Origens da dialética do trabalho: estudo sobre a lógica do jovem Marx

CAPÍTULO II: Primeira Crítica da Economia Política

Capítulo II - Primeira crítica da

economia política

 

Grande parte da epistemologia contemporânea ainda se move no interior da problemática delineada por Comte, cujo sentido se resume nesta fórmula extraordinariamente clara, percuciente e muito mais franca do que tantas outras que seus discípulos têm avançado: “numa palavra, considerando todas as teorias científicas como tantos grandes fatos lógicos, é unicamente pela observação aprofundada desses fatos que se pode alcançar o conhecimento

das leis lógicas”. 1 Trata-se pois de arrolar as doutrinas científicas na qualidade de fatos do discurso e depreender de seu estudo “empírico” as leis lógicas fundamentais. Considera-se desta forma cada teoria como um objeto em si a manter relações de verdade ou de falsidade com o real totalmente indiferente à epiderme que o exprime, reduzindo-se cada uma a um modo mais ou menos adequado de iluminar a realidade que em si mesma carece de significação científica e filosófica. Dado isso, por conhecimento nada mais se entende além do processo de visar a coisa inacessível, cada passo adiante medindo-se exclusivamente em termos de eficácia e da integração de cada tese na totalidade da teoria; uma doutrina é dita superior a outra quando for mais eficaz, mais geral e mais rigorosa que a anterior.

Num polo inteiramente oposto situa-se a epistemologia hegeliana da qual Marx será o continuador. Criticando o método formal e antifilosófico que pretende definir o objeto antes de dar início ao seu estudo, criticando em particular aqueles que definem pela etimologia da palavra, Hegel escreve: “o acerto da definição é posto pois na concordância das representações presentes. Por esse método deixa-se de lado o que é essencial do ponto de vista filosófico: no que respeita ao conteúdo, a necessidade da coisa em e para si própria (no nosso caso o Direito), e no que respeita à forma, a natureza do conceito. Ao contrário para o conhecimento filosófico é a necessidade de um conceito o principal e, como resultado, o decurso que veio a ser, sua prova e sua dedução. Assim, pois, sendo seu conteúdo para si necessário, só em seguida é que se

procurará seu correspondente na representação e na linguagem”.2 Portanto, antes de se indagar da correção semântica a estabelecer-se entre o objeto e a representação ou a linguagem, há de investigar-se a necessidade desse objeto como coisa que, pelo simples fato de existir, possui uma prova interior. Em outras palavras, o filósofo se situa na ótica da constituição, procura apreender os processos pelos quais o objeto necessariamente veio a ser, importando não apenas verificar a correspondência da representação com a coisa, mas principalmente descobrir a necessidade desta última e, destarte, estabelecer seu lugar e seu valor nas diversas ordens de realidade.

A ciência de Marx filia-se a essa tradição filosófica, onde ciência e teoria do conhecimento se identificam a tal ponto que carece de sentido a descrição positivista que não pretende chegar conhecer o âmago da realidade. Já em seus primeiros artigos constatamos a preocupação de varar pelo conhecimento a essência das coisas e, ainda mais, a de reconhecer o posto que cada objeto ocupa na ordem dos seres, de forma que a redução positivista de todos os modos de objetividade a um só é excluída ab ovo. Na crítica ao manifesto filosófico da escola histórica do direito encontramos, de fato, este reproche revelador: “Cada existência lhe vale como uma

autoridade 3 , cada autoridade lhe vale como um fundamento” . Não há maneira mais vigorosa de declarar que a existência de um fenômeno pode não corresponder ao dever ser que ela mesma no fundo está a postular. Característica dessa orientação metodológica é, por exemplo, a posição assumida diante da clássica lei da oferta e da procura. Não há dúvida de que ela basta para explicar como nasce um preço igual para cada tipo de produto, mas de maneira alguma compreende a necessidade do preço fixar-se a longo prazo neste ou naquele nível. O ponto de equilíbrio depende do mais puro arbítrio e apenas deve ser constatado pela observação, de modo que, se necessidade houver, essa nada mais exprime além da imposição irracional do fato. Marx, porém, em vez de partir da lei para chegar ao preço, segue o caminho contrário. Procura estabelecer de antemão um ponto racional, um centro em volta do qual os preços se fixarão, passando a lei a traduzir tão somente a aparência de realidades mais profundas. O fenômeno é constituído assim a partir de categorias e de forças reais que se furtam à verificação imediata, embora sejam as únicas a emprestar ao dado

uma completa racionalidade.4 Isso posto, torna-se insuficiente o critério da verificabilidade, o único admitido pelos positivistas como critério da verdade, pois antes de comprovar uma teoria por sua verificação empírica, importa estabelecer a necessidade de cada fato e de cada categoria no contexto do real, de forma a fixar preliminarmente o tipo de “experiência” que comporta. Qual é seu modo de existência? Para que venha a ser, quais são suas condições de possibilidade? Que lugar ocupa nesta ordem de condições? Qual é sua racionalidade intrínseca? Em suma, na medida em que admite diversos modos e ordens de objetividade, umas mais profundas e mais diretas, outras mais aparentes e mais mistificadas, Marx não pode conceber a ciência como o espelhamento indiscriminado do real.

Dada essa divergência nas concepções de ciência, a crítica marxista e, por conseguinte, sua epistemologia, devem tomar caminhos muito diferentes dos escolhidos pelo positivismo. Primeiramente, é de notar que não separa teoria do objeto da crítica de sua objetividade. Marx, com efeito, indica nestes termos a intenção de sua economia: “o trabalho… é a crítica das categorias

econômicas ou, 5 if you like , o sistema da economia burguesa

criticamente exposto”. 6 Em seguida, a crítica das teorias precedentes é posterior à crítica do objeto. Somente depois de conhecida sua natureza será possível avaliar o acerto, a parcialidade ou a total incorreção de uma doutrina anterior Uma ideia qualquer, para alcançar certa audiência, deve exprimir qualquer coisa de verdade. Como descobriríamos sua parcialidade interesseira se não conhecêssemos o objeto em sua totalidade? No que respeita ao primado do conhecimento do objeto em relação à crítica das ideias, o título da obra máxima de Marx não deixa de ser sugestivo: O Capital, Crítica da Economia Política. Finalmente, destrói-se pela raiz o princípio da epistemologia comtiana. Somente seria possível conferir às várias teorias sucedendo-se na história das ciências a validade em si, que postulam como fatos lógicos, se as concebêssemos completamente autônomas e independentes dos fatos que procuravam explicar. Comte esperava apreender a doutrina da ciência pela comparação das teorias isoladas de seus objetos, como se fossem meros fatos do discurso tendo a propriedade estranha de representar de modo cada vez mais perfeito a realidade inacessível. Marx, ao contrário, numa bela tradição aristotélica, restringe essa absoluta autonomia do discurso, subordinando o conhecimento das ideologias ao conhecimento do objeto. Deste modo, não há teoria da ciência que não diga nada sobre o real, não há método sem pressupor uma ontologia. Na verdade, essa epistemologia cai num relativismo que os positivistas desconhecem. Não se trata apenas do conhecimento aproximado, mas também da subordinação da ciência às grandes alterações sofridas pelo real. As categorias científicas se modificam conforme se alteram as regiões instauradas e circunscritas pelo trabalho do homem. Isso porém não implica em cair no relativismo mais absoluto, porquanto é possível obter conhecimento perfeito dos processos acabados. Todavia, enquanto não se completa o movimento do objeto, enquanto não se esgotam suas possibilidades, como a ciência poderia pretender ter esgotado seu conhecimento? Não seria conveniente lembrar por aqui o retarde do pássaro de Minerva?

Marx sempre se manteve fiel a esses preceitos metodológicos. Nunca procedeu à crítica de uma ciência antes de analisar os objetos circunscritos por seu campo. Vimos, além disso, na Introdução deste trabalho, que, num esforço de voltar ao concreto, antepôs ao sujeito ideal a transpor a história e a completar-se no saber absoluto, o homem vivo em sociedade, transformando-o assim no tema privilegiado da investigação científica. Isso aliás

resulta do fato de ter substituído, com diz Hyppolite,7 a Ideia hegeliana por um equivalente real, tornando possível a superação da tragédia da história no interior dela própria. Por isso, ao contrário de Feuerbach, ainda conscrito ao universo das significações hegelianas, parte diretamente para o diagnóstico da sociedade que lhe é contemporânea.