Perto o bastante para tocar
vinte e três
JUBILEE
Se você me dissesse há seis meses que, em pouco tempo, eu estaria na Interstate 95 indo para o norte no meio da noite, na véspera de ano-novo, em um carro com um homem e um menino de 10 anos, eu teria rido e rido e rido (depois de entrar um pouquinho em pânico com a simples ideia de sair de casa). Acho que ninguém poderia ter dito isso, porque, há seis meses, eu estava sozinha.
E agora? Com certeza, não estou sozinha, mas desejando, a cada placa pela qual passamos na estrada, ter sido mais econômica com aquele Xanax que Madison me deu no Natal.
Olho de relance para Eric, que tem a mesma expressão intensa no rosto desde que recebeu o telefonema. Quando desligou, ele imediatamente ligou o carro, saiu da entrada da garagem de Connie pisando fundo no acelerador e começou a dirigir pelas ruas de Lincoln como se estivesse possuído. Só quando passávamos pelo imenso campo de golfe escuro e abandonado nos subúrbios da cidade que percebi que ele não estava me levando para casa, e o pânico começou a tomar conta de mim. Justamente quando pensei que havia me acostumado à aventura de estar em alguns poucos lugares fora de casa — quando eu estava começando a pensar que havia vencido grande parte da minha agorafobia —, vejo-me presa em um pedaço de lata que cruza os limites da cidade a toda velocidade e descobrindo que não superei, de fato, o medo do desconhecido.
— E aí? Hum... — digo baixinho. — Acho que vou com vocês, né?
O cotovelo de Eric está apoiado na porta, sustentando o punho para poder pegar tufos do cabelo. Perdido em pensamentos, ele mal olha para mim quando falo e, então, arregala os olhos.
— Droga! — diz, mas sem desacelerar o carro. — Eu nem... só pensei em chegar logo para vê-la. Quer que eu faça o retorno?
Quero, mas também sei que ele, na verdade, não quer.
— Não, está tudo bem.
— Tem certeza? Posso parar na próxima saída. Chamar um táxi?
Estar sozinha em um lugar onde nunca estive me dá ainda mais medo do que ir com Eric e Aja para um lugar onde nunca estive.
— Não, não, está tudo bem.
Eric faz que sim com a cabeça, mexendo novamente no cabelo.
— O que aconteceu? — pergunto em voz baixa.
Ele suspira antes de falar.
— Uma overdose de drogas. Ellie teve uma convulsão.
— Ah, meu Deus. Que drogas?
— Não sei. Eu sabia que Ellie estava fumando maconha, mas não pensei... achei que era só isso. Droga! Eu disse à Stephanie... — Ele divaga nos próprios pensamentos.
Espero alguns minutos e depois pergunto:
— Ela está bem... ela vai ficar bem?
— Não sei.
Paramos para abastecer o carro e comprar lanches depois de uma hora, mas o restante da viagem de cinco horas é, na maior parte do tempo, silenciosa. Quando cruzamos o limite de New Hampshire por volta das 3 da manhã, Aja diz:
— Você sabia que Vênus leva 243 dias terrestres para dar uma volta completa em seu eixo, mas apenas 225 dias para orbitar o Sol? Por isso, um dia em Vênus é mais longo que um ano.
Tento me lembrar do que aprendi sobre Vênus na escola, e só consigo pensar naquela terrível história de Ray Bradbury em que a menina fica trancada no armário.
Quando chegamos ao hospital, Eric para bem na entrada, que diz claramente Somente Veículos de Emergência, e salta do carro. Uma vez que ele levou as chaves, Aja e eu não temos escolha senão ir atrás dele no ar frio. Nós o alcançamos no elevador. Há outras pessoas na pequena caixa quadrada, e respiro fundo, tentando me fazer invisível o máximo possível. No exato momento em que parece que as paredes estão se fechando, o elevador para no quinto andar e Eric sai. Ele olha para os dois lados e faz um sinal com a cabeça, como se tivesse identificado algo familiar à sua esquerda, e começa a andar. No meio do corredor, uma mulher se levanta da cadeira de plástico onde estava sentada, como se esperasse por nós.
— Como ela está? — Eric pergunta antes mesmo de chegarmos perto dela.
— Está bem. Vai ficar bem — diz a mulher.
Eric faz que sim com a cabeça, mas posso sentir as ondas de ansiedade que vêm dele.
— Por que está aqui fora? Posso vê-la?
— Ela está dormindo agora. Eu a estou deixando descansar.
— Steph, o que aconteceu?
— Não sei — diz e, então, abaixa o rosto, parecendo cansada. Exausta, na verdade. Os dois se sentam nas cadeiras em frente à porta. — Parece que achavam que estavam fumando a maconha “normal”, mas uma das meninas levou essa sintética. A polícia disse que era K2, mas uma delas chamou de Spice. Procurei no Google... parece bem pesada. Mas ela não sabia, Eric. Ela não sabia. — Lágrimas densas caem dos seus olhos. Então, como se finalmente estivesse se permitindo entender os acontecimentos do dia, diz: — Ah, meu Deus, ela poderia ter morrido.
Eric coloca os braços em volta dela e a deixa chorar, murmurando em meio ao cabelo dela.
— Está tudo bem... Ela não... Ela está bem. — A mulher se lança sobre ele.
A cena é tão particular, tão íntima, que me afasto e me pego olhando para um grande desenho emoldurado na parede. É o desenho de uma árvore, feito em pastel, assinado por Edna, 7 anos, com um rabisco infantil na parte inferior. Fico olhando para ele como se fosse a Mona Lisa, piscando rapidamente o tempo todo, e nunca vi nada tão fascinante. Meus olhos começaram a arder, e sei que não tem nada a ver com Ellie.
Sinto vergonha até de admitir para mim mesma que estou com ciúme. Estou em um hospital onde a filha de Eric quase morreu, e só consigo pensar no calor dos seus braços e em como os quero em volta de mim. Tocando-me. Em como quero sentir sua respiração no meu cabelo. E como é injusto saber que nunca vou poder sentir seu rosto no meu e sua pele na minha. A menos que...
— Quem é você?
A pergunta me faz virar, e meus olhos encontram os de Stephanie.
— Ah, oi, sou...
— Ela é uma amiga — diz Eric. — Uma bibliotecária.
Fico surpresa com a forma como ele me classifica.
— Ela estava no carro quando você ligou, e eu nem... eu entrei em pânico.
— Ah — diz Stephanie, mas a testa continua enrugada uma vez que está confusa com minha presença. — Oi, Aja. — Ela move os olhos para ele. — Você está mais alto.
Ele não olha para ela.
Stephanie faz um sinal com a cabeça, como se já esperasse isso. Então vira-se para Eric.
— Bem, Ellie estava acordada há uns trinta minutos, por isso imagino que dormirá na maior parte da manhã. O médico disse que muito provavelmente ela terá alta hoje à noite ou amanhã de manhã. Ele só quer ter certeza de que a convulsão... foi um evento isolado. Por que vocês não vão para casa, comem alguma coisa e descansam um pouco? Sei que a viagem foi longa.
— Demorou mais que Vênus orbitando o Sol — murmura Aja.
Mordo os lábios para conter um sorriso.
— Não. Não vou embora — diz Eric. — Só depois que puder vê-la.
Stephanie suspira.
— Pelo menos os leve para casa, Eric. Aja parece exausto.
É a segunda vez que ela diz isso, mas só agora me ocorre que seja curioso. Casa. É claro que não vamos para a casa de Stephanie. Quer dizer, parece que o divórcio é amigável, mas, mesmo assim, seria esquisito.
No entanto, não digo nada enquanto descemos no elevador e andamos até o carro (que, felizmente, não foi rebocado nos 15 minutos que estivemos fora). O novo percurso está silencioso também, com os pensamentos de Eric, sem dúvida, na filha.
Assim que os primeiros raios de sol começam a iluminar o céu da noite, chegamos a uma pequena casa de madeira amarela em Cape Cod, com uma chaminé de tijolos na parte de trás do telhado lembrando um chifrinho feito por alguém em uma foto da turma da escola. Embora as estradas estivessem limpas, a entrada da garagem e o caminho que leva à casa estão cobertos por 15 centímetros de neve. Eric estaciona na rua, e seguimos em fila indiana até a porta da frente.
Espero levar um golpe de ar quente quando entramos na sala, mas não está muito melhor do que lá fora.
— Tem que ligar o sistema de calefação — murmura Eric. — Abrir o registro de água, ligar a geladeira. — Ele está fazendo uma lista mental, enquanto estou ocupada, tentando assimilar o fato de que ninguém vive aqui.
Eric se ocupa com a casa enquanto Aja e eu vamos para a cozinha. Aja pluga seu iPad a uma tomada na parede e o coloca sobre a bancada.
— Aja — sussurro.
Ele olha para mim.
— De quem é essa casa?
Ele estica a cabeça na minha direção, o nariz enrugado, a boca aberta, como se eu tivesse ficado completamente doida.
— Do Eric — diz, e depois: — E minha também, acho.
— Mas você vive em New Jersey. Ele está tentando vender essa?
— Não — diz, como se isso encerrasse a conversa. Como se isso explicasse tudo.
— Aja — digo, a voz um pouco mais firme. — Por que o Eric ainda tem essa casa?
Suas sobrancelhas parecem parênteses na horizontal.
— Porque vivemos nela? Nova Jersey é apenas temporário. Seis meses. Por causa do trabalho dele.
E dispara para o corredor, provavelmente em direção ao seu quarto, e fico ali, em pé, com a boca entreaberta com a revelação. Eric mora em New Hampshire, o que significa que... Eric vai embora.
Meus joelhos, não mais interessados em me sustentar ereta, dobram-se. Não há mesa na cozinha, por isso me abaixo onde estou, sentando-me no ladrilho.
— Não tenho muita coisa para o café da manhã, mas é bem possível que vocês queiram dormir agora. Tudo bem pizza ou comida chinesa mais tarde? Eles entregam... — A voz de Eric irrompe a névoa dos meus pensamentos. — Jubilee? — diz, quando me vê. — Você está bem?
Levanto a cabeça para olhar para ele, os braços apoiados nos joelhos. Ele parece tão sólido, tão robusto. Não se parece nem um pouco com um fantasma, mas agora sei que é exatamente isso que é.
— Sim — digo. — Apenas cansada.
— Meu Deus, é claro que sim — diz, sincero. — Sinto muito. Não posso acreditar que trouxe você para cá. Para todos os meus problemas.
— Está tudo bem — digo, voltando a apoiar a cabeça nos antebraços. Sinto que estou ficando doente.
— Você não está bem — diz, aproximando-se. — Você está doente, e a arrastei para esse fim de mundo. Meu Deus, sou um idiota. O que posso fazer por você? Do que você precisa?
Você, quero responder. Preciso de você.
Mas não respondo. Vivi 27 anos sem ele. Posso viver mais 27.
— Sério, estou bem — digo, forçando-me a ficar em pé.
— Tem certeza? — pergunta.
Faço que sim com a cabeça.
Ele examina meu rosto, e posso dizer que não acredita em mim, mas não insiste mais.
— Tudo bem — diz. — Bem, ah... fique à vontade. Os cardápios para delivery estão na primeira gaveta à esquerda da pia. Já abri o registro de água, mas talvez você queira dar um tempo para ela esquentar, se quiser tomar um banho. Há toalhas no meu banheiro. Lençóis limpos no armário. Pode ficar na minha cama hoje à noite.
Assinto novamente, mas não levanto os olhos para olhar para ele.
E então, simples assim, ele se vai.
*
Há dois sofás na sala onde Aja e eu estamos deitados depois que Eric sai. Aja liga a TV, mas se desinteressa em questão de minutos e lá fico eu, com meus pensamentos, minha mente ainda repassando o que ele disse.
A princípio, fiquei com raiva: como Eric pôde não ter dito que iria embora? Como pôde permitir que eu me sentisse tão à vontade com ele, tão próxima? Mas, então, abro os olhos para a realidade e tenho que reconhecer: por que me diria? O fato é que ele não me deve nada. Sou apenas uma garota a quem ele está dando carona para casa por alguns meses. Suas palavras para Stephanie ressoam em meus ouvidos. Sou apenas uma bibliotecária. Uma amiga. E, de repente, sinto-me envergonhada por ter pensado que era algo mais. Então, outra parte de meu cérebro entra na conversa: ele tentou me beijar. E, na última noite, suas mãos... Suas mãos estavam... onde estavam. Balanço a cabeça para me livrar da lembrança. Não. O que isso significa? Tenho idade suficiente para saber que beijos não são contratos. E “quase-beijos”, bem, são menos ainda. E a mão no meu seio, por cima da minha roupa? Bem, é o que mais acontece com jovens de 15 anos sob as arquibancadas em jogos de futebol. Não posso acreditar que pensei tanto nisso. As pessoas se prendem a momentos, mas são só isso: momentos. Não significam nada. Percebo que, com Eric, eu só estava vendo o que queria ver esse tempo todo, o que esperava que estivesse acontecendo. Mas não posso ser tocada — não por debaixo da minha roupa, não em lugar algum, na verdade. E ele sabe disso; então, como poderíamos ser algo mais?
E, na verdade, eu deveria saber que ele iria embora. Não só porque é um bom pai e, obviamente, optaria por estar perto da sua filha, mas porque o senhor Walcott dizia: “Procure pelo padrão.” Naturalmente, ele estava falando sobre resolver problemas de matemática, mas é uma estratégia que funciona para a vida, também. O padrão é: todo mundo vai embora. Ou, mais especificamente: todo mundo me deixa. Não digo isso do modo patético, triste e autopiedoso que soa (embora reconheça que é, de fato, patético, triste e autopiedoso). São apenas fatos, o padrão da minha vida. Meu pai. Minha mãe. Droga, até Louise. Se eu remotamente pensar em me importar com alguém, essa pessoa deixará de ficar por perto. Tenho certeza de que é só questão de tempo para que Madison desapareça.
Em algum momento das minhas divagações devo ter adormecido, porque acordo mais tarde no sofá, grogue, ainda com a TV ligada. Aja está acordado assistindo.
— Que horas são? — pergunto, notando que minha garganta parece um pouco melhor. Pelo menos isso.
— Cinco.
— Da tarde? — pergunto, atordoada por ter dormido tanto.
— Sim. Estou morrendo de fome.
— Eu também — digo.
Levanto-me para pegar os cardápios e, cerca de meia hora depois, Aja e eu estamos no chão da sala, comendo noodles e frango gordurosos em algum tipo de molho grosso e excessivamente doce. Há uma mesa de jantar e cadeiras no cômodo junto à cozinha, mas não é possível ver a TV de lá, e Aja queria que eu visse X-Men. Ele aponta para a personagem Jubileu quando ela aparece na tela.
— Ela não é uma das personagens principais nesse — diz, com a boca cheia de arroz. — Nem nos dois seguintes. Mas você vai ter um papel maior em Apocalipse. Bem, você, não. Mas você entendeu.
— Apocalipse, hein? Não parece muito promissor.
Depois que X-Men acaba, Aja começa a trocar de canais, parando no Discovery. É algum programa sobre os mistérios do oceano, e uma câmera subaquática focaliza de perto uma baleia-azul enquanto ela filtra um plâncton com as barbatanas da boca grande.
A imagem da baleia me faz lembrar de algo.
— Você sabia que existe uma baleia que os cientistas descobriram que canta em um tom mais alto do que qualquer outra no mundo? — pergunto a Aja. — Eles medem os sons em hertz ou algo assim. Enfim, ela só nada pelo oceano sozinha, incapaz de se comunicar com outras baleias.
— Sério? — pergunta.
— Sim. Li isso na internet uns anos atrás. — Faço uma pausa e, então, acrescento: — Foi uma das coisas mais tristes que já li sobre um animal.
Aja fica quieto por um minuto e depois diz:
— Não acho que seja a coisa mais triste.
— Não?
Ele se apruma mais no sofá.
— Você sabe como os coalas morrem?
Estreito os olhos, tentando lembrar alguma informação vaga que possa ter acumulado ao longo dos anos sobre os coalas.
— Não. Não sei.
— Os dentes deles são feitos para comer folhas de eucalipto, certo? Mas, depois de anos e anos comendo isso, os dentes se desgastam e viram tocos, e como os coalas não conseguem mastigar mais, morrem de fome.
— Sério?
— Sim — diz. — Acho que essa é a coisa mais triste.
Penso por um minuto.
— Sabia que os chimpanzés não nadam?
— Isso não é verdade, na realidade — diz.
— Espera... o quê?
— Sim. É comum as pessoas acreditarem em mentiras, mas uns cientistas documentaram chimpanzés nadando uns anos atrás — diz. — Então, eles podem nadar. Só que normalmente preferem não fazer isso.
— Hã — digo, genuinamente surpresa com essa nova informação. — Bem, mesmo assim, eu li que, se um deles cair em um rio ou algo assim, o outro entra na água logo em seguida para tentar salvá-lo, mesmo que isso signifique que os dois vão morrer. Já aconteceu em alguns zoológicos: chimpanzés afogados nos lagos em torno dos recintos deles.
Aja assente com a cabeça, assimilando a informação.
— Sempre achei isso muito triste, também. E, também, meio que fofo.
Aja fica quieto por mais um minuto. E depois diz:
— Ainda acho que o coala ganha.
Sorrio ao ver como sua mente funciona e volto a ver o programa.
E sinto uma nova onda de angústia quando percebo que, quando Eric for embora, Aja também irá.
Não acredito em sessões espíritas, mas, em pé na sala de Eric à meia-noite, entendo por que os médiuns nos filmes sempre pedem que a pessoa traga objetos da vida da outra — camisetas, carteira, joias. É como se um pedacinho dela ainda estivesse ligado ao objeto. Por isso posso sentir minha mãe toda vez que entro no seu quarto. E é por isso que agora quase espero ver Eric se materializar na minha frente a qualquer momento, mesmo sabendo que ele ainda está no hospital. Tiro a roupa para tomar um banho no seu banheiro, tentando, sem sucesso, ignorar que esse é o mesmo lugar em que Eric fica, a mesma água que cai, ondula e flui pela sua cabeça e pelas curvas suaves do seu corpo, as mesmas toalhas que chegam a tocá-lo em partes que nunca vi.
O que estou fazendo aqui? Em New Hampshire? Na sua casa? Com lembretes vívidos de tudo que nunca terei em nenhum momento. De repente, desejo estar em casa. Um desejo tão forte surge no meu íntimo que penso em chamar um táxi, sem pensar em quanto custaria uma viagem de cinco horas ou em quanto me sentiria pouco à vontade no banco traseiro de um carro estranho, com um estranho ao volante. Só quero sair daqui.
Porém, me lembro de Aja na sala ao lado. E sei que não posso deixá-lo sozinho.
Seco-me com a toalha e coloco às pressas uma camiseta e uma calça de ginástica que tiro da gaveta de Eric (cheirando-as primeiro para ter certeza de que estão limpas para não ter uma reação; cheiram a sabão em pó). Coloco os lençóis limpos no colchão, subo na cama e fecho os olhos, mas não consigo dormir. Eric está em toda parte. Seu perfume, suas coisas, a forma deixada pelo seu corpo no colchão noite após noite — sua presença é palpável. É como o ar: à minha volta, mas impossível de tocar.