Origens da dialética do trabalho: estudo sobre a lógica do jovem Marx
8. Gênese de uma ilusão
No entanto, torna-se evidente que o simples fato de considerar alienadas as personalidades básicas, na medida em que participam fragmentariamente da totalidade do sistema, nos conduz para fora dele a postular como paradigma uma sociedade de homens livres. Já no parágrafo sobre o fetichismo da mercadoria o próprio Marx alude a um estágio da história em que os homens, agindo conscientemente e planificando sua vida social, se desvencilhariam
dos fantasmas religiosos.111 Deveria mos abandonar essas generalizações e emprestar sempre ao conceito de alienação um caráter determinado, sociológico como pretende Claude Lefort em
seu discutido artigo sobre a questão?112 Obviamente a resposta depende da possibilidade de tomarmos a história como uma totalidade a emergir do movimento de uma de suas totalidades parciais, como um processo de totalização nascido do desenvolvimento lógico do próprio capitalismo, pois do contrário cairíamos na dialética anterior, onde a alienação se aproxima da ideia de pecado, em virtude de sua constante referência a um homem abstrato. Esse porém não é um problema a ser discutido por aqui.
8. Gênese de uma ilusão
A despeito de tantos desencontros os textos juvenis de Marx continuam a exercer um extraordinário fascínio. Como explicar o sucesso dos Manuscritos Econômico-filosóficos? Por que o leitor tem a impressão de encontrar em suas páginas análises de uma verdade aguda e penetrante? Graças às nossas investigações anteriores, possuímos os elementos necessários para ir em busca das origens dos enganos cometidos pelo jovem Marx. Não nos conduzirá esse caminho a divisar a “verdade” daqueles textos?
Uma das suas principais preocupações foi retirar a mais-valia da circulação, mas o próprio Marx da maturidade cuidou de interpretar o sentido dessa empresa: “Atrás das tentativas de apresentar a circulação de mercadorias como a fonte da mais-valia espreita quase sempre um qui-pro-quo, a confusão entre o valor de uso e o
valor de troca”, 113 explicita o autor comentando um texto de Condillac onde o valor da coisa é constituído pela relação ao carecimento. Se imaginarmos, com efeito, uma continuidade entre a natureza dos dois valores, compreenderemos facilmente a tentativa de formar o valor de troca a partir do valor de uso, já que esse último se apresenta como o objeto mais próximo da vida cotidiana. Dessa perspectiva, valor de uso e carecimento passam a desempenhar a mesma função determinante exercida posteriormente pela estrutura de troca. Mas se o carecimento e sua satisfação arvoram-se em ponto de partida, o trabalho individual de modo paralelo deve determinar o trabalho social constitutivo do valor. Defrontamo-nos assim com a linha de determinação que vai do indivíduo carente até as mais abstratas formas da estrutura social. O existente é dado em sua plurivocidade c nesta condição ambígua é postulado como o determinante do processo dialético. Acresce ainda que o sistema capitalista tudo faz para dar a ilusão de que o trabalho é um fantasma abstrato cuja função é colaborar com o capital, de sorte que o trabalho individual adquire as propriedades determinantes do trabalho abstrato. De outra parte, a produção de valor passa a ser encarada como uma produção de utilidades. Os ingleses muito expressivamente chamam a mercadoria de commodity. Desse modo, o sistema produtivo passa ilusoriamente a ser movido pela intenção de produção, ao invés de ser posto em função da mais-valia, o que lhe confere aliás a universalidade a-história tão almejada por certos cientistas sociais. Além disso, dois fatores vem corroborar a impressão de que o valor se valoriza no comércio: 1 – o lucro pessoal parece em última instancia depender da astúcia de cada um; 2 – o tempo de circulação deve ser
considerado na fixação dos preços.114
Posto o homem como ponto de partida, na sua ambiguidade de indivíduo e gênero, abre-se o caminho para unificar as duas ordens de determinação e de explicação: o desenvolvimento categorial cola-se ao devir histórico. Os textos de juventude, na verdade, não fazem história no sentido estrito da palavra, mas importa o fato de procurarem compreender o sentido dela por um processo de totalização em que as formas teóricas determinantes e o devir da realidade percorrem o mesmo sentido. No fundo o desenvolvimento formal da alienação ilumina as significações da história. Dado isso, a riqueza do homem individual está sempre aquém das estruturas objetivas constituídas por sua ação, a existência da pessoa pulsa mais forte do que a objetividade social. De outra parte, como essa objetividade provêm do entrelaçamento das pessoas como fontes de significações vividas, a ação individual e o enredo é que delineiam o espaço social em suas múltiplas dimensões. A fixação e revalidação das significações vividas pelo enredo aproximam a dialética do carecimento e as outras da mesma espécie, oriundas da Fenomenologia do Espírito, ao romance realista. Nele encontramos a mesma imbricação das duas ordens determinantes, a mesma força constituinte do enredo, a mesma restrição ao estudo das intenções aparentes ao sujeito da ação. Não é pois embalde que tal sorte de investigação tente todos aqueles que procuram furtar-se das penas da pesquisa científica, cuja tarefa consiste precisamente em triturar os significados vividos por intermédio do emprego sistemático da análise estrutural. Além do mais, essa posição não corresponde às exigências de endeusamento da individualidade burguesa?
O jovem Marx teve o mérito de ser um dos primeiros a utilizar essa dialética no sentido inverso do criado por Hegel. Em vez de redundar na legitimação do status quo, o procedimento invertido desemboca numa crítica penetrante das relações aparentes do mundo capitalista. Mas para chegar a esse resultado precisou supor realizável um ideal de trabalho harmonioso que haure fora da história sua força determinante. Por isso assume a mesma posição do escritor que observa seus personagens, oriundos de comunidades onde tudo está na medida do homem, serem deglutidos pela avareza e pela ambição da capital. Os textos do jovem Marx possuem, em suma, a mesma verdade de um romance de Balzac.
1 Engels: Ludwig Feuerbach und der Ausgang der Klassischen deutschen Philosophie, W. 21, p. 263.
2 Zur Kr. p. 7-8.
3 DI. p. 27.
4 DI. p. 28.
5 DI. p. 28.
6 DI. p. 21.
7 DI. p. 28.
8 DI. p. 29.
9 DI. p. 29-30.
10 DI. p. 31.
11 DI. p. 42.
12 DI. p. 43.
13 DI. p. 5 (1.ª tese).
14 Marx: Randglossen zu Adolph Wagner, W. 19, p. 371; DI. p. 19, 40, 42, etc.
15 DI. p. 6 (6.ª tese).
16 DI p. 38.
17 KHR. p. 222.
18 DI. p. 69.
19 Posfácio à Zur Kr. p. 617.
20 Idem, p. 632.
21 Idem, p. 632.
22 G. p. 383.
23 K. I. p. 183.
24 Posfácio à KPO. p. 632. Engels: Engänzung und Nachtrag zum III Bunche des “Kapital”, W. 25 p. 909.
25 G. p. 258-263.
26 K. I, p. 49.
27 K. I, p. 51.
28 K. I, p. 41.
29 Cf. Althusser: Sur la dialectique matérialiste, p. 28.
30 K. III, p. 871.
31 Cf. Zu Wagner, p. 358 e segs.
32 Marx a Engels – 24 agosto, 1864.
33 Zur Kr. p. 15.
34 G. p. 507.
35 G. p. 507.
36 Zu Wagner, p. 368.
37 Zur Kr. p. 20.
38 Zu Wagner, p. 386.
39 K. I, p. 55.
40 Zu Wagner, p. 370.
41 Zu Wagner, p. 369.
42 G. p. 119.
43 G. p. 902.
44 G. p. 502.
45 K. I, cap. XXIV.
46 K. I, p. 741.
47 G. p. 506.
48 Em não compreender o caráter substantivo do valor e, portanto, em não levantar o problema da constituição, consiste, a nosso ver, a principal deficiência de Paul M. Sweezy: Teoria do desenvolvimento capitalista; que dá ao valor, por assim dizer, uma interpretação behaviorista. Dai a necessidade de separar o aspecto qualificativo do quantitativo.
49 G. p. 911.
50 G. p. 153.
51 G. p. 155; K. I, p. 189.
52 G. p. 905.
53 G. p. 905.
54 G. p. 75, passim.
55 G. p. 75.
56 G. p. 75, passim.
57 G. p. 154.
58 G. p. 154-155.
59 G. p. 922-923, zur Kr., chap. I
60 C. p. 920.
61 G. p. 38 a 45.
62 K. I. p. 161 G. p. 941.
63 K. I, p. 162.
64 K. I, p. 169.
65 K. I, p. 176-7.
66 K. I, p. 178.
67 K. I, p. 181.
68 K. I, p. 189.
69 K. I, p. 192.
70 K. I, p. 193; G. p.61.
71 K. I, p. 193.
72 G. p. 208.
73 K. I, p. 196 nota 7.
74 K. I p. 198-9; Cf. Zu Wagner, p.374.
75 G. p. 506-7, 905.
76 G. p. 163.
77 G. p. 908; Cf. Zur Kr. p. 31.
78 G. p. 194.
79 G. p. 135.
80 G. p. 135.
81 G. p. 137.
82 G. p. 183.
83 K. III, p. 191.
84 K. I, p. 181.
85 K. I, p. 65-6.
86 Marx a Engels, 24-agosto-1864.
87 G. p. 507.
88 K. I, p. 207-8.
89 G. p. 203-4.
90 G. p. 266.
91 K. I. p. 532.
92 K. II, p. 159.
93 K. I, p. 391.
94 K. I, p. 400-1.
95 G. p. 585.
96 K. III, p. 823-4.
97 K. III, cap. 48.
98 G. p. 258.
99 G. p. 392.
100 K. III, p. 628 nota 26.
101 G. 391.
102 G. p.392. Observe-se a mesma expressão dos textos de juventude.
103 G. p. 395.
104 Marx a Proudhon, 24, fevereiro, 1865; KPÖ. p. 9.
105 G. p. 391.
106 K. III, p. 885.
107 K. I, p. 86.
108 K. I, p. 91.
109 É sabido que a maior contribuição ao estudo da reificação foi dado por Georg Lukács, sem dúvida o maior filósofo marxista contemporâneo. No que respeita a nossa problemática, cabe-nos salientar ter sido esse pensador quem nos chamou a atenção para os aspectos constitutivos da teoria marxista.
110 K. I, p. 144, segs.
111 K. I, p. 94.
112 Cf. Claude Lefort, L’Aliénation comme concept sociologique.
113 K. I, 173.
114 K. III, p. 834.