Origens da dialética do trabalho: estudo sobre a lógica do jovem Marx
CAPÍTULO I: A Dialética Contemplativa de Ludwig Feuerbach
Capítulo I - A dialética contemplativa
de Ludwig Feuerbach
A reputação de Feuerbach provém de sua crítica ao Cristianismo e de seu materialismo. Tentaremos estudá-lo de outro ponto de vista, procurando depreender da análise de alguns aspectos de sua doutrina os mecanismos explicativos que os sustêm. Como é sabido de todos, seu pensamento passa por muitas fases que se estendem desde a submissa filiação a Hegel até a adesão a um materialismo que não se distancia muito do vulgar. Se nossos propósitos fossem históricos, deveríamos sem dúvida acompanhá-lo etapa por etapa, traçando o perfil de cada momento. Posto porém pretendermos conhecer somente os aspectos de sua filosofia que diretamente influenciaram a problemática moderna da dialética materialista, devemo-nos ater às obras que se relacionam com ela. Por isso examinaremos apenas os escritos que vão de 1838 a 1843, do rompimento com Hegel até a publicação dos Princípios da Filosofia do Futuro.
1. Engajamento no passado
Fiel à tradição hegeliana, Feuerbach procura situar-se em relação ao pensamento precedente, aparecer como a verdade de seu desenvolvimento e de sua história e, por conseguinte, como o arauto da nova filosofia e do novo mundo. Para cumprir essa tarefa deve prosseguir na realização e na humanização de Deus e, desse modo, terminar a transformação da teologia em antropologia, respectivamente os últimos objetivos dos movimentos da história moderna. Da perspectiva prático-religiosa, o movimento de renovação começou com o protestantismo que, de tanto centrar seu interesse na figura de Cristo, tornou-se mera cristologia. No entanto, de uma perspectiva teórica, teve seu início na filosofia especulativa. Essa tem seu apogeu no hegelianismo, cuja preocupação básica é trazer definitivamente a transcendência divina para a imanência
terrestre. 1 De ambos os lados o movimento tem, pois, como resultado a concretização das abstrações católicas, a humanização cada vez mais patente dos atributos idealizados de Deus, enfim, a transformação do Deus abscôndito no homem concreto sobre a terra. Isto posto, o teísmo passa a representar o ponto terminal do fluxo do pensamento moderno, o fecho natural de seu curso. A filosofia especulativa, por exemplo, ao fazer de Deus o processo que integra o mundo e que se resolve na imanência do saber absoluto, é ao mesmo tempo afirmação e negação de Deus: teísmo que confirma o absoluto e ateísmo que nega o Deus da teologia, o Deus inteiramente autônomo e separado do homem e da natureza. Do ponto de vista teológico, a filosofia especulativa termina então por cair nas tentações do panteísmo, e assim no ateísmo mais
descarado. 2
Como verdade da filosofia e da religião, o pensamento de Feuerbach não se detém nas coisas e nos fatos que p cercam, mas tenta alcançá-los por intermédio da negação do pensamento precedente. Não lhe dá as costas, não põe de lado como inúteis suas especulações abstratas para avançar contra os fatos em busca de sua compreensão, mas passa pelo meio delas, acreditando só poder chegar à coisa pela crítica da religião e do hegelianismo. Além do mais, não trata de aproveitar estas formas antigas de pensamento na elaboração de um método crítico que se ocupasse sobretudo de fatos. Como expressão do desenvolvimento da história, filosofia e religião encerram em si mesmas a totalidade do
real, embora de modo invertido e mistificado. Tudo está na religião,3 tudo está em Hegel, de modo que não se faz mister novo método de manipulação dos fatos, mas simplesmente o dicionário que traduza em linguagem corrente as expressões formais e obscuras da especulação. “A identificação imediata, evidente e sem enganos da essência humana, alienada para o homem por intermédio da abstração, com esse mesmo homem não pode ser deduzida por via positiva mas somente da negação da filosofia hegeliana; em geral só pode ser compreendida e entendida se for compreendida como a negação total da filosofia especulativa, como se fosse a sua verdade. Tudo está de fato na filosofia de Hegel, sempre porém ao
mesmo tempo com sua 4 negação e seu oposto” . Obviamente Feuerbach não negará o progresso da ciência, mas os novos dados obtidos pela explicação científica deverão ser compreendidos pela lógica hegeliana desmistificada. A chave da compreensão do mundo está por inteiro nessa lógica.
A persistência de um mesmo conteúdo, que se transfere, Com sinais trocados, das velhas formas do conhecimento para a nova filosofia, determina o caráter do método. Em primeiro lugar, desde logo é posta de lado a investigação histórica meramente reconstrutiva que não visa o conhecimento da essência. Se, por exemplo, pretendemos chegar a compreender o que seja o milagre, isto não se fará, como querem Bruno Bauer e Strauss, por meio do exame indutivo de uma série de milagres singulares. Importa apreender a essência, o que o milagre é. Na verdade, parte-se de exemplos conhecidos, mas não tem importância alguma determinar previamente a possibilidade ou a impossibilidade de sua ocorrência. Ainda que os milagres não sejam mais do que invenções da imaginação humana, são fenômenos que possuem essência e que
revelam alguma coisa da nossa natureza. 5 A procura da essência faz com que, em segundo lugar, Feuerbach pretenda demonstrar a priori o que a posteriori a história vem demonstrando, isto é, a conversão da teologia em antropologia. A Essência do Cristianismo é uma tentativa de mostrar que os atributos divinos nada mais são do que atributos humanos transformados em absolutos pela alienação. História e análise crítica chegam, desta forma, aos mesmos resultados, embora cada uma siga seus próprios caminhos, embora seja impossível estabelecer qualquer paralelismo entre seus métodos. A independência do método crítico em relação ao método histórico e ao próprio curso concreto da história humana é tal que, se Feuerbach tivesse vivido nos primórdios do Cristianismo, grande parte de sua antropologia poderia ter sido escrita nos mesmos termos em que foi no século XIX. Bastaria traduzir tudo o que a religião exprime numa linguagem prática e subjetiva (e o que a filosofia especulativa viria exprimir mais tarde do ponto de vista teórico e objetivo) em termos da essência humana. Por isso é que o
método se intitula análise histórico-filosófica, 6 os exemplos históricos servindo apenas de ensejo para a descoberta dos atributos essenciais. Assim sendo, se as determinações são as mesmas, se mutatis mutandis o que antes se dizia de Deus se dirá do homem, o método nada mais ensinará do que a traduzir em termos válidos as palavras que antes apareciam fraudadas. Trata-se pois de uma análise de significações já constituídas, cujo segredo há de ser revelado pela inversão dos sinais. Daí a constante preocupação em desvendar o segredo do cristianismo, da encarnação, da paixão, do sacramento, da trindade e assim por diante. Tudo se resume em mostrar que as significações com que operam a religião e a filosofia especulativa são apenas atributos da essência humana a que a abstração conferiu caráter absoluto. No entanto, embora a crítica ocupe a maior parte da obra, a intenção desta é primordialmente positiva e construtiva, pois pretende chegar mediante a crítica negadora à constituição de uma antropologia positiva, conhecimento efetivo da realidade humana.
Filosofia especulativa e religião não se situam porém no mesmo plano. No primeiro momento o método mostra que cada atributo de Deus se resolve num predicado do homem e, ao percorrer o caminho inverso, verifica que as determinações da religião são constituídas pela projeção no absoluto das determinações humanas. Mas, atenta a esses predicados absolutos, a religião não se ocupa do substrato que os predicados poderiam postular. A passagem dos predicados para o sujeito-substrato e a investigação da natureza divina e de sua personalidade são realizadas respectivamente pela filosofia e pela teologia vulgar, na tentativa de enfeixar num sujeito os predicados soltos e, por conseguinte, na tentativa de encontrar a razão e o fundamento que os justifique. Nessa aventura a verdade da religião é falsificada, a determinação absoluta que ainda se vinculava ao homem é projetada na personalidade divina; a Deus são atribuídos os predicados mais contraditórios; e não é de admirar que, enveredando por esse caminho, o pensamento caia em toda sorte de contradições. A nova situação configura o sentido da segunda parte do método, a parte propriamente negativa, que
denuncia como falsa e incorreta a essência teológica da religião. 7
Como personalidade, Deus torna-se contraditório, contradizendo-se a si mesmo quer na medida em que possui atributos humanos embora seja um ser sobre-humano (esta é a contradição da teologia vulgar), quer na medida em que se opõe aos homens quando nada mais é do que a essência alienada destes (contradição que constitui
o núcleo da teologia e da filosofia especulativa). 8 Se no primeiro momento a alienação não impede o reconhecimento no abstrato da essência humana, agora, no segundo, atribuído um sujeito aos predicados alienados, inverte-se o processo natural de abstração e de constituição. Deus se transforma na fonte das determinações humanas e a criatura é feita à imagem do criador. Temos, dessa forma, dois momentos na constituição de Deus a que correspondem dois momentos da investigação crítica e as duas secções em que se divide a Essência do Cristianismo. “Na primeira parte provo que o filho de Deus é na religião filho real, filho de Deus no mesmo sentido em que o homem é filho do homem, encontrando desse modo a verdade, a essência da religião que consiste em apreender e afirmar uma relação humana profunda como uma relação divina. Na segunda, ao contrário, que o filho de Deus – não imediatamente na religião mas com certeza na reflexão que se faz sobre ela – não é mais filho em sentido natural e humano mas o é de uma maneira totalmente diversa e contrária à natureza e à razão, de maneira por conseguinte a não corresponder à razão e aos sentidos, de sorte que encontro nessa negação dos sentidos e do entendimento
humanos a não verdade, o negativo da religião”.9
Finalmente se observa que, no jogo das transposições do real para o irreal, do concreto para o abstrato e o imaginário, do antropológico para o religioso e o teológico, a constituição que se instala não ultrapassa, como diria Lévi-Strauss, o nível da lógica da percepção. O método se intitula análise genético-crítica das determinações
objetivadas10 e de fato procura indagar a origem das significações divinas. Mas as significações fundamentais da essência humana já estão dadas, são núcleos significativos que permanecem