Perto o bastante para tocar

Colleen Oakley · Capítulo 12 de 37

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Perto o bastante para tocar

sete

 

JUBILEE

— Não se esqueça de usar uma fantasia de Halloween, querida! — É a última coisa que Louise me disse quando eu estava indo embora no meu sexto dia de trabalho.

— Uma fantasia?

— Amanhã é Halloween — disse ela. — Sempre usamos fantasias na biblioteca.

Eu só havia me fantasiado para o Halloween uma vez na vida. Tinha 9 anos e minha única amiga de infância, Gracie Lee, e eu nos vestimos como as gêmeas de O Iluminado. “Afinal de contas, por que vocês vão assim?”, perguntou mamãe, apagando um cigarro em um prato de papel. “É mórbido.” Gracie Lee tirou seus enormes aparelhos auditivos azuis e usou um par de luvas para combinar comigo, embora as meninas no filme não usassem luvas, mas ninguém realmente percebeu — talvez porque não fôssemos nada parecidas de rosto —, e uma mulher até comentou que estávamos “bonitinhas”. Uma vez que Gracie Lee não conseguiu ouvi-la, eu lhe disse que a mulher havia dito que estávamos horripilantes e ela sorriu. E aí me vem outra lembrança daquele Halloween. Enquanto dividíamos nossos ganhos no final da noite, Gracie deu uma mordida em uma barra de chocolate, sem saber que tinha recheio de caramelo. Ela odiava caramelo, por isso me entregou o chocolate. Antes que eu pudesse levá-lo aos lábios, minha mãe deu um tapa na minha mão. “Você está tentando se matar?”, gritou. “Quer morrer?” Naquela noite, vi vampiros, fantasmas e um menino com uma máscara pavorosa que parecia ter sangue de verdade escorrendo pelo rosto, mas essa foi a vez em que fiquei mais assustada. Ainda tremia quando fui para a cama.

Agora, olhando para o armário da minha mãe, toco com os dedos as mangas de cada terninho e blusa, esperando ser tomada por uma inspiração. Porém, até agora, só consigo pensar na Barbie Empreendedora, para a qual eu usaria o terninho rosa-chiclete que era da minha mãe, porque é rosa-chiclete.

Meus dedos chegam ao fim da viagem no fundo do armário e param em algo macio. Tiro a peça do cabide e a trago para a luz. É um vestido longo branco — nada a ver com um vestido de noiva, mas mais com algo para dormir. Não faço a menor ideia de por que minha mãe tinha essa roupa feia e com pano demais para o seu gosto, mas é perfeita.

Vou ser Emily Dickinson. Na última parte da sua vida, quando já não saía de casa, ela só vestia branco e conversava com amigos e familiares através da porta da frente.

Tiro minha blusa de moletom e calça de flanela e passo o vestido pela cabeça. Como todas as roupas da mamãe, esta não cai perfeitamente, mas servirá. Vou ao banheiro e tiro a faixa elástica que mantinha meu cabelo preso no alto da cabeça. Muito embora Emily Dickinson usasse o cabelo firmemente esticado em um coque conservador na nuca em todos os retratos que vi dela — e eu tenha usado o meu puxado para trás todo dia na biblioteca —, resolvo usar o meu solto e rebelde hoje. Se ela se escondeu em casa durante anos e não aceitou visitas, é claro que não arrumava o cabelo. Olho-me no espelho pela última vez e, em seguida, desço a escada para pegar minhas luvas e chaves.

Quando entro na biblioteca, Louise olha para mim.

— Ah, querida, acordou atrasada?

— Não.

Ela franze as sobrancelhas.

— Por que está de camisola?

— Esta é a minha fantasia. — Coloco minha bolsa atrás do balcão.

Ela está de boné preto e óculos escuros estilo aviador, por isso sinto, e não vejo, que ela estreita os olhos na minha direção.

— Você é aquela cantora pop esquisita? Aquela Lady Gaga ou quem?

— Não — digo. — Eu sou a Emily Dickinson.

— A poetisa?

— Sim.

Posso ver que ela ainda está tentando imaginar quem é.

— No final da vida, ela era uma espécie de eremita e só usava branco.

— Hã...

Louise vira o corpo para ficar de frente para mim, e noto as algemas prateadas penduradas no seu cinto. Ela aponta para o papel preso em seu peito. Diz: polícia da gramátca.

— Você escreveu “gramática” do jeito errado.

— Escrevi? — Ela olha para baixo. — Que droga!

Ela arranca o papel da blusa e tira uma folha nova da impressora. Pega um marcador preto de ponta fina, e começo a empurrar um carrinho em direção à porta para pegar as devoluções que estão do lado de fora.

A biblioteca já não parece tanto uma caverna como no primeiro dia, mas ainda tenho receio de sair do balcão. É como se estivesse me testando toda vez que faço isso. Até onde posso ir hoje? Sei a resposta: até a caixa de devoluções do lado de fora. É como se a biblioteca — e, estranhamente, as pessoas nela — se tornasse uma extensão da minha própria casa.

Outros três bibliotecários normalmente trabalham durante meus turnos: Maryann, a diretora da biblioteca; Roger, o bibliotecário na seção infantil, e Shayna, outra assistente de circulação, mas Louise é a minha favorita. Talvez porque foi a primeira pessoa que conheci e eu me sinta naturalmente mais à vontade com ela. Ou talvez porque é a pessoa com quem tenho mais contato, já que Roger fica sentado atrás de uma mesa na seção infantil, o turno de Shayna e o meu só se sobrepõem por algumas horas por dia, e Maryann muitas vezes está trabalhando no seu escritório nos fundos ou correndo para uma reunião. Ou talvez porque Louise não fica me sondando. (A primeira coisa que Shayna me perguntou quando nos conhecemos: “Qual é o lance com as luvas? Você está, tipo, sempre com frio?” Eu apenas dei de ombros. “Mais ou menos isso.”) Louise nunca fez menção às minhas luvas ou perguntou qualquer coisa pessoal sobre mim nesse sentido — como, por exemplo, se tenho namorado ou onde fiz faculdade. Ela apenas faz seu trabalho e eu, o meu.

Às 14h45 Louise vem correndo até mim, sem fôlego.

— Você não está no seu intervalo? — pergunto.

— Tive que voltar — diz. — Maryann telefonou e Roger não vai vir hoje. — Ela ofega.

— Você precisa de uma cadeira? — O quepe de polícia está um pouquinho torto sobre seu penteado platinado e o cartaz em seu peito, levantado.

— Não, estou bem. Só não estou acostumada a correr.

Eu a imagino em seu look de policial irrompendo pela porta da TeaCakes, a cafeteria onde estava fazendo sua pausa para o almoço, correndo pela calçada para voltar à biblioteca, e só consigo imaginar o que os transeuntes devem ter pensado: há uma emergência gramatical! Saiam do caminho!

— Você vai ter que fazer a hora das histórias com as crianças.

— Eu?

— Sim, você. Preciso ficar no balcão.

— Mas eu nunca fiz isso — digo, com a cabeça girando.

— Bem, não. Mas com certeza você já leu para crianças antes, né? Sobrinhas? Sobrinhos?

Nego com a cabeça.

Ela franziu a testa.

— É fácil. Roger deixou os três livros na mesa dele e acho que você vai distribuir doces e cantar uma música ou algo do tipo. Demora trinta minutos.

— Cantar uma música? — Isso está piorando a cada segundo.

— Sim. Anda logo, querida. — Ela me enxota com as mãos na direção da seção infantil. — As crianças... ah, olha! Algumas estão passando pela porta agora.

Pego os livros na mesa de Roger e vou até o tapete redondo onde está uma única cadeira para adulto encarando o chão vazio. Sento-me e ergo os olhos para ver as crianças, cheias de entusiasmo, passando correndo pela porta e vindo em minha direção. Há uma pirata, três princesas usando o que parece ser o mesmo vestido azul e um menino fantasiado de astronauta.

Hesitante, sorrio para elas, mas, ao se aproximarem, vejo que não estão devolvendo o sorriso. Na verdade, uma garota — uma das princesas — parece zangada. Meu coração começa a saltar.

— Cadê o senhor Rogers? — pergunta ela.

Sinto vontade de ressaltar que o nome dele é Roger, sem o “s”, e que o sobrenome dele é Brown, e, por isso, ele não seria tecnicamente o senhor Rogers, popular apresentador de um programa infantil de televisão, mas agora não parece ser o momento oportuno para isso.

— Ele está doente hoje — digo, o que nem sei ao certo se é verdade. Louise não disse por que ele não viria. — Por isso, vou ficar no lugar dele.

— Você tem doce? — pergunta.

Droga! Os doces. Só peguei os livros.

— Tenho — digo, esperando que Roger tenha deixado o doce em algum lugar sobre a mesa.

Ela fica olhando para mim por mais um tempinho e depois concorda com a cabeça, como se eu tivesse satisfeito suas demandas. Em seguida, ela e as outras duas princesas se sentam em uma fileira; outras crianças começam a entrar e fazer o mesmo.

Elas parecem vir de todas as direções, e quero concentrá-las e mantê-las todas na minha linha de visão. E se uma delas chegar muito perto e tentar me tocar? Crianças são como cobras: imprevisíveis. Empurro minha cadeira para trás, na direção da parede, até onde é possível, sentindo minha garganta se fechar como se eu já tivesse sido tocada.

Agitada, olho ao redor, esperando que Roger apareça, Louise entre em cena, o alarme de incêndio toque e tenhamos que evacuar o edifício... qualquer coisa para acabar com esse pesadelo. Em vez disso, meus olhos localizam Madison H. Ela está empurrando um carrinho de bebê e levando duas crianças para dentro do círculo. O ritmo do meu batimento cardíaco diminui um pouco.

Ela para de repente quando me vê.

— Esqueceu de pentear o cabelo hoje de manhã?

Antes que eu possa responder, a garotinha que está segurando a mão dela diz:

— Mamãe, é uma fantasia.

— Ah, verdade! Vamos ver. — Madison me examina. — Você é aquela garota que rasteja para fora da TV... Qual era o filme... O chamado? — Ela estremece. — Meu Deus, aquilo era terrível.

— Claro que não! — diz a filha, revirando os olhos, o que parece uma atitude muito adulta para uma criança tão pequena. Mas, por outro lado, não sei muita coisa sobre crianças. — É a Lady Gaga.

Faço que não com a cabeça.

— Não, eu...

— A Lady Gaga não usa pijama — diz uma voz pequenina, cortando-me. Acho que é o pirata.

— Você é o Fantasma do Natal Passado? — pergunta outro.

— Eu sei, eu sei! Ela é uma amish! Vovó me levou naquele vilarejo da Pensilvânia no ano passado. Eles não têm máquinas de lavar louça nem televisão.

— Todo mundo tem televisão.

Meus olhos se voltam rapidamente para o lugar de onde vêm as vozes, mas é difícil saber.

— Ela é uma assassina em série. — A palavra “assassina” absorve o ar da sala, e todos se viram para olhar para um rapazinho sentado em uma cadeira de rodas. Seus olhos escuros não estão olhando para mim; não estão, de fato, olhando para ninguém.

Seu pai (imagino ser seu pai, embora eles não sejam nem um pouco parecidos, já que ele está em pé atrás dele segurando a cadeira de rodas), sorri nervosamente:

— Por que está dizendo isso, amiguinho?

— As luvas — diz o menino. — Assassinos em série usam luvas.

Quinze garotos de olhos arregalados voltam a olhar para mim e para minhas mãos. Eu me mexo na cadeira e meu coração acelera de novo.

— O que é um assassino em série? É alguém que gosta muito, muito de sucrilhos?

— Por que eles usam luvas?

— Eu gosto de sucrilhos!

— Você vai matar a gente? — pergunta uma voz trêmula.

Pelo menos duas crianças desatam a chorar.

Meu coração está batendo tão alto que me pergunto se todos podem ouvi-lo. Se sou uma história de Edgar Allan Poe que ganhou vida. Isso é muito pior do que imaginei. Corro os olhos para a esquerda e para a direita à procura de uma rota de fuga, mas há crianças por todos os lados. Respiro fundo e bato palmas com as mãos enluvadas. Posso fazer isso.

— Ninguém vai matar ninguém — digo, e ofereço meu sorriso mais simpático. — Não estou vestida de assassina em série ou Lady Gaga ou amish... embora tenha sido um bom palpite. — Faço um sinal com a cabeça na direção do bombeiro, que imagino ter falado um pouco sobre os amish e televisão. Ele sorri.

— Vou dar uma dica para vocês.

Em vez de ver, sinto as crianças se inclinarem para a frente.

E, embora sejam apenas crianças, meu rosto queima, e quero que se abra um buraco debaixo da minha cadeira e me engula completamente. Pigarreio.

— A “esperança” — As palavras saem estridentes, como um rato agitado. Tento novamente: — A “esperança” é uma ave... que pousa na alma. E canta melodias sem palavras e nunca, mas nunca, cessa.

O poema paira no ar e as crianças apenas ficam olhando, em silêncio. Finalmente, uma se manifesta.

— Você é uma... ave?

Olho para o rosto miúdo delas ao meu redor. Acho que são um pouco jovens para Emily Dickinson. Meus olhos param quando chegam ao pai que está atrás da cadeira de rodas. Ele está olhando para mim, mas não está apenas olhando para mim — seus olhos estão penetrando meu rosto, como se ele estivesse quase olhando através de mim. Não piscam e são intensos. Talvez pense que sou uma assassina em série, afinal.

Olho rapidamente para baixo e pego o primeiro livro no meu colo. Flat Stanley e a Casa Assombrada.

— Vamos começar — digo, e levanto o livro.

O ar irrompe em gritos de alegria por causa de Flat Stanley. Jamais ouvira falar dessa personagem, mas, ao que parece, ela é bastante popular. Em silêncio, agradeço a Roger por, pelo menos, ter escolhido os livros certos.

*

Mais tarde, quando as crianças, com suas pequenas mãos cheias de doces, se dispersam pelas estantes de livros para encontrar seus pais — Louise, para meu grande alívio, encontrou os sacos nos quais Roger havia guardado os doces e trouxe para mim —, Madison H. empurra o carrinho de bebê até mim. Quando se aproxima o suficiente, sussurra:

— Ainda não consigo acreditar que Donovan perdeu isso. Faz semanas que as crianças não viam a hora.

Dou uma olhada para a bebê aninhada no carrinho, olhando para nós com os olhos arregalados, e imagino como seria segurá-la. Sentir o roçar dos seus cílios contra minha bochecha.

— Ele disse que tinha uma “reunião grande e importante” — diz, fazendo aspas com os dedos no ar. — Tenho certeza de que isso é um código para foder com a secretária.

Começo a tossir, sufocando literalmente qualquer palavra que pudesse dizer em resposta. Meus olhos se lançam pela sala novamente, vendo se alguém pode ter ouvido sem querer.

— De qualquer forma, foi bom ver você — diz. — Poderíamos almoçar juntas na semana que vem.

Fico olhando para ela como se ela estivesse falando grego. Almoçar. Pergunto-me se ela está falando sério ou se é apenas algo que as pessoas dizem quando estão tentando ser simpáticas.

— Sammy! Hannah! Vamos. — Ouço, mas não vejo, as crianças choramingarem em protesto, as vozes flutuando de detrás de uma das estantes de livros na seção infantil. — Agora! — grita Madison. Em seguida, suspira. — Vamos lá, vocês podem tomar mocaccinos no caminho de casa.

Mocaccinos? Crianças tomam café agora?

Gritos de alegria emergem das estantes, e Hannah e Sammy vêm correndo em direção à mãe. Eu me contorço em volta das crianças e volto para o balcão. Louise ergue os olhos quando entro no nosso espaço de trabalho.

— Viu? Não foi tão ruim assim, foi? — Seus olhos me ignoram, e ela baixa a voz ao nível de um sussurro. — Ah, querida, não olhe agora. Esse rapaz chegou há poucos dias. Ele e o filho parecem um pouco... desconectados. — Ela se vira, ocupando-se em cuidar dos livros devolvidos. Ergo os olhos (porque quem não olha quando alguém diz: “Não olhe agora”?) e encaro o pai junto à cadeira de rodas. Ele é alto, mas não de um modo imponente. Seu cabelo é como uma mistura condimentada de cores, principalmente noz-moscada e canela, com um toque de sal, que se projeta de forma irregular em sua cabeça, como se implorasse para ser bagunçado por uma avó. Se ele não tivesse esse semblante resoluto e sério, seria quase encantador. Meu olhar se concentra no seu filho preso à cadeira de rodas ao seu lado, lutando para chegar ao balcão.

— Me ajuda — pede ao pai.

Parece particularmente pequeno naquela cadeira grande, e seus olhos grandes ficam ainda maiores com o esforço que faz. Meu coração se desmancha por ele no mesmo instante, mesmo depois dele ter me chamado de assassina em série.

— Não. — O homem desvia os olhos de mim e volta a olhar para o menino. — Eu disse que não ia te empurrar o dia todo.

A cena é tão insensível, tão áspera, que meu queixo cai. Talvez esse seja algum modelo de criação dos tempos modernos que consiste em amar com dureza, mas pelo amor de Deus! O menino é deficiente.

O pai está diante de mim, com uma pilha de livros para deixar no balcão, mas não faço nenhum movimento para registrar a saída deles. Estou vendo o menino se contorcer e lutar com a cadeira excessivamente grande. Percebendo que estou encarando-o, o garoto olha para mim e depois olha para baixo novamente.

— Você deveria ter usado óculos — diz ele.

— O quê? — Nem sei ao certo se ele está falando comigo, porque não está olhando para mim.

— Grandes e com moldura clara. — As palavras saem entrecortadas, uma vez que ele está ofegante por causa do esforço.

— Você precisa de ajuda? — pergunto.

— Ele está bem — interrompe o pai, com um toque incisivo na voz que soa mais afiado do que o necessário.

Eu o ignoro e mantenho os olhos no menino.

— Dorothea Puente — diz ele entre bufadas. Está a pouco mais de um metro do balcão. — Ela dirigia uma pensão e matou nove inquilinos em seis anos. — Ele me encara uns instantes e desvia os olhos em seguida. — Você está vestida como ela. A Dorothea mais nova. Mas ela usa óculos.

— Ok, já chega — diz o homem, e depois se vira para mim. — Desculpe por isso.

Ele olha novamente para o menino, que, pelo que me ocorre agora, pode não ser seu filho, afinal, porque não só tem uma pele muito mais escura e o cabelo castanho brilhoso, mas também fala com um pouco de sotaque. Poderia ser adotado, mas o homem não me parece do tipo afetuoso e apaixonado que adota crianças.

— Vamos parar com esse negócio de assassina em série, ok? — diz o homem.

— Não, está tudo bem — digo. — Nunca ouvi falar dela.

— A maioria das pessoas nunca ouviu — diz o menino. — As assassinas em série não são tão famosas como os assassinos por causa do estereótipo de que todas as mulheres são movidas por emoções e, portanto, não podem ser psicopatas, a quem, por definição, falta empatia.

O homem suspira.

Fico olhando para esse menino, que agora está me olhando diretamente nos olhos, e não sei o que pensar dele. Por exemplo, ele é muito pequeno. Não sou especialista em adivinhar a idade de crianças, mas ele não pode ter mais que 8 anos, e conversa como alguém com diploma universitário. E está usando um terno. Nem sabia que se faziam ternos para crianças.

— Você sabia que Jack, o Estripador, só matou cinco mulheres? — pergunto, porque ele é o único assassino em série sobre quem realmente sei alguma coisa e, por alguma razão, quero trocar conhecimentos sombrios com esse menino.

Os olhos do homem se arregalam.

— Claro — diz o menino. — Todo mundo sabe disso.

Ah. Mudo de assunto.

— Por que não colocou fantasia para o Halloween?

— Eu coloquei — responde ele.

Eu o examino mais de perto. Fico me perguntando se é algum tipo de jogo de palavras que vai além da sua idade, se ele está sendo inventivo por literalmente “se fantasiar” com uma roupa formal, em vez de usar uma fantasia propriamente dita.

— Me imagine calvo — diz ele, e lança um olhar para o homem. — Não me deixaram raspar a cabeça.

Tento pensar em calvos bem-vestidos.

— Bruce Willis? — pergunto.

— Quem?

— Um ator. Era casado com Demi Moore.

— Também não sei quem é essa — diz o menino. — Sou o Professor Xavier.

Esse nome não significa nada para mim, e acho que meu rosto revela isso.

— Dos X-Men...? — diz.

— Ah, do filme — digo, agora me lembrando de ver comerciais do sucesso de bilheteria que tinha uma mulher pintada de azul, um cara que parecia uma raposa com garras e o homem mais velho e calvo que, ah, verdade!, está em uma cadeira de rodas. Deve ser o Professor Xavier.

Seus olhos se arregalam e ele parece angustiado, como se eu o tivesse ofendido profundamente.

— Das HQs — diz, pronunciando cada letra, como se eu fosse a criança e ele, o adulto.

— Bem, foi muito criativo da sua parte escolher uma personagem que também usa cadeira de rodas — digo.

O homem ao lado dele inspira profundamente e depois solta o ar, um longo fluxo de ar, antes de dizer:

— Ele não é deficiente.

— O Professor Xavier? — pergunto, confusa.

— Não, meu filho — diz, indicando o menino com a cabeça.

— Ah.

Não sei ao certo o que dizer em seguida. E, francamente, estou um pouco surpresa com o parentesco dos dois, afinal. Olho para o menino na cadeira, que sorri para mim, e fico impressionada, não só porque é a primeira vez que ele sorri, mas porque o sorriso ilumina todo o seu rosto. Não posso deixar de retribuir o sorriso para aqueles grandes dentes salientes que ocupam o lugar dos lábios.

— Não acho que foi muito... apropriado, mas ele insistiu, e... — murmura o pai, e então interrompe a si próprio. — Não importa.

Ele aponta para os livros sobre o balcão, sinalizando o fim da conversa e indicando que é hora de registrar a saída.

Tiro meus olhos do menino e o ajudo, pegando o primeiro livro da pilha. É Crepúsculo. Olho-o mais uma vez — com certeza, ele é muito jovem para este livro. Mas, de novo, parece bastante precoce e tem uma riqueza de conhecimento sobre assassinos em série. Escaneio o livro e o coloco de lado.

O próximo é As Virgens Suicidas. Um dos meus favoritos, e deixo escapar um pequeno e involuntário suspiro.

— O que foi? — pergunta o pai.

Olho para ele.

— Ah, nada. Desculpe. Adoro este livro.

Ele franze a testa para mim, dando-me o mesmo olhar decidido que me deixou nervosa durante o círculo de leitura com as crianças.

— Adora?

Desvio os olhos, deixando sair um rápido “sim”, e passo para os dois últimos livros: A Redoma de Vidro, de Sylvia Plath, e Diário de uma Paixão, de Nicholas Sparks. Escolhas estranhas tanto para um menino de 8 anos (mesmo maduro para a sua idade) quanto para um adulto.

Depois de escanear os livros, pego as chaves em sua mão e escaneio o cartão da biblioteca que ele tem no chaveiro. Olho para a tela e um nome aparece: Eric Keegan.

Imprimo o recibo, coloco-o no meio do livro que está no topo da pilha, que agora é Diário de uma Paixão, e levanto a pilha do balcão na frente do homem.

— Todos devem ser devolvidos daqui a três semanas, Sr. Keegan — digo. — Vinte e um de novembro.

Ele concorda com a cabeça e olha para o garoto.

— Vamos — diz ele. Quando o menino começa a manobrar a cadeira de rodas com esforço exagerado, o pai suspira novamente. — Você não pode simplesmente se levantar e empurrar? O evento com as fantasias já acabou.

— O Professor Xavier não podia simplesmente levantar — diz o menino. — E eu também não.

Em uma explosão de energia, o menino bate a cadeira no balcão com força suficiente para derrubar um porta-lápis na minha frente.

— Eu falei para você usar os óculos — murmura o pai.

— O professor Xavier não usa óculos — responde o menino.

— Desculpe — diz o homem para mim enquanto pego os lápis e os coloco de volta na peça derrubada.

Quero lhe dizer que está tudo bem, mas não consigo fazer as palavras saírem da minha boca. Tudo parece demais para mim: esse homem com esse olhar intenso, toda essa conversa, que poderia ser a mais longa que já tive depois de anos, neste dia. Meus dedos encontram meu pulso, e começo a bater nele, querendo que as batidas do meu coração se ajustem ao ritmo.

O homem segura a cadeira e ajuda o menino a dar meia-volta, na direção da saída.

— Para lá — diz ele.

Finalmente, penso, feliz por ver que o homem não é um completo idiota. Levanto a cabeça para vê-los indo embora, mas, assim que faço isso, ele olha para mim.

Envergonhada por ter sido flagrada examinando os dois, desvio os olhos para o computador.

— Obrigado — diz ele. E, então, depois de um segundo, acrescenta: — Emily.

Surpresa, viro rapidamente a cabeça na direção dele, mas ele já tinha virado para a frente, empurrando lentamente a grande cadeira de rodas com o filho em direção à porta.

Louise aparece atrás de mim e diz baixinho:

— Eu disse que eles eram estranhos, não disse?

Não respondo, ainda atordoada com toda a conversa.

— O pai parece meio babaca, se me perguntar — continua ela.

Concordo lentamente com a cabeça. Ele era um pouco... sério. Mas, por outro lado, também conhecia Emily Dickinson de cor e, para ser honesta, não sei bem ao certo o que pensar disso.

Ao meu lado, Louise suspira ruidosamente e depois diz baixinho:

— Todos os bonitões são.