda que imagina seres vivendo em outros planetas ou em outras circunstâncias, está sempre lhes atribuindo as mesmas determinações essenciais que reconhece em sua natureza. Não há vau enfim que transponha a