Perto o bastante para tocar
dezoito
JUBILEE
Fico sentada ali, atordoada demais para me mover. Ele ia me beijar. Pelo menos acho que ia, pelo modo como estava tentando me tocar. É bem verdade que me falta experiência nesses assuntos, mas sua mão estava quase tocando meu rosto, e ele estava se inclinando em minha direção, assim como os atores fazem nos filmes — mesmo eu tendo segurado sua mão, tentando impedi-lo de me tocar. E, então, os gritos de Aja... tento me concentrar no que está acontecendo diante de mim.
— Não estou inventando isso! Juro! Pergunte para ela — diz Aja.
Ambos se voltam para mim. Percebo que perdi grande parte da conversa, ainda que possa preencher os espaços. Aja olha para baixo quando olho para ele.
— Desculpa — murmura. — Sei que não era para contar a ninguém.
Deixando de olhar para ele, Eric me encara novamente, com uma expressão estranha no rosto.
— Jubilee, do que ele está falando?
Sinto todo o meu corpo ficar quente e, de repente, gostaria de desaparecer. Ou que eles desaparecessem. O que eu estava pensando ao deixá-los entrar na minha vida dessa maneira? Na minha casa? Deixando Eric quase me beijar? Como se eu fosse simplesmente uma pessoa normal?
Meu rosto queima de humilhação, e é como se eu tivesse sido transportada para o pátio da escola onde Donovan me beijou, e tudo o que posso ouvir é a risada do que parece ser uma centena de adolescentes alegres gritando no meu ouvido.
Não acredito que você beijou a menina!
Você mereceu as cinquenta pilas, cara.
Que verdadeiro show de horror!
Aff! O que está acontecendo com o rosto dela?
— Jubilee?
O rosto de Eric volta ao meu campo de visão e detesto o modo como está olhando para mim. Uma mistura de confusão, piedade e... não sei, como se não me conhecesse nem um pouco. E minha humilhação começa a ficar confusa, meu rosto está pegando fogo, meu coração está batendo forte nos meus ouvidos e só quero que tudo isso acabe.
Levanto-me, batendo os joelhos ao levantar, fazendo a cadeira cair no chão.
— Vocês precisam ir embora.
— O quê? — As sobrancelhas de Eric se juntam, e a expressão de preocupação em seu rosto passa para uma de perplexidade absoluta. — Por quê?
— Quero que saiam daqui! — grito dessa vez, esperando que isso esconda qualquer outra emoção que esteja surgindo.
Cruzo os braços, tentando engolir um nó do tamanho de uma bola de golfe em minha garganta.
Ele fica ali por mais um segundo, os olhos me secando, curiosos.
— Jubilee — diz, a voz tranquila, mas insistente.
Não respondo. Não hesito.
— Tudo bem — diz, finalmente. — Tudo bem. Vamos. Vamos, Aja.
Tenta colocar uma das mãos no ombro de Aja, para guiá-lo para fora da cozinha, mas Aja a empurra. Eles saem um atrás do outro e, quando finalmente ouço a porta se abrir e depois se fechar com um clique abafado, debruço-me sobre a mesa, agarrando-me na borda dela com o peito arfante e lágrimas quentes banhando os olhos.
Fico ali assim, aliviada porque eles se foram, mas esperando que voltem, até que os nós dos meus dedos começam a doer e sinto que meus joelhos vão entortar. Então, lentamente pego a cadeira que derrubei e me sento nela, de ombros curvados, examinando a cena diante de mim. Os dois pratos. Duas canecas de café. Dois guardanapos amassados. Para qualquer outra pessoa, essa cena seria normal: o resultado das ações de duas pessoas que lancharam à mesa de cozinha. No entanto, para mim, é um lembrete peculiar e doloroso de que, pela primeira vez em nove anos, alguém estava aqui, e agora se foi.
Em algum momento enquanto a tarde se fez noite, minha humilhação se transformou em um vago sentimento de raiva, mas não posso identificar com precisão o motivo pelo qual estou me sentindo assim. Donovan? Aquelas crianças cruéis? Eric, por ir embora, mesmo tendo sido exatamente isso que lhe pedi para fazer? Eu, por lhe pedir para ir embora?
Deitada na cama, imagino o rosto de Eric inclinado na minha direção e me concentro em outra pergunta: ele realmente iria me beijar? Continuo repassando o momento na minha cabeça, como uma música no replay, lembrando o olhar no seu rosto, o modo como estava inclinado, o grito de Aja, até que a constatação do que está me incomodando se materializa. Sento-me ereta. Eu queria que ele me beijasse — na fração de segundo em que pensei que era isso que ele estava tentando fazer. E o que isso diz a meu respeito? Que tenho algum tipo de vontade estranha de morrer?
Viro-me para o criado-mudo onde está a caneca de Eric. Mais cedo, quando estava limpando as coisas, não consegui lavá-la. Nem guardá-la. Então a trouxe para meu quarto, como um souvenir de uma loja de presentes do aeroporto. Agora encaro a borda onde a boca de Eric tocou poucas horas antes e resisto ao desejo de levá-la aos lábios. O que há de errado comigo? Tiro os olhos dela, apago o abajur e fico deitada no escuro, mas, à medida que o sono toma conta de mim, a verdade entra no meu cérebro. A verdade de que talvez algumas coisas sejam maiores do que o medo da morte. Como o medo de nunca mais ser olhada do modo como Eric estava olhando para mim. Como, durante aquele segundo inteiro, fui a única pessoa que importava.
— Por que você não está pronta?
É quase noite no domingo, e Madison está em minha varanda. Mesmo tendo imaginado que ela desistiria se eu a deixasse batendo na porta, ela não desistiu e eu, a contragosto, abri a porta.
— Não vou — digo. O abatimento do dia anterior ainda é tão recente que tenho certeza de que ela poderá vê-lo estampado no meu rosto.
Ela não percebe.
— Para trás, estou entrando — diz.
Sem nenhuma outra escolha, dou um salto para sair do caminho, e Madison entra na sala. Ela olha ao redor, absorvendo tudo. Espero-a fazer algum comentário petulante sobre todos os livros, mas, em vez disso, pergunta:
— Quando vocês se mudaram para cá mesmo?
— Há uns 12 anos.
— E quanto a sua mãe pagou por esse lugar?
— Sei lá, tipo 230, eu acho. Por quê?
— Porque talvez valha, tipo, três vezes isso agora.
— Ah! — digo, porque não me importo com a casa agora, nem com seus benefícios imobiliários; tudo o que me importa é voltar para minha cama e fazer de conta que o dia anterior não aconteceu.
— E aí? Qual é o problema? — pergunta, soltando a bolsa no chão. — E não venha dizer que é uma longa história. Sabe que vou arrancá-la de você.
— Venha — murmuro, fechando a porta atrás dela. Vou atrás dela até a sala de estar e, não querendo colocar minhas luvas, sento-me na poltrona o mais longe possível dela, enquanto ela se acomoda no sofá.
— Vamos. Desembucha — diz.
Então começo. Falo de Eric e da maionese na minha boca, do beijo que quase aconteceu e de Aja gritando e...
— Espera, espera, espera — diz, levantando a mão. — Ele ia beijar você? E você ia deixar?
— Isso não... tem nada a ver com o assunto. O que importa é que Aja surtou geral. Então eu meio que surtei também... e, basicamente, o coloquei para fora da minha casa. Eu acho.
— Hum, não tem nada a ver com o assunto. Pelo que parece, tem tudo a ver com o assunto. Você está a fim desse cara?
— O quê? Não! — digo. — Por que você... isso é ridículo.
Ela estreita os olhos e posso dizer que não acredita em mim.
— Tudo bem... Acho que ele é... — O que realmente penso sobre Eric? Que ele às vezes é sério e sincero, mas, quando você menos espera, é surpreendentemente engraçado. Ele é inteligente de um modo terrivelmente lógico. E também cuidadoso, carinhosamente cuidadoso, sobretudo quando se trata dos seus filhos. Apenas gosto de estar perto dele. Talvez mais do que admito para mim mesma. — Acho que ele é... alinhado — digo, finalmente.
— Alinhado? — grita. — O quê... ele é um terno bem-feito? Um armário bem organizado? Você tem 11 anos? — Ela se acaba em risos.
— Pare! — digo, embora não possa deixar de rir junto com ela. — Ok, bem, eu gosto dele. Não sei... ele me faz me sentir... quente.
— Ah, bem, ele foi promovido a um casaco. Uma lareira.
O sol, acho. Mas não quero dar mais munição à Madison.
— Você pode falar sério só por um minuto? — pergunto.
— Sim, sim, desculpe. — Ela passa a mão na frente do rosto como se, em um passe de mágica, tivesse transformado os lábios levantados em uma linha reta. — Séria agora. — Mas, então, ela sussurra “alinhado” mais uma vez e se joga para trás no sofá, gargalhando.
— Madison!
— Jube! Desculpe. É... tudo bem... sério agora. — Ela abafa uma risadinha aqui e outra ali por mais alguns segundos e tenta novamente. — Por que você simplesmente não contou para ele sobre o seu problema? Antes de hoje?
— Sim, porque essa é uma conversa muito fácil.
— Bem, acho que é uma conversa importante, para ele não sair limpando a maionese do seu rosto e, sem querer, fazê-la ir para o hospital.
— Isso é impactante.
— Bem, você não sabe. Você mesma disse que nunca sabe como o seu corpo vai reagir. — Ela me fita com um olhar sério. — Qual é! Por que você simplesmente não contou para ele?
— Sei lá. — Então começo a examinar e roer um pedacinho de pele solta de canto de unha que ficou pegando em minha luva. — Acho que fiquei com medo de ele pensar que eu era um monstro ou algo assim e não querer mais estar perto de mim.
— Bem, isso é ridículo. Quem não gostaria de estar perto de você? Você é a pessoa mais engraçada que eu conheço. Especialmente quando dopada.
— Ha-ha.
— Mas é sério. Se você gosta dele... se quer beijá-lo... não acha que deveria pelo menos tentar esse tratamento sobre o qual a médica estava falando? Talvez você possa...
— Não — interrompo. — É uma agulha no palheiro. Mesmo que consigam encontrar o gene, se a teoria deles estiver certa, para começar, não há nenhuma garantia de que possa funcionar. E levaria meses, ou anos, para descobrir. Enfim, nada disso importa mesmo. Pelo jeito que agi ontem, tenho certeza de que não vou ver Eric de novo tão cedo.
— Sim, mas...
— Madison, não — repito, dessa vez com mais firmeza.
Depois de alguns minutos de silêncio, ela se levanta.
— Vá. Coloque uma roupa — diz, enxotando-me com as mãos. — Vamos para a nossa aventura, porque deixei as crianças na casa do Donovan, mesmo não sendo a noite dele de ficar com elas, e tive que ouvir as lamúrias dele por vinte minutos inteiros por causa disso.
Jogo a cabeça para trás.
— Ah, eu não quero, de verdade. Você pode pelo menos dizer o que é?
— Cinema.
— Cinema? Isso não parece muito uma aventura.
— Mas é! É um filme em 3D. Com dinossauros. Será que existiam filmes em 3D da última vez que você foi ao cinema?
Fico olhando para ela.
— Ah, e as besteirinhas para comer! Quando foi a última vez que você comeu pipoca do cinema? Há pelo menos nove anos, eu sei, o que é completamente inaceitável.
Suspiro.
— Você só vai embora se eu fizer isso, né?
— Sim — diz. — Faz parte do meu charme.
Na segunda-feira à tarde na biblioteca, Louise está em um estado elevado de pânico constante.
— Meu genro é intolerante a glúten, minha neta odeia qualquer coisa verde e minha filha agora é, ao que parece, vegetariana; o que vou fazer para o Dia de Ação de Graças? Ar?
Ela tecla no computador, buscando receitas e murmurando baixinho. Faço um “Ã-hã” preocupado aqui e ali, mas, na verdade, não estou prestando atenção. Aja não veio hoje. Às 16h30, disse para mim mesma que o ônibus dele estava atrasado. Às 17h30, pensei que talvez ele estivesse doente e tivesse ficado em casa, mas são quase 19h, e tenho que aceitar a realidade: pedi a Eric e a Aja que fossem embora, e eles foram. E não vão voltar. Sei que é o melhor, que é o que eu queria, mas, mesmo assim.
— Ah, ótimo, são as Irmãs Gato — ouço Louise sussurrar e, quando ergo os olhos, ela já está fora de cadeira e na metade do caminho que leva à sala dos fundos.
Viro a cabeça na direção da porta. Aproximando-se do balcão estão duas das maiores mulheres que já vi, tanto em altura quanto em peso. Meus olhos se arregalam, não apenas de surpresa, mas para poder enxergá-las por inteiro. Então, quando elas ainda estão a cinco passos de distância, minha ficha cai. Um fedor horrível que parece uma mistura de água de esgoto e amônia. Fecho a boca para não sentir o gosto.
Uma das mulheres coloca com força uma pilha de livros no balcão à minha frente, e uma bola de pelos de animal sobe no ar, voltando a repousar no balcão em seguida. Pelo de gato. As Irmãs Gato. O apelido está começando a fazer sentido.
— Você é nova? — pergunta, com uma voz tão grave que ergo os olhos para ela, imaginando se confundi o gênero.
Exceto por alguns pelos grossos no queixo de uma e a estatura de jogadoras de basquete de ambas, elas, sem dúvida, parecem mulheres. Enquanto estudo as duas, noto que suas roupas (uma está usando um sobretudo bege batido e a outra, um suéter bem grande) estão cobertas de pelo de gato.
— Sim — digo, ainda tentando não respirar.
— Nossos livros chegaram? — pergunta a outra mulher, com a voz tão rouca quanto a da irmã.
— Hum, quais são os livros? — pergunto.
— A série Winged Dragon. Fiz um pedido especial à Ling Ling.
Continuo a encará-la, perplexa.
— Sabe, aquela menina oriental.
Faço uma pausa, perguntando-me se deveria dizer quanto é rude se referir a uma pessoa de descendência asiática como oriental, mas deduzo que, se elas têm o hábito de chamar Shayna de “Ling Ling”, na cara dela ou pelas costas, elas provavelmente não vão se importar. Empurro a cadeira para trás, grata por criar espaço entre nós.
— Vou verificar — digo.
A mulher franze a testa, e a irmã repete o movimento, como se ambas estivessem de mau humor.
Quando entro na sala dos fundos, vejo Louise em pé perto de uma caixa de pães doces que restaram da manhã. Ela leva um pedaço de torta de blueberry à boca. Seus olhos se arregalam quando me vê, e ela congela no meio da mordida.
— Desculpe sair tão de repente — diz, com migalhas caindo na blusa. — Eu só precisava, hum... cuidar de uma emergência na biblioteca.
— Ha-ha — digo, dirigindo-me à prateleira onde mantemos os livros em espera.
— Como estão as Irmãs Gato hoje? — pergunta.
Olho para ela.
— Hum... malcriadas.
— É. Elas são assim.
— E fedorentas — acrescento.
— Não é de matar? — Ela sorri, revelando pedaços de massa presos entre os dentes.
Irritada, não respondo. Pego um maço com três livros grandes presos com um elástico. A capa do primeiro tem um enorme e fantástico dragão cuspindo fogo em uma paisagem urbana moderna. Levo-os até o balcão e os entrego às Irmãs Gato.
— Achei.
— Demorou — murmura a que está de sobretudo.
Fecho a mão enluvada e sento-me, pegando o cartão da biblioteca que a de suéter me ofereceu e começo o processo de empréstimo. Quando entrego os livros e devolvo o cartão, e elas finalmente vão embora, respiro fundo o ar puro e encaro a tela preta do computador na minha frente, tentando separar a bruma de autopiedade que não fez outra coisa senão aumentar desde o cinema.
Um grito ensurdecedor vindo da seção infantil me faz virar a cabeça como se fosse uma marionete. Uma menina, com a cabeça cheia de trancinhas e miçangas, está sentada no chão, berrando e apertando com força o joelho.
— TÁ DUENO! TÁ DUENO! — diz com sua linguagem infantil.
— Shh — diz a mãe, em pé perto dela. — Falei para você não correr aqui dentro. Levanta, querida, você está bem. — Isso só leva a menina a chorar ainda mais. Tentando outra tática, o corpo da mulher vai abaixando, como uma sanfona, até que ela fica no nível dos olhos da filha. — Deixe a mamãe dar um beijinho — diz, levando delicadamente a perna da menina à boca. A menina choraminga, mas seu ataque histérico vai diminuindo até que ela se atira nos braços da mãe. As duas se juntam como se estivessem jogando um jogo infantil de azar: pedra, papel e tesoura.
Outras crianças na seção seguem em frente, tirando livros das prateleiras. Alheio ao par, Roger digita devagar, catando milho no teclado do seu computador. E não consigo tirar os olhos delas. A demonstração flagrante de afeto das duas. O amor palpável que passa de mãe para filha de modo tão natural quanto um rio seguindo a correnteza.
Meus pulmões se contraem no peito, o punho gigante está de volta exigindo vingança, e não posso...
— Jubilee?
Olho para cima e vejo os olhos cor de azeitona de Eric. Fico curiosa para saber há quanto tempo ele está ali, em pé.
— Você está bem? — pergunta, com uma expressão preocupada no rosto.
E é a visão dele, o calor da sua voz, que faz brotar água em meus olhos, que faz minha visão embaçar. Percebo que não, não estou bem. Não estou nem um pouco bem.
— Minha mãe morreu — digo, a voz embargando na palavra “morreu”. E, então, sinto meu rosto enrugar como se fosse um castelo de areia malfeito e começo a soluçar.
Sentada no banco da frente do carro de Eric, assoo o nariz escandalosamente em um lenço de papel que ele me deu. Ainda estamos no estacionamento da biblioteca, mas não sei exatamente como cheguei ali. Lembro que ele me disse que estava lá para me levar para casa, e a atitude foi de uma gentileza tão inesperada que comecei a chorar copiosamente, arrancando Louise da sala dos fundos. Imagino que eles trocaram alguns olhares e, então, alguém me entregou meu casaco e minha bolsa e eu segui Eric, passando pela porta da frente, mal conseguindo, em meio às lágrimas, manter os olhos na parte de trás do seu casaco.
Ele está em silêncio pelo que parece ser um tempo recorde, enquanto eu grasno e me desmancho em lágrimas. Quando finalmente começo a me acalmar, limpo o fluxo de muco com o lenço e respiro fundo algumas vezes. Meus ombros tremem. Só então me ocorre a ideia de ficar com vergonha do espetáculo que, com certeza, dei.
Olho para ele, sentado imperturbavelmente no banco do motorista, apertando e soltando o volante com a mão esquerda, a direita descansando calmamente na sua coxa. Respiro fundo mais uma vez.
— Me desculpe... por... hum... tudo isso — digo, com a voz ainda instável.
Ele vira a cabeça para mim.
— Não, está tudo bem — diz. — Sinto muito pela sua mãe.
— Bem, já faz uns meses. — Fungo e limpo o nariz novamente. — Acho que tudo meio que me pegou de uma vez. Isso, pelo jeito, parece ridículo.
— Não — diz Eric. — Não.
Ficamos sentados em silêncio por mais alguns minutos.
— Vocês eram próximas? — pergunta Eric.
— Na verdade, não. Fazia nove anos que eu não a via. Eu meio que tinha ódio dela, para ser honesta.
Eric estreita os olhos para mim, e sei que está ouvindo, esperando por mais.
Porém, como explicar minha mãe? Ela fumava, usava blusas apertadas e era obcecada por homens e dinheiro. Ria de mim por prazer. E me tratava como se eu fosse sua colega de quarto. E é quando finalmente dou voz ao que está me incomodando há tantos anos.
— É que... ela me deixou. — Engulo em seco, tentando aliviar minha garganta áspera. — Me deixou quando eu mais precisava dela. Bem quando... — Penso em Donovan e na humilhação, mas sei que isso não é tudo. Não é o que está fazendo minhas mãos tremerem e meus ossos parecerem ocos. E então a mulher e a menina da biblioteca me vêm à mente, e meu peito se despedaça como vidro caindo no chão. — Ela nunca me tocou. Nunca. Não depois que fui diagnosticada. Quer dizer, eu sei que ela não podia me dar abraços nem beijos com frequência, mas ela poderia ter, sei lá, colocado luvas e acariciado minhas costas ou apalpado minha cabeça, pelo amor de Deus! Ou... ou... não sei, me enrolado num cobertor e me abraçado com força. — Sei que estou divagando, mas sou um cano que se rompeu agora, sem nenhum controle sobre as palavras que jorram. — Ela agiu como se eu fosse uma pária. Quer dizer, eu estava acostumada a isso porque as crianças da escola me tratavam assim também. Mas a minha própria mãe...
Rios de lágrimas caem dos meus olhos, misturando-se ao muco que escorre do meu nariz, mas não me importo. Limpo o rosto com a mão enluvada e encosto a cabeça no apoio do banco, deixando as lágrimas caírem, até parecer não restar mais nenhuma. Fungo.
— Desculpe — digo. — Não sei por que estou dizendo tudo isso.
Ele não responde. Encaro-o novamente, mas ele está apenas sentado ali, como se fosse feito de bronze ou algo assim. Por que estou contando tudo isso? De repente, sinto-me tão envergonhada das minhas confissões que quero saltar do carro e pedalar minha bicicleta para bem longe.
— Você vai dizer alguma coisa? — pergunto.
Eric muda de posição no banco e massageia a mandíbula, como se, com um pouco de esforço físico, pudesse esfregar os pelos pretos espetados até saírem do seu rosto.
— Entãooo... — Ele para de esfregar o rosto e se vira para mim. — Você queria que a sua mãe a sufocasse?
Encaro-o. Sei que meus pensamentos estavam bem confusos, mas, sério? Foi a isso que ele se prendeu? Mas, então, um pequeno sorriso se abre em um dos lados do seu rosto. Tento encolher minhas sobrancelhas: como ele pôde brincar com isso? Mas seu sorriso é contagiante, e não consigo me deter. Uma risadinha escapa dos meus lábios, e mais uma. Então começo a rir sem parar e me pergunto se pareço tão louca quanto me sinto.
Tento recuperar o fôlego, mas meu corpo assumiu o controle de si mesmo agora, alternando entre ataques de riso e leves soluços, e preciso deixá-lo seguir seu curso. Quando finalmente começo a me acalmar, espero Eric dizer outra coisa, ligar o carro ou fazer algo, mas ele fica sentado ali, olhando para o para-brisa.
Por isso fico sentada ali também, com o silêncio no carro aumentando até que se torna tão ensurdecedor que me contorço no banco, procurando alguma coisa, qualquer coisa, para dizer a fim de acabar com a estranha tensão que paira no ar à nossa volta. É nesse momento que Eric pigarreia e diz:
— Sabe, uma vez, quando Ellie era pequena, tipo, seis meses de idade, eu a levei ao apartamento do Dinesh.
Continuo olhando para ele.
— Dinesh?
Ele dá uma olhada na minha direção, como se tivesse acabado de perceber minha presença.
— O pai do Aja — diz. — E meu melhor amigo. Bem, ele era o meu melhor amigo. — E volta a olhar para o para-brisa. — Enfim, ainda estávamos na faculdade, e eu queria provar para ele que a paternidade não tinha me mudado, não iria me mudar, então coloquei as coisas dela em uma bolsa e fui até lá para ver futebol, como sempre fazíamos, e talvez beber uma ou duas cervejas. No meio do jogo, Ellie teve uma dor de barriga terrível. Quer dizer, “violenta”. Era cocô para todo lado. Pelas costas e pernas dela, foi se espalhando pela colcha do Dinesh sobre a qual eu estava tentando trocá-la. — Eric ri. — Eu me lembro dele atrás de mim, gritando: “Amigo! Amigo! Ponha ela para dormir! É aí que a mágica acontece!” Precisei lavá-la, certo? Era a única maneira de deixá-la limpa àquela altura do campeonato. Levei-a até o banheiro do Dinesh, sentei-a na pia e abri a torneira. A água estava congelando, e ela começou a gritar. Sério, gritava tão alto que eu só queria fazê-la parar. Como havia cocô para todo lado, não pensei muito, só fechei a água fria e abri a quente. Mas não lembrei que a água do Dinesh ficava muito quente, escaldante, muito rápido. Então Ellie recomeçou a gritar. Quando percebi o que eu tinha feito, tirei-a da pia, mas era tarde demais porque a pele dela já estava queimada. Não chegou a ser queimadura de terceiro grau ou algo do tipo, mas ela ficou bem vermelha. Enrolei-la, com cocô e tudo, em uma toalha e apenas a abracei, dizendo várias vezes que sentia muito, até que, finalmente, ela começou a se acalmar.
Ele se vira para mim novamente.
— O que estou tentando dizer é que não há nada pior, sério, nada, do que ver um filho com dor. E saber que a culpa foi sua. Ainda me culpo por queimá-la daquele jeito. E ainda posso ouvir nitidamente os gritos dela.
— Mas ela ficou bem — digo.
Eric assente.
— Sim, graças a Deus. Olha, não conheci a sua mãe, mas se algo tão pequeno como aquilo me deixou daquele jeito, não consigo imaginar como seria saber que suas ações poderiam fazer algo pior acontecer com a sua filha. E saber que ela realmente machucou você, durante anos, antes de você ser diagnosticada. Que foi o simples amor dela por você que causou a sua dor. — Ele nega com a cabeça.
Fixo os olhos nele, sentindo-me como Mary quando vê o jardim secreto pela primeira vez. Eric me deu uma perspectiva que eu nunca havia considerado — talvez ela tivesse tanto medo de me machucar novamente que não tinha coragem de me tocar de jeito nenhum. Parece bonito, assim como uma explicação plausível, e quero acreditar nela com todas as minhas forças, mas não consigo tirar o senhor Walcott da minha cabeça: “Se parece bom demais para ser verdade, é provável que seja.”
E então me ocorre outra coisa. Estreito os olhos.
— Como você sabe disso? Que levei anos para obter um diagnóstico?
— Eu, ah... Aja me mostrou aquele artigo sobre você. No Times.
Olho para meu colo, e meu rosto fica quente. Ele liga o carro e engata a marcha à ré.
— Ele acha que você é famosa.
Pigarreio.
— Sim, bem, ele também achou que eu fosse uma X-Men ou sei lá como vocês as chamam — digo. — Ele tem muita imaginação.
— Nem me fale — diz Eric, saindo da biblioteca.
Andamos em silêncio por um minuto, até que crio coragem para lhe dizer o que estava pensando.
— Eu, hã, realmente não esperava que você viesse hoje.
— Por que não?
— Pela forma como agi no sábado? Não fui exatamente... agradável.
Ele dá de ombros.
— Eu disse que daria carona para você até o seu carro ficar pronto. E cumpro minha palavra.
Concordo com a cabeça, sem saber ao certo o que responder. O que eu esperava que ele dissesse (não consegui ficar longe de você, tipo uma daquelas falas de mau gosto de um filme)?
Ele respira fundo e passa a mão no cabelo, bagunçando-o ainda mais.
— Olha, sinto muito. Não posso acreditar que quase... bem...
Inclino-me para a frente um pouquinho, minha respiração está forte. Quase me beijou. Diga.
Ele não diz.
Instala-se um constrangimento entre nós.
— Bem, eu não vou... eu prometo que vou manter distância de agora em diante. Você não precisa se preocupar comigo.
Relaxo no banco, perguntando-me por que não estou aliviada com sua promessa.
— E aí? Cadê o Aja? — pergunto, mudando de assunto. — Por que ele não veio hoje?
— Foi à terapia. Normalmente é às quintas, mas mudaram o horário. — Eric dá uma olhada para mim e vê minhas sobrancelhas levantadas. — Foi exigido, desde o incidente em que ele quase se afogou. Connie o levou. Tive uma reunião da qual não pude sair.
— Ah.
— Eu ia dizer para você no sábado, mas aí...
— Certo.
Uma pausa, e então Eric diz:
— Sabe, você é muito boa com ele.
— Ele é um bom menino. Inteligente. E engraçado! Meu Deus, aquela história sobre o nome dele!
— O lance da cabra? — sorri. — É. Não pude acreditar que Dinesh e Kate tinham colocado aquele nome nele: Clarence. Eu o provoquei muito... — Ele para de falar abruptamente. Vira-se para mim. — Espera. Como você sabe dessa história?
Eu me mexo no assento sob seu olhar.
— Ele me contou.
— Contou?
— Sim. — Ele massageia um dos lados do rosto e expira. — Eric, qual é o...
— Ele não conversa comigo. Digo, na verdade não conversa sobre muita coisa, mas, com certeza, não fala sobre os pais dele. A única vez que tentei... bem, não deu muito certo. Não sei como você conseguiu. — Ele diz a última frase mais para si mesmo do que para mim.
Dou de ombros, querendo ter a resposta que ele está procurando.
— Eu só converso com ele.
— Não. Não é isso. — Ele vira o volante e expira novamente, estufando as bochechas. — Acredite em mim. Já tentei.
Poucos minutos depois, ele para o carro na entrada da minha garagem e o desliga. Olha para mim, e fico imaginando se está sentindo a tensão entre nós.
— Você vai ficar bem? Com relação à sua mãe, quero dizer.
— Sim — digo, afirmando com a cabeça. — Eu vou.
Ele assente.
— Bem, mesma hora amanhã?
— Até amanhã — concordo, abrindo a porta e saindo na noite fria.
— Ei, Jubilee?
Paro minha mão antes de fechar a porta.
— Sim?
— Então, nós estamos, hum... podemos ser amigos?
Meu olhar vai dos seus olhos cor de azeitona até aos seus lábios secos, passando pela barba em seu rosto, então voltam para o ponto de partida.
— Amigos — digo, e fecho a porta do carro.
Sei que deveria estar feliz. É algo bom: ainda posso ter Eric e Aja na minha vida, e eles sabem sobre o meu problema, por isso estou segura. Mas, ao abrir a porta de casa e entrar na sala escura, largando a bolsa no chão, não consigo entender por que não estou aliviada. Por que parece que cada batida do meu coração está fazendo minhas veias vibrarem com uma emoção específica, que não é felicidade. É frustração.