Origens da dialética do trabalho: estudo sobre a lógica do jovem Marx
7. A lógica subjetiva
O último parágrafo do texto estuda as transformações operadas no trabalho pela ampliação e pelo fortalecimento das relações de troca. De expressão alienada do produtor, o trabalho se transforma em trabalho aquisitivo, na operação orientada exclusivamente para a apropriação do trabalho alheio. O objeto é produzido como valor e o trabalho se faz em troca do salário, do dinheiro como instrumento de apropriação de qualquer propriedade alheia. A distância entre o trabalhador e o produto é pois tamanha que vem a ser acidental o trabalhador poder desfrutar o resultado de sua atividade. Já que o trabalho havia sido definido como a exteriorização da universalidade genérica e, por conseguinte, como desfrute da vida, chegamos ao ponto máximo de sua alienação.
7. A lógica subjetiva
Partimos da identidade da negação da negação com o trabalho, passamos em seguida a analisar as vicissitudes da alienação e, depois de um longo percurso, chegamos ao valor de troca e à produção capitalista propriamente dita. Graças a uma progressiva determinação da sociedade civil alcançamos o reino do que hoje chamamos sociedade burguesa.
Não seguimos o caminho da história com seus avanços e retrocessos mas o da filosofia que, sob esse aspecto, se limita a compreender o sentido geral da evolução do homem. No fundo, a filosofia trata de apreender os momentos essenciais do aperfeiçoamento da essência humana, ou melhor, da constituição do homem livre, que se faz pela história adentro através dos meandros mais inextricáveis. Nesse processo de libertação do homem da necessidade natural para erguê-lo ao reino da liberdade e do espírito, somente a história é real e constitutiva, pois à análise filosófica cabe apenas expor no abstrato o que os homens fazem no concreto. No entanto, a compreensão filosófica não pretende somente esboçar em largas pinceladas o movimento pormenorizado da prática humana, procura sobretudo encontrar na multiplicidade do real a necessidade que o sustém, as leis do seu desdobramento. Além disso, em virtude do caráter necessário dessas leis, não podem elas provir de uma análise meramente empírica a resumir no geral a constância ou a frequência do acontecido; devem, ao contrário, derivar do levantamento das condições de possibilidade do real, condições concretas que nada tem a ver com as formas de seu conhecimento. Qual é porém o custo para o jovem Marx da descoberta de um movimento necessário no curso da história?
Vimos que a história encontra sua primeira condição na própria natureza humana, cuja realização implica num tipo peculiar de universalidade, totalmente diversa da do animal. Graças à reflexão consciente, cada indivíduo visa o universal pelo particular, de maneira ã somente atingir a autoconsciência perdendo-se na particularidade das coisas. Daí o sentido dinâmico do carecimento humano, imediatamente diferente tanto do sujeito, porquanto o limita, como do objeto, na medida em que o toma como parte presente de uma totalidade de objetos possíveis, capazes de satisfazerem o mesmo desejo. Ao lançar-se em busca do alimento determinado, o homem coloca a universalidade de sua cozinha e postula, dessa maneira, em sua apreensão da coisa, uma relação humana com seu semelhante, anterior à estreiteza das vinculações geradas pela propriedade privada. O caráter determinado da relação com o mundo revela em síntese a sociabilidade originária, uma forma de entrelaçamento que não é apenas intersubjetiva, mas sobretudo uma mediação pelo trabalho e pelas coisas. É preciso ter sempre presente que essa sociabilidade faz parte da natureza do homem. No processo de exteriorização e realização, cada indivíduo externa, por um lado, forças primitivas, capacidades intrínsecas, num esforço de expansão que lhe custa energia: o indivíduo transfere suas próprias forças que lhe advêm da espécie para o interior da natureza. Por outro lado, não sendo nem essência autônoma nem mônada fechada sobre si mesma, deve absorver em si parte da natureza exterior. Para o cumprimento dessa troca energética os objetos naturais submetem o homem a um processo de determinação, obrigando-o a reduzir sua universalidade indeterminada a uma particularidade seminatural, a passar pela especialização. Por causa, no entanto, da persistência da sociabilidade primitiva, o indivíduo não se aquieta no seu confinamento, luta contra ele, transpõe os empecilhos do ambiente, reduz suas próprias limitações biológicas. Instaura-se assim um processo de autoprodução que é ao mesmo tempo autoliberação: a história, cujas raízes se aprofundam na estrutura básica de nosso ser e cujo escopo se orienta para a abolição de todo e qualquer obstáculo à plenitude da vida social e da intensa liberdade.
Importa dar relevo ao fato da particularização supor a limitação consciente, pois abre a porta ao moralismo dos textos de juventude. Na medida em que a particularização é sentida e constituída como violentação e alheamento, o trabalho, primeira autentificação do ser, perde seu caráter prazeroso para tornar-se trabalho forçado em tudo semelhante ao animal. Tendo em vista a persistência da sociabilidade como ideal, Marx tem à mão um critério para julgar cada fenômeno em função do movimento de humanizar a natureza e de naturalizar o homem.
Tudo o que fugir desse objetivo, embora seja compreensível corno etapa necessária da humanização, pode assim ser estigmatizado pela moral que tem como norma absoluta a universalidade concreta, posta como fim último da história da necessidade.
O evolver do universal marca as etapas fundamentais do desenvolvimento da humanidade. A universalidade abstrata e simples, inscrita no conjunto das forças genéricas originárias, marca o primeiro passo. Em seguida, vem as vicissitudes da particularização e da alienação, do desencontro do homem com a natureza, em que pese ao paralelismo das limitações recíprocas. É o momento da sociedade civil a englobar num só sistema a diversidade dos modos de produção, é o reino do carecimento e da penúria. Passo a passo porém o homem leva ao paroxismo a contradição inicial, transformada de oposição simples entre trabalho alienado e produto em contradição irrevogável entre trabalho e capital. Nesse dilaceramento máximo aparece a possibilidade de solução. O capital acumulou a tal ponto o trabalho morto, preparou de tal forma o domínio da natureza que basta sua posse coletiva para o reino da particularidade ceder lugar ao universal concreto do socialismo.
Quais são as características desse movimento ternário? Antes de tudo Marx confere ao primeiro termo um peso concreto e sensível: as forças genéricas são formas da matéria. O segundo momento deve pois configurar o abstrato, o separado (representado pelo isolamento dos indivíduos da sociedade civil) e a exteriorização do espírito e das forças naturais em oposição à interioridade primeira. Finalmente o terceiro recuperará o concreto e o material num nível superior de integração e espiritualidade. É, suficiente porém carregar as três fases com uma materialidade dinâmica para evitar por completo o formalismo? Isto só seria verdade se a história imediata e empiricamente se desdobrasse em três tempos, o que obviamente não se dá. Como se justifica assim o emprego sistemático da trindade conceitual? Conferir ao movimento do universal um caráter concreto-natural não implica em substituir a coisa da lógica pela lógica da coisa, mas simplesmente fazer com que a coisa da lógica esqueça a lógica e passe a mover-se de modo inexplicável num ritmo ternário. Marx, sem se filiar a uma filosofia da consciência, não teria por acaso introduzido uma das possíveis lógicas da subjetividade na objetividade da história?
A suspeita se torna certeza se examinarmos a função constitutiva do trabalho tomado como êxtase do sujeito. Em sua determinação mais abstrata e geral o trabalho é, em primeiro lugar, transação entre o homem e a natureza, onde o- primeiro por intermédio de sua própria atividade controla e regula um sistema de trocas energéticas com o segundo. Consiste, em seguida, basicamente na atividade orientada para um fim, na realização em suma de um projeto. Nessa sua simplicidade, resulta na produção de um valor de uso, numa utilidade propícia a satisfazer um carecimento humano. Caracteriza o jovem Marx transformar essa atividade no ato ontológico por excelência. O trabalhe simples, primeira manifestação externa do sujeito, será parte fundante de todas as outras formas de trabalho, seja ela a ação do operário de regular e vigiar a máquina automática ou a do intelectual que escreve. Em outras palavras, o esquema artesanal do trabalho está na base de todas as outras atividades construtivas. Por isso se procura estabelecer uma continuidade absoluta entre o trabalho subjetivo, produtor de utilidades, e o sistema capitalista, produtor de valores, fazendo o valor de troca derivar do desdobramento do valor de uso, graças à intervenção da dinâmica do carecimento e da sociabilidade primitiva. Não é outro o significado dos textos comentados no parágrafo anterior. Toda a organização social presente e por fim a história inteira encontram na forma simples do trabalho o último fundamento, de sorte que sempre será possível partir dele e atingir qualquer configuração histórica presente, passada ou futura, sem qualquer descontinuidade. É de fato possível ver o movimento do trabalho no ritmo ternário do conceito. O projeto é o universal primeiro e abstrato, a execução, o momento do particular, o produto, a totalidade resultante da união dos tempos anteriores. O idealismo marcante de sua doutrina permitia a Hegel identificar sem dificuldade o movimento da consciência com o da lógica e da história. O jovem Marx porém pretende superar o idealismo graças à postulação do homem e da natureza enquanto totalidade concreta reflexionante, valendo de per si como princípio absoluto. Como explicar no entanto a reflexão natural? Com o pretexto de suprimir o idealismo não termina por suprimir a dialética no sentido mais profundo?
Essas questões serão retomadas no final desse trabalho. Para finalizar, convém ainda salientar a pobreza dessa lógica subjetiva no que respeita a seu papel constitutivo propriamente dito No fundo é capaz de formar apenas três ordens de realidade: comunidade natural, a sociedade civil e o comunismo futuro. A primeira configura o momento natural da história passada ou presente, a segunda, a crosta da alienação, a pré-história anterior ao advento do terceiro momento: o reino do espírito. Nenhuma das duas primeiras fases engloba porém mais do que um princípio de diversificação. A sociedade civil leva a cabo a contradição inicial entre o trabalho alienado e a produção social como a ideia herdada da fase anterior. Do Egito a Wall Street o mesmo principio e a mesma oposição cada vez mais aguda está a explicar todas as formas intermediárias. Quanto ao comunismo sabemos apenas que é o principio energético do futuro sem determinar sociedade real alguma. Representa somente a negação do estado presente dominado pela propriedade privada. Ao menos nesse ponto o jovem Marx já revela a cautela de suas investigações posteriores.
1 M. a, p. 96.
2 Engels. Umrisse p. 499.
3 M. a, p. 97, 110.
4 M. b, p. 76.
5 M. b, p. 77.
6 E. p. 391.
7 M. b, p. 75.
8 M. b, p. 76.
9 M. b. p. 78.
10 M. b, p. 78.
11 M. b, p. 78.
12 M. b, p. 83 a 88.
13 M. b, p. 87.
14 M. b, p. 79, Cf. Idem p. 89.
15 L. Colletti: Il marxismo et Hegel, p. XXVI e segs.
16 M. b, p. 89; Cf. p. 92, 93, 95.
17 M. b, p. 93.
18 M. a, p. 140.
19 M. b, p. 80.
20 M. b, p. 84.
21 M. passim; Cf. A. Smith: Der Begriff der Natur in der Lebre von Marx, p. 66 e segs.
22 M. b, p. 85.
23 M. b, p. 85.
24 M. b, p. 85.
25 M. b, p. 85.
26 M. b, p. 85
27 Cf. Cap. I, § 3, p. 46.
28 M. a, p. 104.
29 M. b, p. 86.
30 DI. p. 26.
31 M. a, p. 130.
32 HF. p. 44.
33 Lévi-Strauss: Les Structures Elémentaires de la Parenté, p. 9.
34 M. a, p. 137.
35 M. a, p. 130.
36 M. a, p. 104.
37 M. a, p. 105.
38 M. a, p. 126.
39 V. Goldschmidt: État de nature et pacte de soumission chez Hegel, Rev. Phiolosophique, n.° 1, janeiro-março, 1964.
40 Hegel: Die Vernunft in der Geschichte, p. 165.
41 M. a, p. 103.
42 M. a, p. 153, 158.
43 M. a, p. 136.
44 M. a, p. 139.
45 M. a, p. 137.
46 M. a, p. 110-111.
47 M. a, p. 129.
48 M. a, p. 98.
49 M. a, p. 101
50 M. a, p. 108.
51 M. a, p. 106.
52 M. a, p. 103.
53 M. a, p. 104.
54 M. a, p. 153.
55 M. a, p. 124.
56 M. a, p. 133.
57 DI. p. 33.
58 M. a, p. 133.
59 M. a, p. 140.
60 M. a, p. 134.
61 M. b, p. 86.
62 M. a, p. 137.
63 M. a, p. 100.
64 MEGA, I/3, p. 578; Cf. p. 535-6.
65 M. a. p. 119; Cf. p. 123, 131.
66 Os grifos são de Marx.
67 Jf. p. 365.
68 M. a, p. 107.
69 M. a, p. 108.
70 M. a, p. 108-9
71 M. a, p. 111.
72 M. a, p. 123.
73 M. a, p. 123.
74 M. a, p. 124.
75 MEGA I/3, p. 543 a 546.
76 MEGA I/3, p. 547.
77 E preciso distinguir cuidadosamente a função lógica da categoria “Gattungswesen” de sua implicação moral. A categoria constitui, como vemos constantemente, o universal primitivo que fundamenta o processo dialético do jovem Marx. Não negamos ter esse fundamento, como consequência imediata, um intenso moralismo, mas isso não legitima a tese daqueles autores modernos que transformam Marx num sacerdote do bem e do mal, segundo as posições ideológicas. Nem mesmo os pensamentos do jovem escritor deixaram de procurar uma base científica, a inserção numa teoria geral e a possibilidade de verificação, em que pese às vicissitudes dessa tentativa, de um ponto de vista moderno. Tanto é assim que cada vez mais desembocam na economia política. Não pretendemos ainda negar que a vida de Marx não tenha sido pautada por uma grande coragem moral, mas sua conduta nada tem a ver com os fundamentos de seu sistema; se pensarmos o contrário estamos confundindo os fatures de desenvolvimento de uma teoria com seus fundamentos conceituais, os únicos que importam para este trabalho.
78 MEGA I/3, p. 531-2.
79 MEGA I/3, p. 536.
80 MEGA I/3, p.536 a 539.
81 A mesma função mediadora de Cristo é retomada em HF. a explicar as relações entre homem e estado.
82 Hegel: Grundlinien…, § 41 a § 46, p. 47 a 52.
83 Idem, § 63, p. 66.
84 Idem, § 196, p. 198.
85 Idem, § 101, p. 101.