Perto o bastante para tocar

Colleen Oakley · Capítulo 22 de 37

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Perto o bastante para tocar

dezesseis

JUBILEE

Quando chego ao carro de Madison na terça de manhã, ela está com as mãos estendidas em minha direção, com as palmas para cima. Em uma delas, há um donut. Na outra, uma pílula azul.

— O que é isso, Matrix?

— Hã?

Faço um sinal com a cabeça na direção do comprimido.

— Ah! Não. Essa foi boa! — Ela estreita os olhos para mim. — Espera aí! Como você conhece Matrix?

— Fiquei em casa por nove anos, não soterrada. Tenho televisão.

— Hum! — diz, levantando um pouquinho a mão direita. — Enfim, isto é um Xanax.

— Para mim? — Inclino a cabeça na sua direção. — Não precisa de receita?

— Siiiiim e, para sua sorte, estou dividindo com você.

Aperto os lábios, insegura em relação a esse presente.

— Olha só, você nem conseguiu entrar na TeaCakes no outro dia. Como vai conseguir ir para Nova York?

Sei que ela está certa. É a razão pela qual não dormi na noite passada, pensando nos edifícios, no trânsito, nas ruas abarrotadas de toda aquela gente. Remédios, entretanto, não me ocorreram como solução.

— É forte?

— Sei lá! — Ela dá de ombros. — Vai dar uma melhorada.

Aperto a pílula entre o indicador e o polegar enluvados, jogo-a na boca e engulo. Depois faço um sinal com a cabeça na direção do pão doce.

— Para que isso?

— Esta é a sua primeira aventura.

Olho para Madison.

— Hum, eu como donuts.

Sério, será que ela pensa que vivi em uma caverna?

— Sim, mas não o de maçã que acabou de sair do forno da padaria da McClellan’s na Forsyth Street. Eles não entregam. E acredite em mim quando digo que é uma aventura para sua boca.

Delicadamente, arranco-o da sua mão, uma mistura de açúcar e canela cobre, no mesmo instante, a ponta dos dedos da minha luva. Ela observa enquanto dou uma mordida. Mastigo calmamente, não querendo lhe dar a satisfação de uma grande encenação, mas preciso de todo o meu autocontrole para não gemer alto. Ela tem razão. O donut é bom mesmo.

Um sorriso convencido surge no seu rosto, e sei que não consegui esconder completamente meu prazer.

— Não é? — pergunta.

— Mm-humm — murmuro, com a boca já cheia da próxima mordida. Dou-lhe um sorriso largo, com uma mistura de massa quente e canela presa nos meus dentes, e ela ri.

— Agora, vamos ao médico.

No caminho para a cidade, tento me distrair, deixando meus pensamentos divagarem — e eles vão direto para Eric, como vem acontecendo de vez em quando desde que saí do seu apartamento na noite passada. Fiquei surpresa quando ele apareceu na biblioteca enquanto eu trancava as portas, mas também um pouco aliviada. Estava me sentindo culpada desde sábado por causa do modo como o tratei. Sim, ele foi insistente, curiosamente insistente, mas, depois de pensar com calma no que aconteceu, tive a impressão de que ele realmente queria me ajudar, e foi difícil ficar zangada com aquilo.

Porém, quando ele veio em minha direção com a mão estendida, querendo selar nosso “acordo”, congelei. Tecnicamente, era seguro — eu estava com as minhas luvas —, mas fazia anos que não tocava voluntariamente alguém, ou deixava alguém me tocar. Encarei os seus dedos — aqueles nos quais, estranhamente, pensei tanto desde que sonhei com eles, e que voltei a imaginar com mais detalhes do que qualquer pintor renascentista. Mas não era um sonho e, diante da realidade deles — do que poderiam fazer comigo —, fiquei apavorada. Ele abaixou a mão e não fez absolutamente nada, embora eu tivesse corado de constrangimento.

Talvez fosse isso, ou o modo como agiu na noite passada com a senhora Holgerson, defendendo Aja daquela maneira, ou como o procurou depois, visivelmente preocupado com o filho — não sei. Mas ele parece tão verdadeiro. Bom. E não muito parecido com o babaca que Louise e eu pensávamos que fosse.

No entanto, há outra coisa — outra razão pela qual não consigo parar de pensar nele, uma razão que eu não queria admitir nem para mim mesma até este momento: gosto do modo como olha para mim. Não como se eu fosse uma coisa estranha, mas como se fosse apenas uma garota normal, uma mulher. E não consigo me lembrar da última vez que me senti normal.

Do lado de fora do para-brisa dianteiro, a silhueta dos edifícios de Manhattan se agiganta, e percebo que o ansiolítico está começando a fazer efeito, uma vez que os músculos dos meus ombros e braços começam a relaxar, mas noto que não afeta o nervosismo que toma o meu estômago — esse que está me lembrando de que não sou normal, e é só questão de tempo para que Eric se dê conta disso também.

Quando chegamos ao estacionamento de vários andares na baixa Manhattan, aperto um e depois dois dedos na bochecha. Massageio a pele ao redor, empurrando-a e esticando-a em direções diferentes.

Não consigo sentir meu rosto.

Sei que deveria me alarmar com isso, mas acontece o contrário: uma onda suave de relaxamento me inunda. Dou uma risada.

— Qual é a graça?

— Nada. — A palavra, de certo modo, sai da minha boca, fazendo meus lábios vibrarem, o que é ainda mais divertido. Segue outra risada, e mudo de ideia. — Tudo.

Rio mais um pouco.

Madison estaciona o carro e franze as sobrancelhas.

— Hummm... talvez eu devesse ter cortado aquela pílula ao meio.

Bato de leve na sua testa com o indicador enluvado, ele ainda tem resíduos de açúcar e canela.

— Não se preocupe — digo. Uma música me vem imediatamente à cabeça, e sou obrigada a acrescentar: — Be happy! — Formo um “o” com meus lábios e canto: — Doooo-do-do-doodee-do-doodeedo-dee-do-dee-do. Don’t worry. Do-dee-doo-dee-dodee-doooooooooo.

Madison revira os olhos e abre a porta do carro.

— Vamos, Bobby McFerrin, vamos lá para dentro.

A música fica na minha cabeça durante a próxima hora enquanto andamos dois quarteirões até o Centro de Alergia & Asma, enquanto dou entrada na recepção, enquanto visto um avental descartável e uma enfermeira com luvas de borracha e uma máscara facial (que toma muito cuidado para não me tocar; ela deve ter sido avisada) confere todos os meus sinais vitais. Então, fico sozinha na mesa de exame, esperando a doutora Zhang, e é quando a lucidez me esmaga.

De repente, sou novamente criança, sentada em uma das centenas de consultórios médicos para os quais fui arrastada enquanto minha mãe tentava descobrir o que havia de errado comigo. Era tudo muito confuso para mim, de verdade. Eu era muito jovem. Então, uma memória, clara como o dia, me ocorre. É minha mãe, gritando com toda a força dos seus pulmões: Não venha me dizer que você não sabe! É a minha bebê lá dentro. Você tem que nos ajudar. Você tem que. Dói meu coração, o triste desespero em seu tom ríspido. Referindo-se a mim como bebê. E me lembro de como me senti naquele momento. Assustada, sim, mas também amada, protegida e defendida. E me pergunto se talvez eu tenha a tendência de me lembrar apenas do que havia de pior nela, e não de momentos como esse.

A porta se abre, interrompendo meus pensamentos. A doutora Zhang é mais baixa do que me lembro, menos intimidadora. E oferece um sorriso acolhedor.

— Jubilee. Como você está?

Penso na pergunta.

— Ainda alérgica a pessoas.

Ela assente e sorri.

— Entendo.

Durante a próxima hora, vasculhamos os 12 anos desde que a vi pela última vez, incluindo o incidente no ensino médio, meus anos trancafiada em casa e meu encontro mais recente com a morte e a visita ao hospital. Ela anota tudo meticulosamente em um bloco de papel, fazendo perguntas à medida que surgem, sem se sobressaltar com nada, o que me faz gostar mais dela. Porém, quando conto a história de Aja, ela diz:

— Talvez seja melhor deixar a RCP para a equipe médica de emergência da próxima vez!

Finalmente, ela dá uma olhada na minha erupção cutânea debaixo do avental.

— Você mudou alguma coisa recentemente? Seu sabão em pó? Loção? Lençóis novos?

— Não — respondo —, são todos os mesmos.

— E quanto a novas pessoas? Alguém esteve recentemente na sua casa?

Penso em Eric e Aja.

— Sim. Alguns... amigos. — É isso que eles são? — Eles estiveram na minha casa.

— Então se sentaram em seus móveis, suponho. — Ela faz uma pausa. — Pernoitaram lá?

Viro abruptamente a cabeça na sua direção.

— Não! — digo, mas meu rosto cora com o pensamento automático de Eric no meu quarto. Na minha cama. Tento me recompor. — Quer dizer, sim, eles se sentaram nos meus móveis, é claro, mas não passaram a noite.

Ela faz que sim com a cabeça.

— Estou apenas tentando entender se e como qualquer contato indireto poderia ter ocorrido. Pessoas trocam as células cutâneas o tempo todo e, embora isso não tenha sido um problema para você no passado, já que sua alergia sempre foi causada pelo contato direto de pele com pele, penso que seus anos de reclusão deixaram seu corpo ainda mais sensível. Talvez até a troca de células cutâneas seja um problema para você agora. Pense: há algo que pôde estar em contato com seu tronco dessa forma? Você não está dormindo em lençóis nos quais outra pessoa dormiu. Está usando roupas ou outra coisa que lhe foram emprestadas?

Ao ouvir essa pergunta, meu coração salta. O casaco de moletom de Eric.

— Usei uma blusa — digo. — Hum... que não é minha.

— Humm. — Ela bate de leve nos lábios com a caneta. — Poderia ser. Especialmente se a pessoa a usou antes de emprestá-la para você.

Penso no cheiro da blusa; nada de cheiro de sabão, mas de mato, como ele. Quando ela cogita essa possibilidade, tenho certeza de que essa é exatamente a causa.

— Quando a usou pela última vez?

— Hum... na noite passada.

— Mas a erupção começou antes disso, certo? — E volta a olhar para suas anotações. — Há uma semana?

Sinto um rubor subir pelo pescoço.

— Eu, hã... meio que a estou usando toda noite. Nunca reagi a isso antes; roupas, lençóis ou qualquer coisa de outras pessoas — digo, pensando nas minhas travessuras de infância na cama quente da mamãe e nos vestidos do seu armário que eu colocava para brincar.

A doutora Zhang assente.

— As alergias podem ser estranhas assim. Uma vez peguei um paciente que comeu camarão a vida toda e, de repente, aos 26 anos, quase morreu em um buffet de frutos do mar. É um mistério. Esse é um caso extremo, mas dá para entender o que quero dizer. As alergias, e o que as provocam, podem mudar de modo inexplicável. — Ela apoia o bloco de notas na bancada. — Então, que tal isto? Nada mais de pegar roupas emprestadas, a não ser que estejam limpas — diz, abrindo a torneira na pia. — E, por acaso, você não pode lavar esse casaco?

Posso. Penso nisso. E fico surpresa ao descobrir que a ideia, de certo modo, me deixa arrasada.

A doutora Zhang esfrega as mãos debaixo do fluxo de água e coloca as luvas de borracha.

— Agora, vamos fazer um exame completo, preparar uma receita de hidrocortisona com epinefrina para você e seguir em frente. Tudo bem?

Depois do exame, eu me visto e vou me sentar no consultório da doutora Zhang enquanto espero por ela. Tento me lembrar da consulta há 12 anos, com minha mãe sentada na cadeira de plástico ao meu lado. Tenho certeza de que ela estava usando algo bem decotado e provocativo, mas não consigo visualizar a roupa exata. E percebo, alarmada, que não consigo visualizar a minha mãe. Posso ouvir sua voz, clara como água, mas seu rosto está um pouco embaçado.

A doutora Zhang entra e se senta à mesa, de frente para mim.

— Então — diz. — Jubilee. Não quero causar uma ansiedade desnecessária, mas o que está me preocupando é que sua pele está reagindo ao contato indireto agora.

Olho para ela.

— Por usar a roupa de outra pessoa — esclarece. — Você precisa tomar o máximo de cuidado até que possamos resolver isso — diz. — Isso significa não tocar absolutamente em nada. Sei que você sabe disso, mas enfatizar nunca é demais. Não temos ideia de como seu corpo vai reagir.

— Tudo bem — digo, mas só o que estou realmente ouvindo é “até que possamos resolver isso”, e sei que essa é a parte em que ela vai pedir para me examinar. Para me transformar em um dos seus projetos de pesquisa. Essa também é a parte em que vou embora. Mais uma vez.

— Então, não sei se você já leu alguma coisa das minhas pesquisas...

Faço que não com a cabeça. Aqui vamos nós.

— Venho realizando alguns testes clínicos nos últimos cinco anos com um tratamento fitoterápico chinês para curar alergias alimentares graves. Obtivemos uma taxa de aproximadamente 60% de sucesso.

Sei que deveria ficar impressionada com isso. Alergias são males controversos na comunidade médica. Não fazem sentido em termos evolutivos, especialmente a minha. Por que meu corpo lutaria contra a mesma coisa que é sua única chance de procriar? E ninguém sabe a causa fundamental delas: é o ambiente? Genética? Quando as origens de um problema não são claras, é quase impossível encontrar uma solução. Fico sem expressão no rosto, sem saber aonde ela quer chegar com isso.

Ela continua.

— Não acho que você seria uma boa candidata. Pelo menos, não ainda. Sendo sua alergia tão... rara. Não faço ideia se ela responderia da mesma forma que as alergias alimentares.

Concordo, esperando.

— Mas já ouviu falar de imunoterapia?

Faço que não com a cabeça.

Ela aperta as mãos na frente do corpo.

— É um tratamento comum para alergias como rinite ou pólen de abelha. Os pacientes recebem pequenas quantidades da substância à qual são alérgicos, aumentando, na teoria, a tolerância com o passar do tempo. A intenção é reduzir a reação do sistema imunológico ao alérgeno. Muitas vezes leva ao alívio dos sintomas alérgicos durante muito tempo depois da interrupção do tratamento.

— Como uma cura? — pergunto.

Ela faz uma pausa.

— Eu hesito em chamá-lo assim — diz, resguardando-se. — Digamos que é mais um sistema de administração; uma maneira de manter a alergia sob controle, dessensibilizar a pessoa o suficiente para que possa tolerar aquilo a que é alérgica. — Ela olha para ter certeza de que estou entendendo a diferença. Afirmo com a cabeça. — Agora estão fazendo isso no caso de alergias alimentares, coisas como pasta de amendoim e ovos. É uma terapia oral na qual é dada diariamente uma pequena quantidade de pasta de amendoim ou aquilo a que o paciente é alérgico, construindo, com o passar do tempo, uma tolerância. Estudos iniciais se mostraram promissores.

— Tudo bem. O que isso tem a ver comigo?

— Bem, o doutor Benefield acredita, e eu concordo com ele, que você tenha algum tipo de mutação genética. — Ao ouvir a palavra “mutação”, fico surpresa ao perceber que não me encolho de medo, como fazia. Penso em Aja, e meus lábios se levantam. — E ela faz com que lhe falte uma das milhões de proteínas que todos os seres humanos têm, que é aquela à qual você provavelmente é alérgica.

— Certo, mas você disse que não havia como dizer qual era.

— Bem, isso não era exatamente verdade. A sequência genética poderia nos dizer, mas, há 12 anos, teria custado milhões de dólares e levado vários anos, se não décadas, para testar e isolar uma única proteína.

Meu coração começa a socar meu peito.

— E agora?

— É mais barato. E um pouco mais rápido.

— Quanto mais rápido?

— Acho que poderíamos encontrá-la em um ano. Ou menos.

— E quando a encontrarem...

— Isolamos a proteína. Desenvolvemos uma solução contendo quantidades muito pequenas dela e a ministramos todos os dias, na expectativa de que você desenvolva tolerância e de que seu corpo pare de lutar contra ela.

Cruzo os braços na cadeira, meu coração bate forte nos meus ouvidos. Uma cura. Tudo bem, um “sistema de administração”. Mas, mesmo assim. Balanço um pouco a cabeça, não acreditando totalmente nisso.

— Qual é a pegadinha?

Ela prende a caneta atrás da orelha como minha mãe fazia com o cigarro.

— Não tem pegadinha, mas você precisa estar ciente de que pode não funcionar. E ainda é caro. Você teria que concordar em fazer parte da pesquisa que estou desenvolvendo. Eu precisaria explicar tudo ao departamento, escrever um artigo sobre isso para um jornal. A menos que você tenha centenas de milhares de dólares por aí.

Resmungo.

— Não exatamente.

— Imaginei — diz ela, mas não de forma indelicada.

Ficamos olhando uma para a outra enquanto considero sua oferta. Esse é o momento com o qual sonhei tantas vezes na infância. Um médico dizendo que havia um tratamento — pelo menos uma chance —, em vez de olhar para mim como se quisesse me cortar em fatias e me colocar em uma placa de Petri para um estudo mais avançado com o intuito de saciar sua curiosidade egoísta. Então, por que não estou empolgada? Pulando de alegria? Por que as batidas do meu coração nos ouvidos parecem mais de medo do que de euforia?

— Obrigada, doutora Zhang — digo, olhando-a diretamente nos olhos.

— Mas acho que vou precisar pensar no assunto.

Na biblioteca, naquela tarde, enquanto coloco os livros devolvidos em ordem, meu corpo parece paralisado, como se estivesse no piloto automático. Pergunto-me se isso é um sintoma do choque. Não posso acreditar que existe um tratamento, um tratamento de verdade, que poderia me ajudar. Sinto um friozinho na barriga só de pensar nisso — uma pontinha de entusiasmo surgindo.

Porém, ela é ofuscada por uma grande emoção — o medo, que parece ter passado de uma simples ansiedade comum para um terror absoluto enquanto estava no consultório da doutora Zhang. E tenho que me fazer a mesma a pergunta que ensaiei desde que saí do consultório da médica: realmente quero ser curada? É claro que sonhava com isso quando era criança, como seria ser normal, ser abraçada e brincar no pátio com outras crianças no recreio. Mas o que as crianças sabem? Talvez ficar de escanteio tenha me impedido de quebrar o pescoço nas barras do parquinho. Talvez essa alergia tenha, na verdade, me poupado o tempo todo. Talvez seja a coisa — a única coisa — que me impede de me machucar.

Paro de organizar os livros quando me deparo com um que obviamente deixaram cair em uma banheira. Suas páginas estão inchadas e enrugadas, e, para piorar as coisas, a capa está cheia de marcas de dentes. Não consigo acreditar que alguém simplesmente o jogou na caixa de devolução sem dizer nada. Olho ao redor à procura de Louise para lhe mostrar e perguntar o que devo fazer, mas não a vejo em nenhum lugar. Quando passo os olhos na seção infantil, Roger ergue os olhos e faz contato visual.

— Cadê a Louise? — Movo a boca sem emitir som, e ele estende o dedo indicador da mão que está levantada na direção das estantes; especificamente, uma fileira atrás das mesinhas individuais com computador. Olho naquela direção, mas não a vejo. Os assentos ali estão quase vazios, com exceção de Michael, o golfista do travesseiro, que está sempre lá (pensei que Louise estivesse exagerando, mas ele realmente vem todos os dias), e de uma mulher mais velha, papuda e de óculos fundos, sentada a poucos centímetros de distância do monitor.

Ando em direção à estante para a qual Roger apontou e, quando viro a esquina, Louise está ali, curvada, com a cabeça enfiada na prateleira entre duas fileiras de livros.

— Louise? — chamo. Ela se move abruptamente e bate a cabeça no alto da prateleira.

— Ai — exclama e, ainda curvada, olha de soslaio em minha direção, colocando o dedo indicador nos lábios. Com a mesma mão, pede que eu me aproxime. Vou até ela.

— O que está fazendo? — sussurro.

— Olha só — diz, sem som, apontando para o espaço na prateleira entre os livros. Eu me inclino e dou uma espiada, observando a nuca da mulher mais velha à mesinha do computador. De perto, seu cabelo é fino, revelando grandes faixas do couro cabeludo em meio aos tufos de fios brancos sem brilho, cuidadosamente enrolados e penteados no sentido oposto no que imagino ter sido uma tentativa de criar uma aparência mais satisfatória.

Olho novamente para Louise, sem entender.

— Olha para a tela do computador dela — sussurra, enfatizando as palavras enquanto fica indicando com o dedo o formato de cada sílaba.

Volto a olhar e movimento a cabeça para poder ver além do penteado da mulher.

— Oh! — A exclamação inadvertidamente escapa dos meus lábios quando percebo que o que estou vendo é um homem nu em primeiro plano. Especificamente, sua região pélvica.

Os lábios franzidos de Louise formam uma linha de quem diz com satisfação consigo mesma: Eu disse.

— É pornografia, né? — sussurra.

— Como eu vou saber? — sussurro em resposta. Meus olhos voltam para a tela, como se a imagem fosse a de um terrível acidente de carro e eu não conseguisse deixar de olhar. Inclino a cabeça para ter um ângulo melhor. — Não sei — digo. — Aquilo são marcas? Parecem meio clínicas.

— Bem. De qualquer maneira, é contra as regras. Não podemos ter festas privadas nos computadores. E se uma criança passar por ali?

Entendo o que ela quer dizer.

— Tenho um livro que preciso que você olhe — sussurro. — Todo estragado.

Ela me dispensa com um gesto de mão.

— Dou uma olhada quando voltar para o balcão.

Permaneço ali por mais um minuto, com outra coisa me incomodando.

— Olha, você se lembra do que disse um tempo atrás? Sobre o corte de verba da câmara municipal?

— O que tem isso? — pergunta, sem tirar os olhos da tela.

Engulo em seco e vou direto ao ponto.

— Vou ser demitida?

Ela se vira para olhar para mim, com os olhos brilhando de forma empática.

— A verdade?

— Sim.

— Provavelmente — diz, torcendo o nariz em um pedido de desculpas. — O último a ser contratado é o primeiro a ser demitido e por aí vai. Honestamente, fiquei surpresa quando Maryann contratou você. Aquele cargo estava vago havia quatro meses. Achei que não podíamos pagar para preenchê-lo. E, se cortarem a verba outra vez, com certeza não poderemos mantê-lo.

Faço uma pausa, assimilando o que ela disse: por que eles realmente me contrataram? Eu nem era qualificada para o trabalho.

— O que podemos fazer? O que eu posso fazer? Não posso perder esse emprego — digo, tentando manter a voz baixa, evitando destoar da dela.

Ela encolhe os ombros.

— Não sei. Descobrir uma maneira de encher de gente todos os cantos deste lugar todos os dias? Prove para Frank Stafford que o povo de Lincoln quer esta biblioteca e precisa dela.

— Mas precisa! Toda cidade precisa de uma biblioteca.

— Bem, nós sabemos disso, mas os números de visitantes dizem outra coisa — sussurra. E acrescenta com um tom bem mais grave: — Se bem que duvido que ele saiba interpretá-los, para dizer a verdade.

Ignoro isso e reflito sobre as duas coisas mais importantes que ela disse: precisamos de mais livros sendo retirados e mais pessoas entrando. Que bom que me antecipei e convidei Aja para vir à biblioteca todos os dias. Mas ele é apenas uma pessoa. Como vou conseguir mais?

A porta se abre e nos viramos para olhar. Entra um homem. Ele vem toda terça, Louise o chama de Ladrão de Papel Higiênico, já que uma vez o pegou tentando roubar papel higiênico do banheiro masculino. Ela acha que ele é um morador de rua e, pelo aspecto do seu casaco sujo e surrado e pelo fedor terrível que vem dele, acho que tem razão. Ele vai direto para o banheiro.

Bem atrás dele está Aja. Ele dá alguns passos para a frente e fica parado no corredor marrom da entrada, como se esperasse um convite para vir mais para dentro. Há uma espécie de reconhecimento silencioso entre nós, e ele para de me olhar e trota em direção a um computador do outro lado do corredor em que estou, jogando a mochila no chão ao lado de um assento vazio.

— Enfim, olha, você tem que ir lá falar com ela — diz Louise, ainda sussurrando.

— Falar o que para quem?

— Para essa senhora — diz, fazendo um sinal de cabeça no meio da estante. — Ela não pode ficar vendo essas coisas.

— Por que eu? — chio, não conseguindo moderar a voz.

Louise levanta rapidamente as sobrancelhas.

— Psiu!

— Foi você quem viu — sussurro, mas Louise já está na metade do corredor, rebolando o quadril com a velocidade dos seus passos.

Merda.

Enquanto ando em direção à mulher e tento explicar gentilmente a política da biblioteca, meu rosto queima, vermelho, e sinto os olhos de alguém em mim. Viro-me, e meu olhar encontra o de Michael. Sua boca se abre em um sorriso, que ele tenta cobrir com a mão, antes de se virar para a tela do computador. Ótimo, até o golfista do travesseiro está rindo de mim.

Às 18h45, Louise aparece ao meu lado, de casaco, com as chaves na mão.

— Sei que é a minha vez, mas você pode trancar as portas hoje? — pergunta.

Inclino a cabeça na direção de Aja, que ainda está sentado.

— Sim, tenho que esperar o pai dele passar aqui mesmo. Eu disse que tomaria conta do menino.

— Ah. Não percebi que ainda tinha alguém... espera... você, o quê? — Ela estreita os olhos.

— Você disse que precisamos de mais pessoas — digo, oferecendo-lhe meu sorriso mais encantador.

— Sim, mas não oferecemos serviço de babá.

— Bem, não, mas também não somos abrigo para moradores de rua nem salão de jogos — digo, fazendo um sinal de cabeça na direção do Ladrão de Papel Higiênico, que agora está passeando pela seção de DVDs e, em seguida, na direção de Michael, o golfista do travesseiro sentado à sua costumeira mesa em frente ao computador.

— Você mesma disse que o trabalho tem a ver com livros e serviço comunitário.

Suas sobrancelhas desaparecem sob a franja grisalha que forma uma cortina em sua testa.

— Verdade — diz. — Eu acho. Desde que você não se importe. — E olha para seu relógio. — Tenho que ir. É noite do bingo na escola da minha neta mais velha, e prometi que estaria lá. Acaba daqui a meia hora.

Olho para ela, curiosa para saber quantos netos ela tem, e me pergunto por que nunca pensei em indagar.

Depois que ela sai, limpo o balcão, organizando os lápis, clipes, elásticos e outros materiais de escritório. Em seguida, fico sentada ali, olhando para o relógio. São 18h51. Bato os dedos na superfície laminada e depois fico em pé.

Dou uma passeada pelas mesinhas com computadores e finjo procurar um livro na prateleira perto de Aja.

— E aí? Por que a sua mãe pôs esse nome em você: Jubilee?

Dou um salto porque sua voz me assusta, e me viro para olhar para ele.

— Acha que ela era uma grande fã dos X-Men?

— Ah, não. Com certeza, não — digo.

Todo ano, no meu aniversário, minha mãe contava a história do meu parto: Trinta e cinco horas. Foi um inferno. Você teimou, lutou e, no final, quando chegou a hora de eu fazer força — bem depois de passar o efeito daquela maldita anestesia epidural —, você estava tentando sair, a testa primeiro, mas o cordão estava enrolado no seu pescoço e o médico teve que colocar a mão lá dentro, agarrar e puxar. Como se houvesse espaço suficiente para as mãos dele também! A pior dor que já senti. Fiquei muito feliz quando você finalmente saiu e aquela tortura acabou. Pura alegria. Era assim que eu ia chamar você. Joy, de alegria. Mas aí uma das enfermeiras disse que aquilo era um júbilo, uma razão para comemorar ou algo assim. E achei mais chique. Se aparecer Joy em um convite de casamento, é provável que o convidado compre um presente em qualquer loja, mas Jubilee? Esse é um nome digno de uma loja de luxo. Alto nível.

Foi assim que recebi meu nome. Ela ficou muito feliz por se ver livre de mim. Muito feliz porque eu não lhe causaria mais problemas, mas não quero contar isso a Aja.

Por isso, minto:

— Minha mãe ficou feliz por eu finalmente estar lá, em seus braços. “Jubileu” significa “uma celebração alegre”.

Aja assente.

— Faz sentido.

— E o seu? Por que seus pais lhe deram o nome de Aja?

Ele fica quieto por tanto tempo que me pergunto se me ouviu. E, então, diz baixinho:

— Eles não me deram.

— O quê?

— Esse não é o meu nome de verdade.

— Qual é o seu nome de verdade?

Ele faz que não com a cabeça.

— Qual é! Não pode ser tão ruim assim.

Ele murmura algo.

— O quê?

— Clarence — diz, fixando os olhos em mim. — É Clarence.

Tento não rir, mas uma risadinha escapa. Aja estreita os olhos para mim e tento me recompor.

— Por que deram esse nome para você? Clarence?

— Meu pai queria que eu tivesse um nome americano — diz. — Para eu me encaixar.

Ao ouvir isso, a risada sai para valer.

— Com Clarence?

— Sim — diz, com o lado esquerdo da boca se levantando. — Terrível, né?

— O pior! — digo, ainda rindo. — Sinto muito, mas esse é muito ruim.

Quando finalmente me acalmo, digo:

— E aí? Como você foi parar no Aja?

Ele encolhe os ombros.

— É um apelido. Da minha mãe. Quando eu nasci, ela estava tentando aprender sânscrito. Os pais do meu pai são hindus...

— Espera, então o Eric não é o seu...

Ele balança a cabeça.

— Ele me adotou, quando... — Mas não termina a frase.

Apenas olha para o tapete, com os ombros curvados. Quando os vi pela primeira vez, suspeitei que Eric não fosse seu pai biológico, por causa do leve sotaque britânico de Aja que Eric não tem — sem falar na diferença física: a pele bronzeada e os olhos escuros de Aja em contraste com a pele clara e os olhos verdes de Eric —, mas eu não sabia com certeza. Era possível que a ex-mulher de Eric fosse a responsável por passar essas características. Porém, com a revelação, meu coração se parte um pouco por Aja, ao mesmo tempo em que se enche um pouco por Eric, com mais essa afirmação da sua genuína bondade de caráter.

— Sinto muito — digo, não querendo que Aja se estenda sobre o evento obviamente devastador, seja lá o que tenha acontecido com seus pais. — Então a sua mãe... ela estava aprendendo sânscrito?

Ele fica quieto por um momento, e me pergunto se não consegui distraí-lo. Mas, então, sua voz baixinha continua:

— Ela esperava que isso fizesse com que gostassem mais dela. Queria poder conversar com eles, mostrar que estava se esforçando muito para aprender coisas sobre a cultura deles, algo assim.

— Ela estava aprendendo a falar sânscrito? Pensei que fosse apenas uma língua escrita.

— Em geral é, mas acho que alguns sacerdotes hindus ainda a usam e que é a língua oficial de Uttarakhand, na Índia, onde os meus avós nasceram. Enfim, ela disse que eu fazia um barulho quando era bebê; não era um grito, mas era tipo um miado agudo. Como um cabritinho. E a palavra “cabra” em sânscrito é...

— “Aja” — digo.

— É. — E olha novamente para baixo, chutando uma parede invisível com o dedo do pé. — Então o meu nome, na verdade, é Cabra.

Dou risada.

— É melhor que Clarence.

— Absolutamente — diz de modo formal, provocando outro sorriso em mim. Ele volta para sua revista em quadrinhos, e entendo o gesto como um sinal de que nossa conversa acabou. Começo a voltar para o balcão, na tentativa de encontrar outra coisa para fazer até Eric chegar.

— Procurei por você no Google.

Paro e volto-me para ele.

— Procurou?

— Sim.

Levanto a cabeça.

— Como descobriu o meu sobrenome?

Ele encolhe os ombros.

— Está no site da biblioteca.

— É?

Ele faz que sim com a cabeça.

— Não dá para acreditar que você apareceu no The New York Times — diz, com os olhos arregalados. — Esse é, tipo, o maior jornal de todos. — É minha vez de encolher os ombros. — Você tem sorte — diz.

— Na verdade, não é nada de mais. Foi só um artigo.

— Não, sério, não ter que tocar ninguém. Odeio ser tocado. Especialmente por estranhos. Sabe, tipo quando alguém tosse e aí quer apertar a sua mão logo em seguida? — E faz uma careta. — Não, obrigado, mas você não tem que lidar com isso.

— Sim, acho que não.

Ele olha para baixo novamente, como se tivesse dito tudo o que queria dizer e esse fosse o fim da nossa conversa. Olho por cima do seu ombro.

— Isso é uma revista em quadrinhos?

— Sim — responde, sem tirar os olhos dela.

— X-Men?

— Claro.

Espero alguns segundos, não querendo incomodá-lo, mas não tenho nenhum outro trabalho para fazer, e estou curiosa. Não sobre a revista em quadrinhos, na verdade, mas sobre ele. Ele é diferente. Tão prático. Sempre diz o que está pensando. Gosto disso.

— É sobre o quê?

Antes que ele possa responder, a porta se abre e Eric entra, apressado.

— Cheguei! Cheguei! — diz. — Sinto muito pelo atraso. — Rosadas por causa do frio, suas bochechas têm um aspecto corado quase infantil.

Olho para o relógio. São só 19h05.

— Tudo bem — digo, ainda sorrindo por causa da conversa. — Estávamos apenas... — Volto a olhar para Aja, mas ele está concentrado novamente na revista em quadrinhos — Ah, conversando.

Eu me endireito no lugar onde estava encostada em uma estante e começo a andar na direção da sala de descanso para pegar meu casaco. Não sei ao certo se é imaginação minha ou se posso realmente sentir os olhos de Eric em mim. E se estou quente porque estou ciente disso ou porque seu olhar parece o sol.

— Aja, você está pronto, querido? — pergunta, quando chego à sala de descanso.

Quando saio alguns minutos depois, os dois estão parados à porta da frente. Aja está usando seu casaco, cabisbaixo, mas Eric está olhando para mim.

Pego as chaves no balcão e ando na direção deles.

— Obrigado — diz ele. — Por fazer isso.

— Não é trabalho nenhum, de verdade.

Ele assente.

— Mesmo assim.

Vira-se para a porta e a abre, permitindo que uma rajada de ar frio entre de uma vez. Apago as luzes, viro-me para ter certeza de que nada escapou aos meus olhos e, então, passo pela porta que Eric está segurando, adentrando a noite escura. Dou um passo para o lado enquanto ele deixa a porta se fechar e, em seguida, começo a trancá-la sob seu olhar atento, enquanto Aja vai para o carro.

— Então — digo, tentando me livrar da sensação de que estou sob um holofote. — Acabamos? Com a discussão do Diário de uma Paixão?

Ele ri.

— Acho que acabei quando você o comparou com Shakespeare — diz. — Mas, sério, as pessoas não falam mesmo daquele jeito umas com as outras.

— É baseado em uma história real — digo, pouco convincente.

Sua sobrancelha esquerda é como uma flecha apontada para a linha do cabelo.

Ele suspira enquanto vamos pegar minha bicicleta no bicicletário.

— Acho que estou com medo de que Ellie tenha gostado tanto a ponto de ter estabelecido esse padrão maluco e inexistente para amor e relacionamentos.

Fico pensando nisso. Não sei nada sobre amor e relacionamentos, mas sei que livros e filmes podem criar expectativas irrealistas. Depois de ler Píppi Meialonga, quando criança, fiquei convencida de que meu pai simplesmente apareceria na porta da frente, um dia, com alguma explicação plausível de por que havia desaparecido durante toda a minha vida — talvez abandonado em uma ilha dos Mares do Sul como o Capitão Meialonga. E, sim, foi deprimente aceitar a verdade quando eu já tinha idade suficiente. Porém, por outro lado, penso em como seria a vida sem essas fantasias. Essas esperanças.

— Não sei — digo. — A infância não é a época para ser idealista? A época para sonhar? Ela terá muito tempo para ser cética quando crescer.

Ele levanta o queixo.

— Como você faz isso?

— O quê?

— Pega tudo o que eu penso e transforma em algo bonito.

Sinto minha garganta apertar com o elogio; pelo menos, acho que é um elogio, por causa do modo como ele está olhando para mim. Percebo que não é só como se eu fosse normal, o modo como ele está olhando para mim. É como se eu estivesse recitando de cor quinhentas casas decimais do pi. Como se eu fosse algo incrível. Só por dizer o que penso. Sinto um movimento nas entranhas, e olho para o asfalto preto do estacionamento. Pedacinhos dele brilham como diamantes sob a luz do poste. E fico imaginando se é isso que as pessoas querem dizer quando falam que estão se apaixonando por alguém. Quando falam que estão sentindo frio na barriga. Quer dizer, não que eu esteja. Apaixonada por ele.

A lua está brilhante hoje, como uma lâmpada perfeitamente redonda emoldurada pela janela do carro. Aja a nota também e, uma vez que ainda estou com dificuldade para olhar diretamente para Eric, fico aliviada quando Aja e eu começamos uma conversa sobre viagens espaciais.

— Você sabia que as fitas originais de 1969 sobre o pouso na Lua foram acidentalmente apagadas pela NASA?

Fico contente quando ele diz que não, e nossa discussão passa para teorias da conspiração, principalmente sobre alienígenas e o Projeto Montauk, um suposto projeto de pesquisa do governo em Long Island similar ao Área 51, sobre o qual ele parece saber muito para um menino de 10 anos.

Quando Eric para à entrada da garagem, finalmente crio coragem para me virar para ele.

— Qual é o próximo?

Minha pergunta interrompe seus pensamentos, e ele olha para mim, me encarando por um segundo antes de responder.

— Ah, hum... algum livro de Stephen King — diz.

Faço uma pausa.

— Qual? Não curto terror.

Ele ri.

— Bem, minha filha lê. Leu três dele: Carrie, A Estranha; Misery, Louca Obsessão... e um outro. Acho que tem a ver com um eclipse.

— Eclipse Total?

— Sim, acho que é esse.

— Vamos falar desse. Tem mais a ver com suspense psicológico.

— Tem diferença?

Dou risada do seu olhar confuso.

— Sim.

— Tudo bem, vocês têm um exemplar na biblioteca? Vou pegá-lo amanhã.

Saímos do carro ao mesmo tempo, e ele vai até o porta-malas para tirar minha bicicleta.

— Tenho certeza de que temos — digo. — E acho que tenho um exemplar em algum lugar. Vou dar uma olhada hoje à noite.

— Naquelas pilhas enormes lá dentro? — pergunta, fazendo um sinal de cabeça na direção de minha casa. — Vai mesmo tentar mexer nelas? Vai ser enterrada viva.

— Ha-ha — digo. Muito engraçado.

— Estou falando sério — diz por cima do ombro enquanto leva minha bicicleta até o portão. — Aquelas pilhas podem cair a qualquer momento. — Ele a coloca no chão e volta a andar na minha direção. — Se você não aparecer no trabalho amanhã, vou chamar uma equipe de busca.

Sorrio para ele, ciente dos dois pés de distância entre nós e dos meus sentimentos conflituosos com relação a isso: como é não estar perto o suficiente e estar muito perto ao mesmo tempo.

— Obrigada pela carona — digo, e me viro para subir a varanda da frente.

Sinto um movimento no estômago de novo e coloco a mão sobre ele para estabilizá-lo. E me lembro, enquanto coloco a chave na fechadura, que é exatamente como me senti quando Donovan se inclinou para me beijar muitos anos atrás.

Pouco antes de eu quase morrer.