Origens da dialética do trabalho: estudo sobre a lógica do jovem Marx
Prefácio
Para o homem atento à realidade e às ideias de nossos dias, tornou-se quase impossível furtar-se a um ajuste de contas com a dialética. É difícil resistir ao fascínio de um conceito tão usado e, por isso mesmo, fonte de tantas ambiguidades e de tantos mal-entendidos. Mas por detrás deste abuso não se esconderia um problema intrincado, merecedor da maior consideração? Se o pensamento dialético está cada vez mais fora de moda nas ciências naturais, nas ciências do homem, ao contrário, encontra seu ambiente natural, constituindo um precioso recurso contra a redução positivista do fato humano à coisa ou ao comportamento fragmentado. O fenômeno social não possui a exterioridade do objeto natural; desperta no observador simpatia ou aversão, exige dele a compreensão de seus motivos e de seus fins, até que num dado instante esse percebe sua condição de sujeito e objeto da análise. Isso quer dizer que na base do conhecimento dos fenômenos sociais se encontra uma relação simpática, vivida entre indivíduos possíveis ou reais, um relacionamento intersubjetivo a imprimir-lhes um sentido. Qual é o papel dessas vivências na constituição da ciência do homem? Devem ser totalmente extirpadas para dar lugar a determinações puramente intelectuais, objetivas e exteriores, ou se integrará no conhecimento do objeto, na medida em que a objetividade do homem compreenderia uma interioridade imanente que seria impossível desconsiderar?
Dizemos em geral que um objeto tem sentido quando suas partes forem integradas por uma finalidade interna, quando existem como órgãos em função de um todo, contribuindo assim para a manutenção de sua vida. Se uma delas for separada, o todo pode persistir em sua inteireza, de maneira que somente vem a perecer quando se desintegrar o princípio animador. O objeto constitui assim uma totalidade, provê-se de uma universalidade, de uma forma, diferente da estrutura de tipo matemático onde as partes, embora se interliguem de um modo tão íntimo, não se colocam como órgãos cuja função é manter a existência do todo. As estruturas de tipo matemático ou os objetos inteiramente explicáveis por elas não possuem vida própria e não se reproduzem. Diante dessas significações objetivas, podemos imaginar três posições extremas. Se o cientista adotar a primeira, fará tudo para substituir o sentido por um conjunto de determinações objetivas, a serem mais cedo ou mais tarde expressas em termos formais. Nada o impede de reconhecer o papel desempenhado por tais significações no desenvolvimento das ciências, nem mesmo de utilizá-las uma vez ou outra, mas sempre as considerará como um expediente a ser eliminado na primeira oportunidade. Ao formalismo dessa posição contrapõe-se o intuicionismo da segunda. O problema consiste então em escolher algumas significações imediatamente dadas que possam determinar as regiões e os níveis em que se configura a realidade humana. Estabelecidas pela intuição as categorias fundamentais de cada modalidade do ser social, a eficácia do pensamento formal se circunscreveria ao âmbito das essências materiais intuídas. Se a primeira perspectiva resolve o problema do sentido dos fenômenos humanos reduzindo-o a um passo necessário da evolução psicológica ou histórica da ciência, que deve entretanto desaparecer do sistema acabado, a segunda subordina a explicação sistemática à apreensão intuitiva de certos dados imediatos da consciência individual. Por isso deixa a investigação científica na triste dependência da leitura fenomenológica, que dificilmente escapa ao psicologismo e ao relativismo da pessoa, já que cada um de nós está sempre propenso a aceitar como evidentes os preconceitos mais arraigados de sua época. O simples fato de a filosofia moderna apresentar diversas leituras divergentes do cogito, todas elas pretendendo ter atingido um critério absoluto de certeza, já nos leva a desconfiar da tentativa de submeter a investigação dos princípios da ciência à intuição imediata das vivências individuais. Finalmente podemos filiar todos aqueles que procuram conservar as vantagens dos dois métodos a uma terceira posição. Ela deverá introduzir no corpo das ciências uma série de significados e intenções vividos, reelaborados contudo a fim de que possam ser verificáveis objetivamente por todos. Como é possível porém conciliar o trabalho de formalização e redução do imediato, desenvolvido pelo entendimento, com a descrição de certas essências que se dão como núcleos racionais?
É sabido que o método dialético nasce do confronto desses últimos problemas. Tentando renovar a noção de forma, sua primeira preocupação é abandonar a interpretação que a converte num invólucro vazio a ser preenchido por este ou aquele conteúdo, como acontece com as estruturas matemáticas, sempre indiferentes às várias interpretações que comportam. Em seguida, procura destacar nesta forma o conteúdo desenvolvido e posto por seu próprio movimento, tratando de vivificar o conceito pela descoberta de uma matéria inerente a ele que, embora não se deixe captar pela análise das determinações implícitas de sua definição, emerge quando interrogamos os significados contraditórios postos pela própria aceitação desse conceito. No entanto, o emprego do método dialético principalmente nas ciências humanas foi feito em geral sob a condição de separá-lo da totalidade do sistema hegeliano, considerado irremediavelmente corrompido por seu idealismo. Frequentemente ouvimos dizer que coube a Marx a tarefa de retirar o conteúdo reacionário do método revolucionário e inverter o procedimento de Hegel, pondo a matéria no lugar do espírito. Basta entretanto atentar aos problemas para os quais a dialética foi desenvolvida para convir na enorme dificuldade dessa tentativa. Como é possível pensar uma forma de investigação independente de seu conteúdo quando se visa precisamente a confluência de ambos? Se a separação equivale a retroceder ao dualismo entre a forma e o conteúdo, entre o método e a ontologia, torna-se evidente que a famosa inversão da dialética não se fará sem uma completa reforma de seu significado.
É de nosso propósito investigar a possibilidade dessa inversão. Para isso propomo-nos a estudar neste trabalho a dialética de Feuerbach e do jovem Marx, porquanto ambas inauguram, por assim dizer, a primeira versão do materialismo dialético. Muito a contragosto fazemos uma concessão à moda e nos dedicamos exclusivamente aos textos de juventude desse último autor. Nosso primeiro projeto compreendia um balanço geral da dialética marxista e foi somente no curso de nosso estudo, quando nos convencemos da radical oposição epistemológica entre os textos de juventude e os da maturidade, que nos decidimos analisar a dialética primitiva, preparando o terreno para um livro posterior. De outra forma, se juntássemos num mesmo escrito a discussão dos dois procedimentos, a todo momento deveríamos recorrer a universos diferentes do discurso, criando uma confusão indecifrável. Embora nossa intenção seja realizar uma análise histórica, não renunciamos ao estudo sistemático da questão. Se passamos pela história, é porque estamos convencidos de que, antes de nos lançar na discussão abstrata, ou antes de postular o marxismo como a filosofia viva de nosso tempo e sair à procura da legitimação teórica de sua prática, cumpre estabelecer com toda precisão como Marx, no exercício de sua atividade científica, encaminhou o problema. Quem sabe se muitas das questões em que se debate a dialética contemporânea não nascem de um conhecimento insuficiente da dialética marxista que, vinculada às paixões ideológicas, tem dado origem a toda sorte de mal-entendidos? Por isso nos propomos a estudá-la isentos de quaisquer preconceitos. Se na verdade tal isenção não esgota o significado de uma obra que não cessa de interrogar-se, devemos convir entretanto que não há ciência possível se a objetividade não consistir na meta subjetiva de nossas investigações. Até onde a alcançamos, só o tempo poderá dizer.
Na elaboração deste trabalho contamos com o valioso auxílio de Fernando Novaes, Fernando Henrique Cardoso, Octavio Ianni, Paulo Singer e Sebastião A. Cunha, com quem durante anos temos discutido muitos dos problemas expostos agora de uma forma sistemática. Se logramos delinear os contornos do pensamento do jovem Marx, será porque o convívio com esses colegas nos proporcionou uma visão geral do marxismo, que dificilmente obteríamos se trabalhássemos sozinhos. Leram e reviram os manuscritos: Lupe Cotrim Garaude, Violanda Lomba Guimarães Corrêa, Rubens Rodrigues Tôrres Filho.
Roberto Schwarz nos ajudou a traduzir as passagens mais difíceis. No concurso de livre-docência, os professores João Cruz Costa, Lívio Teixeira, Arthur Versiani Veloso, Arnold von Buggenhagen e Gérard Lebrun apontaram os trechos ambíguos a serem refeitos. Devo a todos minha profunda gratidão, em particular ao último pela polêmica que travou conosco a propósito do pensamento dialético em geral.
Universidade de São Paulo, julho de 1965.