Perto o bastante para tocar
dezenove
ERIC
Uma alergia a pessoas. A pessoas! À pasta de amendoim, já ouvi falar. Abelhas? Com certeza. Eu mesmo tenho um primo que é alérgico a coentro. Mas a pessoas? Embora Aja tenha me explicado no caminho para casa no sábado depois de sairmos da casa dela, eu só acreditei depois de ver o caso impresso naquele artigo do Times. Isso explicava muitas coisas, na verdade. As luvas, para começar. O jeito às vezes arisco dela. Por que ela foi parar no hospital depois de tirar Aja do rio. Ela literalmente arriscou a vida — mais do que eu imaginava — para salvá-lo. E então... meu Deus, não posso acreditar que tentei beijá-la.
Porém, aquilo no que realmente não posso acreditar, ao vê-la seguir em direção à porta da frente depois de deixá-la em casa na segunda à noite, é o quanto ainda quero beijá-la.
Quando chego em casa, Connie está sentada no sofá, folheando uma revista. É a primeira vez que tenho a oportunidade de conversar com ela em alguns dias — ela ficou no escritório o dia todo no domingo e só teve tempo de responder à minha mensagem perguntando se podia levar Aja à terapia. Sua resposta: Sim. Mas você fica me devendo. De novo.
— Como foi, maninho? — pergunta, olhando para mim.
Sento-me ao seu lado e passo as mãos pelo cabelo.
— Foi... interessante — digo. — Você provavelmente não vai acreditar nisso.
E então lhe conto os detalhes sobre Jubilee, o problema dela, o beijo que quase lhe dei.
Não sei ao certo o que esperava como reação, talvez choque, como a minha? Mas, quando paro de falar, Connie ri.
Não, ela não apenas ri.
Ela cai na gargalhada.
Ela se acaba de rir.
Ela literalmente não consegue respirar.
— Não é engraçado — digo. — Eu poderia ter matado a moça!
Ela ri mais um pouco e, em seguida, recupera lentamente o fôlego.
— Não, não. Você tem razão. Essa parte não é engraçada. Mas o resto? Ai, meu Deus! — Ela cai na risada novamente e fico ali, parado, esperando que se controle.
— Connie! Sério — digo, sentando-me na outra ponta do sofá. — O que há de tão engraçado nisso?
— Só você mesmo — diz ela entre risadinhas. — Só você.
— Como assim?
— Ah, qual é! Como se você não soubesse.
Não sei, por isso fico sentado em silêncio, esperando que ela esclareça as coisas para mim.
— Eric! Você é o exemplo vivo do cara que vai atrás de mulheres indisponíveis.
— O quê? Eu não!
— Sim. Você é.
Reviro os olhos.
— Stephanie foi o único relacionamento que tive. Desde que eu tinha 17 anos, lembra?
— E a Teresa Falcone?
— A Teresa Fal... eu estava no ensino fundamental. Isso realmente conta?
— Conta. A mãe da menina tinha acabado de morrer, e ela não estava a fim de ficar com ninguém. Mas você ficou em volta dela, chorando por ela, como se fosse um cachorrinho machucado.
— Ah, que bela imagem! Que bom que você me tinha em tão alta estima.
— E depois a Penny Giovanni?
— O que tem ela?
— Você pediu para ela ir para casa com você no segundo ano da faculdade.
— E?
— Ela era lésbica! Bem, ainda é, acho. Mas todo mundo sabia disso, menos você.
Hum. Eu me lembro dela puxando a mão quando finalmente criei coragem suficiente para segurá-la quase no fim da noite.
— Sério?
— Sim! E a Stephanie...
— Espere. Eu me casei com ela. Então, ela não estava nem um pouco indisponível.
— Você se lembra de quanto tempo levou para sair com ela? Aquele louco do pai dela era um católico controlador que jurava que a filha virgem dele manteria as pernas fechadas até o fim dos tempos ou algo assim. Ele odiou você, especialmente, um branquelo protestante de descendência europeia.
Rio. Havia me esquecido dos esforços elaborados que fiz para conseguir fazê-la sair comigo, incluindo o interrogatório de uma hora do seu pai na sala de estar quente e abafada da casa deles.
— Enfim — diz Connie. — Só estou dizendo que esse é o seu histórico em se tratando de mulheres. E aí você me aparece com alguém que tem alergia a pessoas? Bem, está claro por que eu me divirto.
— Bem, obrigado, irmãzinha, pela empatia e por revirar o baú de lembranças.
— Por nada — diz e, em seguida, bate as mãos nos joelhos. — Mas, por mais divertido que esteja, preciso ir. O dia vai ser longo amanhã, especialmente porque deixei muito trabalho acumular à tarde para socorrer você de novo.
— Sim, sim. Obrigado, você é incrível! Não sei o que faria sem você e tudo mais.
Em pé, ela veste o casaco, enrola um cachecol no pescoço e coloca um gorro de lã na cabeça. Quando põe a mão na maçaneta da porta da frente, para.
— Vai ligar para a Ellie na quinta?
Olho para baixo.
— Não sei — digo, de modo pouco convincente.
— Eric, é aniversário dela.
— Eu sei — digo.
Cai no Dia de Ação de Graças esse ano. Quando criança, Ellie adorava quando isso acontecia, porque Stephanie a deixava escolher todas as sobremesas para a refeição; por isso, tínhamos bolo junto com dois ou três tipos diferentes de torta, brownies e biscoitos de açúcar e canela, seus favoritos. — Vou mandar um presente pelo correio. Um diário novo.
— Você deveria ligar para ela.
— Por quê? Para Steph me dizer que ela não quer falar comigo? De novo?
— Não. Para ela saber que o pai dela ligou no aniversário dela. Que pelo menos você tentou.
— Tudo o que tenho feito é tentar.
— Eu sei — diz Connie, amolecendo a voz. Ela coloca a mão no meu braço e o aperta.
— Ah, mais uma coisa.
— Sim?
— A mamãe e o papai vão vir para o jantar de Natal, e eu disse a eles que o faríamos aqui. Na sua casa.
— Você o quê?
Ela tira a mão da maçaneta e a coloca no quadril, olhando para mim.
— Você deveria me agradecer. Eles queriam vir para o Dia de Ação de Graças, mas eu disse que estaria trabalhando. Enfim, você sabe que não cozinho.
Isso é verdade. Quando Aja e eu nos mudamos para a cidade, ela trouxe uma caixa de hambúrgueres congelados para a nossa festa de inauguração da casa.
— Para ser sincera, não aguento a mamãe criticando cada detalhe da minha casa. Você sabe que uma parte do armário é para guardar roupas de cama e banho, não sabe, querida? — Ela faz uma imitação fiel da voz da nossa mãe.
— Que medo!
— É bem a cara dela.
— Não, não é.
— Tanto faz. Você é o filho que não erra, mesmo depois de ter se divorciado, adotado um filho mestiço e afastado a filha. — Respiro fundo.
— Desculpe, falei demais?
— Sim. Olha, nem tenho mesa de jantar.
— Eu trago uma dobrável e algumas cadeiras. Vai ser ótimo.
— Ótimo. A mamãe vai adorar isso.
— Ela vai ficar bem, Menino de Ouro. Na sua casa, ela provavelmente vai achar um charme.
Quando Connie vai embora, atravesso o corredor até chegar ao quarto de Aja. Depois do incidente no rio e com o fogo, estabeleci uma política rigorosa de portas abertas, por isso coloco a cabeça na porta sem bater.
— Ei, amiguinho.
Ele não tira os olhos do computador.
— Ei.
— Como foi na terapia?
— Tudo bem.
— Vocês conversaram sobre algo... interessante?
Penso em como ele conversou com Jubilee sobre seus pais e me pergunto se deveria tentar novamente. Não tive coragem para tocar no nome de Dinesh e de Kate depois da histeria terrível da última vez.
— Não.
Tudo bem, então. Bato os nós dos dedos no batente da porta.
— Bem, boa noite — digo.
O dia foi longo, concluo. Não é o melhor momento para uma conversa importante. Porém, em vez de dar um passo para trás e ir para meu quarto, sem mais nem menos, dou um passo para a frente e olho por cima do seu ombro. Ele clica rapidamente no “x” para fechar a guia na tela.
— É... não — digo. — Nada de segredos no computador. — Seus ombros caem. — Abra de novo, por favor.
Relutante, ele abre a página outra vez e eu a examino. O título, por si só, Como Fazer Telecinesia: Técnicas Avançadas, faz-me parar na mesma hora. A sinopse se refere a um homem chamado Arthur que discute suas “habilidades” e oferece seus programas educacionais para diversos níveis de habilidade — cada um pelo preço acessível de 39,95 dólares, naturalmente, bem como um suplemento feito de ouro monoatômico e Chi líquido, o que quer que sejam essas coisas, que ajudam a aumentar os poderes da mente.
— Aja, achei que esse assunto já estivesse encerrado. — Ele não diz nada. — Ouça uma coisa. Isso não é real. Telecinesia não existe. Esse cara é um golpista. Um impostor. E só está tentando ganhar dinheiro.
— Você não sabe disso — diz ele, em voz baixa.
— Eu sei, amiguinho. Eu sei disso.
— Não, você não sabe! — grita e pula, fazendo sua cadeira cair. — Não é um golpe! É verdade! — E começa a chorar. Lágrimas grandes e pesadas caem dos seus olhos.
Levanto as mãos.
— Tudo bem. Tudo bem, amiguinho. Calma!
— Não! Você não acredita em mim! Saia. Saia!
Ele se joga na cama e enterra o rosto no travesseiro, chorando com toda a sinceridade agora. Fico dividido entre envolvê-lo em meus braços (o que sei que ele odeia) e sair do quarto, por isso fico ali, em silêncio, observando-o. Espero que grite comigo de novo para sair, mas ele não grita. Então, pego a cadeira caída, sento-me nela e fico o observando mais um pouco, enquanto ouço o tique-taque de cada minuto no relógio digital ao lado da sua cama. Desejo, pela centésima vez, que Dinesh esteja aqui. Não só porque ele saberia o que fazer, mas também porque Aja não era assim quando seus pais estavam vivos. Claro que era superinteligente e um pouco desajeitado socialmente — tudo bem, muito —, mas não tinha problemas emocionais sérios, pelo menos nada de que Dinesh tivesse falado. E, embora eu não necessariamente tivesse notado que ele não tinha sofrido o luto corretamente, como mostrou a terapeuta, não é preciso ser um gênio para perceber que a morte dos seus pais o transformou de um jeito profundo, e que eu não o ajudei a lidar com isso de modo algum. Tenho que dar um jeito nisso. Tenho que ser melhor. E vou começar por não sair quando ele quer que eu saia.
Cruzo os braços, determinado, e fico sentado ali, com os pés firmemente plantados no chão, até que Aja para de chorar, sua respiração fica mais lenta e, finalmente — finalmente —, ele adormece.
O Dia de Ação de Graças chega sem muito alarde. Como eram ingleses, Dinesh e Kate, na verdade, não celebravam o feriado, por isso não é grande coisa para Aja também. Comprei um peito de peru assado e purê de batatas no supermercado, e comemos na sala de estar enquanto assistimos a reprises de Jornada nas Estrelas.
Quando Aja vai para seu quarto jogar no computador, respiro fundo e pego meu telefone para ligar para Ellie. Ela não atende o celular, então ligo para o telefone residencial.
Stephanie atende no terceiro toque.
— Feliz Dia de Ação de Graças — digo, da maneira mais amigável possível.
— Para você também — diz ela.
— A aniversariante está em casa?
— Está.
— Posso falar com ela?
— Eric...
— Por favor? — digo, cortando-a. — Você pode tentar?
Stephanie suspira, e fico na expectativa enquanto a ouço falar com Ellie. Ela provavelmente colocou a mão no fone, porque só consigo distinguir algumas palavras, mas tenho que lhe dar o crédito; é como se estivesse fazendo o possível para persuadir a nossa filha. E funciona.
— Alô.
Meus joelhos quase amolecem quando ouço sua voz. Ela faz 15 anos hoje, mas, ao telefone, parece muito mais jovem. Muito mais parecida com a minha doce menina, embora haja uma ponta de raiva bem distinguível na forma como me cumprimenta. Eu nem me importo. Estou muito aliviado porque estou falando com ela.
— Ellie — respiro. — Feliz aniversário! Quinze anos, meu Deus, não posso acreditar. Parece que você nasceu ontem. — Sei que estou exagerando, que preciso ir com calma. Seguro o telefone com mais força, como se isso fosse mantê-la na linha. — Recebeu meu presente? O diário?
— Sim.
— Bom, muito bom. Achei que você pudesse gostar, já que fez um ótimo trabalho para a escola com seu diário literário. Vai ser ótimo para você escrever, sabe, uma boa maneira de praticar para ser editora de revistas.
— O quê?
— Você sabe, você disse que queria ser editora de revistas depois de ler A Redoma de Vidro.
Ela zomba.
— Isso foi, tipo, há um ano.
— Ah, bem, sim. As coisas podem mudar. Claro. Você tem tempo todo o tempo do mundo para descobrir o que quer fazer.
— Tanto faz.
— Sabe, estou lendo Carrie, A Estranha agora e...
— Você disse dois minutos — diz, cortando-me, embora não pareça que está falando comigo. Ouço Stephanie ao fundo. Ela diz algo como “só mais um pouco. Você não vai morrer”.
— Não — diz Ellie. Ouço um barulho e, em seguida, a voz de Stephanie ao telefone.
— Eric, está aí?
— Sim.
— Desculpe — diz. — Ela só... você sabe.
— Sim — digo. — Bem, olhe, dê um grande abraço nela por mim, ok? Pode fazer isso?
— Sim, claro — diz Stephanie.
— Ok, bem, boa noite.
— Boa noite.
Desligo o telefone e fico olhando para ele. Como cheguei até aqui? Olho de um lado ao outro do meu apartamento. Não só a esse lugar, não só New Jersey, mas ao ponto de não saber o que dizer à minha própria filha. Gostaria de poder estar lá com ela agora. De alguma forma, forçá-la a falar comigo, voltar ao modo como as coisas eram, mas sei que não posso.
Pelo menos, já cumpri metade do meu contrato aqui. Em três meses estarei de volta, na mesma cidade que ela. Talvez então, quem sabe, eu descubra o que dizer e o que fazer. Descubra como ter minha filha de volta.
*
Depois de apagar a luz do quarto de Aja e cobri-lo com o cobertor, deito na minha cama e abro o romance de Stephen King. Está claro que Ellie não se importa que eu esteja lendo esses livros, mas não vou desistir. Nesse momento, ainda que seja um plano ruim, é o único que tenho para me conectar a ela.
Começo a ler, perdendo-me na mente perturbadora dessa adolescente, mas, quando chego à cena em que Carrie faz o coração da sua mãe parar, coloco o livro de lado com o coração martelando no meu peito.
Vou até a cozinha pegar um copo de água e, cansado de esmiuçar meu relacionamento rompido com Ellie, meus pensamentos vão para Jubilee. Fico me perguntando o que ela está fazendo. De modo impulsivo, pego a lista telefônica que está no balcão da cozinha desde que nos mudamos e a folheio, curioso para saber quando foi a última vez que abri uma.
Corro o dedo pela página de papel de jornal com a indicação J até chegar a Jenkins. Há quatro, mas nenhuma Jubilee. Fico frustrado por ela não estar na lista, até que o nome Victoria chama minha atenção. E minha ficha cai — lembro-me de que esse é o nome da sua mãe no artigo do Times. Arranco a página da lista, levo-a para meu quarto e digito o número no celular.
Jubilee atende no quarto toque.
— Você estava certa. Esse livro é assustador — digo.
— Hein? — Sua voz está rouca, cansada.
— Carrie, a Estranha, o livro. Eu estou lendo. Desculpe, acordei você?
— Acho que sim — diz, bocejando. — Estava lendo no sofá. Devo ter pegado no sono. — E boceja novamente. — Como você conseguiu o meu número?
— Na lista telefônica — digo.
— Espera... sério? Ainda usam isso?
— Bem, posso afirmar que pelo menos uma pessoa a usou esse ano. — Ela ri, e fico feliz por ter ligado. — O que você está lendo?
Uma pausa, e então:
— Carrie, a Estranha.
Abro um sorriso largo.
— Pensei que você não gostasse de terror.
— Abri uma exceção.
— Como você conseguiu dormir lendo esse livro? Acho que vou demorar anos para dormir.
Ela ri.
— Sei lá. Não acho que seja tão assustador assim.
— É horrível — digo. — Não posso acreditar que minha filha leu isso.
Jubilee dá risada e faz um som evasivo, então, o ritmo da nossa conversa vai diminuindo até parar. Depois de alguns segundos de silêncio, digo:
— É aniversário dela hoje. Da Ellie. Liguei para ela.
— Como foi?
— Ela disse quatro palavras ao todo, acho. Então, você sabe, foi melhor.
— Sinto muito — diz.
— Sim. Eu também.
O silêncio surge novamente, e me vejo tentando imaginá-la; se está sentada ou em pé, o que está vestindo, se está sozinha. Esforço-me para ver se consigo ouvir alguém ao fundo. Se bem que não sei quem poderia estar com ela, uma vez que seus pais estão fora de cogitação. De repente, odeio a ideia de que ela passou o Dia de Ação de Graças sozinha. Que pena que não pensei em convidá-la!
— Então — digo, mudando de assunto. — Se Carrie, a Estranha não lhe dá medo, o que dá?
— O quê?
— Me diga uma coisa — digo. — Uma coisa que lhe dá medo.
Ela faz uma pausa.
— Bem, ser tocada, obviamente.
— Sim — digo. — Achei que desse. — Mexo-me na cama, colocando o braço atrás da cabeça e me inclinando para trás. — Diga algo que não seja óbvio.
O silêncio entre nós fica sério. Quando ela fala novamente, sua voz está tão baixa que aperto mais o telefone contra o ouvido para não perder uma palavra.
— Tenho medo de ter esquecido como é.
— Ser tocada?
— Sim. — Respiro fundo. Não sei o que esperava que ela dissesse. E não sei o que responder. — Acho que tenho medo de ter formado uma ideia na cabeça — continua.
— Como assim? — Meu tom de voz é igual ao dela.
— Sei lá. Tipo, tem um vídeo do YouTube que vi uma vez para uma das minhas aulas on-line, Religiões do Mundo, acho. Era um grupo de monges tibetanos cantando e meditando juntos. Era um clipe de uma hora de duração e, mesmo tendo uma ideia depois de um minuto ou dois, vi o vídeo todo. Não sei por quê; fiquei paralisada ou algo assim. Pude literalmente sentir a vibração do zumbido deles por todo o meu corpo. Começou no peito e foi expandindo para a minha cabeça, para os meus braços e pernas, para a ponta dos meus dedos. E coloquei na cabeça que essa seria a sensação de ser tocada novamente. Como eletricidade. E, mesmo apavorada com isso, ao mesmo tempo eu queria. Sei que não faz sentido.
— Não. Não, faz sentido. Faz todo o sentido do mundo.
Ela fica novamente em silêncio. E então, quando penso que preciso dizer algo, talvez mudar de assunto, ela fala.
— E aí? É assim?
— Ser tocado?
— Sim.
Penso por um minuto.
— Acho que sim; às vezes é assim — digo, abrindo um sorriso. — Depende de onde você estiver tocando.
Arrependo-me da piada assim que as palavras saem da minha boca, com medo de ter estragado o momento, ou de que ela pense que estou rindo dela ou tentando deixá-la constrangida e vermelha, como ela fica com tanta frequência. Porém, quando abro a boca para me desculpar, ouço algo. Parece uma fungada. Meu coração para. Meu Deus, eu a fiz chorar. Dou um tapa no meu rosto, encolhendo-me de vergonha, tentando descobrir o que posso fazer para melhorar a situação.
Então, uma gargalhada irrompe no meu ouvido, e outra, e outra. Ela está rindo. E o som é, ao mesmo tempo, surpreendente e familiar, como o canto de um pássaro que está de volta depois de um longo inverno, e desencadeia algo no meu peito.
O resto do mês é frio, mas brando. Alguns flocos de neve, mas nada pesado. Estou contente por causa de Jubilee, mas, embora a busque todas as noites, ela ainda tem que ir de bicicleta para o trabalho. Ofereci-me novamente para levar seu carro a um mecânico e até pagar pelo conserto, mas ela não quis nem conversar. E acho que talvez Connie esteja certa. Há um denominador comum nas mulheres da minha vida: elas são irritantemente teimosas.
No entanto, quando estou ao lado de Jubilee no banco da frente do carro, noite após noite, sou forçado a considerar também a outra teoria de Connie. É verdade que a atração por Jubilee só aumentou desde que soube do seu problema. Sem dúvida isso aconteceu a despeito do problema, e não por causa dele. Senti-me atraído por ela antes mesmo de saber, mas, agora, desde a nossa conversa ao telefone no Dia de Ação de Graças, não consigo parar de pensar nela.
Em tocá-la.
Não apenas as partes óbvias, mas seu colo. A linha que divide seu cabelo. O interior exposto do seu pulso onde a luva não encontra a manga da blusa. Estou dominado pelo desejo.
E não acho que seja porque não faço sexo há um tempo e naturalmente sinta desejo. Afinal, sou homem, e uma modelo comendo um hambúrguer de forma sedutora na TV já é suficiente para despertar meu interesse. É que nunca senti um desejo como esse.
Parte de mim quer mencionar o assunto à terapeuta de Aja, falar sobre isso com alguém, mas sei que não estou ali para isso.
Sentado, apoio meus cotovelos nos braços de madeira da cadeira em frente à mesa de Janet, pronto para nossa conversa mensal.
— E aí? Como ele está?
Ela ergue a cabeça.
— Como você acha que ele está?
Meu Deus! É claro que eu não deveria esperar uma resposta direta de uma psiquiatra.
— Bem. — Então digo, de modo evasivo: — Bem melhor, acho.
Não houve nenhum episódio crítico desde o ataque de nervos por causa do site sobre telecinésia, e estou contando isso como ponto positivo.
— Você falou com ele sobre os pais dele?
Mexo-me na cadeira. Eles poderiam, pelo menos, ter colocado uma almofada nela.
— Eu tentei.
— Como foi?
— Não muito bem.
— Hum.
Está um silêncio tão grande que posso literalmente ouvir os segundos passando no relógio de parede à minha direita.
— Quem é Jubilee?
Lanço os olhos nos dela.
— O quê?
— Ele fala muito sobre ela.
Pigarreio.
— Ela é bibliotecária — digo. — Foi a moça que salvou a vida dele. No rio.
— Ele parece gostar muito dela.
— Sim, sim. — Coço a nuca com a mão. — Acho que eles se entendem ou algo assim.
Ela assente, pensativa.
— De qualquer forma, a minha preocupação é a de que ele esteja abrigando alguns delírios no que diz respeito a ela também.
— Como assim?
— Parece que ele acredita que ela é alérgica a pessoas.
— Como? — Sinto uma necessidade de ficar na defensiva, como se quisesse proteger Jubilee. Sua vida e seu problema não dizem respeito à Janet, mas também não quero que Aja pareça mais esquisito do que já é. Minha lealdade como pai fala mais alto. — Bem, na verdade, ela é.
É a vez de Janet levantar a sobrancelha. Sinto certo prazer em desestabilizá-la.
— Sério?
— Sim, é um problema genético, como uma mutação. É raro.
Li o artigo do The New York Times. Duas vezes. Na primeira, espantado, como se estivesse lendo sobre uma pessoa estranha. Depois, mais uma vez, com Jubilee em mente, tentando compreender como deve ter sido a vida dela. Como ainda é a vida dela.
Janet volta a colocar uma expressão simpática no rosto.
— Mas, pelo que você sabe, ela não tem nenhum poder... mental, certo? — E oferece um pequeno sorriso, como se compartilhássemos a mesma piada.
Não retribuo o sorriso.
— Não. Que eu saiba, não.
Ela concorda com a cabeça.
— Parece que Aja acredita que a mutação que causa a alergia dela, a qual, a bem da verdade, não pensei que fosse real, marca Jubilee como uma espécie de milagre da evolução, e que ela talvez tenha usado ou não poderes sobrenaturais.
Mesmo sabendo que essa é a parte séria, com a qual eu deveria estar preocupado, não posso deixar de sorrir, imaginando Jubilee como alguma super-heroína determinada a salvar o mundo. Minha intuição volta a se perguntar até onde Aja realmente precisa de terapia. Sim, sei que ele tem alguns... problemas, decorrentes da morte dos seus pais. Mas isso não é só a imaginação hiperativa de um menino de dez anos?
Digo exatamente isso à Janet, terminando com:
— Ele lê muito os X-Men. É a revista em quadrinhos favorita dele, e é exatamente isso que eles são: mutantes genéticos com habilidades extraordinárias.
— Muito bem — diz ela, mostrando a palma da sua mão. — Só quero tentar de tudo e não deixar escapar nada, dadas algumas escolhas que Aja fez no passado. Quero ter certeza de que estamos fazendo tudo ao nosso alcance.
Baixo um pouco a guarda.
— Eu sei e entendo. Eu também.
Levanto-me e tiro meu casaco do encosto da cadeira onde o pendurei. Enquanto o visto e caminho em direção à porta, Janet me chama.
— Eric?
Viro-me.
— Sim.
Ela me fita com um olhar amável, mas sério.
— Converse com ele. Você tem que continuar tentando. Com crianças, muitas vezes é preciso fazer várias tentativas.
Concordo com a cabeça, pensando em Ellie. E eu não sei?