Origens da dialética do trabalho: estudo sobre a lógica do jovem Marx

3. O ser determinado

“darstellen” (expor). 30 O mecanismo hegeliano de posição e de objetivação do espírito reduz-se ao mero artifício de expor conteúdos já constituídos para o pensamento.

 

3. O ser determinado

A insistência com que Feuerbach faz do ser determinado o ponto de partida de sua filosofia manifesta de forma imediata e incisiva a sua radical oposição à lógica hegeliana. Em vez de começar pela consideração da categoria mais abstrata e mais indeterminada e, graças a uma sistemática série de posições chegar até o real mais rico, o Espírito, parte imediatamente do concreto, do efetivo, daquilo que se opõe ao pensamento e o determina. Dado isso, desaparece a identidade entre ser e pensar, firmam-se entre eles uma heterogeneidade e descontinuidade absolutas, que só poderão vir a ser superadas quando o homem atuante for tomado como o

fundamento da identidade, 31 quando alcançar a verdade viva. A identidade porém foi feita somente às custas de uma profunda alteração da natureza do pensamento. Por não haver verdade no pensamento puro, não resta possibilidade alguma de conhecer-se a estrutura do ser através da análise da estrutura do pensar, nem mesmo a possibilidade de reduzir a opacidade do sensível a uma estrutura inteligível, o que é ainda mais forte. Muito ao contrário, o pensamento só consegue identificar-se ao ser quando se apaga inteiramente, quando deixa de operar de per si e mergulha na carne e no sangue do ser. Isso posto, não é estranho que Feuerbach retome a refutação kantiana da prova ontológica. A confirmação da existência não há mais de provir do próprio pensamento; o ritmo do pensar deve ser interrompido pelo sensível a fim de que alcance alguma verdade, e o abismo profundo que se abre entre os dez dinheiros possíveis e os dez dinheiros reais só pode ser preenchido por um processo que, em vez de passar pela mediação do absoluto,

depende diretamente da prática individual. 32

Vejamos em que sentido se fazem as determinações e as limitações do ser. Primeiramente, como ser sensível, situa-se no tempo e no espaço, não havendo existência efetiva que escape a essas formas

primitivas de determinação. 33 Em seguida, todo ser é plenamente determinado por sua essência; cada existência é um ser de per si que se basta a si mesmo, é perfeição em seu gênero. E, por fim, o ser se determina em oposição à universalidade desenfreada e libertina do pensamento. A primeira forma de determinação nada mais traduz do que o caráter “sensível” do ser. A perfeição da essência está ligada à sua reflexibilidade e será estudada a seguir. Só nos resta então retomar a determinabilidade do ser enquanto força de resistência à generalidade indevida do pensamento.

Havíamos examinado como o sensível limita, nega e realiza a universalidade abstrata do pensamento que, enquanto permanece fechado em seus domínios, não encontra qualquer distinção e determinação positivas. No entanto, o confronto de ambos inverte as relações iniciais de agente e de paciente, de sujeito e predicado. “No pensamento sou sujeito absoluto e tudo o que deixo valer vale somente como objeto ou predicado de mim mesmo enquanto aquele que pensa, sou intolerante; na atividade dos sentidos, ao contrário, sou liberal, deixo o objeto ser o que eu mesmo sou: sujeito, ser efetivo que se manifesta a si mesmo… Apenas os sentidos, apenas

a intuição dão-me algo como 34 sujeito” . No entrechoque são os sentidos que predominam, transformam-se em ator, movem e orientam o movimento do saber a tal ponto que se convertem em seu único sujeito. É sempre resistência ativa que se opõe, é

Gegenstand 35 . Na qualidade de limite do pensamento, o objeto toma como padrão de objetividade a ação espontânea do eu que se objetiva. “O conceito de objeto nada mais é originariamente do que o conceito de um outro eu… por isso, o conceito de objeto é em

geral mediado pelo conceito de tu, de um eu objetivo”.36 No início o pensamento se toma como eu e sujeito absolutos. Ao se defrontar porém com o objeto sensível, esse limita a tal ponto as pretensões imperialistas de seu adversário que o transforma em objeto de sua ação. O objeto deixa pois desde logo de ser conhecido como um conteúdo passivo que viesse preencher a carência da representação ajustando-se, desse modo, às formas livres do pensar; é princípio atuante, força propulsora que tem a consciência alheia como padrão. Tudo se passa como se cada objeto fosse um eu em miniatura. Uns ainda guardam a consciência de si, na medida em que constantemente estão a pôr a espécie como o conteúdo de suas ações: são os homens; outros a perdem mas em compensação a realizam praticamente, pois quanto mais nos afastamos dos homens mais o indivíduo se anula na espécie.

De outra parte, o sujeito nada é sem o objeto, somente nele encontra sua realização, ou melhor, realiza-se e revela-se no outro a que necessariamente está sempre a reportar-se. O objeto do sujeito

é sua essência efetuada. 37 Esta correlação vale tanto para os homens como para os corpos físicos. No último caso, se vários corpos, se referem a um só, Feuerbach não hesita em fazer dele tantos corpos diferentes quantos forem aqueles que a ele se reportam. “Assim, o Sol é o objeto comum dos planetas, mas não é da mesma maneira objeto para a Terra como o é para Mercúrio, Vênus, Saturno, Urano. Cada planeta tem seu próprio Sol e o que ilumina e aquece Urano não tem como tal existência (Dasein) física alguma (apenas uma existência científica e astronômica) para a Terra; o Sol não aparece apenas outro, é efetivamente para Urano outro Sol do que é para a Terra. A conduta na Terra frente ao Sol é por isso ao mesmo tempo conduta da Terra para consigo mesma ou para com sua própria essência, pois a medida da grandeza e da intensidade da luz, medida pela qual o Sol é o objeto da Terra, é a medida da distância que fundamenta a natureza da própria Terra. Cada planeta tem desse modo no Sol o espelho de sua própria

essência”.38 É muito curiosa essa dessubstancialização e desintegração das coisas. Imediatamente, do ponto de vista da representação e percepção vulgar, pode o Sol ser uno e propor-se como substância autônoma; o mesmo acontece do ponto de vista da abstração científica, que, ao recolher nos vários sóis concretos os traços comuns, postula uma identidade abstrata e finita. Mas quando o Sol é apreendido como objeto da efetivação de outros seres, perde qualquer identidade e passa a ser diferente, a integrar-se no âmbito de efetuação dos outros. Nada impede porém que se inverta a perspectiva e se faça dos planetas o círculo de realização do Sol. Com a vantagem ademais de que agora permanecemos mais próximos da ótica da representação e da ciência, já que cada planeta manterá sua identidade como uma das várias maneiras de o Sol projetar-se. O que nos garante contudo ser este e não aquele outro o ponto de vista a tomar? Nada: ao contrário, entre as Coisas reina a mais completa relatividade. “A vida física nada mais é, em geral, do que essa troca eterna de sujeito e objeto, de meio e fim Consumimos o ar e somos consumidos por ele, desfrutamos e somos desfrutados. Só o intelecto é o ser que consome todas as coisas sem ser consumido por elas é o único ser que se basta e se consome a si mesmo – o sujeito absoluto – o ser que não pode ser reduzido a objeto de outro ser porque transforma todas as coisas em objetos, em ‘predicados de si mesmo, um ser que engloba todas

as coisas porque não é coisa, porque está livre de todas elas”. 39

Antes de prosseguir no exame da exposição e da exteriorização como forma de determinação do ser, convém acentuar que esse processo de reflexão objetiva não possui apenas caráter inteligível e consciente. Ao contrário, o ato de vir a ser objeto de si mesmo é visceralmente de paixão e amor. “Somente a paixão é sinal da verdade da existência. Somente é o que é – quer seja real ou

possível o 40 objeto de paixão” . O amor é pois a única prova da existência, a única maneira de nosso pensamento convencer-se de

que existe algo além de sua circularidade abstrata e viciosa,41 o que implica na transformação do ato de conhecimento numa atividade vital e passional, isto é, numa atividade prático-subjetiva que está muito longe da isenção estética do pensamento abstrato. E o ser, como emerge dessa exteriorização passional do sujeito, converte-se

fundamentalmente num problema prático. 42 Dado isso, “tu deves pensar não como pensador, isto é, como uma faculdade por si, isolada e cortada da totalidade do homem real, pensa como ser vivo e real pois assim estás exposto às vagas vivificadoras e reconfortantes do mar mundial, pensa na existência, no mundo como participante e não no vácuo da abstração, tal qual minada isolada, ou monarca absoluto, ou Deus fora do mundo e sem dele

participar”. 43 Não é à toa que o existencialismo e certas formas modernas do irracionalismo encontram em Feuerbach um de seus precursores.

Reside pois no fundo do próprio entendimento a irrazão do amor, atividade-passividade original de cada ser que se exterioriza. A objetivação todavia não se faz sem princípios, come se fosse extravasamento desregrado. A fim de adquirir objetividade perdurável e subsistente, a fim de desenvolver a generalidade que no início possui apenas em potência, o princípio irracional deve

amoldar-se às determinações do intelecto:44 “a filosofia é o coração

trazido para a razão”.45 Se em si mesmo cada um deles é inócuo, o entranhamento de ambos – do coração como princípio feminino, finito, sede do materialismo francês; do intelecto como princípio masculino, sede do idealismo alemão – é o fundamento dc toda verdade e configura, por conseguinte, a tarefa da política moderna. Programa simplório mas que teve como uma de suas

consequências a fundação dos Anais Franco-Alemães. 46

Posto que cada objeto é como se fosse mônada animada, consciência que se estende e expõe, posto que por conhecimento não mais se entende o ato purificador do entendimento mas o engajamento visceral do sujeito no objeto, torna-se impossível fazer da intuição que, em última instância, é o princípio de tudo, a apreensão tranquila e imediata de um conteúdo sensível passivo. Feuerbach vê-se, destarte, obrigado a abandonar o conceito clássico de imediação sensível por outro mais conforme às suas intenções filosóficas c, desta forma, a aproximar-se de Hegel embora queira dar a impressão contrária. “O sensível não é imediato no sentido da filosofia especulativa, no sentido profano de estar simplesmente à mão, de privado de pensamento, de inteligível por si. A intuição imediata e sensível é ao contrário posterior à representação e à fantasia. A primeira intuição do homem é apenas propriamente a intuição da representação e da fantasia. A tarefa da filosofia e da ciência em geral não consiste por isso em afastar-se das coisas sensíveis, a saber, das reais, mas em chegar a elas; portanto, não consiste em transformar os objetos em pensamentos e em representações, mas tornar visível, isto é, objetivo, o que é

invisível aos olhos de todos” 47 . O conhecimento do homem comum se dá no vácuo da imaginação e da fantasia, nutra aparência que pretende a verdade do sensível mas que de fato está muito mais próxima da inanição do pensamento abstrato. Cabe-nos despojar-nos dessas imagens se quisermos, num ato de engajamento total, atingir a realidade da coisa que se furta à primeira impressão. A imediação do sensível é pois da ordem do ser e não do conhecimento, de sorte que de nenhuma maneira sua verdade poderia ser alcançada por intermédio da análise dos dados imediatos da consciência. Nem mesmo quando se trata do conhecimento do gênio, que num ato imediato apreende o movimento do sensível, cabe falar de um exame das significações conscientes vividas. As significações são predicados objetivos, constituem o mundo e comprovam-se no movimento circunscrito de exposição e exteriorização. Para o sujeito, o que importa é negar-se, lançar-se para fora, na intuição das coisas que o determinam e o

transformam em objeto.48 A inversão do sentido das determinações possui, desse modo, caráter ontológico e constituinte. O ato não é apenas o de conhecer mas antes de tudo o de ser e de existir no outro e, por isso, de enriquecer-se às custas da objetividade alheia, de forma que a realidade de cada ser estará em estreita dependência da riqueza, da universalidade e da plenitude de seu objeto. Nesse sentido, o homem se distingue de todo o resto da natureza por ser o mais rico, o mais geral, o mais pleno dos seres, já que tem a universalidade das coisas inscritas no âmbito de sua ação. Assim sendo, o conhecimento da qualidade de ser no outro consiste em marchar segundo o movimento do objeto, aderir a ele com todas suas forças: “intuição e adoração não se diferenciam

essencialmente”, de modo que estudar a natureza é servi-la. 49 Conhecer é então conviver com as coisas, entrar a seu serviço para que se ponham a nosso dispor e se, porventura, o conhecimento possuir uma forma qualquer, esta lhe advém das coisas conhecidas, pois as leis do pensamento não são outras do que as leis da

realidade.50 Essas teses porém não se conciliam com as que já examinamos anteriormente. Se as formas dedutivas não dizem respeito ao pensamento mas exprimem apenas formas vazias de comunicação, se de outro lado conhecer é converter-se no objeto, como é possível declarar que o sensível precisa dos princípios formadores do pensamento? É óbvio que nos defrontamos com uma contradição insolúvel da filosofia de Feuerbach. No entanto, não é de nosso propósito fazer o rol delas, que são inúmeras, nem mesmo denegrir o gênio do filósofo, que pensa mais por clarões abruptos do que por encadeamento de razões. Contentar-nos-emos por ora com descobrir certos mecanismos subjacentes á ideia de alienação, tal como ela aparece em Feuerbach e aparecerá no jovem Marx, a fim de examinar sua função no interior da dialética materialista.