Origens da dialética do trabalho: estudo sobre a lógica do jovem Marx
2. O descrédito da lógica formal
inalteráveis durante todo o processo constitutivo.11 Não ocorre, como na Lógica hegeliana, a constituição de significações a partir de outras mais primitivas. Como veremos adiante, o processo constitutivo diz respeito apenas à formação de entidades-fantasmas, que propiciarão seus objetos à filosofia e à religião. No fundo, dá-se apenas a constituição de ilusões mentais, de fenômenos patológicos
do espírito 12, que encontrarão remédio nos domínios da psicologia social. A dialética feuerbachiana fundamenta-se destarte num psicologismo antropológico, cujo mérito reside na indagação do estatuto ontológico das entidades com que laboram filosofia e religião, em investigar se de fato são objetos reais ou meras representações mentais. Mas como não há constituição de novos significados, pois tudo já reside na essência humana, a ciência deve resumir-se em espelhar o dado imediato, de sorte que não há qualquer criação intelectual que vá além da interpretação sensível. O problema a estudar diz respeito apenas à maneira pela qual a essência do homem, ainda que exista pela ação, consiste numa série de determinações naturais.
2. O descrédito da lógica formal
O exame das ideias de Feuerbach sobre o pensamento formal nos fará compreender melhor a natureza de sua lógica da percepção e dos mecanismos psicológicos que a fundamentam. Em virtude da orientação psicologista, as estruturas formais de uma teoria não possuem nem autossuficiência nem independência em relação a seus conteúdos. Nada mais há do que o concreto a desenvolver-se no tempo, sendo tudo o que respeita às estruturas formais propriamente ditas relegado ao nível arbitrário e desimportante da comunicação. Se me ponho, por exemplo, a ler a Lógica de Hegel, o conhecimento inicial é o mais indeterminado possível. Na medida porém em que progrido na leitura, delineiam-se os conhecimentos iniciais que assim se fixam e se determinam somente graças ao desenvolvimento expositivo. Não há saber que não seja discursivo nesta altura do aprendizado. Minha tarefa porém não consiste em estender-me indefinidamente pela exposição adentro. Ainda que releia mais de uma vez esse livro difícil, haverá um momento em que o fecho e me dou por satisfeito. Cessa o processo discursivo e temporal, a exposição se afasta para dar lugar ao saber imediato, à
ideia que se resume numa existência puntiforme. 13 “A criação de conceitos por intermédio de uma determinada filosofia não é real mas apenas formal, não é criação do nada mas tão – somente o desenvolvimento de uma matéria espiritual que reside dentro de mim e que era antes indeterminada na medida em que era capaz de receber todas as determinações. A filosofia só traz para a consciência o que posso conhecer e vincula-se às minhas
faculdades intelectuais”. 14 Em suma, a exposição pressupõe um depósito de verdades anterior ao discurso, uma mensagem a que as formas da linguagem apenas darão corpo. Se a filosofia fala, é para mais tarde se calar na apreensão do fato originário que, como veremos em seguida de modo mais pormenorizado, se identifica com a existência sensível, desvinculada da demonstração e certa de si mesma. Somente aqueles que não compreenderam a natureza substitutiva e secundária do discurso, que não perceberam estar o início da filosofia além da linguagem e ser o gênio capaz de apreender imediatamente no sangue e na carne o que o homem
talentoso precisa descobrir passo a passo, 15 acreditarão, como Hegel, que não há verdade sem comportar em si mesma uma forma específica de mediação.
No processo de explicitar os conteúdos primitivos, Feuerbach distingue dois momentos: 1 – o que respeita ao pensamento propriamente dito; 2 – o que permanece no nível da linguagem e da comunicação. Por mais estranho que pareça, o pensamento está originariamente desvinculado da demonstração e da expressão. É
em si mesmo atividade imediata,16 ato puro capaz de ultrapassar os limites naturais e até mesmo de pretender que o concreto venha a ser uma de suas determinações. Neste caso, “vem referido ao pensamento o que é próprio da intuição, torna-se função e objeto do pensamento o que é função dos sentidos, da sensação, da vida, isto é, o concreto transformado num predicado do pensamento, o Ser na
mera 17 determinação do pensamento” . O concreto porém resiste à generalização indevida do pensar, limita suas pretensões absolutistas, nega a universalidade vazia da palavra ao se propor
como o inefável,18 determina e diferencia, por fim, o pensamento, que não chegaria a determinação alguma nem a qualquer oposição se permanecesse no mero confronto de si mesmo. Por isso, só alcança a verdade o pensamento que deixa de proceder na linha
reta da identidade de si para ser permeado pelo sensível. 19 Assim sendo, a sensibilidade não só nega a predominância do puramente teórico, afirmando o primado do prático e do subjetivo, mas é também a própria realização do pensamento que se vê completado, negado e incorporado nela. “Realizar-se para o pensamento significa negar-se, deixar de ser mero pensamento. Mas o que é então esse não pensar, esse diferenciar-se do pensamento? O sensível. Realizar-se para o pensamento significa pois tornar-se
objeto dos sentidos”.20
No entanto, se quero transmitir a atividade originária do pensar, necessito de instrumentos de linguagem que levem o outro a efetuar as mesmas intuições a que cheguei. Aliás, seria absurdo dar precedência às formas de comunicação sobre o pensamento, pois estas só podem obter o resultado a que se propõem se no interlocutor ocorrerem pensamentos paralelos aos meus. A comunicação linguística é espiritual, e não estabelece entre os pensamentos relacionados um sistema como o de vasos comunicantes. Assim, comunicam-se apenas os instrumentos e não
as próprias coisas.21 Na verdade, confundem-se em geral os modos de expressão com as formas do entendimento. No entanto, “a razão pela qual consideramos as formas de comunicação, os modos de expressão como formas fundamentais da razão e do pensamento em si e por si, depende da necessidade de apresentar e de expor, não só para nós mesmos mas também para os outros, a fim de alcançar uma consciência mais clara, nossos pensamentos fundamentais que nascem imediatamente do gênio do pensar e nos vêm sem que saibamos como, sendo-nos dados com nossa própria essência; enfim, somos nossos próprios instrutores e em geral já no próprio pensar exprimimos e exteriorizamos nossos
pensamentos”.22 Em suma, a linguagem provém da necessidade inerente ao ser humano de se comunicar consigo mesmo e com outrem, mas os conteúdos do pensamento não se alteram com o fato de serem comunicados. A verdade do pensamento é desse modo verdade induzida das coisas. São os objetos materiais ou espirituais os verdadeiros, e a comunicação e a demonstração em nada modificam a natureza verdadeira dos seres.
A separação radical entre o pensamento e as formas lógicas de comunicação faz-se em vários tempos. Em primeiro lugar, reduz-se
a palavra à imagem, à coisa imaginária.23 Além do mais, posto que a sensibilidade precede o pensamento na ordem do ser e que para
ela todas as palavras são nomes próprios,24 podemos concluir que não se confere ao verbo função cognoscitiva alguma que não esteja ligada à função representativa do nome próprio. Ou os verbos também seriam nomes, como para Aristóteles, ou seriam apenas vínculos substituíveis entre os nomes. Importa porém salientar que Feuerbach é levado a atribuir ao nome, na qualidade de representante das coisas, toda função de conhecimento, prejudicando assim a força constitutiva do juízo. Aliás, era de prever-se tal atomismo linguístico pois, se o conhecimento nada mais é do que a apreensão de átomos sensíveis comunicáveis, não se pode conceder ao juízo outro papel senão o de reforçar a função retratante dos nomes. Obviamente o juízo nada pode criar no nível da sensibilidade.
Em segundo lugar, a verdade é desligada da demonstração, de sorte que não existe verdade formal. A consequência obtida por intermédio de uma cadeia de proposições aceitas é uma verdade em si e por si. O valor de verdade não lhe advém do fato de ser o ponto terminal de uma cadeia de inferências, mas simplesmente de retratar a coisa em toda perfeição. As premissas são apenas indicações que conduzem o espírito à apreensão dessa verdade em si, apreensão que depois de feita esquece os mecanismos auxiliares. Demonstrar, enfim, nada mais é do que persuadir. “Toda demonstração não é pois mediação do pensamento em e para o próprio pensamento, mas mediação por intermédio da linguagem entre o pensar enquanto meu e o pensar de outro enquanto é seu…, ou a mediação do eu e do tu para o reconhecimento da identidade da razão, ou ainda uma mediação em que confirmo que meu pensamento não é meu mas pensamento em e para si e, por
conseguinte, pode tanto ser meu pensamento como de outrem”. 25 E logo em seguida: “Provar nada mais significa senão que outro (possível ou real) é levado a adotar minhas convicções. A verdade reside apenas na unificação do eu e do tu. O outro do pensamento puro é em geral o entendimento sensível. A prova no domínio da filosofia consiste então em que a contradição do entendimento sensível com o pensamento puro é dominada, o pensamento não é verdadeiro para si mas para seu contrário, porquanto se também cada pensamento verdadeiro é verdadeiro por intermédio de si mesmo, isto só acontece para um pensamento que exprime uma oposição; enquanto seu testemunho de si mesmo for exclusivamente subjetivo, unilateral e duvidoso, então estará ainda
se apoiando sobre si mesmo”. 26 À primeira vista, os textos citados parecem negar a autonomia, a separação e a materialidade da verdade, já que afirmam sua natureza profundamente relacional. Ademais, a todo momento Feuerbach está a declarar que a verdade nasce do acordo entre os homens e que a espécie é a sua única medida. É preciso porém não confundir o caráter absoluto e autônomo da verdade material, que provém do fato de estar inteiramente separada das formas lógicas, com sua natureza social e coletiva. Aliás, a teoria da comunicação tal como a estamos comentando implica na identidade do pensamento individual e da espécie, numa razão e numa sensibilidade coletivas que permitem às formas de comunicação serem apenas artifícios, a trazer à luz verdades que cada um guarda dentro de si. Como veremos mais abaixo, o sensível, na medida em que se define em oposição ao pensamento puro, desprovido de verdade em si, terá conotação muito diferente da que lhe empresta o empirismo, de sorte que a natureza da verdade material não se reduz à verdade da sensação. Nesta altura de nossa exposição crítica, é suficiente assinalar que, ao separar demonstração e verdade, Feuerbach confere a esta última uma realidade independente do discurso; se está vinculada ao homem, é porque tudo se inclui dentro de seus domínios. Em suma, verdade se identifica à realidade, e como esta será antes de tudo a realidade da espécie, a verdade dependerá da unanimidade de opinião existente entre os indivíduos. As formas lógicas não possuem nenhum valor de per si, não exprimem nem a estrutura do entendimento nem põem a nu a objetividade de uma estrutura formal definida: são apenas veículos, expedientes que nos conduzem à unanimidade da intuição. Numa fórmula famosa do jovem Marx, a lógica é o dinheiro do espírito.
Feuerbach, finalmente, não deixou de perceber o mecanismo hegeliano da posição, descreve-o nos seguintes termos: “O conceito, por exemplo, já é em si mesmo o juízo mas não está ainda posto como tal, o juízo já é em si o silogismo mas ainda não está posto como tal, isto é, realizado. O anterior já pressupõe o posterior, não obstante dever apresentar-se por si a fim de que esse pressuposto (a saber o posterior), que em si é o primeiro, venha posto de novo por si mesmo. Em consequência desse método, Hegel objetiva (verselbständigt) determinações que por si não possuem realidade alguma. Isto acontece com o Ser no início da Lógica. Que significação possui o Ser senão a de Ser real e
efetivo?” 27 A divergência entre os autores tem origem nas acepções diversas da palavra Ser. Enquanto Hegel a toma em seu sentido mais abstrato, Feuerbach entende por Ser somente o ser
determinado, 28 real e efetivo, pleno de determinações. Já que ser é então a efetividade em sua plenitude, o percurso que vai do Ser indeterminado ao ser concreto não tem nenhum sentido ontológico nem corresponde a qualquer processo constitutivo. No máximo descreve o curso do conhecimento que vai da representação à coisa. Todas as formas de realidade são projetadas num único plano e por real entende-se um só tipo de coisa. Dado isto, não resta à posição qualquer papel constitutivo e de um só golpe todo o idealismo lógico de Hegel cai por terra. Não há mais lugar para o enriquecimento e para a objetivação paulatina das categorias. Entre o pensar e o ser abre-se um abismo intransponível, e se Feuerbach ainda conserva o uso da palavra posição é para indicar que nada mais significa além da permanência determinada da existência: Das
Sein ist die Position des Wesen.29 No plano lógico desaparecerá até mesmo a distinção entre consideração e asserção, a linguagem não poderá ter outra estrutura do que um sistema de sinalização, onde não se distinguem a afirmação e a negação da mera indicação de um objeto qualquer. Por isso Feuerbach propõe que em vez de se utilizar a palavra hegeliana “setzen” empregue-se simplesmente