Perto o bastante para tocar
vinte e cinco
JUBILEE
Não preguei os olhos a noite inteira — nem na noite seguinte. Como poderia, quando tudo o que podia ouvir eram as minhas palavras, como um LP riscado, e tudo o que podia ver era a expressão de dor no rosto de Eric, olhando para mim, no banco da frente do seu carro?
Exausta, faço lentamente minha rotina matinal de segunda-feira: lavo o rosto e coloco minha roupa térmica. Sinto uma pontada no coração quando me lembro da resposta de Eric naquela noite na biblioteca em que lhe disse que estava usando uma: Você está tentando me seduzir? E me pergunto quantos outros momentos terei pensando assim; quantas lembranças dele criei; como ele invadiu completamente minha vida em tão pouco tempo.
Penso em avisar no trabalho que estou doente, mas preciso da distração.
O dia é longo e é como se o mundo estivesse conspirando para me fazer lembrar de tudo o que deu errado. O golfista do travesseiro, Michael, que nunca disse quatro palavras para mim, de repente quer saber onde está Louise.
— Ela está em algum tipo de licença? Faz tempo que não a vejo — diz.
Noto que, em pé, em vez de curvado na frente da tela de um computador, ele é atraente. Se passasse por ele na rua, ninguém faria ideia de que fica o dia inteiro na biblioteca, sentado em um travesseiro.
— Foi demitida — respondo. — Corte de verbas da Câmara Municipal.
Ele fica me olhando, seus olhos castanhos examinando os meus, e estou convencida de que está querendo saber o que todos os outros querem: por que não fui eu.
— Bem, isso é chato — diz.
Faço um som evasivo e volto a olhar para os livros que estou organizando na mesa, esperando que ele entenda a indireta.
— Ah, esse livro é ótimo — diz, apontando para o que está na minha mão direita. Olho para o livro. On the Road, de Jack Kerouac. Nunca o li.
— Sério? — pergunto, levantando as sobrancelhas para ele, surpresa que ele leia. Surpresa por ele fazer alguma coisa que não seja jogar aquele jogo estúpido de golfe no computador.
— Sério — responde, com uma tristeza nos olhos. — Era o favorito do meu pai. — Olho para o livro de novo e, quando levanto os olhos, ele se foi.
Às 16h30, a porta se abre e, pelo canto do olho, vejo Aja. Viro-me na sua direção, mas percebo que é apenas um garoto com a mesma estrutura pequena, mas de cabelos castanhos e cachos opacos no lugar do preto intenso e brilhante. E isso quase acaba comigo. Estava tão brava com Eric, tão ansiosa para arrancá-lo da minha vida, que não pensei em Aja. O que ele deve estar pensando de mim? Quase ligo para Eric para lhe dizer que não há problema algum em Aja continuar vindo à biblioteca, mas, no final, não posso me obrigar a fazer isso. Por mais que sinta falta de Aja, é melhor assim. Um rompimento total.
Porém, se isso é realmente verdade, não posso explicar por que, durante a semana seguinte, todas as vezes que a porta se abre, meu coração acelera, batendo forte com a esperança de que seja um deles entrando. Eric ou Aja.
No final de janeiro, finalmente desisti, conformei-me com o fato de que tudo — seja lá o que fosse — realmente estava acabado e finalmente paro de olhar para a porta. Deixo de esperar que Eric irrompa por ela como se fosse um daqueles apaixonados nos filmes de Hollywood.
E é quando ele entra.
Não Eric.
Mas Donovan.
Pisco três vezes quando o vejo, tentando entender por que ele está neste lugar, por que está usando um terno, tentando entender tudo. Donovan só existe para mim como aquele menino no pátio da escola, com um boné detestável virado para trás e os lábios que me deram o primeiro e único beijo, um adolescente arrogante que quase me matou — por causa de uma aposta.
O tempo vai se esgotando à medida que ele caminha na minha direção, e fico me fazendo uma pergunta atrás da outra: será que vai me reconhecer? E, depois, será que vou ter tempo de correr para a sala de descanso e me esconder? Um plano que poderia funcionar se ao menos meus pés simplesmente se movessem.
— Jubilee — diz ele, respondendo à minha primeira pergunta com sua voz melosa. Está mais grave, mas eu a reconheceria em qualquer lugar. Ele para em frente ao balcão, e percebo seus olhos passearem do alto da minha cabeça até as luvas em minhas mãos. Faço toda a força do mundo para permanecer imóvel e impassível à sua inspeção. — Madison me disse que você estava trabalhando aqui — diz, com um sorriso que vai se abrindo lentamente de um lado ao outro do rosto. — Tive que vir para ver com meus próprios olhos. Desculpe ter demorado tanto para dar uma passada aqui.
Só Donovan pensaria que, depois de todo esse tempo, eu estava esperando vê-lo, que sua presença é desejada por todos.
— Você parece bem — diz, e a observação me pega desprevenida, especialmente porque ele parou com a encenação.
O modo como diz isso não é agradável nem ofensivo; ao mesmo tempo, ao me lembrar do que Madison disse sobre suas atividades extraconjugais, e tenho certeza de que ele sabe perfeitamente como elogiar as mulheres.
— Obrigada — digo, embora perceba com grande alívio que, ao contrário do que meu coração batendo na garganta sugerira, não me importo com o que ele pensa. Não mais.
Quero retribuir o elogio, mas, sério, ele parece a mesma pessoa. Só uma versão mais velha e rechonchuda do menino no pátio. E com uma calça bem ajustada à cintura, em vez de caída para anunciar o logotipo da Hollister nas cuecas que usava no ensino médio.
— Enfim, não vou prender você. Só queria dizer que estou muito feliz por ela ter conseguido fazer tudo isso — diz.
— Quem? — pergunto, querendo saber se perdi parte da conversa que, aparentemente, estamos tendo.
— Madison.
Ah, certo. Imagino que ele saiba que ela me ajudou a conseguir o emprego.
— Meu Deus, durante anos ela se sentiu muito culpada.
Inclino a cabeça, agora certa de que perdi alguma coisa.
— Espera... do que você está falando?
— Da aposta — diz, como se isso esclarecesse tudo. — Você sabe, foi tudo ideia dela. Menina, quando ela ouviu falar que você tinha morrido, não sei quem começou a espalhar esse boato maluco, pensei que ela fosse pirar. — Ele ri. — Enfim, isso foi há tanto tempo. Águas passadas, certo?
Meu corpo congela. Madison? Isso não faz o menor sentido. Donovan era namorado dela. Por que ela iria querer que ele me beijasse? Mas, então, outras coisas começam a ficar claras. Como, por exemplo, o modo como estava ansiosa para me ajudar quando a encontrei por acaso no posto de gasolina. E como foi fácil conseguir esse emprego, quando Louise disse que fazia quatro meses que a vaga estava disponível — espere, Louise.
Meus olhos movem-se abruptamente para Donovan.
— Por que Louise foi demitida?
— Quem é Louise?
— Ela era bibliotecária aqui. Foi demitida algumas semanas atrás.
— Ah. Certo. Isso pode tecnicamente ser culpa minha, mas eu não sabia o nome dela. Madison me ligou, agitada, dizendo que as verbas estavam curtas e que o diretor iria demitir você, mas ela não podia deixar isso acontecer porque você realmente precisava do emprego. O banco doa dez mil dólares à Fundação da Biblioteca todos os anos, então só fiz uma ligação e disse que, se você fosse demitida, estaríamos cancelando a doação. Não sabia ao certo se isso funcionaria; quer dizer, dez mil dólares não é tanto dinheiro assim, sabe? Mas funcionou. — Ele dá de ombros. — Era o mínimo que eu podia fazer.
Fico olhando para ele, incapaz de esconder meu choque.
— Vocês... realmente... não existem — digo lentamente.
— Bem, obrigado. — Ele abre um sorriso e puxa a lapela do seu paletó.
— Quer dizer, Madison disse que você era um babaca, mas você é muito, muito babaca.
Seu sorriso desaparece.
— Ei, não há necessidade de insultos. Estava tentando fazer um favor para você.
— É? Assim como beijar a pária da escola foi um favor? Olha, da próxima vez que quiser fazer um dos seus grandes e maravilhosos gestos, me deixe fora disso.
— Jubilee. — Sua voz abranda. — Sinto muito. Olha, eu era um merdinha naquela época. Sei disso. Mas eu nunca quis... eu não sabia.
Seus cílios se voltam para o chão e ele faz uma encenação convincente em que parece desapontado.
— Você nunca foi uma pária — diz com a voz tão serena que tenho que me inclinar para a frente para entender o que ele está dizendo. — Não para mim. — Ele sussurra. Solta o ar. — Madison ouviu por acaso quando eu disse que achava você... gostosa, ou sei lá o quê. Linda. E ficou chateada. Com ciúme. Acho que foi a ideia dela de se vingar ou algo assim. Eu nunca deveria ter concordado.
— Não. Você não deveria. — Tento dar força às minhas palavras, mas vejo que só consigo expressá-las com raiva, sem disposição para mais nada. De repente, não me resta nenhuma força para brigar. Minha cabeça está zonza com todas essas informações novas e lembranças antigas, mas, principalmente, com o sofrimento de ver o quanto esses adolescentes do ensino médio, e os adultos, podem ser cruéis. Ou não, talvez os adultos sejam ainda mais cruéis.
Os atos de um adolescente petulante e imaturo do ensino médio eu posso perdoar, mas isso? Saber que ela fez amizade comigo por causa de uma obrigação, que estava mentindo para mim esse tempo todo... Isso é, de alguma forma, mais doloroso do que seu pecado.
Donovan continua balançando a cabeça e, então, fica cabisbaixo, como se um fio invisível prendesse sua cabeça ao chão.
— Se houver alguma coisa que eu possa fazer por você...
— Acho que você já fez demais — digo, mas não de forma indelicada.
Nossos olhos se encontram e, embora ele provavelmente ainda seja um merda, eu o perdoo. Percebo que ele simplesmente não importa para mim. Não mais.
*
Um dos benefícios de morar sozinha é não ter ninguém para testemunhar seu comportamento mais patético. Naquela noite, ignoro os três telefonemas de Madison — dois para meu celular e um para meu telefone residencial (que imagino ser dela, embora suponha que poderia ser uma operadora de telemarketing querendo discutir sabores de sorvete) — e me entrego à minha própria fossa. O traje? O casaco de moletom de Wharton, de Eric, já sem o cheiro dele, uma vez que o lavei. Mesmo assim levo o colarinho ao nariz, inalando sua memória. Em seguida, vou para a cozinha e faço uma travessa de rabanada capaz de alimentar uma família de seis pessoas e a levo para o sofá. Ligo a TV, levando o pão à boca com uma das mãos e trocando os canais com a outra, até que paro em um documentário sobre o Projeto Montauk. Paro no meio da mordida, lembrando-me de Aja ao ver os alienígenas. Começo a chorar e a assoar o nariz freneticamente, minhas lágrimas se misturando com o açúcar e a canela grudados nos meus lábios.
Sinto falta dele, mais do que imaginava que sentiria. E sinto falta de Eric, embora me odeie por isso. É tão lamentável, tão infantil, como se estivesse de volta à escola, sonhando acordada com Donovan. E veja o estrago que isso fez. Mas, principalmente, odeio me sentir mais sozinha do que já me senti nos nove anos em que realmente estive sozinha.
Quem me dera nunca ter saído de casa. Apenas ter deixado o dinheiro acabar e morrido de fome quando a comida acabasse também. Teriam me encontrado quando o despejo fosse o último recurso — talvez eu teria até aparecido no The New York Times outra vez: “Garota que não podia ser tocada morre em cima de milhares de livros.”
Exausta, estico-me no sofá e levo o colarinho do casaco de Eric ao meu nariz ranhento novamente, consolando-me com o único lado bom de toda essa confusão: pelo menos descobri as coisas sobre Eric antes de tentar a imunoterapia. Não posso acreditar que cheguei a considerar ela. E se tivesse funcionado? Sem dúvida, não teria dado tempo. Ele já estaria em New Hampshire há muito tempo. Mas, na teoria, se tivéssemos podido nos tocar, se eu tivesse sentido a força dos seus braços em volta de mim, a barba áspera do seu queixo no meu rosto, seus lábios secos e rachados nos meus — em vez de só ter imaginado — isso teria sido muito pior. Não teria?
Agarro o tecido do casaco e o aperto cada vez mais, esperando que a tensão latejante na minha mão diminua a dor aguda do buraco de ilusão que se abriu em meu peito.
Mas isso não acontece.
No domingo, desperto do meu sono com uma batida brusca na porta. Sei que é Madison. Venho ignorando seus telefonemas há quatro dias e ela deu uma passada na biblioteca ontem enquanto eu estava na sala dos fundos. Pedi a Roger que lhe dissesse que eu não estava lá.
— Mas acabei de falar: “Ela está na sala dos fundos. Vou chamá-la” — respondeu ele.
— Diga a ela que você se enganou.
Ele revirou os olhos, mas fez o que pedi.
Sei que preciso encará-la em algum momento, e imagino que este seja o melhor de todos. Enfim, melhor do que fazer uma cena na biblioteca. Desço correndo as escadas e abro a porta de uma só vez para...
Eric. Ele dá de cara comigo, começando com meus olhos arregalados, meu queixo caído, e depois mais caído.
— Bela camiseta — diz.
Droga! Que eu não esteja vestindo o casaco dele de novo. Olho para baixo e suspiro de alívio. É minha blusa da MC Hammer com capuz que comprei no eBay alguns anos atrás quando estava me sentindo irônica. Ela diz, em letras garrafais, como o refrão da música: Can’t touch this.
— O que está fazendo aqui?
Ele tira o gorro e o segura na frente do corpo, de modo que está literalmente em pé em minha varanda de chapéu na mão. Não sei por que acho graça nisso.
— Aja e eu... estamos voltando para New Hampshire. Na semana que vem.
— Eu sei.
— Sabe?
Encolho os ombros.
— Imaginei.
— Olha, eu... posso entrar? Preciso dizer umas coisas.
Fico encarando-o, sabendo que será mais difícil se eu o deixar entrar, mas também que quero, mais do que qualquer coisa neste mundo, que ele entre e que fique. Tiro o ombro da porta e a abro mais.
— Tudo bem — digo, entrando na sala. Ele me segue, e as batidas do meu coração aceleram a cada passo que ele dá atrás de mim.
Sento-me na minha poltrona, deixando o sofá como sua única opção. Ele se senta. Estuda o cinzeiro na mesinha de centro por um minuto antes de falar.
— Por que você está tão brava comigo?
A calma com que ele pergunta faz algo explodir dentro de mim.
— Você mentiu para mim!
Sua sobrancelha se levanta diante da minha explosão.
— O quê? Como?
— Você nunca me contou! Que vocês iam embora. Eu não sabia! Todas essas semanas... Como você pôde não ter me contado?
— Não sei. Acho que não pensei nisso.
Abro a boca, enfurecida, mas ele levanta uma das mãos.
— Não. Isso não... não quis dizer isso. Acho que não quis pensar nisso. — E, então, ele dá uma olhada para mim, como se só agora estivesse me vendo desde que abri a porta. — Espere... por que você se importa?
— Como assim por que eu me importo?
— Exatamente o que perguntei.
Sou um alvo em sua mira agora. Ele não vai desistir.
Fico inquieta sob seu olhar.
— Acabei me aproximando de verdade de... Aja.
— Hum — diz, baixando o olhar. Seus ombros fazem o mesmo. — Foi o que imaginei.
Abafo um grito.
— Você é tão... impossível!
Ele levanta a cabeça.
— Eu? Eu?! Eu sou... — ri. — Eu nem...
— O que você quer que eu diga? — grito, interrompendo-o. — Que toda vez que você olha para mim, me toca com essas luvas estúpidas, é como se eu não pudesse respirar? Que eu estou desesperada para sentir a sua pele na minha, mesmo que isso me mate, literalmente? É isso que você quer ouvir? — Respiro fundo, sentindo um alívio imediato por ter falado, embora, ao mesmo tempo, queira me jogar debaixo do sofá e me esconder lá. Agora já foi, e não posso desfazer as palavras.
— Sim — diz. — Porque, embora você talvez seja a mulher mais teimosa que já conheci e, obviamente, nunca tenha aprendido a usar um pente nessa juba rebelde, e saiba esse montão de cultura inútil, inexplicavelmente tudo o que quero fazer é tocá-la com as minhas luvas estúpidas.
Fico olhando para ele.
— Isso era para ser um elogio?
— Não — responde. — Mas isto é: levar você da biblioteca para casa de longe é a melhor parte do meu dia. De qualquer dia. E, apesar desse seu cabelo rebelde, ou, quem sabe, por causa dele... droga, se eu soubesse... você é mais bonita do que qualquer uma tem o direito de ser. Mas, mais do que isso, você se tornou, de alguma forma, uma luz que brilha no túnel escuro e estreito que tem sido a minha vida nesses últimos anos. E não quero deixá-la.
Minha respiração fica presa na garganta.
— Não?
— Não.
Lágrimas brotam nos meus olhos quando nos encaramos; um silêncio pesado paira no ar, cheio de tensão. Fico sentada ali, esperando a euforia — a grande alegria de saber que tudo isso não era coisa da minha cabeça, que ele sente o mesmo que eu —, mas ela não vem.
— Bem, não sei como isso importa — digo, com a raiva de saber que ele está indo embora aumentando novamente.
— Mas, e o tratamento?
— O que tem ele? — pergunto, ríspida.
— Você não quer pelo menos tentar?
— Para quê? — pergunto, embora eu estivesse quase convencida a fazê-lo há um mês, quando a ideia de nunca poder tocar Eric se tornou insuportável. Quase. — O quê? Você vai esperar lá em New Hampshire para ver se ele funciona?
— Sim, por que não? São só cinco horas daqui. Ainda poderíamos nos ver.
Embora lisonjeada, sei que ele ainda está se apegando à fantasia que vivi nos últimos meses. É hora de encarar a realidade.
— Eric, ouça o que você está dizendo! Toda a sua vida está lá, sua filha. Minha vida está aqui. E, mesmo esquecendo tudo isso, a doutora Zhang disse que poderia demorar um ano para encontrar a proteína, sem falar no tempo da terapia. E se nunca funcionar? Você simplesmente esperaria para sempre, sem tocar a sua vida? — Suspiro, e minha raiva se dissipa um pouco. — Eu não iria querer que você esperasse... Nunca poderia deixar você fazer isso.
— Então não faça isso por mim! — explode. — Faça por você. Pare de levar a vida como se estivesse com medo dela, enfiada em casa com todos os seus livros. Você merece mais, Jubilee! Meu Deus, você merece muito mais!
Fico o encarando, atordoada. Abro a boca para gritar de volta — como ele se atreve a me dizer como viver minha vida? Mas vejo seus olhos verde-oliva, a paixão que há neles, a mesma dor que espelha a minha — e a última gota de força para lutar se vai.
Sinto um nó na garganta.
— Vou sentir a sua falta — digo, e meus olhos se enchem de água, embaçando minha visão.
— Mas não precisa, você sabe — diz. — Podemos manter o contato. Vou ligar. Mandar e-mail. Querer saber como você está e o que está fazendo. — Então, sorri e acrescenta: — O que está lendo.
Olho para ele, assimilando o que disse. Parece tão tentador permanecer na sua vida. Ouvir sua voz ao telefone. Mas percebo que não quero apenas sua voz. Não quero apenas uma parte dele. Talvez seja ganância minha, mas o quero por inteiro. E não posso tê-lo. E, inevitavelmente, outra pessoa o terá. O que acontecerá quando ele começar a namorar alguém? Deverei sorrir e suportar isso como se fosse simplesmente outra amiga na sua vida? Só o pensamento já me consome.
Lentamente, balanço a cabeça.
— Não posso — digo. — É que... não posso. — Quero dizer o porquê, explicar que não é justo comigo, ou com ele, na verdade, mas o que ser justo tem a ver com alguma coisa? O mundo é injusto. Cruel e severo. E, olhando para a dor nos seus olhos, percebo que isso é algo que ele já sabe.
Ele mexe a cabeça devagar, como um barco balançando em ondas suaves. Então, esfrega as mãos no rosto. Fico olhando para elas, para os nós protuberantes dos dedos, para as veias grossas indo dos dedos aos pulsos, e sinto uma última pontada no meu coração, sabendo, com uma triste certeza, que nunca vou sentir seu toque em minha pele.
— Então é isso — diz, com um tom conclusivo que eu já esperava, porque era inevitável, mas para o qual eu não estava realmente preparada. Sinto uma dor dentro de mim que se irradia pelos meus ossos, braços e pernas, como a reverberação de um gongo tocado por um gigante. Percebo, então, que nunca soube o que era dor. No fundo, não. Não quando as crianças zombavam de mim no banco da escola na hora do recreio, não quando Donovan me beijou e pôs fogo na minha garganta, obstruindo minhas vias respiratórias, nem mesmo quando minha mãe morreu. Não até esse momento, olhando nos olhos de Eric e percebendo como é totalmente injusto ser esse o fim, quando nunca sequer tivemos um começo.
— O que faremos agora? — pergunto, minha voz embargada de emoção. Mal percebo as lágrimas caindo dos meus olhos para o chão.
Eric se levanta, e sei que chegou a hora. Este é um adeus. E quase desejo que ele nunca tivesse vindo. Quase.
— Agora — diz com uma expressão cada vez mais sombria nos olhos enquanto pega o cobertor embolado no sofá e começa a abri-lo, pouco a pouco. Segura uma ponta em cada mão, esticando-o até onde seus braços alcançam. — Vou sufocar você.
Meu corpo involuntariamente recua, confuso, até que me lembro da nossa conversa no carro. Comigo me debulhando em lágrimas por causa da minha mãe. E deixo escapar uma risadinha. Em seguida, começo a rir.
— Vem cá — diz.
Estou com as pernas bambas e me jogo no cobertor, nele. Ele me enrola como se eu fosse um burrito, abraçando-me apertado. Meus ombros tremem por causa das risadas, mas ele não me solta.
Nem mesmo quando seus ombros começam a coincidir com o movimento dos meus. Nem mesmo quando já não estamos mais rindo.