Origens da dialética do trabalho: estudo sobre a lógica do jovem Marx

7. A alienação diversificada

Em segundo lugar, convém insistir na transformação a que se submete a mesma categoria no desenvolvimento categorial do sistema. No capitalismo, por exemplo, na fase da circulação simples, a propriedade vincula-se ao trabalho, somente sendo permitida a apropriação do trabalho alheio por intermédio do próprio trabalho. A circulação ampliada todavia postula a radical separação entre trabalho e propriedade. O operário não possui outra propriedade além de sua força de trabalho, que troca pelo salário, ficando pois inteiramente desligado dos instrumentos necessários à efetuação de suas capacidade produtivas. O capital, de outra parte, aparece como a propriedade dos meios de produção e, portanto, como a possibilidade de comandar trabalho alheio. A propriedade do trabalho objetivado determina as condições de exploração do trabalho vivo. Do ponto de vista da classe operária, o produto do trabalho pertence a outrem, ficando pois inteiramente fora de seu domínio, e o trabalho alienado opõe-se ao trabalho vivo. Percebemos ter sido desse ponto do desenvolvimento do sistema que o jovem Marx tentou proceder à sua crítica. Agora entretanto unicamente importa estudar como, depois de constituída a mais-valia, ela se distribui entre os grupos sociais parasitários: cada nova categoria corresponde assim a uma nova forma de propriedade afiançada pelo sistema.

 

7. A alienação diversificada

O problema da alienação ligava-se, no jovem Marx, essencialmente à sua concepção da dialética. Posta, de um lado, a totalidade do gênero humano fora da história a dar o sinal de partida para o processo negador e fixada, de outro, a orientação a ser tomada pela posição (relações entre sujeito e objeto), ficava ipso facto demarcado o sentido da alienação: deveria corresponder à exteriorização do sujeito inicial, redundar numa cristalização das relações humanas, isto é, no reverso da humanidade originária, para em seguida recuperar a interioridade primitiva num nível superior de concreção. Quando porém o princípio da reflexão se translada para o interior da história e certas estruturas intencionais objetivas passam a desempenhar um papel fundante, o significado da alienação altera-se por completo. Não nos cabe neste trabalho proceder a um estudo exaustivo do problema reposto nos novos termos, pois sua viabilidade supõe um conhecimento mais profundo da dialética materialista. No entanto, apenas com o intuito de acentuar a diversidade das duas perspectivas, o que por si só já desabona o uso abusivo e desregrado da categoria de alienação por autores mais ou menos ligados ao marxismo, convém situá-la no novo contexto.

A produção humana se faz, como já vimos essencialmente do ponto de vista social: os homens produzem tendo em vista o conjunto da sociedade, ao contrário do animal cujos produtos não são conformados por qualquer finalidade comunitária. Esse momento de consciência, inscrito em todos os fenômenos humanos, determina-se e determina de modos diferentes conforme variam os sistemas produtivos; a mesma determinação simples podendo ser reposta de maneira muito diversa. Mas o modo de reposição estipula a forma de objetividade adquirida por essa determinação, de sorte que a consciência social da objetividade das relações sociais e, por conseguinte, a própria natureza dessa objetividade determinada dependem dos modos de determinação dessas relações. O elemento consciência é pois constituinte de todo fenômeno social e a forma pela qual participa dele é um fator essencial de sua natureza e de sua explicação. Assim sendo, o marxismo não deve preocupar-se apenas com a intersubjetividade constituinte mas, sobretudo, com as formas objetivas dessa intersubjetividade, constituídas pelas relações intencionais postas pelas estruturas fundantes. Cada fenômeno social, reportado à estrutura fundamental, revelará uma forma preestabelecida de intersubjetividade que lhe dará uma espessura objetiva própria, graças à maior ou menor travação das categorias abstratas. No capitalismo, por exemplo: “A igualdade dos trabalhos humanos adquire a forma objetiva (sachlich) da igual objetividade de valor dos produtos do trabalho, a medida do dispêndio da força humana de trabalho por intermédio da duração adquire a forma de valor dos produtos do trabalho, finalmente, as relações dos produtores, nas quais se afirmam as determinações sociais de seu trabalho, adquirem a forma de uma relação social dos produtos do

trabalho”. 107 Os produtos se convertem em mercadorias, em coisas sociais, e as relações humanas passam a ser medidas pela objetividade dessas coisas. O fetichismo da mercadoria corresponde portanto a uma forma de objetividade que lhe advém do caráter da determinação das relações sociais fundantes. A objetividade do social não adquire a mesma espessura, por exemplo, na sociedade medieval, onde a dependência pessoal das relações sociais aparece

como relações entre pessoas. 108. Todo o problema se resume pois em estudar as formas de reificação do ser social, nos diferentes modos de produção e nos diferentes níveis de realidade postos pelo

desenvolvimento de cada sistema. 109

Aos vários níveis de reificação devem corresponder, no interior de um dado sistema, formas possíveis de personalidade básica. Cada categoria implica num tipo de ação social, de sorte que um ou um conjunto delas conformarão certas matrizes das ações individuais. No entanto, na medida em que cada categoria circunscreve seu próprio campo de ação, demarca concomitantemente a visão que o personagem terá do processo. Examinemos rapidamente como o fato de entesourar é posto em alguns níveis do sistema capitalista. Já a constituição do dinheiro como riqueza social possibilita o aparecimento do avarento, do indivíduo que imagina a riqueza consistindo na posse direta dele. Diante do capital, entretanto, representa um papel subsidiário, daquele que não compreende nem o caráter social do valor nem a necessidade da mais-valia vir a

realizar-se na circulação110. O entesouramento para o empresário possui outra significação. Sempre atento à dinâmica constitutiva do valor, a ânsia pela riqueza nele se manifesta como uma enorme vontade de potência, de modo que o tesouro só pode configurar-se quer constituindo o fundo de reserva para a ampliação da empresa, quer representando a necessária economia feita para substituir a maquinaria e as instalações gastas, etc., em suma, como um faux frais indispensável ao desenvolvimento do sistema.