Perto o bastante para tocar

Colleen Oakley · Capítulo 36 de 37

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Perto o bastante para tocar

Jubilee

 

— Ah, querida, alguém rasgou uma página do livro A Teia de Charlotte — diz Louise, pegando na gaveta a fita de papel transparente.

Olho, e meu coração pula na garganta. É o livro. A mesma capa dura azul. A menina de vestido vermelho.

— Vou consertá-lo — digo, tirando-o dela só para que minhas mãos possam tocar o mesmo lugar que as dele tocaram sete anos atrás, quando ele leu para mim no escuro da biblioteca. Levo-o ao nariz, mesmo sabendo que só terá cheiro de livro velho embolorado. Sinto seu cheiro mesmo assim. Louise olha para mim de modo engraçado e, em seguida, pega sua bolsa.

— Vou almoçar.

O senhor Walcott dizia: “O tempo cura todas as feridas.” Mas isso não é verdade. O tempo não cura nada. Tudo o que faz é atenuar a memória, até que algum lembrete, como um clássico infantil, define mais o foco, tira seu fôlego, e todos os sentimentos voltam correndo.

Eu me deleito com o livro por um minuto, depois o coloco sobre o balcão e colo um pedaço da fita adesiva na página rasgada. Quando fecho a capa, um latido chama minha atenção. Levanto os olhos e vejo Rufus arrastando Madison para a biblioteca.

— O que você está fazendo? Você deveria deixá-lo amarrado do lado de fora!

— Ah, como se eu tivesse algum controle sobre ele — diz. — Pronta para ir?

Rio, admirada por nunca conseguir ficar brava com ela. Mesmo anos atrás, quando me senti completamente traída, desabei diante do primeiro pedido de desculpas sincero.

Demorou apenas algumas semanas para que Louise conseguisse seu emprego de volta. Não por causa de Madison; não havia nada que ela realmente pudesse fazer, mas porque a biblioteca recebeu uma doação anônima de quatrocentos mil dólares, uma quantia colossal que deixou Maryann com tanto bom humor a ponto de esquecer por que sempre teve raiva de mim, para começar. Muita conversa surgiu entre os funcionários sobre quem poderia ter feito uma doação tão generosa. A princípio, pensei que tivesse sido Donovan, mas Madison uivou quando comentei minhas suspeitas. “Quer dizer, ele está indo bem no banco, mas o salário dele não chega nem perto de todo esse dinheiro”, disse ela.

Então, fiquei curiosa para saber se talvez Eric estivesse metido nisso. Também não achei que ele tivesse essa quantia de dinheiro, mas talvez tivesse convencido uma das muitas empresas com as quais trabalhava a fazer a doação. Fiquei feliz com a ideia, interpretando sua generosidade como o fim de algum filme de televisão, mesmo sabendo que era uma possibilidade remota.

Só anos mais tarde descobrimos que Michael, o golfista do travesseiro — embora parecesse estranho chamá-lo assim agora, pensando melhor —, estava por trás disso. O que Michael quis dizer quando disse que seus pais eram “cidadãos importantes” era que eles eram podres de rico — e ele era o único herdeiro.

— Qual é, Jube! Vamos.

— Tenha paciência — digo, examinando A Teia de Charlotte e fazendo uma anotação no computador sobre o estrago no livro.

Lá fora, o sol é uma laranja gigante no céu, irradiando um calor agradável e a felicidade no dia de verão.

— Obrigada por ficar com Rufus — digo enquanto passeamos pela calçada. — Prometo que vou arrumar logo outra pessoa para levá-lo para passear. É muito difícil substituir o Terry. Ele amava tanto o Rufus.

Terry era meu carteiro — não era Earl, como eu o havia apelidado. Conheci-o enquanto estava passeando com Rufus um dia e ele mencionou — enquanto tirava do bolso um biscoito para cachorros que Rufus abocanhou com alegria — que estava se aposentando dos correios e começaria a cuidar de cachorros como novo passatempo. Contratei-o no mesmo instante e, desde então, ele passeava com Rufus nos dias em que eu trabalhava. Ele e a esposa estão se mudando para a Flórida para viverem em um condomínio na praia.

Quando chegamos a TeaCakes, amarro Rufus ao poste do lado de fora, onde o proprietário havia deixado uma grande bacia de água e alguns brinquedos para os cachorros dos clientes morderem.

— Jube, sério. Você está andando como uma geleira.

— E? Por que a pressa? — pergunto, enquanto ela segura uma porta aberta para mim e entro. Então, vejo.

— Feliz aniversário! — grita um coro de rostos familiares. O mais radiante e mais alto de todos é o de Michael. Ele dá um passo para a frente, sorrindo.

— Está surpresa?

Cubro a boca com a mão, tentando ver todas as pessoas à minha frente: Louise (como ela chegou aqui tão rápido?), Roger, a doutora Zhang (não posso acreditar que ela veio da cidade) e até Terry e sua esposa. Meus olhos voltam para Michael.

— Você que fez isso? — pergunto.

— Sim. Bem, com a ajuda de Madison.

Estendo a mão na direção dele, e ele a segura, apertando-a. Meu coração se infla, e penso em como tenho sorte. Não apenas por Michael, mas por todos que estão neste recinto. Pela família que nunca pensei que teria.

Estreito os olhos para ele.

— Espere, achei que você ia para Chicago. — Fazia um mês agora que Michael vinha falando sobre o encontro anual da National Golf Course Owners Association. De acordo com seu plano, ele comprou o campo abandonado nos arredores de Lincoln anos atrás e rapidamente o transformou em um centro de atividades para empresários e empresárias da cidade de Nova York a fim de jogar golfe.

— Uma mentirinha — diz ele. — Na verdade, é no mês que vem.

Eu rio.

— Acho que você está perdoado.

— Perdi o bolo? — diz a voz atrás de mim.

Eu me viro.

— Maryann! — dou-lhe um abraço e, em seguida, um passo para trás. — Um minuto... se você está aqui, quem está na biblioteca?

— Eu a fechei — diz ela, piscando. — Só por uma hora. — E põe o braço no meu ombro enquanto Louise se aproxima e coloca a mão em minha cintura, conduzindo-me a uma mesa comprida nos fundos, envergada sob o peso de um bolo extremamente grande.

— Qual é! — diz ela. — Vamos comer.

Naquela noite, mais tarde, enquanto estou sentada na sala relendo A Abadia de Northanger pela centésima vez, não consigo me concentrar. Como a maioria das noites nas últimas duas semanas, minha mente se distrai com Michael. Hoje à noite, estou admirada com o curso da nossa amizade nesses últimos sete anos. Com o modo como, depois que consertei a impressora para ele naquele dia, começamos a conversar mais regularmente — nossas conversas na biblioteca, onde ficávamos muito tempo depois de eu a fechar à noite, foram, aos poucos, transformando-se em conversas profundas sobre a vida. Então, ele estava sempre ali, como uma lâmpada no meio do teto. Estável, confiável, alguém com que eu podia contar ao longo dos anos. Ficou ao meu lado durante todos os tratamentos frustrados, deixando que eu sentisse pena de mim mesma quando precisava, mas também sabendo me dar um pequeno estímulo quando era hora de me animar. E eu estava ao seu lado quando ele realmente começou a sofrer pelos pais e, aos poucos, a voltar a viver, comprando o campo de golfe e recomeçando a vida.

Muito embora tivéssemos nos tornado próximos, nunca pensei que sentiria algo por ele dessa forma — não como sentia por Eric. Isto é, até duas semanas atrás, quando ele me levou para ver a sede do clube renovada no campo de golfe. Enquanto falávamos sobre a cor que ele havia escolhido para os pisos de madeira — uma mistura de castanho médio e ébano —, de repente, deixou escapar: “Eu te amo.” Levei um minuto para registrar o que ele estava dizendo e, então, seu rosto apareceu diante de mim, e me enchi de — não sei — amor, acho. Embora seja um amor diferente do que o que eu sentia por Eric. Porém, fico me perguntando se, talvez, cada amor seja diferente, único, como os nós das tábuas no chão em que pisamos — e ainda mais bonito por causa de suas distinções.

Murmurei algo sobre a cor que parecia muito natural e saí do clube. E Michael, por ser o Michael, não tocou mais no assunto desde então.

Meu celular toca, arrancando-me dos meus pensamentos. Madison. Deslizo o polegar na tela para atendê-lo.

— Você está pronta para a semana que vem? A grande mudança?

Depois de anos com Madison tentando me convencer, finalmente cedi à sua insistência para que eu vendesse a casa. “É um mercado de vendedores”, disse ela alguns meses atrás. “Lincoln é bem quente, com seu aspecto de cidade pequena e muito próxima a Manhattan. Todas aquelas famílias do Prospect Park estão deixando seus sobrados de pedra marrom caríssimos por terrenos e cidades como essa. Você faria um grande negócio.”

E estava certa. A casa foi vendida em dois dias de oferta no mercado por 32 mil dólares acima do preço inicial. Eu sabia que deveria estar eufórica — e queria estar, mas algo me impedia. Provavelmente, o fato de que havia vivido nesta casa por muito tempo. De que ela fora da minha mãe. De que tenho inúmeras lembranças aqui.

— Sim — digo. — Acho que sim.

— Vejo você bem cedo pela manhã — diz ela.

Quando desligamos, olho ao redor da sala, pensando na minha mãe. Sua presença é menos palpável, mas não acho que seja só porque se passou muito tempo, ou porque a redecorei. Acho que é porque fiz as pazes com ela, com o nosso relacionamento. Aquela carta que achei há tantos anos me deu tantas perguntas quanto respostas, mas o mais importante foi que me fez saber que ela me amava, só não sabia como demonstrar isso. Então, penso em Michael e em como ele pode estar.

Sinto um calor na barriga quando imagino seu sorriso torto, seu corpo esbelto, e deixo o livro de lado, capaz de, finalmente, dar nome ao sentimento que tenho quando estou com ele: contentamento.

No dia seguinte, Michael entra pela porta da frente do meu novo apartamento de tijolinhos com vista para o rio no centro da cidade, carregando uma pilha de duas caixas de papelão.

— Essas são as últimas — diz ele. Madison faz sinal para que ele as deixe no chão perto do sofá.

— Muito obrigada — digo, quando ele se levanta, gemendo. — Você realmente não precisava ajudar.

— Não precisaria, se tivesse me lembrado de quantos livros você tem — diz.

Rio, os olhos percorrendo a extensão do seu corpo e parando nos músculos fortes dos seus braços que agora ele está vigorosamente massageando. Quase deixo escapar ali mesmo: eu também te amo. Mas as palavras ficam presas na minha garganta.

Olho para a caixa que estou desembalando e, em seguida, ergo os olhos.

— Ei, está um dia tão lindo. Por que não damos uma pausa e vamos àquela sorveteria nova perto da TeaCakes? Por minha conta.

— Acho que preciso de algo com mais sustância do que sorvete — diz Michael.

— Qual é! — digo, sorrindo. — Podemos passar na loja de vinhos no caminho de volta.

Coloco a coleira em Rufus, e descemos os três lances de escadas que dão na rua. É uma tarde de sexta-feira e as ruas estão praticamente vazias, passada a hora do rush, com os trabalhadores de volta às suas lojas e escritórios.

À medida que passeamos pela cidade, Michael entretém Madison com uma história do trabalho daquela semana: um homem de uma das duplas em uma partida de golfe sofreu um ataque cardíaco no campo, mas, em vez de cancelar a partida quando a ambulância chegou, um dos rapazes pediu ao motorista que saísse logo para que ele pudesse continuar a jogar, porque estava jogando muito bem. “Eu poderia ter feito uma rodada perfeita!”, gritou enquanto o amigo era colocado na parte de trás da ambulância.

— Ah, meu Deus! Que horrível! — diz Madison.

Rio novamente, mesmo sendo a segunda vez que ouço a história. Madison está rindo também, mas para abruptamente. Não só de rir, mas de andar. Paro também e olho para ela para ter certeza de que está bem. Está olhando para a frente, e seu rosto ficou branco, como se tivesse visto um fantasma. Agarra meu braço, e rezo para que não seja Donovan com mais uma menina com idade suficiente para ser filha dele (embora o divórcio deles tenha se tornado mais amigável, ele ainda é um cretino) enquanto acompanho seu olhar rua abaixo. Então, quando vejo o que chamou sua atenção, todo o ar, pensamentos e sentimentos me faltam de uma vez.

É Eric.

Nossos olhos se encontram e, embora tenha diminuído os passos, ele só para completamente quando está a poucos centímetros de distância. Eu poderia literalmente estender o braço e tocá-lo, mas não faço isso. Rufus chega lá primeiro.

— Ei, amiguinho. — O rosto de Eric se ilumina, e ele se curva, esfregando a cabeça do cachorro. Acabada a emoção do encontro dos dois, levanta e olha para Michael, que estende a mão.

—Michael — diz, e é como se eu tivesse entrado em um mundo estranho onde existem dois sóis, Eric e Michael, e eles estão colidindo.

Eric estende a mão e aperta a de Michael.

— Eric — diz. Posso perceber que Michael se dá conta de quem é. Falamos muito sobre Eric depois que nos tornamos amigos. Ele sabe quem é Eric, mesmo não sabendo como ele é.

— Prazer em conhecê-lo, cara — diz Michael.

Eric concorda com a cabeça e olha para Madison. Ela faz um pequeno aceno.

—Madison — diz ela. — Acabei de lembrar que tenho que fazer uma coisinha antes de irmos à sorveteria.

— Vou com você — manifesta-se Michael, seguindo Madison e intuindo que preciso de um momento a sós com Eric. Aperta meu braço delicadamente. Dou-lhe um olhar que espero expressar gratidão. Madison estende a mão para pegar a coleira de Rufus. Eu a solto em suas mãos.

Viro a cabeça para vê-los se distanciarem, mas posso sentir que os olhos de Eric permanecem em mim. Quando chegam à esquina, volto a olhar para ele, que está sorrindo.

— Essa é a Madison? — pergunta.

Inclino a cabeça na sua direção.

— Como assim?

— A que deu para você aquele vestido horroroso? Com as plumas.

Jogo a cabeça para trás e rio, pensando em como parece que essa noite foi há um milhão de anos e há apenas alguns dias ao mesmo tempo.

— Sim, é ela — digo.

— E Michael? — levanta as sobrancelhas. Curioso.

— Um amigo — digo, mas tenho medo de que meu rosto corado esteja sugerindo outra coisa.

Eric assente, o olhar firme e intenso; a expressão, indecifrável. Então pigarreia e se endireita, colocando as mãos nos bolsos.

Não sei ao certo o que dizer, então não digo nada. Então, ficamos apenas olhando um para o outro. Feitas as cortesias comuns, o silêncio preenche o espaço entre nós. Aproveito a oportunidade para examiná-lo. Seus olhos ainda estão verdes como azeitonas; seu cabelo castanho, embora com mechas um pouco mais grisalhas, ainda se projeta em ângulos estranhos, implorando para ser bagunçado pela figura de uma avó. Ele deixou a barba crescer, mas não parece de propósito — mais como se a lâmina estivesse apenas em greve. Fico olhando para a barba — todo o resto é bastante familiar, corresponde de maneira muito impressionante com minha lembrança.

De repente, o silêncio se torna insuportável, e deixo escapar:

— Cadê o Aja?

Ao mesmo tempo em que ele diz:

— Como você está?

Rimos, quebrando a tensão.

— Você primeiro — digo.

— Aja está na casa da Connie. Nós a estamos ajudando com a mudança para a cidade. Só vim para cá para pegar mais caixas, na verdade.

Assinto.

— E como ele está? — pergunto, embora seja mais uma pergunta superficial.

Algumas semanas depois de se mudarem para New Hampshire, Aja enviou um e-mail para mim. Ainda não sei como conseguiu meu endereço de e-mail, mas mantivemos contato, enviando artigos engraçados, fatos e piadas um ao outro durante alguns meses. Sempre quis lhe perguntar sobre Eric, especialmente no início, mas sabia que não era justo com Aja. Envolvê-lo assim no assunto. E, de qualquer maneira, eu não sabia ao certo se queria saber, especialmente se Eric tinha seguido em frente.

— Bem. — Ele sorri. — Muito bem. Vai começar a faculdade nesse outono.

— Dartmouth, certo?

— Sim — diz. — Fiquei contente por você ter mantido contato. Ele sentiu muita falta de você quando fomos embora. — Seu rosto fica sério, e a palavra “falta” paira no ar. É uma palavra boba, incapaz de encerrar o que realmente significa. Você pode cometer uma falta em um lance de futebol.

— Senti falta dele também — digo e um nó se forma na minha garganta.

Seus olhos observam meu rosto, estudando-me. Fecho os olhos, mas não faz diferença. Ainda posso sentir seu olhar queimando minha carne. Estaria mentindo se dissesse que não sonhei com esse momento — ver Eric novamente. Uma vez, anos atrás, encontrei Connie na farmácia. Trocamos alguns comentários amáveis, mas fiquei abalada pelo resto do dia, querendo saber como teria me sentido se Eric estivesse com ela. Se eu teria sentido alguma coisa. Quando amamos alguém — e ficou claro para mim, à medida que os meses foram se passando depois da partida de Eric, que é exatamente assim que me sentia em relação a ele —, para onde vão esses sentimentos? Percebi a resposta naquele dia — não vão a lugar nenhum. Mesmo agora, por mais que me importe com Michael, é quase como se tivesse dois corações diferentes, e o que estava abrigando meus sentimentos por Eric durante todos esses anos está batendo em alto e bom som em meu peito.

— Cadê as luvas? — pergunta, e meus olhos se abrem repentinamente.

— Eu não... não uso luvas mais. — Pensei que talvez Aja tivesse contado para ele em fevereiro, mas agora me pergunto se Eric apoiava a mesma filosofia que eu: a de que era melhor não saber.

Ele examina meu rosto.

— Você está... isso significa que você... — Engole em seco.

Faço que sim.

— Sim. — Sinto algo no rosto, um pingo, e levanto os olhos para ver se começou a chover, mas o ar está seco.

Quando levanto a mão para sentir o que é, a mão de Eric dispara como uma bala de uma arma e agarra meu pulso. Um sopro de ar escapa dos meus lábios. Ele está me tocando. Nossos olhos se prendem enquanto seus dedos passeiam pela minha pele, o calor deles como a luz do sol em um dia ameno. A quantidade perfeita de calor.

Parte de mim pensa em como a vida pode ser injusta, indescritivelmente cruel. Em como esse momento — sua pele na minha — é tudo que eu sempre quis, tudo com que sonhei durante semanas, meses, anos de minha vida. Porém, já se passaram sete anos. Então, por que agora? Por que ele está parado aqui, fazendo com que eu me sinta dessa forma, justamente quando pensei que já estava tudo resolvido?

Então penso na minha mãe, em Madison e Donovan, e até no relacionamento cada vez mais profundo com Michael, e sei que se aprendi uma coisa, é que o amor é confuso. Não nos chega em uma caixa lindamente embrulhada com um laço. É mais como um presente de uma criança, rabiscado com lápis de cor e amassado. Imperfeito, mas sempre um presente.

E acontece que nem todos os presentes são feitos para durar para sempre.

O rosto de Michael passa por minha cabeça, e me sinto em conflito. Ele me ama. E eu — bem, parte de mim — me importo com ele também. Mas a outra parte...

Olho para Eric parado diante de mim e não posso evitar — sorrio para ele de forma despreocupada. Ele inclina a cabeça, sorrindo de volta. Com a outra mão, toca meu rosto, usando a ponta do polegar para limpar suavemente o pingo de água e depois esfregá-lo em minha bochecha.

— Jubilee — diz, muito maravilhado, como se meu nome fosse um segredo que guardou durante anos e agora, finalmente, pode revelar. — Você está chorando.

Paralisados, olhamo-nos fixamente, sua mão colada ao meu rosto, a outra ainda segurando meu pulso. Com a mão livre, seguro seu braço, e ficamos ali, agarrados um ao outro, um emaranhado estranho de braços e pernas.

Inclino-me para ele até nossas testas se tocarem e meus olhos mergulharem nos dele, seu hálito doce quente em meu rosto, mas não perto o suficiente. Levanto a mão e seguro sua nuca, puxando-o para perto até seus lábios colarem firmemente nos meus.

E estamos nos beijando.

Finalmente, estamos nos beijando.

Estamos nos beijando para compensar as centenas de beijos que nunca conseguimos dar, e talvez as centenas de beijos que nunca daremos.

Estamos nos beijando com muita energia e vigor.

E, então, estamos rindo. As bocas abertas, nossas gargalhadas se propagando pela rua. Não nos importamos com quem ouve ou com o quanto parecemos ridículos. Estamos rindo na mesma medida que estou chorando. E, ao me concentrar no calor das suas mãos no meu rosto, no meu pulso — sua pele na minha pele —, algo se solta dentro de mim como um animal selvagem escapando de uma jaula.

É o canto monótono de mil monges tibetanos.

Uma corrente elétrica.

É tudo.