Perto o bastante para tocar
três
JUBILEE
O carteiro está atrasado.
Estou tentando prestar atenção no especial Jack, o Estripador, na PBS, mas meus olhos não param de espreitar o relógio na parede. É 1h17. O correio vem todos os dias entre meio-dia e meio-dia e meia.
Estou preocupada com ele. O carteiro. Mesmo que nunca tenhamos conversado. Nem sei seu verdadeiro nome. Eu o chamo de Earl, porque uma vez eu o ouvi, através da porta, cantando com toda a força dos pulmões, em sua voz de barítono: “Duque, Duque, Duque... Duque de Earl, Earl, Earl.”
Talvez ele tenha visto uma bolsa sendo roubada e tenha decidido perseguir a pé o suposto ladrão, jogando-o ao chão para recuperar a bolsa de uma estranha. Parece ser algo que Earl faria — ele faz esse tipo. Decente. Bom.
Mas e se for algo pior? Como um derrame? Ou um coágulo de sangue que subiu por sua perna e foi direto para o coração? Ele pode estar deitado, indefeso, na rua agora, sob o vibrante céu azul, com envelopes e pacotes espalhados embaixo dele como destroços flutuando ao acaso no mar depois de um naufrágio.
Justamente no momento em que começo a entrar em pânico, ouço um barulho. A portinha sem graxa da caixa de correio de metal na porta da frente range ao ser aberta e, quando a cascata de envelopes e de folhetos de propaganda passa por ela, cai no chão.
Salto do sofá e, na ponta dos pés, vou até a porta, tomando cuidado para não escorregar nos cupons lisos que agora forram o chão da antessala. Através do olho mágico, dou uma olhadinha nas costas de Earl enquanto ele se afasta.
Estou tão feliz em vê-lo, vivo e respirando, com sua bermuda azul e meias na altura dos joelhos até aqueles sapatos de médico que não favorecem muito, a bolsa com correspondências pendurada no ombro esquerdo e cruzada sobre o corpo até o lado direito do quadril, que parte de mim quer irromper pela porta e lançar os braços ao seu redor.
Mas é óbvio que não farei isso.
Quando me agacho para pegar as correspondências, eu os vejo: os selos vermelhos gritando dos envelopes para mim.
VENCIDO
ÚLTIMA NOTIFICAÇÃO
ENVIAR PAGAMENTO
Eu sabia que viriam. Claro que sabia. Lenny foi fiel à sua promessa e, embora tivesse enviado a escritura da casa, e o último extrato hipotecário com a palavra “pago”, não enviou um cheque desde a morte da minha mãe, há seis semanas — por isso não paguei uma conta, juntando o pouquinho de dinheiro que separei para necessidades diárias como comida. Passei a maior parte dos dias procurando trabalhos que pudesse fazer sem sair de casa. Candidatei-me a uma vaga de assistente virtual, tutora on-line e até telefonista de um call-center em horário fora do expediente, apesar de não ficar empolgada com a ideia de estar acordada às três da manhã. Porém, não recebi nem um retorno. Talvez porque, na seção “experiência” dos formulários, eu tivesse escrito “nenhuma”, mas será que a gente realmente precisa de experiência profissional para atender telefones?
Agora fico olhando para carta após carta, anunciando que a energia será cortada, assim como a água e até mesmo a minha internet.
E como vou procurar um emprego? Ou comprar comida? Ou sobreviver? Preciso de dinheiro.
Para isso, preciso arrumar um emprego.
Para isso, aparentemente preciso sair de casa.
E, diante desse pensamento, o punho gigante que apertou meu coração seis semanas atrás está de volta, e fica difícil respirar.
Odeio quando as pessoas fazem o diagnóstico de si mesmas. Vi minha mãe fazer isso durante anos — mamãe tinha tudo, desde raiva (mesmo nunca tendo sido mordida por um animal), passando pela doença de Creutzfeldt-Jakob, à sífilis (embora, fazendo uma retrospectiva, esse diagnóstico não teria sido exatamente surpreendente). No entanto, depois de uma pesquisa bem minuciosa no Google, acho que é seguro dizer que estou sofrendo de um transtorno de ansiedade, que pode ou não ser agorafobia. (Outro fato que descobri na minha pesquisa: Emily Dickinson não saiu de casa durante a maior parte dos seus últimos 15 anos de vida — ela só usava branco e fazia amigos e visitantes conversarem com ela através da porta da frente, o que me faz me sentir um pouco melhor em relação à minha situação. Pelo menos não estou tão louca assim.)
O que não entendo é por que ninguém mais acha irônico que o tratamento recomendado para agorafobia seja sair de casa e procurar a ajuda de um terapeuta.
Sei que preciso sair de casa, mas saber uma coisa e colocá-la em prática muitas vezes são duas coisas diferentes.
Felizmente, minha pesquisa no Google ontem também mostrou a Técnica de Liberdade Emocional, ou TLE, que usa a acupressão psicológica para remover bloqueios emocionais que a pessoa pode estar experimentando, de acordo com o site.
É por isso que hoje de manhã estou diante da porta da frente batendo levemente com a ponta dos dedos no alto da minha cabeça. Em seguida, passo para:
as sobrancelhas
as laterais dos olhos
debaixo dos olhos
o queixo
a clavícula
as axilas
os pulsos
Olho mais uma vez para o papel que imprimi ontem. Fico ereta. Eu me esqueci de fazer o mesmo sob o nariz antes de ir para o queixo. Começo o processo novamente, bato levemente em todas as partes necessárias do corpo e, depois, volto a olhar para as instruções.
Enquanto estiver batendo com a ponta dos dedos, diga esta frase em
voz alta (complete o espaço em branco).
Mesmo tendo esse(a) _____________________, eu me aceito
profunda e completamente.
Enquanto estiver batendo? Já fiz o processo duas vezes. Não quero fazer isso pela terceira vez. Amasso o papel e o jogo no chão com raiva. Ele atinge a madeira com um som insatisfatoriamente leve. Então piso nele, esmagando-o debaixo do meu calcanhar.
Fico junto à porta, olhando para o único painel de vidro colocado na madeira. É um dia nublado, e o mundo exibe um tom acinzentado, como se as nuvens estivessem derramando pedaços de si mesmas no ar como um suéter de lã peludo.
É sábado, por isso não há chance alguma de topar com o caminhão de lixo, o que traz à tona o punho gigante apertando meu peito só um pouquinho. Mas e se um vizinho sair para pegar o jornal? Ou para passear com o cachorro? Ou se Earl vier antes da hora?
Sinto o punho apertar mais forte.
Talvez eu seja tão louca quanto Emily Dickinson.
Respiro fundo. Tenho que sair da casa. Tenho que arranjar um emprego. Respiro fundo novamente, balanço as mãos e recomeço a dar batidinhas no alto da cabeça com os dedos médios.
— Mesmo tendo esse medo de falar com os lixeiros, eu me aceito profunda e completamente — sussurro.
Depois, minhas sobrancelhas.
— Mesmo não querendo topar com meus vizinhos, eu me aceito profunda e completamente.
Repito a frase, lembrando-me da parte abaixo do nariz dessa vez, e vou descendo até os pulsos.
Então abro a porta e vou até a varanda.
Enrijeço o corpo e viro a cabeça, examinando a rua da direita para a esquerda. Nenhum vizinho. Nenhum cachorro de coleira. Nenhum carteiro.
Ainda assim, meus batimentos cardíacos aceleram, chegando àquele ritmo galopante agora familiar.
E, então, um grosso pingo de chuva cai do céu sobre minha cabeça. Pelo aspecto das nuvens sinistras, é o primeiro de muitos. E não tenho um guarda-chuva.
Em nenhum momento minha mão soltou a maçaneta da porta da frente, por isso é fácil girá-la, empurrar a porta e entrar novamente no casulo seco que é a minha casa. O trinco faz um clique satisfatório quando volta ao seu lugar.
Sinto-me derrotada e aliviada. E então me sinto derrotada por me sentir aliviada.
— Amanhã eu vou — digo em voz alta, pensando no meu professor de matemática do sexto ano, o senhor Walcott, que tinha um montão de máximas que ele repetia ad nauseam, incluindo: “Promessa feita não pode ser quebrada.”
Porém, mesmo naquela época, eu sabia que era mentira.
Eu realmente não acredito em auras, energias ou qualquer uma dessas coisas paranormais, o que significa que estou plenamente certa de que a TLE é bobagem. Por isso não posso explicar por que repito o ritual na manhã seguinte, e em todas as manhãs desde então, mas o lugar mais longe aonde consegui ir até agora é minha varanda.
Na sexta-feira, depois de comer meus ovos e a torrada cortada, decido que hoje será o dia. Vou entrar no carro e ir para longe de casa. Isto é, se eu conseguir lembrar como dirigir. Só tive carteira de motorista por um ano, isso foi antes de minha mãe ir embora e eu não era exatamente habilidosa na tarefa. Na maioria das vezes, batia em algo: a lata de lixo, o meio-fio. Uma vez acertei um pássaro e vi pelo retrovisor seu parceiro se precipitar do céu, grasnando, horrorizado, com sua morte. Não dirigi por duas semanas depois disso e ainda posso ouvir as grasnadas agudas se fechar os olhos e tentar o bastante.
Depois do café da manhã, visto-me e desço lentamente a escada, retardando o inevitável. Ao pé da escada, dou alguns tapinhas nos meus pulsos, pego a bolsa, coloco as luvas e saio em direção ao ar fresco de outubro.
Quando nos mudamos para Nova Jersey, minha mãe me levou a Manhattan para uma consulta com a alergista mais proeminente dos Estados Unidos, a doutora Mei Zhang. Eu nunca havia estado em uma cidade grande e, quando ela me deixou na entrada do prédio, levantei a cabeça, um pouco mais, ainda um pouco mais, procurando o ponto em que o tijolo se encontrava com o céu azul. Antes de poder vê-los se encontrarem, entretanto, senti como se a calçada estivesse cedendo debaixo dos meus pés; meu corpo oscilou e meu estômago revirou. Tive que desviar os olhos.
É o mesmo que sinto agora, como se o mundo fosse muito grande. Como se o espaço ao meu redor não tivesse fim, como o tijolo daquele edifício. Causa vertigem — minha visão embaça, meu coração lateja nos meus ouvidos e minhas palmas ficam escorregadias por causa do suor.
Seguro o corrimão de ferro à minha frente para me equilibrar. Engulo o nó sólido que sinto na garganta, querendo que meus olhos ajustem o foco, que minha cabeça pare de girar, que minhas mãos parem de tremer. Eles não obedecem. Tenho a sensação de que vou desmaiar. E depois? Não só estarei do lado de fora, mas inconsciente e vulnerável. Serei Gulliver e as crianças do bairro se lançarão sobre mim como liliputianos, agarrando-me com seus minúsculos dedos das mãos e dos pés, e eu, impotente para detê-las.
Meu coração lateja mais forte, mas me recuso a desistir.
Sento-me no degrau mais alto, enchendo os pulmões de ar. Então começo as batidinhas. Concentro-me nas batidas monótonas da ponta dos meus dedos até meu coração desacelerar e minha visão se restabelecer.
Olho para um lado e outro da rua, procurando por lixeiros, vizinhos passeando com cachorros e crianças em bicicletas. Está vazia. Percebo que estou surpresa por estar vazia. Quer dizer, eu não esperava um desfile ou qualquer coisa, mas esse é um acontecimento monumental. E acho que eu esperava pelo menos alguns vizinhos de queixo caído, com um ancinho na mão, olhando, incrédulos, para mim, imaginando coisas que iam desde: Lá está ela. Ela ainda mora aí. Até: Eu pensei que ela estivesse morta. Mas estou sozinha. Talvez eu não seja o Boo Radley. Talvez ninguém tenha pensado em mim de jeito nenhum.
Levanto-me com as pernas trêmulas, aperto minha bolsa mais firmemente com a mão fechada e fixo os olhos no Pontiac da minha mãe, na entrada da garagem. Posso vê-la tão nitidamente atrás do volante que tenho que examinar pela segunda vez para constatar que ela não está no assento do motorista.
Abaixo a cabeça, e, de alguma forma, meu corpo descerá os três degraus da varanda e, então, seguirá em linha reta até o carro. O cascalho se quebra debaixo do meu salto, e concentro toda a minha atenção no som que ele faz até minhas coxas tocarem o para-choque dianteiro. O contato dá algum tipo de pequeno alívio. Cheguei. Ao carro, pelo menos.
A saia da minha mãe, que estou usando, lustra o para-choque metálico a cada passo que dou até chegar ao outro lado do Pontiac. Marcas de ferrugem e de pó agora sujam o tecido bege, mas não me importo. Só quero entrar no carro.
E então estou dentro. Fecho a porta com um tum! e encosto a nuca no assento estofado, coberto de manchas de Pepsi e furos de cigarro — minha mãe nunca parou de fumar, como disse àquele repórter naquele artigo do Times. Eu achava repulsivo, mas agora me conforto com a familiaridade disso. E com o fato de que uma caixa de metal agora me separa do mundo exterior. Expiro.
Então, com as mãos ainda trêmulas, coloco a chave na ignição e a viro.
Nada.
Tento de novo.
Faz um cof cof, mas não pega. Inclino-me para a frente e checo o indicador de combustível. O ponteiro pequeno está abaixo do R vermelho. Esse é provavelmente o menor dos problemas do carro depois de ficar parado por tanto tempo, mas esta é extensão do meu conhecimento sobre carros. Se não der partida, coloque combustível.
Tiro a chave da ignição, saio do carro e volto triturando o caminho de cascalhos até a varanda da frente. Subo os degraus, dois de cada vez, abro a porta e entro. Sei que deveria fazer uma pesquisa no Google sobre o assunto. O carro. Descobrir o que há de errado com ele e como consertá-lo, assim como fiz quando houve um vazamento no vaso sanitário do banheiro do andar superior, e tive que descobrir como substituiria o anel de vedação. Mas chego à conclusão de que vou começar com o combustível primeiro e depois seguir a partir daí. Amanhã. Nesse momento, tiro a saia da minha mãe, me enfio em uma blusa e calça de moletom, e me aninho na poltrona com meu exemplar cheio de orelhas de Longe deste insensato mundo.
De todos os homens com quem minha mãe namorou, seu relacionamento mais curto talvez tenha sido com o triatleta que usava calças de lycra apertadas em todos os lugares, mesmo quando não estava se exercitando. Seu nome era algo aparentemente britânico, embora ele não fosse — como Barnaby ou Benedict. Considerando que a única coisa que ele e minha mãe tinham em comum era o modelo preferido de calças, a relação acabou em questão de semanas, até mesmo antes que ela pudesse experimentar a bicicleta que ele comprou para ela. Ela tentou devolvê-la, mas eles não a aceitaram sem o recibo, por isso ela a enfiou no galpão de tralhas atrás da casa, onde está desde então.
No sábado, vou ao galpão, quase esperando que a bicicleta já nem esteja lá, embora ache que seja um pouco tolo pensar que ela teria, de algum modo, evaporado. E lá está ela, ao lado de uma caixa de ferramentas de metal e um saco meio vazio de adubo da única vez que mamãe pensou que talvez fosse gostar de jardinagem.
Depois de remover as teias de aranha do guidom e dos aros, e encher de ar os pneus com a bomba presa ao quadro da bicicleta, eu a tiro do galpão e a levo para o caminho de cascalhos. Tento ignorar as reações físicas agora esperadas que tomam conta do meu corpo: coração acelerado, palmas suadas, visão embaçada.
A mente é superior à matéria.
A mente é superior à matéria.
A mente é superior à matéria.
Porém, minha mente aparentemente não é mais poderosa que a matéria. Preciso de 45 minutos parando e começando, seguindo devagar e passando com a bicicleta pelo Pontiac, para finalmente ir para a rua. Olho em ambas as direções, e sinto uma palpitação quando vejo uma mulher algumas casas abaixo pegar um jornal no quintal. Luto contra a vontade de largar a bicicleta e correr. Em vez disso, fico lá, observando-a colocar o jornal debaixo do braço. Então ela ergue os olhos, olha nos meus e levanta a mão para fazer um pequeno aceno. Estou muito atordoada para me mexer. Faz nove anos que não tenho contato com ninguém. Pessoalmente, quero dizer.
Parece patético, mas não é como se eu não tivesse amigos. A internet está cheia de pessoas que só querem conversar. E, em muitas madrugadas, quando eu não conseguia dormir, eu as procurava. É verdade que algumas eram um pouco assustadoras, como o policial em Canyon City, no Oregon, que parecia bonzinho até que a conversa rapidamente passou para sua fascinação por sadomasoquismo e ele me pediu para pegar uma escova para que eu me batesse com ela. (Não fui.) Mas aí tinha a mulher da Holanda que sabia, tipo, 17 línguas estrangeiras e me ensinou a xingar em todas elas. (Minha favorita é o búlgaro, “Kon da ti go natrese”, que, grosso modo, significa: “Seja fodido por um cavalo.”)
No entanto, estar on-line, e até mesmo ao telefone, é completamente diferente de falar pessoalmente com alguém. Fico imaginando se ainda lembro como fazer isso. Para onde olho? O que faço com as mãos? Felizmente, não esperando que a reconheça, a mulher simplesmente se vira e volta para a porta da frente, como se este fosse apenas um dia normal e eu, uma vizinha normal. Deixo escapar um suspiro. Ajeito a alça da minha bolsa ao cruzá-la diagonalmente no meu peito, relaxo no assento, dou um impulso no chão com um dos pés e vou balançando de um lado para o outro até a calçada.
Quem quer que tenha dito “é como andar de bicicleta” para expressar que uma habilidade uma vez aprendida não é esquecida, é um idiota. Aprendi a andar de bicicleta quando criança, e não é nada parecido com isso. Há engrenagens, por exemplo. E não faço a mínima ideia do que fazer com elas. Enquanto encaro os dentes de metal, ouço atrás de mim um carro se aproximando. Mesmo andando bem devagar — os pedais estão tão duros que é quase como se estivessem colados no lugar —, entro em pânico e aperto o freio, sacudindo acidentalmente o guidom e tombando a bicicleta sobre um arbusto ao lado da caixa de correio de alguém.
O carro passa por mim e meu corpo congela, querendo que ele continue. Que não seja um bom samaritano a fim de ver se estou bem. Não é. Espero o carro dobrar a esquina e só então expiro; depois me levanto, pego a bicicleta, ajeito novamente minha bolsa e subo de novo. Depois de mais algumas tentativas, consigo mantê-la firme e, com um estalido de sorte de um dos dentes da corrente, os pedais milagrosamente ficam mais fáceis de empurrar. Vou até o fim da rua. No sinal “Pare”, viro à esquerda para a Plumcrest e, em seguida, saio do bairro, pilotando cuidadosamente a bicicleta no acostamento estreito.
Os carros passam por mim, a fumaça dos escapamentos enche meus pulmões, e me sinto exposta, como se tivesse me esquecido de colocar as calças. Seguro o guidom com mais firmeza, os ombros tensos como uma vara de aço. Estou indo ao Wawa, que fica ao lado da CVS, e me ocorre que talvez ele não esteja mais lá. Como eu saberia se tivesse fechado? Ou ido para outro lugar? Ou pegado fogo? Meu coração bate mais forte, até que faço uma curva e vejo o sinal vermelho familiar em itálico.
Respirando forte, pedalo até a frente da loja e, com cuidado, saio de cima da bicicleta. Minhas virilhas e coxas estão suadas por causa do trajeto, e minhas pernas estão tremendo.
Consegui! Saí de casa durante o dia. Estou em um posto de gasolina. Fecho os olhos e inalo o ar inebriante e tóxico.
Mas, e agora? Fico olhando para a porta de vidro, cuja campainha anuncia a saída de um homem com um boné verde e camisa de flanela. Ele olha para mim, e olho para baixo. Depois que passa, deixo a bicicleta encostada na porta e entro por onde ele saiu. Ando pelos corredores até encontrar um galão de plástico vermelho para gasolina, levo-o ao caixa e o coloco diante de uma mulher com dentes superiores muito salientes e óculos em formato gatinho. Ela não olha para mim enquanto pega o galão e escaneia o código de barras.
— Você quer encher isso?
Sua voz me pega de surpresa. E, assim como eu temia, comecei a entrar em pânico — não sei para onde olhar ou o que fazer com as mãos. Ouço a voz da minha mãe no meu ouvido: Apenas sorria. Por que você tem que ser tão séria o tempo todo? Então, sorrio. Coloco um grande sorriso no rosto, mostrando os dentes para essa mulher que ainda está esperando pela minha resposta.
Ela me encara de um jeito que tenho certeza de que reserva para idiotas, e meu rosto começa a queimar.
— Quer que eu cobre a gasolina para encher isso? — pergunta lentamente. — Ou só vai comprar o galão?
Paro de sorrir.
— Ah, hã. A gasolina também.
Ela faz um sim com a cabeça e aperta algumas teclas da caixa registradora.
— Vinte e um e setenta e três.
Fuço a minha bolsa e roço a nota de vinte dólares que está lá desde o ensino médio — não precisei de dinheiro vivo na última década. Porém, uma vez que não é suficiente, deixo-o na bolsa e pego o cartão de débito, tentando não imaginar o saldo cada vez menor na conta. Entrego-lhe o cartão e, se ela nota as luvas ou acha estranho que eu as esteja usando, não diz nada. Apenas passa o cartão na maquininha e o devolve para mim. Viro-me imediatamente para sair, cabisbaixa.
— Seu galão! — grita atrás de mim.
Ah, é verdade! Volto, pego-o com a mão enluvada e saio em direção às bombas.
Consegui! Saí de casa. Falei com alguém. E agora estou pegando a gasolina. Como uma pessoa normal. Mas, assim que começo a relaxar um pouco e me parabenizar pelas realizações do dia, ouço meu nome.
— Jubilee?
E tudo no meu corpo se contrai novamente. O som está um pouco longe, então imagino que seja uma alucinação minha. Talvez o esforço com a bicicleta e o dia todo, na verdade, tenha mexido com meu cérebro.
— Jubilee?
Dessa vez é claro como a campainha na porta da loja no posto de gasolina, e fico completamente imóvel, esperando ficar invisível ou que a pessoa que está chamando meu nome esteja enganada e tenha falado com a pessoa errada.
— Jubilee!
É uma afirmação dessa vez, uma confirmação.
Viro um pouco a cabeça na direção da voz, sentindo um monte de coisas se revirando nas minhas entranhas.
Meus olhos são atraídos diretamente para a boca que formou meu nome. Eu reconheceria aquela boca em qualquer lugar. Ficava a encarando na escola, tanto que às vezes eu me perguntava se podia ser, lá no íntimo, lésbica. Porém, no final, percebi que a culpa não era minha. Ela sabia chamar a atenção para a boca, constantemente lambendo os lábios, como se estivesse sempre procurando uma migalha um pouco fora do alcance. Passei horas no espelho tentando lamber os lábios daquela forma, mas sempre pareci um camelo cuja língua era muito grande para sua boca.
Agora seus lábios formam um sorriso largo — tão largo que receio que seus lábios poderiam rachar se não fosse pelas camadas espessas de gloss pegajoso mantendo-os intactos.
Seu cabelo, que brilhava até o meio das costas, agora acaba logo abaixo do queixo e está solto; fora isso, ela parece exatamente a mesma.
Madison H. Havia três Madisons na nossa sala, por isso as identificávamos pela última inicial de cada uma, mas Madison H. era a única que importava.
Ela me cumprimenta com um aceno de cabeça, e me dou conta de que disse seu nome em voz alta.
— Jubilee Jenkins — diz ela, sem quebrar o sorriso. Está à distância de um cuspe, e minha mão, por reflexo, aperta mais a alça da bomba de gasolina.
Vejo seus olhos me examinarem — minha calça de moletom preta, minhas luvas, o galão de gasolina que seguro sem firmeza ao meu lado como uma bolsa desajeitada — e tenho 16 anos de novo, desejando ser mais parecida com ela.
— Ouvi dizer que você tinha... hum... se mudado — diz ela, lançando os olhos para baixo e para a esquerda. Imagino quais foram os verdadeiros rumores. Que morri, que entrei em um circo itinerante, que participei de algum programa de pesquisas ultrassecreto do governo.
Quando nos mudamos para Nova Jersey e comecei a frequentar o primeiro ano da Lincoln High School, a única coisa que salvou foi que tive a chance de começar de novo: ser outra pessoa. Além dos professores e da enfermeira da escola com quem nos encontramos antes do início das aulas, não precisei contar a ninguém do Lincoln High sobre meu problema. Por isso, não contei. E até onde posso dizer, os professores mantiveram segredo. Isso, entretanto, não impediu os olhares, sussurros e especulações nos corredores e durante as aulas.
— Não — consigo falar. Minha voz é suave e trêmula, e me sinto tão envergonhada com isso quanto com a minha aparência.
Ela fica me olhando, como se esperasse algo mais, talvez uma explicação do que estive fazendo nos últimos nove anos. O mesmo pânico que senti com a mulher do caixa começa a surgir: Para onde olho? O que faço nos momentos de silêncio? E se eu rir de algo que não é engraçado?
— Bem, estou divorciada — diz com uma risadinha, como se contasse uma piadinha batida. — Estou tentando voltar à ativa, mas não é tão fácil com três crianças.
Meus olhos se arregalam, mesmo contra a minha vontade. A perfeita, bela e popular Madison H., que provavelmente era a mais cotada com maiores chances de ser uma estrela de TV famosa, ou pelo menos de se casar com um astro, é uma divorciada de 28 anos com três filhos?
Ah, caíram os poderosos! É a voz da minha mãe. Não acho que sou má o bastante para me alegrar com as desgraças das outras pessoas, mesmo que essa pessoa seja Madison H.
— Sinto muito — digo. — Sobre o seu, hum — pigarreio, esperando que isso obrigue minha voz a ficar mais alta, menos trêmula, mais normal — divórcio.
Não funciona.
Ela acena com a mão para mim.
— Ah, tudo bem. Romances de escola não são para durar a vida toda. Eu deveria ter ouvido a Nana quando ela me falou isso.
Romance de escola?
— Então... você quer dizer... você se casou com o...
Procuro minha língua na boca e tento fazê-la formar o nome, mas sou a própria definição de mudez. Não consigo nem sequer falar o nome dele.
— Donovan, sim.
Ela diz isso de modo tão fácil, tão despreocupado, como se estivesse me contando algo irrelevante, contando que tinha comido cereais com nozes e frutas secas no café da manhã.
Tento repetir o nome dele, para ver se sai tão fácil assim. Se ele simplesmente passa pela língua.
Não passa.
— Você não sabia? — Ela levanta a cabeça. — Não tem Facebook?
Faço que não com a cabeça, esperando dar a impressão de que sou melhor do que o Facebook e não a de que o tive por três semanas e meu único amigo era um homem cujo perfil não estava no nosso idioma. Talvez estivesse em russo, mas não tenho certeza; não sou boa em distinguir os vários idiomas eslavos. Em resumo, encerrei minha conta.
— Bem, enfim... — Ela me olha de cima a baixo, seus olhos param nas minhas luvas por um segundo mais do que em qualquer outro lugar, e me envergonho novamente da minha aparência. — O que está fazendo?
Pigarreio enquanto meu cérebro se esforça para responder.
— Fiquei sem combustível — respondo. — E preciso dele. — Isso foi idiota. Claro que preciso de combustível se ficar sem ele. — Quer dizer... eu, hum... estou procurando um trabalho.
— Ah, para! — diz ela, e mexe a mão com as unhas pintadas de vermelho como se fosse dar tapinhas no meu braço, mas para no último segundo. Eu me encolho mesmo assim, e é um momento estranho.
— Desculpe — diz, e seu sorriso extremamente largo reaparece —, mas vamos ficar sem nossa assistente na biblioteca e, quem sabe, você esteja interessada na vaga.
Na biblioteca? Madison H. é bibliotecária? Agora acho que estou tendo uma alucinação. Essa não é a verdadeira Madison H. Eu realmente não saí de casa. Na verdade, devo estar ainda na cama, tendo algum tipo de sonho esquisito. Uma lembrança vívida surge rapidamente na minha mente — Madison H. na aula de literatura inglesa no nosso último ano, queixando-se de que era muito difícil compreender Huckleberry Finn: “Por que esse pessoal simplesmente não usa um inglês de verdade?”
— Então você trabalha... na biblioteca?
— Ah, meu Deus, não — diz. — Estou no ramo imobiliário; bem, só tenho licença para trabalhar como corretora de imóveis, mas faço parte da diretoria da biblioteca. Donovan achou que seria bom para mim, uma vez que ele estava para assumir a presidência do banco assim que seu pai se aposentasse, blá, blá. Não que nada disso importe agora. — Ela ri novamente, nervosa. — Mas está tudo bem. É uma experiência boa.
Afirmo com a cabeça, a palavra “Donovan” tocando um ponto sensível novamente, vibrando por todo o meu corpo. E me perco na onda de lembranças que seu nome e a imagem de Madison H. evoca.
— Jubilee? — chama Madison. Pisco. Sua voz é calma, fraca.
— Sim — digo, lutando para encontrar seus olhos. A humilhação é tão grande e tão nova, que me faz querer correr a toda velocidade o caminho para casa, deixando minha bicicleta, minha bolsa, o galão de gasolina, tudo na frente da porta de vidro do Wawa.
— Por que está fazendo isso, esse negócio com as mãos?
Olho para baixo e vejo que meus dedos estão metodicamente batendo no pulso da mão que segura o galão de gasolina. Queria saber há quanto tempo estou fazendo isso.
— Por nada — respondo, o calor aumentando nas minhas bochechas. Balanço a cabeça em um esforço inútil para me livrar do passado. — Então, é... não estou com meu currículo aqui. Posso enviá-lo para você? Para o lance da biblioteca?
Seus olhos brilham.
— Você está interessada? — pergunta. — Isso é ótimo. Não se preocupe com o currículo. — Ela tira o celular da bolsa pendurada no ombro. — Me dê seu número que eu recomendo você para eles. Tenho certeza de que eles vão ligar.
Concordo novamente e digo os números que correspondem ao meu telefone residencial.
— Ótimo — diz ela. — Bem, foi muito bom ver...
— Por que está fazendo isso por mim? — Sei que é falta de educação interromper, mas a pergunta está queimando minha boca por dentro, e tenho que fazê-la.
Ela encolhe os ombros, como se não soubesse o que eu quis dizer, mas seus olhos se mexem, traindo-a.
— É uma boa coincidência — responde. — Você está procurando um emprego, e eu conheço um lugar que tem uma vaga em aberto.
Porém, nós duas sabemos que é mais do que isso. Se você pudesse abrir nosso cérebro e revelar nossos pensamentos, tenho certeza de que estaríamos pensando no mesmo momento, no mesmo pátio que, por mais que tente, nunca vou esquecer: o momento em que Donovan me beijou. Pensei que estivéssemos sozinhos, até que um bando barulhento de crianças virou a esquina, empurrando umas às outras, rindo e jogando dinheiro nele: o pagamento pela aposta que fizeram. Madison era uma delas, embora não me lembre dela dando risada. Seu rosto estava triste, sério, e foi o último que vi antes de desmaiar. Sempre me perguntei: se ela não estava lá para rir de mim como o restante, afinal, por que ela estava lá?