Perto o bastante para tocar

Colleen Oakley · Capítulo 31 de 37

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Perto o bastante para tocar

vinte e quatro

ERIC

Ellie parece mais velha e mais jovem ao mesmo tempo, se é que isso é possível. Seu cabelo alisado na chapinha tem mechas azul-celeste, da mesma cor que ficavam seus lábios quando devorava aqueles picolés artificiais no verão. Framboesa, seu favorito, era inexplicavelmente azul.

Ela está minúscula, incrivelmente pequena na cama do hospital, como se fosse a Alice no País das Maravilhas e bebesse a poção para encolher, os ombros curvados para dentro, o corpo engolido pelo colchão fino.

Volto a minha atenção para o seu nariz, onde um diamante minúsculo repousa na curva acima da narina, e tento não ter um ataque do coração quando penso que Stephanie a deixou colocar um piercing. Pelo menos não é uma tatuagem.

Enquanto a examino, aliviado por ver que seu corpo ainda está cheio de vida, por mais que ela o tenha decorado, ela olha para mim, os olhos frios e firmes. Espero — será que ainda me odeia? Tenho medo de dizer algo, de dizer a coisa errada.

Então, ela diz:

— Pai. — E acho que meus joelhos bambeiam pelo alívio.

— Ellie.

— Pai, desculpa. — Seu rosto vai se enrugando por partes, como um acordeão, começando pela testa. Lágrimas escorrem por suas bochechas.

— Ah, querida — digo, envolvendo-a em meus braços. Sento-me na beira da sua cama de hospital, deixando-a encharcar meu ombro. Acaricio seu cabelo azul até sua respiração irregular recuperar lentamente a cadência.

Ela se solta do meu abraço e se reclina, limpando o nariz com a parte de cima do braço nu. Vou até o balcão para pegar um lenço de papel e o entrega a ela.

— O que você estava pensando? — pergunto, levando a mão ao seu rosto e colocando uma mecha de cabelo atrás da sua orelha.

— Sei lá — diz, cabisbaixa. — A Darcy disse que era só maconha normal.

— Mas mesmo a maconha, Ellie. Você não é assim — digo, mexendo de leve nos fios azuis de cabelo que roçam seu ombro para enfatizar o que quero dizer.

Ela se esquiva abruptamente, com os olhos ardendo de raiva.

— Você não sabe quem eu sou.

Abaixo minha mão. Olho para ela. Deixo suas palavras serem assimiladas.

— Tem razão. Não sei quem é você. Não mais. Mas, Ellie, estou tentando. Realmente quero saber.

— O quê? Lendo alguns livros idiotas? — pergunta, ríspida.

Encolho-me.

— Sim, lendo alguns livros — digo, com cuidado para manter o tom calmo e constante. — Lendo seu diário. Não tive muita escolha, né? Você não falava comigo.

— Por que será? — Ela revira os olhos e cruza os braços na frente do peito.

— Ellie, sei que o que eu disse foi horrível, e sinto muito. Já pedi desculpas umas cem vezes. Você sabe que as pessoas dizem coisas, às vezes, que não querem dizer. Acontece. As pessoas cometem erros. Eu cometi um erro.

— Você acha que isso tudo é por causa daquilo que você disse?

— Bem, sim. — Sento-me um pouco mais reto. — Não é?

Ela ri.

— Ah, meu Deus. A mamãe tinha razão. Você é muito emocionalmente ingênuo.

Tento ignorar essa alfinetada e espero que continue a falar. Ela não fala. Apenas vira a cabeça e olha pela janela, como se o poste de luz fosse um objeto tecnológico completamente fascinante que ela nunca tivesse visto.

— Você vai...

— Você me abandonou! — grita, assustando-me. — Foi embora! Você disse, quando estava se divorciando da mamãe, que estaria sempre ao meu lado. Só não na mesma casa. Mas você não esteve!

Jubilee passa por minha cabeça. Seu corpo encolhido no banco do passageiro do meu carro, os ombros levantados ao falar da traição da mãe. Foi assim que Ellie se sentiu esse tempo todo? O pensamento me arrasa.

— E você levou ele com você.

— Aja?

— Era o que você sempre quis, né? Um filho. Alguém que não fosse complicado e emotivo. Um menino fácil de entender. E você o pegou e então teve a chance de ir embora. De ter uma vida fácil sem mim, e você aproveitou a chance.

Meus olhos ficam maiores a cada ideia que sai da sua boca. Nem sei por onde começar quando é minha vez de falar.

— Aja — começo — é tudo, menos descomplicado e não emotivo. E acho que estou fazendo pior com ele do que fiz com você, se serve de consolo. E esse trabalho, o motivo pelo qual me mudei? É apenas temporário. Seis meses. Sua mãe não disse isso para você?

— Sim — diz. — Mas é assim que todos começam, e aí você faz um trabalho bom e eles querem que você fique.

— Por que você pensa assim?

— Foi o que a Darcy disse. O pai dela se mudou com eles para cá por causa de um trabalho “temporário” de um ano. — Ela faz aspas com os dedos, e isso me impressiona como algo muito adulto. Fico imaginando se foi a Darcy quem lhe ensinou isso também. — E já faz dois anos que estão aqui sem nenhum sinal de que vão embora.

Ah, quem dera fosse temporário, penso, mas me contenho.

— Bem, esse é temporário. Estou cobrindo uma licença-maternidade da vice-presidente e ela está voltando. Estamos trabalhando na transição agora. Além disso, mesmo que me pedissem para ficar, eu nunca ficaria. Eu nunca deixaria você. Nunca.

Ela funga.

— Mesmo que peçam para você ser um dos sócios?

Olho para seus olhos tristes. O piercing no seu nariz brilha na luz fluorescente. E digo com absoluta confiança:

— Mesmo que me peçam para ser um dos sócios.

Ela faz um pequeno aceno de cabeça e olha para as mãos. Não sei ao certo o que fazer dali para frente. Não sei ao certo se ela acredita em mim. Não sei ao certo se posso desfazer todo o estrago que fiz sem saber. Porém, tenho certeza de que vou voltar para cá assim que for possível. E que nunca mais vou deixá-la.

E então, pela segunda vez naquele quarto de hospital, penso em Jubilee.

Chego em casa por volta das três da manhã, esgotado, apesar de um rápido cochilo desconfortável enquanto estava sentado em uma cadeira do hospital naquela tarde. A casa está escura, mas, felizmente, mais quente do que quando saí. Atravesso o corredor, dando uma olhada no quarto escuro de Aja, seu vulto amontoado tranquilamente na cama. Continuo em direção ao meu quarto, as tábuas velhas rangendo debaixo dos meus pés. Abro o primeiro botão da camisa enquanto ando. Sobe um cheiro forte desagradável, lembrando-me de que faz quase 48 horas que tomei um banho, mas estou muito exausto para lidar com isso agora.

Vou até o pé da minha cama e fico parado ali. Jubilee, assim como Aja, é um monte amorfo e frágil sob os lençóis, mas me sinto puxado em sua direção, como se ela estivesse do lado dos vencedores em uma brincadeira de cabo de guerra. Eu daria qualquer coisa para me render. Para me enfiar na cama ao seu lado, sentir a extensão do seu corpo contra o meu, o calor da sua pele, as batidas do seu coração. Fico imaginando se ela pensa nisso também.

E, de repente, sou dominado pelo desejo de descobrir. De saber se estou sozinho no desejo, um farol sinalizando para um mar vazio.

— Jubilee — sussurro. Minhas veias tremem enquanto espero sua resposta. Ela não se mexe. Tento mais uma vez. — Jubilee. — Olho para ela no escuro, de cabeça para baixo, e só consigo distinguir seu rosto, o contorno da sua boca no meu travesseiro. Vou para o outro lado da cama king size e hesito. Na teoria, duas pessoas podem dormir nesta cama e nunca se tocarem durante a noite. Eu deveria saber — Stephanie e eu conseguimos evitar um ao outro durante meses em uma cama desse tamanho.

Porém, a ideia de ter Jubilee a poucos centímetros de distância — as ondas do seu cabelo me chamando como o oceano à praia — mostra-se muito tentadora para suportar. Pego o travesseiro extra, tiro um cobertor do compartimento superior do armário aberto e me deito no tapete, abaixo dos seus pés, ouvindo-a respirar e esperando ser vencido pelo sono, mas ele não vem por um longo, longo tempo.

Na manhã seguinte, levanto-me antes de todos e vou correndo ao mercado para comprar café e pão. Quando volto, Jubilee está na cozinha enchendo um copo na pia.

— Bom dia — digo, colocando a sacola na bancada. Ela está usando uma das minhas camisetas brancas e uma calça de ginástica. Mesmo com o cós dobrado três ou quatro vezes, a calça ainda está grande.

— Bom dia — responde, e engole a água.

— Hum, tenho que voltar ao hospital agora de manhã. Ajudar Ellie com a papelada da alta e acomodá-la em casa. Aí nós poderemos sair. Tudo bem?

— Claro — diz, mas a palavra tem certa frieza. Um tom que eu não tinha ouvido antes, e ele me faz parar. — Posso usar sua máquina de lavar? — pergunta.

— Claro. Tudo o que você precisar. Ah, e comprei pão. — Dou um tapinha na sacola para reforçar. — Você fala pro Aja?

— Tá — diz, colocando o copo debaixo da torneira novamente.

Viro-me para ir, sem saber o que dizer em seguida. Afinal, atravessei vários estados, arrastando essa mulher para minha casa, em New Hampshire, sem mais nem menos, no meio da noite; eu deveria me sentir um pouco chateado também.

Com um abraço apertado e a promessa de que voltarei a cada dois finais de semana antes de me mudar definitivamente, em fevereiro, deixo Ellie na casa de Stephanie.

— Responda às minhas mensagens — digo, fitando-a com meu melhor olhar de pai.

— Só se você parar de mandar mensagens idiotas.

— Sem chance.

Ela oferece meio sorriso e, embora eu queira gritar “Nada de drogas! Nada de Darcy! Nada de sair de casa!”, chego à conclusão de que é melhor ir embora sem criar problemas. Além disso, Stephanie surpreendentemente concordou comigo que Ellie deveria ficar de castigo por um mês. Pelo menos com isso posso ficar sossegado, sabendo que ela não sairá de casa a não ser para ir à escola por um tempo.

No caminho de volta para New Jersey, Aja está ocupado com seu videogame, enquanto fico remoendo os últimos dias, exausto. Só quando chegamos à metade do caminho é que percebo que Jubilee não está falando. Não fala desde que os peguei em casa e entramos todos no carro.

— Você ligou para a biblioteca? — pergunto, atinando que talvez esteja aberta hoje, um dia depois do Ano-Novo, e que Jubilee está faltando ao trabalho.

— Sim. Shayna está me cobrindo — diz, e se vira para ver as árvores e os montes cobertos de neve que passam pela janela do passageiro.

— Ei, me desculpe outra vez, de verdade, por ter envolvido você nisso tudo. Mas estou contente... estou contente por você estar aqui. —

Pigarreio.

— Tudo bem — diz, interrompendo. — Não tem importância.

— Sim, mas... — Procuro por palavras, as palavras certas, mas elas não vêm.

— É sério. Está tudo bem — repete com determinação.

Fico imaginando se a interpretei mal esse tempo todo. Os olhares, as bochechas coradas, a tensão palpável no ar entre nós. Será que inventei tudo? Será que me deixei cegar tanto pela minha própria atração que imaginei a de Jubilee? Lembro-me das palavras que Ellie me disse no hospital, palavras que ficaram na minha cabeça como uma pedra no sapato: “emocionalmente ingênuo”. Porém, depois de estar em seu quarto, tocar seu rosto com a minha mão enluvada, seu colo, seu seio perfeitamente redondo... eu sei, eu sei que ela sentiu o mesmo.

Então o que foi? Nunca conversamos sobre isso. Sobre nenhum desses momentos, exceto aquela noite na biblioteca em que ela mencionou algum tratamento abstrato que talvez faça ou não. Penso no que Connie disse: em como sempre quero o que não posso ter. Talvez seja preciso encarar a realidade dessa situação: quero Jubilee e não posso tê-la. E talvez Jubilee simplesmente esteja um passo na minha frente e já tenha percebido isso.

Quando finalmente chegamos a Lincoln, ofereço-me para passar em uma farmácia, comprar uma sopa ou um remédio — parece que ela melhorou do resfriado, mas me sinto culpado por nem sequer perguntar.

— Só quero ir para casa — diz ela.

Faço que sim com a cabeça.

— É que prometi um macarrão instantâneo para você — digo, esperando um sorriso. — Não gosto de voltar atrás nas minhas promessas.

Ela não responde. Passamos o resto da viagem em silêncio.

Encosto o carro na entrada da sua garagem e desengato a marcha. Ela põe a mão na maçaneta da porta e, antes que me dê conta do que estou fazendo, toco a manga do seu casaco. Ela puxa o braço como se minha mão fosse a boca de uma serpente.

— O que está fazendo? — pergunta, olhando para mim pela primeira vez desde que saímos de New Hampshire.

— Nada. Eu não... desculpe. É que... — Respiro fundo, tentando controlar o desespero que vai me dominando como uma trepadeira. Solto o ar. — Vejo você amanhã?

— Não.

— O quê? — Minha sobrancelha sobe e depois desce, sem direção e tão confusa quanto eu me sinto.

— Não preciso mais de carona.

— Claro que precisa. Ainda está fri...

— Não sou uma donzela em apuros que você tem que salvar! — diz, e é como se todo o ar, de repente, saísse de uma vez do carro. — Não preciso de você para comprar sopa, não preciso de você para consertar o meu carro, não preciso de você para me levar para casa! Estava bem antes de você aparecer, e vou ficar bem agora.

Fico sentado ali, com o corpo parado no tempo, atordoado demais para me mover ou para responder.

Ela olha para as mãos enluvadas no seu colo e, quando fala novamente, sua voz está baixa.

— Você fez mais do que o suficiente. Obrigada.

E, em seguida, a porta se abre e ela se vai, simples assim.

Permaneço imóvel, sem saber quanto tempo se passou, até ouvir a voz de Aja no banco traseiro.

— Eric?

Olho pelo retrovisor, encontrando seus olhos, que estão tão redondos e arregalados quanto os meus.

— Ainda posso ir à biblioteca? — pergunta, com a voz trêmula.

— Não sei, amiguinho — digo, dando marcha à ré e saindo lentamente da entrada da garagem de Jubilee. — Acho que não.