Origens da dialética do trabalho: estudo sobre a lógica do jovem Marx

1. A negação da negação

econômico de Engels, 2 autor que ainda não conhecia pessoalmente embora o tivesse em grande estima. Foi sem dúvida essa publicação, considerada genial mesmo depois de Marx ter elaborado o seu sistema, que lhe revelou o lado crítico da economia política. Se Engels se contentava com denunciar a propriedade privada como o postulado básico e inquestionável dessa ciência, ele haveria de deduzir essa noção de propriedade da noção de trabalho alienado. Seu intuito é dessa maneira compreender (begreifen) o sentido das categorias econômicas, em geral empregadas

acriticamente3 até aquele momento, encontrar uma chave que traduzisse a linguagem econômica numa linguagem verdadeiramente humana. Feito isso, tornar-se-iam inteligíveis tanto os conceitos da economia política como a realidade iluminada por eles, já que Marx acreditava ter encontrado a fonte de inteligibilidade da fragmentada trama das noções econômicas na medida em que encontrara a atividade produtora da própria vida social. O que Marx porém entende por trabalho alienado? Como se deduzem dessa as outras categorias? Essas são as questões de que nos devemos ocupar agora.

 

1. A negação da negação

A crítica se faz a partir de certos pressupostos. Embora se movesse no interior de sua problemática, embora aceitasse em termos gerais sua antropologia, Marx nunca aderiu totalmente a Feuerbach, jamais se conformando com a estoica resignação ensinada por essa filosofia. Já em 13 de março de 1843 escrevia a Ruge: “Para mim os aforismos de Feuerbach não estão certos num ponto, pois dão muita importância à natureza e pouca à política. São no entanto a única aliança que permitirá à filosofia atual transformar-se numa verdade”. Desde o início sentia portanto a necessidade de ultrapassar os estéreis domínios da especulação filosófica e encontrar um meio de conferir ao pensamento um alcance prático, realizando no concreto a revolução que os filósofos se limitavam a pensar. Tal atitude deveria conduzi-lo à crítica da dialética feuerbachiana na medida em que ela desconsidera o lado inovador da praxis e do trabalho.

Feuerbach no final voltava a Espinosa e restringia o âmbito da negação tal como era compreendida por Hegel. Pretendendo partir do positivo, da essência humana na qualidade de conjunto de determinações em si que se exteriorizam, chegava ao universo da religião e da filosofia, interpretado desde logo como o ser-outro do homem. Sua crítica se exercita então em mostrar a redução desse universo às próprias determinações humanas, de modo a provar que o ser-outro do homem é o próprio homem na sua alienação. Cumpre pois retomar em nós mesmos a projeção abstrata de nossa humanidade, voltar para o amor de nossa própria essência, em vez de permanecer adorando um Deus que nada mais é além do homem elevado ao absoluto. Em todo esse processo entretanto não se dá um enriquecimento efetivo nem mesmo, como acontecia em Hegel, a superação da unilateralidade das primeiras determinações. A passagem pela religião e pela filosofia só teria o mérito de conduzir-nos ao conhecimento da infinidade de nossa essência, propriedade que preexistia ao mesmo desenvolvimento histórico e que, em suma, poderia ser reconhecida desde o início se não tivéssemos privilegiado indevidamente as limitações psicológicas do eu egoísta. Em termos abstratos, o transpasso do ser-em-si para o ser-outro e deste para aquele não traz nada de novo, nem mesmo no que respeita ao conhecimento das limitações das primeiras determinações. Daí Feuerbach poder passar perfeitamente sem a negação da negação, limitando-se o movimento a oscilar entre o ser-em-si e o ser-outro sem qualquer criação, numa obscura monotonia de um Deus indiferente.

É nesse ponto preciso que incide a crítica do jovem Marx: “Feuerbach concebe a negação da negação apenas como a contradição da filosofia consigo mesma, como a filosofia que afirma a teologia (transcendência etc.) depois de a ter negado, depois de a ter afirmado em oposição a si mesma”; isto é, na qualidade de um movimento que se resolve nas esferas abstratas e indiferentes do pensamento e da intuição. Por esse motivo, “a posição ou a autoafirmação e a autoconfirmação que reside na negação da negação é concebida como uma posição que não está segura de si mesma e, por isso, está ligada a seu oposto, duvidando de si mesma e necessitando então de uma prova; a saber, não se prova a si mesma por meio de sua existência (Dasein). É enfim concebida como a posição que não se confessa e, por conseguinte, permanece em oposição direta e imediata com a posição sensível,

certa e fundada sobre si mesmo”. 4 Desse ponto de vista, a negação feuerbachiana, descrevendo apenas um processo encerrado no âmbito do conhecimento, não pode atingir a objetividade posta em si mesma, aquela realidade a ser obtida quando forem superadas as alienações da sociedade civil quando na terra for criada uma organização social capaz de revelar imediatamente sua intensa humanidade. No máximo, reflete o processo revolucionário de reconstrução concreta e sensível, ao apontar no pensamento a nostalgia da sensibilidade. “Feuerbach concebe ainda a negação da negação, o conceito concreto, como o pensamento que se ultrapassa a si mesmo no pensamento e que, como pensamento quer ser a natureza, a intuição que se transforma em pensamento e

que é imediatamente como pensamento”. 5 Se na verdade, a negação da negação, ou melhor, a revolução comunista não

dispensa o auxílio da filosofia 6, é preciso convir que não se resume na regeneração do saber, por mais visceral e passional que ele seja.

O mesmo reproche de idealismo, de resolver no pensamento uma contradição real, Marx fará a Hegel. Reencontramos aqui a crítica à substancialização hegeliana dos predicados e a consequente necessidade de voltar ao substrato concreto e positivo. É de seu intento, entretanto, conservar o caráter inovador da negação hegeliana, reanimá-la com a força das armas, a fim de que o movimento dialético da história desemboque numa autêntica revolução. Como é possível porém retomar a negação da negação hegeliana sem cair na sua concepção de absoluto? Como reforçar o poder destruidor da dupla negação, fazer com que exprima uma criação mais profunda e mais concreta do que o processo hegeliano, inserido desde o início nos limites da mesma infinidade em si?

De Feuerbach, Marx guarda o ponto de partida. Ao fazer o inventário das contribuições desse filósofo para a melhor compreensão da dialética, salienta: 1) – a prova de que a filosofia nada mais é do que a religião trazida para o pensamento, constituindo assim apenas uma forma da alienação humana; 2) – fundação do verdadeiro materialismo e da ciência real, ao fazer das relações de homem a homem o princípio de qualquer teoria; 3) – o fato de opor “à negação da negação que afirma ser o absolutamente positivo, o positivo a descansar sobre si mesmo e a fundar-se

positivamente em si”.7 É possível porém partir da positividade absoluta e, por conseguinte, da natureza que se hierarquiza em gêneros e espécies, sem cair na concepção espinosana de substância e retirar assim da negação da negação toda propulsão inovadora? Como não reduzi-la a mera retomada da primeira negação, da determinação inicial? Se fizermos o processo dialético partir de determinações naturais, de negações existentes de per si, qual será a forma de superar a natureza a fim de que a dupla negação possa exprimir uma mudança real? O jovem Marx não responderá satisfatoriamente essas perguntas. Nossa tarefa se resume assim em acompanhá-lo em seus impasses, o que será feito neste e no capítulo final.

O desenvolvimento hegeliano da negação da negação aparece-lhe com duas faces, uma afirmativa, colocando a positividade do real, outra negativa, apreendendo o ato de autoconfirmação de todo ser, graças ao reconhecimento de que seu ser-outro nada mais é além da expansão de si mesmo. No entanto, nesse processo concreto, natural e vivo, nessa realidade profundamente histórica e criadora, Hegel vê apenas as condições lógicas mínimas, a expressão

abstrata e especulativa.8 Se todo conteúdo é esvaziado, se a vida se reduz a determinações intelectuais, deve ser na Fenomenologia do Espírito que a filosofia hegeliana encontra o seu nascedouro. Nela com efeito a dialética do concreto aparece para o espírito, de forma a que a exteriorização e alienação do ser configure apenas

um momento da reflexão pura. 9 “Toda a história da exteriorização (Entäusserungsgeschichte) e toda retomada da alienação nada mais é por isso do que a história da produção do pensamento abstrato,

isto é, absoluto, do pensamento lógico e especulativo”.10 Desse modo, ocorrendo a projeção da realidade viva nas formas abstratas do pensamento, a concretidade da história e suas dimensões se veem reduzidas a um confronto de conceitos. “A alienação, que constitui o verdadeiro interesse da exteriorização e superação dessa exteriorização e a oposição entre o em si e o para si, a consciência e a autoconsciência, o sujeito e o objeto, isto é, a oposição do pensamento abstrato e a realidade sensível ou a sensibilidade

efetiva, no interior do próprio pensamento”. 11

Marx resume em oito itens o movimento hegeliano de superação do objeto pela consciência, movimento que traça o esquema formal a ser aplicado a todo processo de exteriorização e reinteriorização do ser:

1. o objeto é configurado pela consciência como retornando

ao próprio eu e, por conseguinte, como objeto evanescente;

2. é a própria exteriorização da consciência que põe as coisas

enquanto coisas (Dingheit); o que constitui objeto para ela, e nessa qualidade é somente para ela, constitui sua essência subjetiva – o ser-em-si se confirma no ser-outro;

3. a exteriorização tem pois além da significação positiva

outra negativa;

4. a significação positiva não é apenas para nós ou em si,

mas para a própria consciência, tomada como entidade de per si;

5. a consciência, possuindo no saber o seu comportamento

objetivo, toda a objetividade da coisa exterior se resume no seu conhecimento – a coisa surge como um momento perecível e nulo, pois, embora para a consciência o negativo do objeto ou o seu superar-a-si-mesmo (Sich-selbst-Aufheben) tenha uma significação positiva, ela o reconhece apenas como nulidade, na medida em que o vê unicamente em sua projeção no espaço - o objeto está em conexão íntima com o ser-para-si;

6. de outra parte, ao superar a alienação de sua própria

objetividade, faz da realidade natural um ser-outro junto a si (Andersein ais solchem bei sich), de modo a transformar a natureza numa etapa do desdobramento do ser-para-si;

7. com isso se completa o movimento totalizador da

consciência;

8. ao tomar o objeto na totalidade de suas determinações,

converte-o num ser espiritual, tudo se metamorfoseando

num momento do evolver do espírito absoluto.12

Os itens 6 e 7 são de capital importância para compreender a crítica marxista à ideia de Aulhebung e, por conseguinte, situar o problema da negação. Se a objetividade natural for interpretada em termos de espacialização do espírito, este não encontrará dificuldade alguma para recuperar e reduzir aquela em todos os seus recessos, porquanto é suficiente descobrir na natureza sua espiritualidade oculta. Todo o mistério da naturalidade será desvendado quando o positivo, os objetos da natureza, forem inseridos em seu contexto lógico especulativo. Daí o sentido aparentemente destruidor da desalienação hegeliana, ou melhor, da negação da negação. “A apropriação dos seres alheados e objetivos, ou o superar da objetividade sob a determinação da alienação… tem para Hegel imediata e até principalmente o significado de superar a objetividade, pois não é o caráter determinado do objeto mas seu caráter objetivo que na alienação escandaliza a consciência. O objeto é por isso um negativo, um superar a si mesmo, uma

nulidade”.13 No entanto, conciliando as contradições no interior do pensamento e da consciência, Hegel termina por deixar incólume a própria realidade dilacerada, apenas compreendendo a transitoriedade do objeto para abandoná-lo à sua própria sorte. Tudo se resume na apreensão intelectual das contradições reais, sem colaborar para a sua efetiva superação, o que redunda, no

dizer de Marx, num “positivismo acrítico”14 e na justificação do

status quo 15 . Por isso, “a negação da negação não é a confirmação do ser verdadeiro, mesmo através da negação do ser-aparente (Scheinwesen), mas a confirmação do ser-aparente ou do ser que se aliena numa negação de si ou a negação desse ser-aparente como um ser objetivo, residindo fora do homem e independente