Origens da dialética do trabalho: estudo sobre a lógica do jovem Marx
5. O trabalho determinante
Bentham, diz Marx ironizando.68 O consumo porém da força de trabalho produz mais valor do que o dela própria, mais-valia que passa às mãos do capitalista pelo simples fato de este possuir os meios de produção. Importa salientar a especificidade da exploração capitalista. Não há mais a força bruta que se apropria direta mente do trabalho excedente do escravo ou do servo. Tudo se passa no reino igualitário do valor, duma substância social sujeito, cuja prole vai diretamente cair no bolso do empresário. Muitos bons autores ainda confundem a apropriação da mais-valia com a exploração do trabalho excedente feita pelo particular ou pelo estado. Com isso, porém, destroem a especificidade assinalada, reduzindo-se o problema da criação de um novo ser social ao de uma melhor ou pior organização do sistema produtivo.
Chegamos ao término de nosso resumo. Em que pese ao seu esquematismo, nos fornecerá os elementos necessários à discussão das três noções básicas tratadas nos textos de juventude: a de trabalho, a de propriedade e, finalmente, a de alienação.
5. O trabalho determinante
Tomemos o trabalho em sua determinação mais abstrata e universal. É antes de tudo transação entre o homem e a natureza, onde o primeiro por meio de sua própria atividade controla e regula um sistema de trocas energéticas com o segundo, ambos
constituindo os momentos da mesma totalidade dinâmica. 69 No processo, o objeto adquire uma forma útil ao homem; esse, por sua vez, amplia suas faculdades potenciais. Marx porém não se demora nesta análise do trabalho em seu estágio primitivo e ainda ligado ao instinto. “Nosso ponto de partida é o trabalho numa forma que pertence exclusivamente ao homem. A aranha faz operações semelhantes às do tecelão e a abelha envergonha muitos arquitetos ao construir suas células de cera. Mas desde logo o pior arquiteto se distingue da abelha mais hábil, porquanto constrói sua célula na cabeça antes de construí-la na colmeia. No fim do processo de trabalho obteve-se um resultado que no início já estava na representação do trabalhador, estando pois presente idealmente. O trabalhador não apenas opera uma alteração na forma dos objetos naturais, mas também, ao mesmo tempo, realiza neles o escopo consciente, que determina seu modo de agir como se fosse uma lei a subordinar sua vontade. A mais do esforço dos órgãos trabalhadores faz-se pois mister, durante todo o trabalho, uma vontade orientada que se externa na atenção, tanto maior quanto o trabalho, por causa de seu conteúdo e de sua forma de execução, menos entusiasmar o trabalhador; este cada vez menos o desfruta
como o jogo de suas forças corporais e espirituais”.70 Além de alterar a forma da natureza, o trabalho em suma realiza um projeto.
São três os momentos elementares do processo de trabalho: a
atividade orientada ou o próprio trabalho, o objeto e seu meio. 71 A terra é o objeto universal e as coisas nada mais são do que pedaços da terra separados pelo trabalho. Instrumentos são todas as coisas ou conjuntos de coisas a interporem-se entre o trabalhador e seu objeto como condutores da ação. Marx lembra a tese de Franklin: o homem é essencialmente um toolmaking animal, a tal ponto que é possível distinguir as épocas econômicas pela maneira diversa de utilizar diferentes instrumentos de produção. Dentre esses devemos contar também as condições materiais indispensáveis à produção: em primeiro lugar a terra como locus standi do trabalho, em seguida as oficinas, as estradas, os canais etc. Finalmente, no que respeita à atividade, convém acentuar ainda mais seu caráter intencional e voluntário, sua tensão para o objeto a transformá-lo numa coisa apropriada ao uso humano. No processo, a atividade combina-se com o objeto e esse com o trabalhador, numa simbiose que termina com a humanização do produto e na efetivação do agente. Como resultado dos três momentos temos pois o produto neutro onde esses fatores são consumidos, numa negação positiva que, em lugar de esgotar-se em si mesma, redunda na formação de um novo objeto. “O consumir não é o mero consumir da matéria, mas o consumir do próprio consumir, na superação da matéria a superação dessa superação e portanto a posição dela. A atividade doadora de forma consome o objeto e se consome, mas consome apenas a forma dada do objeto a fim de o pôr numa forma objetiva; consome-se a si mesma tão somente em sua forma subjetiva enquanto
atividade”.72 Desse ponto de vista, o trabalho é dito produtivo, não porém produtivo de valor, a única característica que interessará ao
sistema capitalista. 73 No entanto, já neste nível abstrato da análise, se considerarmos o desenvolvimento da produção social, verificamos que o objeto de trabalho imediato contém cada vez mais traços de trabalho anterior; hoje é muito raro encontrarmos um objeto puramente natural. Desde logo, trabalho e natureza aparecem pois indissoluvelmente ligados.
O lugar ocupado por essa análise, no curso do desenvolvimento teórico das categorias fundantes do modo de produção capitalista, indica claramente seu caráter abstrato e o intuito do autor de contrapô-la à investigação modal. A descrição do processo de trabalho aparece depois de Marx ter estudado a transformação do dinheiro em capital e indicado a necessidade de o empresário encontrar no mercado a força de trabalho, única mercadoria capaz de dar início à valorização do capital. O interesse de Marx centra-se pois em opor o trabalho abstrato comum a todos os sistemas produtivos ao trabalho caracterizadamente capitalista: “O processo de trabalho tal como acabamos de expor em seus momentos simples e abstratos – atividade orientada para a produção de valor de uso, apropriação dos objetos naturais para os carecimentos humanos – é a condição universal da troca de matéria entre o homem e a natureza, a condição natural eterna da vida humana e, por isso mesmo, independente de qualquer forma dessa vida, sendo antes igualmente comum a todas as suas formas sociais. Não foi preciso assim considerar as relações de trabalhador a trabalhador. Bastaram o homem e seu trabalho, por um lado, a natureza e seus
materiais, por outro”.74 Observe-se que no caso a investigação se situa antes da história, na tentativa de explicitar suas condições abstratas. Nessas condições, se pretendermos levar a cabo uma investigação sobre o trabalho, não nos resta outro recurso senão o de nos transladar para um modo de produção determinado. Já que Marx somente procedeu ao estudo do sistema capitalista, nada mais natural do que nos atermos a ele. Certamente as características essenciais do trabalho se modificarão conforme formos progredindo no movimento dialético de constituição. Desse modo, cabe-nos iniciar pelo trabalho correspondente à circulação simples e chegar até as consequências mais importantes da circulação ampliada.
Se os agentes trocam simples produtos do próprio trabalho, a produção deve exercer-se fora dos limites da troca, na qualidade de ação a apropriar-se da coisa. Trabalho e propriedade estão dessa maneira intimamente ligados, o produto resulta exclusivamente do
trabalho, é enfim trabalho e valor.75. Já sabemos que estamos então no reino da igualdade jurídica, do contrato, da liberdade, etc. O próprio movimento do valor todavia cristaliza as relações sociais e as projeta como relações entre coisas, adquirindo o produto a universalidade que não possuía como manifestação imediata do trabalho individual. “A existência do valor em sua pureza e universalidade supõe um modo de produção onde o produto singular deixa de ser tal para o produtor e, com maior razão, para o trabalhador, nada sendo sem a realização operada pela circulação”
76. O trabalho torna-se abstrato, simples dispêndio de energia indiferente às suas manifestações particulares e, como o produto também é trabalho, embora morto e incorporado à coisa, o trabalho aparece por toda parte: de um lado, força viva e abstrata pronta a entrar em ação; de outro, coisa substantivamente alterada e posta a serviço de um fim social predeterminado.
No entanto, antes de examinar a oposição entre trabalho vivo e trabalho morto, convém esperar que atinja sua maturidade e se ponha como a contradição entre capital e trabalho. Por ora cumpre-nos seguir o processo de abstração e formalização do trabalho através das vicissitudes por que passa seu produto. “O produto do trabalho particular deve comprovar-se como objetivação do trabalho universal e social, tomando a forma da coisa que se supõe ser a única imediata objetividade do trabalho universal: o dinheiro; esse very process põe o trabalho universal como coisa exterior, como dinheiro, constituindo essas determinações a mola e o pulsar da própria circulação. As relações sociais que daí resultam decorrem por isso imediata mente da consideração da circulação simples, não se situando atrás dela como acontece com as relações econômicas
inclusas na divisão do trabalho”. 77 Posto o dinheiro como produto ideal, o trabalho do indivíduo configura-se como a única maneira
adequada de participar da riqueza universal. 78 “Como representante material da riqueza social, como valor de troca individualizado, o dinheiro deve ser imediatamente objeto, fim e produto do trabalho geral, o trabalho de todos os indivíduos. De imediato o trabalho deve produzir valor de troca, isto é, dinheiro. Há de ser por isso trabalho assalariado. A procura do enriquecimento, estímulo de todos pois cada um pretende produzir dinheiro, cria apenas a riqueza universal… Já que o trabalho é assalariado seu escopo imediato é o
dinheiro e a riqueza social é 79 posta como seu fim e seu objeto”. Desse momento em diante o trabalho deixa de visar o produto singular cuja função era satisfazer uma necessidade determinada do produtor. O indivíduo nele vê apenas o instrumento vicário, embora imprescindível, que lhe permite participar da riqueza social; por isso está sempre pronto a abandonar sua especialidade tão logo anteveja outra mais rendosa. Qualquer forma de trabalho presta-se então a seu objetivo, qualquer carência lhe trará benefício e pouco lhe importa o sentido social da atividade produtiva ou do
carecimento.80 Nesta altura, o sentido social da produção nega sua função de objetivar a personalidade dos indivíduos. Nos antigos modos de produção, quando o dinheiro não havia alcançado seu pleno desenvolvimento e não orientava por conseguinte o sentido da produção global, o trabalho aparecia nesta ou naquela esfera como a objetivação do indivíduo, mais ou menos perfeita conforme o grau a que chegava no processo de sua própria individualização. Quando porém o valor de troca e o dinheiro passam a constituir o escopo final do processo produtivo, “a objetivação do indivíduo não se põe em sua determinabilidade natural, mas como determinação (relação)
social, que entretanto lhe é ao mesmo tempo exterior”. 81 O trabalho perde sua estrutura natural, ligada até então ao artesanato, para ganhar novas determinações.
Para que o salário venha a realizar-se plenamente é preciso que se converta em pagamento da força de trabalho e, para isso, defronte-se com o capital. Sua cabal efetuação implica, em outros termos, na formação do trabalho e do capital como polos radicalmente antagônicos. De ambos os lados o trabalho continua a estar presente, quer na qualidade de trabalho morto e coagulado, quer na de trabalho vivo, reclamado pelo primeiro para sua manutenção e incremento. Não se trata porém de uma determinação simples e formal que se realizaria nesta ou naquela parte segundo diferenças específicas próprias, nem mesmo de um momento abstrato a coabitar objetos diferentes. Os termos se definem um pelo outro, sem pressupor um fundamento, um fulcro substancial onde se sucederiam as determinações opostas. O que resta então das determinações simples do trabalho concebido como uma relação direta do homem com a natureza? Que papel desempenharão na nova constelação definidora do trabalho?
Vejamos rapidamente como se processa a subversão das determinações abstratas. Em última instância, qualquer produção visa o consumo, pois os produtos mais cedo ou mais tarde acabarão por satisfazer a necessidades individuais ou coletivas. Mas ao subordinar ao lucro a totalidade de sua produção, o sistema capitalista não vê mais no consumo o objetivo primeiro de sua ação. Por mais que os capitalistas mistifiquem e procurem transformar as empresas em obras de criação desinteressada, o lucro é a condição sine qua non de sua sobrevivência. Embora outras intenções subjetivas movam de fato os agentes separados, isto nada afeta o fato da intenção de lucro configurar um momento objetivo inscrito no sentido da empresa. Forma, por assim dizer, o bastidor transcendental onde se tecem os outros conteúdos intencionais. De modo correspondente, “o trabalho como mero serviço para a satisfação de carecimentos imediatos nada tem a haver com o
capital, que de forma alguma está à sua procura” 82. O empresário não se interessa pelo trabalho como mera prestação de serviços nem toma seus operários como simples empregados domésticos. Procura ao contrário satisfazer a uma necessidade social, que por
isso se identifica à oferta e à procura.83 Inseridos no contexto social, os conteúdos efetivos do carecimento individual passam a ser determinados pela sociedade, adquirindo força determinante somente quando conseguem afetar o equilíbrio da oferta e da procura. Na verdade, os homens continuam a desejar objetos fora de seu alcance. A esses estados subjetivos contudo Marx não mais atribui qualquer importância, enquanto não forem traduzidos numa relação social atuante.
Retomemos porém a contradição entre capital e trabalho. O que para ela significa a força de trabalho? “Por força de trabalho ou capacidade de trabalho entendemos o conjunto das aptidões físicas e espirituais que existem no corpo e na personalidade viva de um homem, postas em movimento tão logo ele produza valores de uso
de qualquer tipo”. 84 Mas essa definição é abstrata, encara seu objeto do ponto de vista subjetivo e descura, por conseguinte, sua especificidade como mercadoria. Devemos portanto procurar defini-la em sua relação com o capital. Sob esse aspecto a primeira característica a ser apontada diz respeito à sua vinculação com o valor: “Força de trabalho em estado fluido ou trabalho humano cria valor mas não é valor. Só o vem a ser no estado sólido, na forma objetiva. A fim de exprimir o valor de um tecido como coágulo de trabalho humano, deve ser expressa como ‘objetividade’ que difere materialmente (dinglich) do próprio tecido sendo, ao mesmo tempo,
comum a outras mercadorias”. 85 A distinção de duas formas de trabalho formulada nesse texto foi considerada por Marx a mais
importante contribuição do primeiro volume d’ 86 O Capital . Responde com efeito a uma série de dificuldades do pensamento econômico da época e institui a base onde se assenta o desenvolvimento dialético da obra. Para os nossos fins, importa sobretudo salientar que, posta a separação entre o trabalho, visto “de um ponto de vista psicológico, em relação ao divertimento e à
tristeza”, 87 e o trabalho objetivo tomado como valor, a força de trabalho vem encarnar em si mesma os dois polos da contradição. De um lado é força viva, capacidade de ação, de outro, mercadoria, trabalho social coagulado, cuja medida é fixada pelo tempo de trabalho abstrato necessário à sua criação e reprodução. E como “o trabalho passado incorporado à força de trabalho e o trabalho vivo capaz de efetuar, seu custo diário de manutenção e seu dispêndio
diário constituem duas grandezas totalmente diferentes”,88 o valor produzido pela força de trabalho logra ser maior que seu próprio valor. No entanto, porque o trabalhador não possui seus próprios meios de produção, isto é, o capital necessário para efetuar as potencialidades inscritas em si, a união dos dois trabalhos no trabalhador resulta na mais completa separação e alienação. Como trabalho subjetivo firma-se diante dos instrumentos de produção não trabalho objetivado, como não valor, enfim, como negatividade que
se reflexiona sobre si mesma enquanto pura subjetividade.89 De outra parte, avaliada no mercado como mercadoria qualquer, a força de trabalho é trabalho morto e coagulado, coisa bruta e exterior à espera do alento vivificante do capital.
A mercadoria, a força de trabalho, o capital, a mais-valia e as demais configurações do sistema capitalista denotam no fundo diferentes formações do mesmo trabalho a conformar a natureza e a nela inserir o tempo criador: trabalho é fogo vivo e constituinte a transformar o caráter passageiro da coisa natural na transitoriedade
com que se apresenta para o homem. 90 Como porém se exerce sua força determinante? Provém diretamente do trabalho em sua expressão mais simples? Já vimos que no sistema capitalista o trabalho individual não possui a faculdade de determinar a substância valor; se no fundo essa nada mais exprime do que um conjunto de relações sociais cristalizadas, o último predicado retira da ação concreta individual sua autonomia e por conseguinte, seu papel fundante. Tudo se resume pois em investigar o tipo, o modo e a fonte da cristalização das relações sociais, ou melhor, a estruturação e a gênese das relações que os homens mantêm entre si tendo a natureza como termo médio fundamental. O capital é sujeito do sistema capitalista, consiste numa soma de valores que se configura da forma mais diversa, por exemplo em capital industrial, comercial ou financeiro, que resulta em lucro, juros ou renda da terra, sempre a mesma substância no processo de autovalorização. Mas a substância não é mais do que a face constituída de um conjunto de ações sociais constituintes, não definidas na plurivocidade do concreto mas exclusivamente pelas condições mínimas de seu entrelaçamento. É parte essencial desse conjunto o trabalho subjetivo, quer se apresente como trabalho operário quer como a atividade do contador, do empresário ou do financista. No entanto, os pressupostos do sistema retomados na sua efetuação fazem do trabalho operário o único a dar vida ao trabalho morto acumulado nos vários setores da sociedade capitalista. Somente ele é o motor impulsionando o sistema, as demais formas de atividade limitam-se a amoldar nas feições mais diversas a mesma matéria candente e a preparar e melhorar os meios de sua exaustiva exploração. Cada forma ou cada categoria corresponderá a um tipo de ação, mas o conteúdo e sentido da praxis individual são postos por elas. Em outras palavras, a finalidade desenvolvida por cada trabalho particular, que é sempre uma atividade orientada, fica subordinada em última instância ao objetivo da produção capitalista: a valorização do capital, e, nas instâncias intermediárias, a cada categoria particular que se põe como fim em si. Sejam quais forem os fins particulares de cada agente, o sentido de sua ação já está previamente determinado pelo movimento de realização e destruição do sistema.
Os textos de juventude pretendiam estabelecer a continuidade entre os fins imediatos do trabalho e a finalidade geral do sistema capitalista. Daí tomarem como ponto de partida uma fenomenologia do trabalho individual. De agora em diante, as finalidades objetivas são postas no decorrer da evolução do sistema de modo que a praxis individual conforma-se ao sentido geral pressuposto. Desse modo, a fenomenologia das intenções individuais necessariamente é posta de lado. Vejamos, por exemplo, como se define a produtividade do trabalho. Somente é dito produtivo aquele capaz
de produzir mais-valia. 91 Isso não quer dizer que as outras formas de trabalho são desnecessárias; ao contrário, sem elas a produtividade do trabalho operário cairia no vácuo. No entanto, ele é o único que resulta na valorização do valor e, portanto, que confirma e justifica o sistema. As condições subjetivas de sua realização não afetam a sua produtividade. A aula de um professor, por exemplo, ministrada num colégio público, entidade cuja função é prestar serviços, não é economicamente produtiva, o é porém a mesma aula proferida num colégio particular, onde o professor é assalariado por uma instituição gerida pelo interesse de lucro. Do ponto de vista subjetivo, a intenção pode ser a mesma em ambos os casos: ganhar o seu sustento e exercer uma função socialmente útil, mas perdura apenas a intenção objetiva que o sistema lhe empresta.
Não há porém maior subversão no esquema do trabalho subjetivo do que a provocada pela automação. Embora Marx não tenha conhecido o automatismo das máquinas eletrônicas, nem por isso deixou de definir com precisão seu significado socioeconômico. Examinemos essa definição. Chama capital fixo o conjunto de instrumentos, instalações etc. que, auxiliando a fabricação da mercadoria, só pouco a pouco vão transferindo para ela o seu
valor.92 Representa portanto a cristalização dos esforços passados num enorme sistema de absorção de trabalho vivo. O acúmulo de capital fixo está obviamente ligado ao desenvolvimento tecnológico de nossos tempos e, dessa perspectiva, compreende-se que possui a significação histórica precisa de servir para incrementar a produtividade do trabalho e, por conseguinte, para aumentar a taxa de exploração da mais-valia. Dado isso, ao instrumento, que à primeira vista parece ter como objetivo facilitar a tarefa do trabalhador, confere-se a função mais geral de aproveitar ao máximo o exercício de uma força de trabalho que, em outras condições técnicas, não seria tão bem aproveitada. Isso explica porque o empresário somente substitui o trabalho vivo pela máquina, por mais degradante que seja para o operário, quando no final das contas o seu custo for inferior ao salário pago ao trabalho substituído por ela. O capitalista visa, em suma, aumentar a produtividade do trabalho, diminuir o custo dos produtos e a parte da jornada dedicada pelo trabalhador à produção do necessário para si, a fim de aumentar a parte durante a qual trabalha para ele. Dada essa determinação histórica, a moderna revolução tecnológica implica numa progressiva autonomia da máquina em relação à prática individual. As duas fases do capitalismo ligadas a essa revolução partem de pontos diferentes: a manufatura reorganiza o exercício do trabalho, a indústria transforma por completo seus
instrumentos. 93 Interessa-nos apenas a última fase. A revolução tecnológica se inicia pelo emprego do que Marx chama o “instrumento máquina” (Werkzeugmaschine): aparato intermediário entre a ferramenta e a máquina moderna que amolda num todo os instrumentos do artesão a fim de que possa ser acionado por uma única força propulsora, obtendo assim o máximo rendimento. Constitui o elemento simples da produção mecânica e, libertando-se da força muscular, termina por emancipar o trabalho de seus limites naturais. Concomitantemente, a transformação técnica inicia o processo de reestruturação do trabalho subjetivo. O operário não mais enfrenta o objeto provido de um instrumento individual, resta-lhe agora apenas a função de vigiar e alimentar o instrumento-máquina, pois esse outorgou à força motriz um caráter de tal modo acidental e abstrato que pode ser indiferentemente substituída pelo vento, pela água e, na época de Marx, principalmente pelo vapor. O trabalho artesanal, sempre pronto a amoldar-se aos imprevistos da criação, passa a imitar os movimentos mecânicos. Além do mais, altera-se o próprio princípio da organização do trabalho. No início, transfere-se simplesmente para a indústria a divisão de trabalho vigente na manufatura: a operação manual do indivíduo trabalhando isolado ou em grupo cede lugar a um processo parcial mecânico. Paulatinamente o processo subjetivo de organizar o sistema da produção é substituído por outro objetivo, emancipado das faculdades individuais. O processo global é considerado em si mesmo, analisado em seus princípios constituintes, distribuído em diversas fases conforme a necessidade do objeto. Tudo se resume então em determinar e executar cada processo parcial e, por fim, ligá-lo a um todo, graças ao uso exclusivo da ciência. Finalmente a própria forma da máquina deixa de recordar a antiga estrutura do processo produtivo para determinar-se unicamente por seu princípio mecânico. Com essa revolução das formas, obtém-se maior continuidade na produção e o sistema passa a funcionar como um
grande autômato. 94 “O processo produtivo deixou de ser o processo de trabalho no sentido de que o trabalho não é mais a unidade que o domina e o enforma. Como órgão consciente, ao contrário, aparece apenas em vários pontos do sistema mecânico, nos trabalhadores vivos e isolados; aparece disperso, submetido ao processo total da maquinaria, sendo ele próprio apenas um elo do sistema cuja unidade não está no trabalhador vivo mas na maquinaria viva (ativa) que, em face de sua atividade isolada e
insignificante, aparece como um poderoso organismo”.95 O que restou do trabalho individual enquanto expressão parcial das forças genéricas do homem? Não há dúvida de que o trabalho vivo mantém a primazia absoluta, só ele move o sistema produtivo, constituindo por consequência o motor de toda a história. No entanto, o problema está em saber como ele a move, sob que forma adquire a capacidade de dar início ao processo dialético. O trabalho subjetivo, pura negatividade em face do objeto natural, passa a resultar agora de uma longa evolução histórica: unicamente depois de a força de trabalho constituir-se em mercadoria foi possível sua existência como interioridade, subjetividade e temporalidade puras, já que só nesse momento se desliga por completo do instrumento de produção. Transforma-se num “fantasma…, na atividade produtiva do homem em geral, onde esse encontra a possibilidade de realizar uma troca de matéria com a natureza, atividade no entanto não apenas desprovida de toda forma social e de todo caráter determinado mas até mesmo, em sua mera existência natural; independente da sociedade e desobrigado de todas elas; como manifestação e confirmação da vida é comum tanto ao homem não socializado como ao homem socialmente determinado
desta ou daquela maneira”.96 Se o trabalho adquire tal abstração, os meios de produção correspondentes isolam-se da mesma maneira para constituírem um conjunto autônomo de materiais abstratos, desvinculados do processo de trabalho, com que o capitalista contribui para a realização do sistema produtivo. O trabalho em geral e o capital, entendido como os auxiliares da produção possuídos pelo empresário, passam a constituir as duas fontes da valorização da mercadoria, a que se soma a terra na qualidade de locus standi de qualquer atividade humana. Os três cavaleiros da produção em geral, no entender da economia vulgar, encontraram
suas feições. 97
Tudo indica pois que o jovem Marx ainda vê o trabalho na perspectiva da economia vulgar. Procura apenas inverter o seu sentido, mas no fundo subsiste a mesma abstração a que confere toda força determinante. Ao defini-lo como atividade orientada para um objeto natural, onde a pessoa se manifesta de forma alienada ou não, postula a possibilidade de essa pessoa apreender o sentido desse conteúdo diretamente pela descrição das dimensões visíveis de sua atividade. Daí a importância atribuída à dialética do carecimento. No momento porém em que o processo de produção se distingue do processo de trabalho, em que a força produtora de valor não é simplesmente produtora de valor de uso, carece de sentido a explicação subjetiva. Entre a intenção visada pelo indivíduo e o significado objetivo de sua atividade abre-se um abismo intransponível para quem parte do sujeito. Impõe-se assim o uso de um método capaz de isolar certas estruturas intencionais elementares e, a partir dessas objetividades postas, de constituir o sentido global que orienta o conjunto das relações de produção de um sistema dado historicamente. Do desenvolvimento desse processo retiram-se os sentidos sociais objetivos das várias formas de praxis individual. Não se trata portanto de constituir todo e qualquer sistema a partir de uma matriz invariável do trabalho, mas de descobrir em cada modo de produção qual é a forma de trabalho determinante.