Perto o bastante para tocar

Colleen Oakley · Capítulo 20 de 37

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Perto o bastante para tocar

catorze

JUBILEE

Sentada à mesa do meu escritório na sexta à noite, aperto o pedaço de papel amassado na minha mão fechada e encaro a minha caligrafia. Madison ligou duas vezes nessa semana para me lembrar de que só poderíamos ter nossa primeira “aventura” (sua palavra, não minha) quando eu estivesse com a epinefrina. Não serei responsável pela sua morte prematura, disse no que agora reconheço como sendo o estilo bem dramático de Madison H.

Porém, não é isso que está me fazendo entrar em contato com a doutora Zhang. Enfim, não a única coisa.

A erupção — a da minha barriga — foi subindo desde o meu umbigo e se espalhou como uma planta trepadeira por todo o meu peito, ombros e costas. Tentei todos os remédios caseiros nos quais minha mãe se tornou especialista para ajudar a aliviar a coceira e amenizar as manchas vermelhas irritadas e escamosas — banhos de aveia, colheres de chá do anti-histamínico Benadryl, cremes anti-histamínicos em camadas generosas como a cobertura de um cupcake. Nada está funcionando. E sei que somente a doutora Zhang pode me ajudar.

Digito o e-mail que estou tentando escrever durante a maior parte dos últimos dois dias. Tenho que enviá-lo direto para ela, porque, quando liguei na sexta-feira para marcar uma consulta, a recepcionista animada informou que a doutora Zhang está com uma lista de espera de sete meses para novos pacientes. Tentei explicar que eu não era exatamente uma paciente nova, mas ela apenas riu: “Sua última consulta foi há 12 anos? A-hã, você é uma paciente nova, querida.”

Torno a ler o que escrevi. Parece queixoso, extremamente simplista e um pouco desesperado, mas estou desesperada e é o melhor que posso fazer.

Clico em “enviar”.

E espero.

Quatro minutos depois, minha caixa de entrada faz um som metálico curto.

Jubilee! Claro que me lembro de você. Pode estar aqui na terça às dez horas?

Vou para a cozinha, meu coração bate excessivamente para o mínimo esforço, e ligo para Madison. Ela não responde, por isso deixo uma mensagem. Então, mesmo não sendo nem oito da noite, subo a escada e vou para a cama.

TUM. TUM. TUM.

Abro os olhos e, piscando, examino o quarto. Meu travesseiro está úmido no lugar onde aparentemente babei durante o sono. Limpo meu queixo com as costas da mão. A luz que passa pelas janelas indica que é manhã, mas não faço ideia de que horas são. Ou se esse barulho de batida foi real ou apenas parte de algum sonho.

Tum. Tum. Tum.

Bem, isso responde a uma pergunta. Sento e me pergunto quem poderia ser. Provavelmente um vendedor ou uma testemunha de Jeová — houve algumas batidas na porta de cada um deles nos últimos nove anos. Eu sempre esperava em silêncio na cozinha até que fossem embora.

Agora a curiosidade me empurra para fora da cama e vou lentamente até a janela. Com cuidado, afasto a cortina azul para dar uma espiada lá fora. Não consigo ver a varanda desse ângulo, mas posso ver...

O carro de Eric. Na entrada da minha garagem. Rapidamente me afasto da janela, com o coração batendo forte contra o peito. Esqueci completamente que ele disse que viria hoje — mas, o mais importante, por que concordei com isso? Nem me importo com o fato de o Pontiac funcionar ou não — pretendo dirigi-lo. Minha bicicleta me leva e traz da biblioteca muito bem. Fui pega desprevenida, acho. Ele estava sendo tão... tão diferente do Eric que conheci. Mais do que apenas educado como de costume, ele estava sendo gentil, caloroso e até um pouco engraçado, mas, agora, à plena luz do dia, sinto-me como um caso patético de caridade ao qual ele acha que deve alguma obrigação porque salvei seu filho, e é uma pena que eu não tenha dito não.

Tum. Tum. Tum.

Permaneço completamente imóvel, esperando que ele vá embora se eu esperar o suficiente.

Tum. Tum. Tum.

Conto lentamente e, no momento em que chego a cem e penso que ele está desistindo...

Tum. Tum. Tum.

Acho que não. Visto uma legging batida que deixei na cadeira. Desço a escada e abro a porta no momento em ele está levantando a mão fechada para bater novamente. Uma rajada de ar frio me atinge no rosto.

— Desculpe, eu... hã... acabei de acordar — digo, olhando de Eric para Aja e depois para Eric de novo. A mão de Eric está parada no ar e me pergunto por que ele não está se mexendo. Sei que meu cabelo está uma vassoura, mas não acho que pareço uma louca desvairada. Pelo menos não louca o suficiente para justificar os olhos arregalados no rosto de Eric.

Por fim, ele pigarreia e abaixa lentamente a mão fechada.

— Bom dia, Jubilee.

Ao ouvir meu nome, os olhos de Aja se abrem, tão arregalados quando moedas, chamando minha atenção. Então, olho novamente para Eric, mas ele não está olhando para mim. Não nos meus olhos, afinal. Está olhando, eu acho, diretamente para o meu peito. Não há muito para ver, ouço a voz da minha mãe em meu ouvido, seguida por sua gargalhada de fumante. Era algo que ela me dizia com frequência. Cruel, sim, mas verdadeiro — não herdei os atributos particulares da minha mãe —, e não consigo imaginar o que atraiu a atenção de Eric.

Curiosa para saber se estou em algum sonho estrambólico e vou me ver com os peitos de fora, vulnerável e desesperada para acordar, olho para baixo. O que vejo é pior. Luto contra o desejo desenfreado de fechar a porta na cara os dois, voltar lá para cima e me enfiar na cama para nunca mais sair.

Estou usando o casaco de moletom dele. O de Wharton. Aquele com o qual estou dormindo toda noite desde que ele me trouxe do hospital para casa. Não porque é dele, é claro, é apenas... confortável. E tem um cheiro bom. Porém, tudo o que ele vê é que o estou usando e tudo o que quero fazer é morrer um pouquinho.

O calor sobe pelo meu rosto até que o sinto pegando fogo.

— Bem, obrigada por vir — digo, tentando manter a voz firme e calma. — O carro está... bem, você sabe onde está o carro. Fale se precisar de alguma coisa.

Começo a fechar a porta, mas Eric estende a mão, parando-a.

— Espera.

Olho para seus dedos estendidos contra o nó da madeira. Lembro-me do sonho, dos seus dedos tocando os meus, e minha respiração acelera. Uma das minhas aulas on-line de Harvard foi de introdução à arte: Como Desenhar a Forma Humana. O professor disse que as mãos eram a parte mais difícil do corpo de ser desenhada, não só por causa da complexidade das articulações, das linhas e das proporções corretas que se deveria obter, mas porque elas são igualmente tão expressivas quanto o rosto em termos de gesto e emoção. Tinha achado aquilo idiota. Até agora. Engulo com dificuldade.

— Na verdade, estou esperando minha irmã, Connie. Ela disse que me ajudaria com o carro. Você se importa se a gente entrar por um minuto?

Dou um passo para trás, tentando garantir uma distância entre mim e as mãos de Eric, mas ele entende isso como um convite. Sem escolha, dou outro passo para trás.

— Claro — digo. — É... entrem.

Fecho a porta assim que eles entram e, então, ficamos parados ali, ao pé da escada, em um silêncio constrangedor. Sei que deveria dizer algo, falar para ficarem à vontade, ou alguma outra expressão genial, mas não consigo parar de pensar no fato básico de que há outras duas pessoas dentro da minha casa. Convidados. Que, na verdade, não convidei, mas aqui estão eles. O som de Eric esfregando as mãos na tentativa de aquecê-las me traz de volta ao momento. Abro a boca para dizer algo — qualquer coisa para quebrar o silêncio —, mas, então, suas mãos chamam minha atenção de novo, dessa vez porque me pergunto por que ele não está de luvas nesse tempo — e é aí que minha ficha cai. Esqueci de colocar as minhas luvas. Aperto as mãos atrás de mim.

— Hum... já volto — digo, encontrando o primeiro degrau da escada com o pé. — Vocês podem se sentar. — Faço um sinal com a cabeça em direção à sala de estar. — Quer dizer, se vocês quiserem.

No andar de cima, tiro o moletom de Eric e jogo-o no cesto de roupas sujas, com a humilhação de ser pega nele fazendo minhas bochechas pegarem fogo mais uma vez. O ar imediatamente parece fresco na minha pele nua, mas também provoca uma sensação de irritação que intensifica a coceira. Sei que coçar causará mais dor do que alívio, então resisto à vontade aplicando rapidamente mais um pouco do creme ineficaz na pele áspera, e passo uma camiseta limpa e um suéter de lã pela cabeça. Espero que a gola cubra a ponta da erupção que ameaça subir até minha clavícula.

Coloco as luvas, respiro fundo e desço novamente as escadas.

Quando chego ao último degrau, paro. Aja está concentrado em um iPad e sentado na poltrona forrada de veludo. Minha poltrona. Eric está sentado no sofá, na última almofada à esquerda. Onde minha mãe se sentava.

Eu não sabia que era o lugar da minha mãe — ou, mais precisamente, que ainda penso nele dessa forma — até vê-lo sentado ali, e um tipo de consciência incômoda toma conta de mim.

Então começo a notar outras coisas:

A maneira como a almofada da poltrona de veludo afundou, não oferecendo apoio ao pequeno físico de Aja e lhe dando a aparência de uma marionete frágil, solta no assento.

O cinzeiro no meio da mesinha de centro. Tirei dele o cigarro fumado pela metade por mamãe anos atrás, mas nunca cheguei a limpar as cinzas, agora mofadas.

E os livros. Meu Deus, os livros. Pilhas deles cobrem quase toda a superfície. Dois ou três aqui; uma pilha de 15 ou mais que vai do chão ao lado da minha poltrona até a altura perfeita para apoiar uma caneca de café. Não que eu não os guarde; a questão é que não tenho um lugar para colocá-los. As prateleiras estão abarrotadas, todos os cantinhos ocupados por um livro, criando um quebra-cabeça de lombadas. E, de repente, fico constrangida em pensar quanto dinheiro gastei com leitura ao longo dos anos. E descubro a ironia: se tivesse ido à biblioteca para retirá-los, talvez não tivesse que trabalhar lá agora para pagar minhas contas.

Pergunto-me se Eric pensa que sou uma espécie de acumuladora. Como aqueles irmãos que foram encontrados mortos no apartamento deles em Nova York entre 140 toneladas de coisas.

Com exceção dos livros e do cinzeiro, pelo menos a casa está limpa — estou momentaneamente grata pelos meus meticulosos esforços em manter ácaros e teias de aranha longe das minhas coisas.

Pigarreio, e Eric ergue os olhos.

— Desculpe pela, hum... bagunça — digo, indicando todos os livros com um movimento da mão.

— Ócios do ofício?

— Sim — digo, sorrindo, sem conseguir evitar. É o novo Eric que está falando, o que é caloroso e que solta umas observações engraçadas que me pegam de surpresa.

Então meu sorriso desaparece, e fico parada ali, porque Aja está no meu lugar e, desde que minha mãe foi embora, nunca tive duas pessoas na minha sala de estar e não sei o que fazer.

Uma batida na porta me assusta.

— Deve ser a Con — diz Eric, já se levantando.

Sinto uma sensação absurda de alívio ao ver que o lugar da minha mãe ficará vazio mais uma vez.

Viro-me e abro a porta para uma mulher que segura uma caixa de ferramentas.

— Você deve ser a Jubilee — diz ela, entrando mesmo sem ter sido convidada, e a contagem mental de pessoas em minha casa, além de mim, sobe para mais uma. Eu me pergunto: o teto sempre foi tão baixo? As paredes sempre foram tão imponentes? Muito embora o ar frio venha atrás dela, minha pele começa a pinicar de suor.

— Você tem sorte por Eric ter me falado sobre o seu carro — diz Connie, como se estivéssemos retomando uma conversa que demos por encerrada na noite anterior. — Ele só teria piorado as coisas.

Fico olhando para os olhos dela — réplicas exatas das azeitonas de Eric.

— Dá para ficar pior do que não dar partida?

— Você não faz ideia — diz ela, virando-se para Eric. — Tenho que voltar para o escritório daqui a algumas horas. Vamos começar?

— As chaves estão naquela mesa — digo, apontando para elas. Eric as pega e sai pela porta atrás de Connie. Expirando, fecho a porta atrás deles. Só no momento em que levanto os olhos é que percebo que Aja não saiu da minha poltrona. Sua atenção está tão focada no jogo que ele não percebe que seu pai e Connie saíram.

Fico ali, perguntando-me se devo dizer algo, mas, depois de um minuto, meu estômago ronca, empurrando-me para a cozinha para preparar o café da manhã. Só quando estou fazendo o café percebo que deveria ter oferecido um pouco a Eric. Na verdade, deveria ter lhe oferecido alguma coisa. É isso que as pessoas fazem nos filmes quando chega uma visita: chá, água e um petisco. Lembro-me de Aja e fico imaginando se está com fome. Coloco a cabeça na sala de estar.

— Ei, Aja — digo. Ele tira os olhos do videogame e olha para mim. — Ovos?

Ele pisca.

— O quê?

— Estou preparando o café da manhã. Quer um pouco?

Ele faz careta, e percebo que talvez ovos não sejam interessantes para o paladar de uma criança. Mas não tenho cereais ou... o que mais as crianças comem?

— Hum... biscoitos?

Ele faz que não com a cabeça e volta a olhar para baixo, o que me deixa contente, porque, logo depois de dizer, lembrei que havia comido os três últimos do pacote na quinta-feira.

Depois do café da manhã, lavo a panela, o prato, o garfo e a caneca, e volto para a sala de estar. Não estar sozinha está me deixando mal-humorada. Sinto-me acanhada, como se alguém estivesse dando testemunho de cada uma das minhas ações, muito embora Aja não tenha levantado os olhos desde que perguntei sobre o café da manhã.

Pego alguns livros na mesa atrás do sofá, como se quisesse guardá-los, mas não sei exatamente aonde levá-los, então começo a reorganizá-los na pilha, colocando os maiores na parte de baixo.

— Seu nome é Jubilee mesmo?

Viro a cabeça na direção da voz baixinha de Aja, surpresa com o som, e levanto o queixo.

— Ah, sim — digo. — Acho que, na verdade, não cheguei a me apresentar no outro dia.

Ele mantém a cabeça firme; atrás dos seus óculos, os olhos grandes permanecem fixos nos meus.

Então, faz um rápido aceno com a cabeça, e noto que seu foco se volta para as minhas mãos. Ao estudá-las, de verdade, suas sobrancelhas escuras se franzem.

— Por que você usa luvas? — pergunta.

Olho para baixo, meus dedos estão apertando uns aos outros, brincando com o material das luvas. Volto a erguer os olhos.

— Bem, hum... é meio difícil de explicar — digo.

Ele funga, seus olhos encontram novamente os meus. Quando fala, suas palavras saem como um sussurro reverente.

— É porque você não pode tocar as pessoas, não é?

Meu estômago revira. O quê? Como ele pode...

— Você não pode controlar, pode? — Seus olhos estão dançando agora, são borrões brilhantes de tinta.

Estreito os olhos na sua direção. Será que uma enfermeira lhe disse? No hospital? Sigilo de paciente uma ova! Ah, Deus, isso quer dizer Eric sabe? Minha boca fica seca.

— Tudo bem. Você pode me contar — diz ele, inclinando-se para a frente na poltrona. — Juro que não vou contar. Para ninguém.

Olho para a porta, esperando que Eric passe por ela, mas, por outro lado, não querendo que ele fique sabendo dessa conversa. E me pergunto por que me preocupo tanto com o que ele pensa.

— Pode me mostrar? — pergunta Aja, e viro rapidamente a cabeça de novo na sua direção.

— Mostrar? — Agora estou confusa. Ele quer ver as minhas mãos?

— Sim, uma bola de fogo! Que tamanho elas têm? Elas vão para onde você quiser?

Bola de fogo? Estreito os olhos, minha mente está confusa.

— Aja — digo, interrompendo sua sequência de perguntas. — Do que você está falando?

— Da sua energia pirotécnica! — diz, tão animado que está saltando um pouco na poltrona, e receio que a almofada caindo aos pedaços não vá aguentar.

— Minha piro o quê?

— E você fingiu que não tinha ouvido falar dos X-Men — diz. — Eu deveria saber. Na hora em que vi você. Você até parece um pouco com ela.

— Com quem?

— A Jubileu! — diz. — Você é a Jubileu!

Faço que sim com a cabeça, mas mais porque ele finalmente disse algo que é, de fato, uma declaração verdadeira. Algo com que posso concordar.

— Bem, sim. Esse é o meu nome, mas...

— Dos X-Men! E você pode soltar rajadas de plasma em forma de fogos de artifício pelas pontas dos dedos — começa ele, apontando para as coisas, fazendo pequenos sons de chiado. — Isso explica por que você tem que usar luvas.

Dou a volta no sofá e me sento na outra ponta, a oposta ao lugar da minha mãe.

— Aja.

Ele continua a atirar de brincadeira nas coisas; sua euforia é quase frenética.

— Aja! — Ele para e olha para mim.

— Não tenho nenhum... poder — digo. — Não posso, hum... destruir coisas. Isso só acontece nos filmes.

Ele abre a boca, justamente do modo como lembro que fez durante a nossa conversa na biblioteca. Sei que irá me corrigir, então faço isso antes dele.

— Quer dizer, nas HQs. Desculpe.

Ele fecha a boca e esfrega o nariz, absorvendo a informação. O brilho nos seus olhos escurece um pouco, e é como se estivesse preso a uma corda em meu coração. E ele estivesse sendo puxado. Ridiculamente, vejo-me com vontade de poder atirar bolas de fogo pelas pontas de meus dedos, só para não decepcioná-lo.

— Mas... por que você usa luvas?

Olho para ele e me vejo obrigada a dizer a verdade.

— Eu tenho uma alergia.

Com isso, seus ombros caem.

— Uma alergia? Tipo, à pasta de amendoim?

— Mais ou menos — digo. — Mas a minha é muito mais rara do que essa.

Ele inclina a cabeça.

— Quanto mais rara?

— Muito — digo, inclinando-me um pouco mais para perto dele. — Mas, se eu disser, você não pode contar para ninguém.

Ele se inclina, aproximando-se mais um pouco também, e é como se um manto de expectativa caísse sobre a sala.

— Sou alérgica a outros seres humanos.

Seus olhos ficam arregalados, brilhantes e iluminados novamente, e não entendo por que isso me agrada tanto, mas agrada.

— Por isso que fui parar no hospital depois de tirar você do rio. — Levanto meus dedos enluvados e os balanço. — Não posso tocar pessoas.

Suas sobrancelhas estão tão altas que quase se escondem debaixo da franja de grossos fios pretos na testa, e, então, em um instante, caem e se enrugam enquanto ele processa essa nova informação. Quase posso ver as engrenagens girando em seu cérebro. Quando finalmente fala, as palavras saem em um sussurro:

— Então, você meio que é uma mutante?

Penso na pergunta. E em como foi assim que me senti durante toda a vida. Como um objeto curioso. Um monstro. Uma aberração total da natureza. Porém, de algum modo, vinda da sua boca, essa possibilidade não parece tão ruim.

Uma hora depois, Connie e Eric aparecem na antessala. Eles não batem à porta, mas, por outro lado, não sei por que deveriam. Estão me fazendo um favor.

— Há quanto tempo seu carro não dá partida?

— Hum... não tenho certeza.

— Vou usar outras palavras: quando foi a última vez que você o dirigiu?

Olho para Eric e murmuro uma resposta.

— O quê?

Pigarreio.

— Faz nove anos.

Sobrancelhas se erguem no rosto de Connie e de Eric como se fossem uma sequência de fogos de artifício.

— Uau. Tudo bem — diz Connie, movendo um pouco a cabeça para cima e para baixo. — Isso, hum... isso realmente faz sentido. O tanque de combustível está todo enferrujado. Não acho que vinagre vá adiantar alguma coisa. Tenho que esvaziar o tanque, colocar combustível novo e um aditivo. Além disso, você precisa de uma bateria nova, todos os fluidos novos e velas de ignição. Ah, pneus novos também. Eles não são seguros depois de seis anos ou mais, especialmente depois de terem ficado expostos às intempéries esse tempo todo.

Sobrecarregada por essa leva de informações, meus olhos vão de Connie para Eric. Ele encolhe os ombros, como se estivesse se desculpando.

Connie continua:

— Eu poderia trocar os fluidos, as velas de ignição e todos os componentes básicos. Poderia até trocar a bomba de combustível, embora essas coisas possam ser complicadas, dependendo do caso. Mas o resto? Vai além dos meus talentos para mecânica. Acho que é melhor deixar nas mãos de um profissional. Desculpe, queria ter notícias melhores. — Ela olha para o relógio. — Preciso voltar para o escritório.

Eric vai com ela até a porta, e consigo gritar um “obrigada” antes que ela vá embora.

— Ficarei feliz em chamar um guincho para você. Vamos levá-lo a um mecânico — diz ele, quando volta para a sala.

— Ah, meu Deus, eu dou um jeito — digo, sem intenção de fazer isso.

— Não faz mal — diz ele. — Vou fazer uma pesquisa hoje à tarde, descobrir o melhor lugar...

— Não — digo, usando mais força dessa vez.

Isso o faz parar de repente.

— Estou... estou bem com a minha bicicleta. Não é nada de mais.

— Me deixe fazer isso por você — diz, sem perder o ritmo. — Sério. Estou em dívida com você.

— Você não me deve nada! — digo, reconhecendo a ironia de que, no caminho do hospital para casa, não achei que ele tivesse sido grato o suficiente, mas agora está sendo demais. E eu queria que ele não mexesse nisso. — Não fiz nada.

— Você salvou...

— Não! — digo, um pouco mais alto do que pretendia. Até Aja tira os olhos do iPad, e depois volta a olhar para baixo. — Fiz o que qualquer ser humano teria feito naquela situação.

Ele não responde de imediato, lançando-me um olhar feio. Nenhum de nós pisca por alguns segundos, e começo a me contorcer sob seu escrutínio. É como se estivéssemos travados em algum tipo de batalha, mas não entendo por qual motivo ele está lutando. Ele fez o que veio fazer — dar uma olhada no meu carro — e agora estamos quites. Eric está livre da sua obrigação.

Ele quebra o silêncio.

— E se eu desse carona para você da biblioteca para casa, só até você conseguir dinheiro suficiente para consertar seu carro?

Meus olhos se arregalam. Isso está ficando ridículo.

— Não, sério... — começo.

Mas ele continua, como se eu nem tivesse falado.

— É perto da estação de trem, por isso nem fica fora do meu caminho. Além disso, já é bem ruim você andar de bicicleta no frio, mas no escuro também? Ela nem tem refletores. E se nevar?

Por que está preocupado com isso? Quero gritar. Cruzo os braços na frente do peito. Odeio o modo como ele está falando comigo — é arrogante, como se soubesse melhor das coisas. E odeio ainda mais que esteja um pouco certo — eu não tinha pensado na neve.

— Acabei de encomendar refletores e um farol — disparo contra ele. — Não que seja da sua conta.

Ele dá um passo para trás, e acho que ganhei a batalha, mas então ele abre a boca de novo e diz calmamente:

— Só me deixe ajudá-la. Por favor.

— Não preciso da sua ajuda — digo, com firmeza. — Você já fez mais do que o suficiente. Obrigada. — Faço um gesto com a mão esquerda na direção da porta. Sei que é rude, mas não estou nem aí. Só quero que ele saia da minha casa.

Ele dá outro passo para trás e concorda, lentamente, não tirando os olhos do meu rosto nem por um instante.

— Tudo bem — diz, pegando no bolso o gorro de lã. Ele desistiu da luta, e sei que venci. Ele se vira para Aja.

— Pronto, amiguinho? — pergunta alto o suficiente para Aja ouvir mesmo com os fones nos ouvidos.

Aja se levanta, coloca o iPad debaixo do braço e sai arrastando os pés. Eric se vira para ir atrás dele, mas me fita com um último olhar.

— Adeus, Jubilee.

Fico olhando feio para ele, tentando me agarrar à raiva que percorria todo o meu corpo, mas não consigo. Há algo nos seus olhos que eu não havia visto antes — uma angústia discreta, quem sabe? — que me derrete, e tudo o que sinto é uma ponta de arrependimento por ser tão dura. Entretanto, antes que eu possa dizer qualquer coisa, ele abaixa os olhos e se vai, e a porta se fecha com um clique atrás dele.