Perto o bastante para tocar

Colleen Oakley · Capítulo 10 de 37

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Perto o bastante para tocar

cinco

JUBILEE

Como eu suspeitava, o problema com o Pontiac não era falta de combustível. Depois de colocar alguns litros no tanque, ele ainda não ligava, o que explica por que estou indo de bicicleta para meu primeiro dia de trabalho na biblioteca. Uma vez que me acostumei com os carros que passam velozmente por mim e com o sentimento terrível de que vou morrer a qualquer segundo, começo, de certo modo, a gostar disso. O vento. A sensação de liberdade.

Passo sobre a ponte do rio Passaic a caminho do centro da cidade, impressionada com a luz refletida na água, e pedalo mais alguns quarteirões até a biblioteca. A um quarteirão da rua principal, a Lincoln Library é um edifício baixo e largo de tijolos, espremido entre um banco e uma casa antiga que agora funciona como um spa. Vou até o bicicletário, passando a trava que comprei on-line pelos aros da roda e pelas barras de metal do local. Em seguida, levanto, ajeito a saia e puxo as beiras das minhas luvas. É aí que começo a entrar em pânico.

Completo uma rodada de tapinhas desde o crânio até os pulsos, respiro fundo e subo a calçada até a única porta de vidro adornada com adesivos pretos que anunciam o horário de funcionamento da biblioteca. Abro a porta e entro.

— Você deve ser a Jubilee — diz uma mulher quando me aproximo do balcão principal no meio da biblioteca. Ela tem uma franja rala e grisalha, um rosto enrugado e, ao se levantar, vejo que é fina em todas as partes, exceto no quadril; seu corpo parece o de uma cobra que acabou de engolir um roedor.

Assinto.

— Sou Louise, gerente de circulação, que, na verdade, é só um título chique para “bibliotecária aqui desde sempre”. Bem-vinda à biblioteca.

— Ah, querida, alguém rasgou as últimas três páginas deste livro — diz Louise algumas horas mais tarde, segurando um exemplar de Se você dá uma festa para um porco. É a terceira vez que ela diz “querida” desde que cheguei aqui.

Para mim: Não trouxe guarda-chuva hoje, querida? É bem capaz de que vá chover à tarde.

Ao telefone com alguém que imaginei ser sua filha: Ah, a apresentação foi tão querida. Pequenas meias listradas e asinhas amarelas, e consigo ouvi-la dizendo “buzzzzz” com aquela vozinha fofa. Posso buscá-la quando estiver indo para casa, depois do trabalho.

Também sussurrou “merda” quando deixou cair um volume em letras garrafais de A Revolta de Atlas, de Ayn Rand, que foi parar sobre os dedos dos seus pés. Não sei ao certo por que, mas a cena me fez sorrir.

— Bom, quando você encontrar uma página rasgada assim — diz para mim —, não use fita adesiva comum para prendê-la. Temos uma fita especial. — Ela abre uma gaveta e tira uma caixa laranja quadrada com a palavra “Filmoplast” no lado. Enquanto puxa um pedaço do adesivo, continua a falar. — Para um rasgo desse tamanho, não cobramos multa, mas, se o estrago for maior, como manchas nas páginas, dano causado pela água ou muitas páginas rasgadas, você precisa mostrá-lo para que eu ou Maryann avaliemos o custo do reparo ou substituição.

Maryann é a diretora da biblioteca, a mulher que me ligou dois dias depois que topei com Madison H. e já começava a me convencer de que o encontro não havia de fato acontecido — que tudo era fruto da minha imaginação hiperativa, ou que a biblioteca havia encontrado alguém mais qualificado, com experiência profissional de verdade. Só que não tinha.

Concordo, a cabeça zonza com as inúmeras instruções que já havia recebido sobre o sistema de informática, taxas de atraso, livros que precisavam voltar para as estantes, a impressora temperamental que precisava estar com papel até a metade para funcionar adequadamente e como ajudar os patronos, que não são doadores sofisticados da biblioteca, como pensei a princípio, mas sim o que eles chamam de clientes regulares. Ela também me deu um resumo dos Mandamentos de Maryann, que incluem regras como Nunca deixar o balcão de circulação vazio e Sempre sorrir quando estiver cumprimentando clientes. No entanto, isso não é nada comparado ao espetáculo que é a biblioteca. Não é um espaço grande — apenas um prédio de tijolos de um andar —, mas, para mim, parece uma caverna. E, sentada atrás do balcão de circulação, sinto-me em exposição pública. O diamante Hope no centro da sala, só que não estou dentro de uma caixa de vidro. Passo a maior parte da manhã olhando por trás dos ombros, embora só haja três ou quatro pessoas perambulando pelas estantes de livros e nenhuma delas esteja próximo do balcão.

— Ah, que ótimo! — murmura Louise, revirando os olhos. — O golfista do travesseiro está aqui.

Acompanho seu olhar e vejo um homem usando moletom carregar um travesseiro com uma estampa floral em direção à seção de computadores.

Olho novamente para Louise.

— O nome verdadeiro é Michael. Trinta e poucos anos — sussurra. — Desempregado. Vem aqui todos os dias nos últimos seis meses com esse travesseiro que usa para se sentar e fica jogando algum jogo de golfe no computador. Acha que a cadeira fica desconfortável depois de um tempo. Juro que uma vez ele não se levantou durante oito horas seguidas nem para ir ao banheiro. — Ela ri, e me viro para examiná-lo mais uma vez, sentindo uma estranha ligação com aquele estranho. Ele deve ser apenas solitário, um sentimento que conheço muito bem. — Não sei se Maryann comentou, mas temos todo o tipo de gente aqui. O trabalho com livros, na verdade, consiste em apenas 60%. Os outros 40% são serviços comunitários. Principalmente de saúde mental.

Meus olhos se arregalam quando ela diz isso. Com livros, eu posso lidar. Cuidar da entrada e saída, arrumar as estantes. Mas pessoas?

— Não precisa se preocupar — diz Louise, dando tapinhas na minha mão enluvada. Eu me encolho ao contato e tiro rapidamente a mão. Louise olha para mim, as sobrancelhas ligeiramente levantadas. — Sei que é muita informação, mas você vai pegar o jeito. Sério.

Durante o resto do dia tomo cuidado para ficar a certa distância de Louise.

Só por segurança.

Antes do final do meu turno às quatro da tarde, estou terminando de preencher a papelada de admissão quando me deparo com esta pergunta na seção de informações sobre plano de saúde: Você tem alguma doença preexistente? Hesito e, então, faço um X na caixa ao lado de “alergias”, justamente quando Louise aparece atrás de mim, empurrando um carrinho de livros de referência.

— Leve esses livros lá para trás — diz. — Fileira 9-46 e os coloque novamente nas estantes de acordo com o número nas lombadas. Pode fazer isso, querida?

Assinto com a cabeça e percebo que não falei em voz alta uma única vez desde que cheguei naquela manhã. Fico imaginando se ela pensa que sou muda.

Saio de trás do balcão e minhas pernas tremem. Minha preocupação é que elas possam se rebelar e se isolar novamente. Agarro-me à ponta do carrinho de metal, procurando apoio. O espaço fechado do balcão tornou-se meu lar ao longo do dia, meu porto seguro, mas agora tenho que ir para os corredores. Onde estão as pessoas. E quem sabe o que pode acontecer?

Mesmo com esse medo de sair dali e andar pela biblioteca, eu me aceito profunda e completamente.

Embora eu me sinta um pouco ridícula com esse pensamento, a frase dá aos meus pés o impulso de que precisam para começar a avançar. Ainda olho para a minha esquerda, a minha direita e, às vezes, para a minha retaguarda enquanto sigo em direção ao fundo da biblioteca, procurando pelas pessoas que eu poderia jurar que estão abrindo buracos em mim com suas poderosas linhas de visão. Louise não é uma delas. Está olhando para baixo, ocupada com a arrumação do balcão. Seus lábios estão se movendo ligeiramente e é como se estivesse murmurando para si mesma.

O carrinho tem uma roda frouxa que geme um pouco em protesto. Quando chego à fileira 9-46, o ruído, graças a Deus, para, mas, em vez de silêncio, é substituído por outra coisa. Parecia algo arrastando os pés, como se um guaxinim estivesse preso nas estantes de livros, tentando sair. Um guaxinim com a respiração agitada. Um guaxinim que ri.

Com o coração batendo forte, vou, em silêncio, para o corredor seguinte e dou uma espiada perto da esquina do corredor, sem saber ao certo o que vai me receber.

Então paro, meus pés parecem blocos de cimento, incapazes de ir para a frente ou para trás. No final do corredor estão dois corpos tão agarrados um ao outro que são literalmente um só. É um emaranhado de mãos, gargantas expostas e bocas. É uma pintura de Klimt com vida. E, mesmo sabendo que não deveria estar olhando, não consigo desviar os olhos. É tão rudimentar. E desajeitado. E meio confuso.

E faz minha garganta fechar e meu corpo arder com aquele sentimento que me desperta no meio da noite. Aquela forte ânsia e desejo e ardente humilhação.

Um grito pequeno penetra meus tímpanos e os dois rostos antes enterrados um no outro agora estão concentrados em mim. Estou chocada com o quanto são jovens. A menina tem aparelho nos dentes e bochechas vermelhas. O menino, um punhado de espinhas na linha do queixo.

— Sua pervertida — diz o menino, os olhos inflamados pela testosterona que percorre suas veias.

E, embora saiba que deveria dizer algo, chamar a atenção dos dois com minha voz adulta, ainda não consigo me mexer. Eles se afastam, como vagões desengatados, e a menina rapidamente ajeita os botões da blusa, enquanto o menino continua a olhar para mim.

Sinto algo se aproximando atrás de mim e a voz de Louise soa alto no meu ouvido:

— Brendon! Felicia! Já disse duas vezes agora: a biblioteca não é o banco traseiro do carro de vocês. Último aviso. Da próxima vez vou ligar para os seus pais.

Ambos olham para o chão. Brendon pega a mão de Felicia, levando-a para fora das estantes de livros.

Quando passam apertados perto de mim, Brendan sussurra alto o suficiente para que eu ouça:

— Gostou do que viu?

Fico mais vermelha e olho para a fila de livros de referência à minha frente, concentrando-me nos números.

Os dois desaparecem. Louise murmura:

— Esses adolescentes cheios de fogo.

E volta para o balcão. Fico com um carrinho de livros pesados, que esperam ser colocados em seu devido lugar.

Todo mundo está se mexendo ao meu redor, cuidando das suas vidas, mas meus pés estão pregados no ponto do tapete gasto onde estou em pé.

Só consigo pensar em Donovan.

E na sensação da sua boca quando estava na minha.