Perto o bastante para tocar
seis
ERIC
Por reflexo, pego a gravata azul da minha escassa coleção e começo a posicioná-la em torno do pescoço. Uso-a às quintas-feiras.
Não tenho TOC ou algo do tipo — não fico histérico se não encontrar minha gravata azul às quintas. Ela é apenas eficiente — uma decisão a menos que tenho que tomar. Mais ou menos o motivo que faz Mark Zuckerberg usar uma camiseta cinza todos os dias. Eu sou o Mark Zuckerberg da contabilidade. Às vezes sigo esse raciocínio em festas e ele sempre provoca uma risada superficial que me agrada.
Termino o nó simples e dobro o colarinho para baixo. Em seguida, pego meu relógio no balcão do banheiro e o coloco no pulso. Enquanto atravesso o corredor em direção à cozinha, passo pelo quarto de Aja e o ouço teclando freneticamente em seu computador.
Quando ele veio morar comigo, fiquei assustado com o tempo que passava no computador, considerando que ele só tinha oito anos na época. Ellie, é claro, era viciada no dela também, mas era quase cinco anos mais velha. Aos oito, ela passava grande parte do tempo andando de bicicleta com uma amiga do bairro, fazendo coreografias e se deslumbrando com bonecas Monster High. Não me lembrava de Dinesh mencionando isso como uma das suas muitas preocupações quando o assunto era Aja. Por isso, foi uma das primeiras conversas reais que precisei ter com ele depois que se mudou; e eu não tinha ideia do que dizer, uma vez que sempre foi Stephanie quem teve a maioria dessas conversas difíceis com Ellie. “Você sabia que tem gente por aí, digo na internet, que nem sempre é boazinha? Sabe, com crianças? Bem, elas começam boazinhas, mas depois não são.” Repeti o que havia acabado de dizer em minha mente. Não fazia sentido nem para mim. “Quer dizer, não como valentões, mas como...” Procurei por palavras que não vinham. Como explicar isso para um menino de oito anos?
“Você está falando de predadores sexuais?”, perguntou ele, pronunciando cada sílaba daquela maneira formal que ele tem. Meu queixo caiu. “Sei tudo sobre isso. Não sou idiota.”
Fechei a boca. “Tudo bem, então”, comentei. Fui dar um tapinha na sua perna, mas me lembrei de Dinesh dizendo que ele realmente não gostava de ser tocado, então, sem jeito, dei um tapinha na colcha ao lado da sua perna. “O papo foi bom.”
Agora sinto a necessidade de continuar minha devida diligência e grito enquanto passo pela porta aberta:
— Você não está falando com predadores sexuais aí, está?
Ele responde, em uma voz baixa:
— Acho que eu não saberia, né?
Bem pensado!
Graças a Deus, Connie concordou em ficar com ele hoje. Não sem resmungar algo indispensável:
— Eu também tenho um trabalho de verdade, sabe?
Ou sem que eu dissesse algo para acalmá-la:
— Eu sei. E você leva muito jeito para ele. A melhor e mais mal paga advogada desse lado de Passaic.
Por fim, ela concordou.
— Só estou fazendo isso porque amo Aja — disse. — E porque não quero que ele exploda seu apartamento.
— Obrigado.
A campainha toca no momento em que estou enchendo minha segunda xícara de café.
— Aja — chamo. — Connie está aqui.
Ele não responde.
Olho para meu relógio — faltam vinte minutos para o trem que preciso pegar — e abro a porta. Connie passa por mim e olha para minha xícara de café.
— Pensei que você estivesse parando de tomar café.
— É a primeira — minto, depois me viro e chamo Aja novamente.
— Onde está o garotinho encrenqueiro? — pergunta, colocando a bolsa sobre a única cadeira na sala de jantar, que não é bem uma “sala”, mas um espaço adjacente à sala de estar/lazer/hall. Assim é viver em apartamento. Só estou aqui há seis meses e pensei que poderia ser um exagero trazer, de New Hampshire, minha pequena mesa de cozinha e o conjunto da sala de jantar. Não fico dando jantares todo final de semana. Ou alguma vez.
— No quarto. No computador dele.
— Ah!
— Aja! — Viro-me e quase dou de cara com ele. — Aí está você.
— O que tá rolando lá, campeão? — pergunta Connie.
— Eu estava falando com Iggy — responde ele, sem erguer os olhos.
— A rapper? — pergunta ela, rindo da própria piada.
Aja apenas fica olhando para ela.
— Aquela menina australiana, sabe? — diz Connie. — Com o popozão?
— Iggy é um menino — diz ele, ajustando os óculos.
— Ou um predador sexual de 45 anos — brinco, embora há um mês, para grande constrangimento de Aja, apareci em seu quarto à noite, enquanto ele falava no Skype, para ter certeza de que Iggy era, de fato, um menino de 10 anos. — Acho que nunca saberemos, né, Aja?
Ele me fita com seu olhar sério.
— Você sabe. Você o viu. Posso voltar para o meu quarto agora?
— Não — respondo. — Pensei no seu castigo. Hoje você vai esvaziar todas as caixas que largamos até encontrar o resto das minhas canecas de café.
— Tudo bem — diz ele. Essa é a estranha dicotomia sobre Aja: ele é surpreendentemente sossegado quando quer ser. Não faz birra nem fica emburrado como a maioria das outras crianças da sua idade.
— Está bem, então — digo. Olho novamente para meu relógio. Tenho que ir. Não posso perder o trem para a cidade e correr o risco de chegar atrasado. — Obrigado mais uma vez, Con.
— Vai lá — diz ela. — Vamos ficar bem.
— Aja, seja bonzinho.
— Tudo bem — diz ele.
Pego minhas chaves e a carteira e vou para a porta.
— Eric? — Aja me chama, e sei que vai dizer a mesma coisa que me diz todas as manhãs nas últimas seis semanas. — Não se esqueça de procurar uma cadeira de rodas!
Aquela maldita cadeira de rodas.
Naquela noite mais tarde — muito mais tarde, uma vez que o trem parou por intermináveis 50 minutos entre Secaucus e Newark, fazendo-me acreditar, por um breve momento, que eu nunca, nunca, chegaria em casa —, entrei no apartamento silencioso, puxando uma cadeira de rodas para adulto. Finalmente a encontrei em uma loja da rede Goodwill, no Harlem, por 25 dólares, depois de usar todo o meu horário de almoço para ligar para todas as lojas de usados da cidade antes de encontrar uma. Senti um pouco de culpa por comprá-la, possivelmente a tirando de alguém que precisa de verdade dela. Porém, enquanto estava lá, prometi a mim mesmo que a devolveria depois que Aja a tivesse usado — e faria uma doação monetária à organização sem fins lucrativos.
Connie está lendo no sofá. Ela se levanta quando me vê.
— Como foi o trabalho?
A pergunta me faz paralisar. Já faz tanto tempo, pelo menos dois anos desde o divórcio, e provavelmente até mesmo muitos anos antes, que alguém me perguntou isso no final do dia. Que alguém se importou. Só percebi o quanto sentia falta disso — não de Stephanie, apenas de alguém — nesse momento.
— Tudo bem — respondo. — Aja?
— Dormindo — responde. — Ele é um bom menino.
— Eu sei.
Dou um pequeno sorriso. Ele é muito frustrante, mas não há como negar que é bonzinho. Genuinamente melhor do que a maioria dos outros seres humanos. Encosto a cadeira de rodas na parede, e sei que será a primeira coisa que ele verá pela manhã.
— Encontramos as canecas de café — diz ela.
— Encontraram?
— Sim. Na caixa em que estavam escritos jogos de tabuleiro, fichas de pôquer e diversos, de todos os lugares.
Olho para ela.
— Eu tenho fichas de pôquer?
— Tem.
— Hum. — Jogo minha carteira e as chaves na mesinha ao lado do sofá. — Bem, obrigado — digo. — Mesmo. Mesma hora amanhã?
— Sim — diz ela, mexendo-se para recolher suas coisas. — Ah, e encontramos outra coisa.
— Espero que sejam as tigelas de cereal — digo. — Não consigo encontrá-las também. Aja está comendo cereal de arroz numa sopeira de cerâmica.
— É um diário — diz ela, e depois pigarreia. — O diário de Ellie.
Olho para ela. Nem sabia que Ellie tinha um diário.
— Como veio parar nas minhas coisas?
— Não sei. Talvez ela tenha deixado na sua casa.
Passo os dedos pelos meus cabelos.
— O que faço com ele? Devo lê-lo?
Sou dominado pelo súbito desejo de fazer exatamente isso. Entrar no cérebro de Ellie e descobrir tudo o que ela estava pensando. Desvendar o mistério que é minha filha adolescente.
— Não! Você não pode ler o diário da sua filha. Isso vai contra todas as regras para educar os filhos. Nunca.
Sei que ela está certa. Ela está certa. Mas, mesmo assim.
— Bem, eu poderia enviar uma mensagem e ver se ela o quer de volta, mas ela não está falando comigo.
— Eric — diz Connie.
— Eu sei, eu sei — digo. — Tenho certeza de que ela o quer de volta. Vou enviá-lo pelo correio.
— Eric — diz novamente, fitando-me com seus olhos ora esverdeados, ora castanho-claros, que refletem os meus. Nesse momento estão mais verdes do que castanhos.
— O quê? Não vou ler. Juro — digo, colocando a mão sobre o coração. — Onde está?
Ela olha para mim mais uma vez e depois diz:
— Em cima da sua cômoda.
Ela passa por mim, vai até a sala de jantar para pegar bolsa na cadeira solitária, depois se vira e coloca os braços em volta dos meus ombros. Fico parado ali, desajeitado, enquanto ela me abraça. Não somos uma família dada a abraços.
— Hã... Con?
Ela relaxa e suspira.
— Só queria que você encontrasse alguém — diz. — Você não deveria estar fazendo tudo isso sozinho.
Dou risada, mesmo não discordando totalmente dela.
— E aí? Você vai arranjar alguém pra mim de novo? Isso não deu muito certo.
Um ano depois do meu divórcio, fui a um encontro que Connie havia arrumado para mim com alguém que ela conheceu na faculdade e que morava a cerca de meia hora de distância. Uma advogada. Algum tipo de advogada societária. Ela era adorável — olhos grandes e escuros como os de uma corça e lábios grossos contrabalançados com um nariz fino e mechas lisas e suaves de cabelo que lhe roçavam os ombros como folhas de grama. Ria com facilidade das minhas piadas patéticas e defendia com firmeza sua posição, como qualquer bom advogado, sobre os méritos das tortilhas de milho versus as de farinha.
Eu me comportei jovialmente, como um cavalheiro. Ria nas horas apropriadas, abri a porta do carro, levei-lhe um copo de água depois de uma atividade sexual atlética no final da noite.
Porém, sozinho, na manhã seguinte, eu ficava olhando para meu rosto no espelho, procurando... pelo que, eu não sabia. Sentia-me entorpecido. Ou, pior que isso, como se tivesse perdido um braço ou uma perna e ainda estivesse sentindo dor ali. Liguei para ela naquela tarde e deixei recado na caixa postal, dizendo que havia tido um encontro maravilhoso, mas que não estava totalmente preparado para namorar de novo.
— Você tinha acabado de passar por um divórcio — diz Connie. — Ainda não estava preparado. Isso é normal.
Coloco as mãos nos bolsos e encolho os ombros.
— Não sei se a palavra “normal” se aplica a mim.
Ela sorri.
— Tenho tentado dizer isso para você há anos — diz, alcançando a maçaneta da porta. — Até amanhã.
Quando Connie desaparece, tiro o celular do bolso traseiro e rolo a tela até o nome de Ellie. Tenho seu diário. É claro que dizer isso provocaria uma resposta. Até uma ameaça, “Não se atreva a lê-lo senão...”, seria preferível ao silêncio. E eu poderia lhe dizer que não penso em invadir sua privacidade dessa forma, que vou enviá-lo pelo correio imediatamente, o que talvez me renderia algum ponto em seu diário por ser um pai incrível. No entanto, tudo isso parece um pouco manipulador e, por mais que eu queira que minha filha fale comigo novamente, não quero que seja porque está sendo coagida a fazer isso.
Então, em vez disso, digito uma mensagem rápida:
Eu te amo, Ellie. Pai.
Em seguida, apago a luz do abajur e atravesso o corredor até meu quarto, parando por um instante no quarto de Aja e colocando o ouvido junto à porta. Ouço o barulho das teclas do seu computador, é claro. Vou lhe dar mais alguns minutos antes de apagar as luzes.
Em meu quarto, sento-me na cama, o colchão se verga debaixo de mim, e tiro um sapato de cada vez, pensando no que Connie me perguntou: Como foi o seu dia? Estressante. Assim foi o meu dia. Como têm sido todos os dias desde que comecei nesse trabalho no mês passado. Nosso maior cliente está adquirindo uma empresa S&P agora, em vez de fazer isso antes de Shelly sair de licença-maternidade ou esperar até o retorno dela, deixando a mim — e a equipe, mas a mim, na verdade, uma vez que estou no comando — exclusivamente responsável por todas as avaliações e análises. Não há espaço para erros; caso contrário, a diretoria ficará uma fera.
Afrouxo a gravata e me deito de costas na cama, examinando meu quarto árido e cedendo a um momento de autopiedade que diz: Que merda estou fazendo nesse apartamento em Nova Jersey? O livro na cômoda atrai minha atenção. O diário de Ellie.
Ellie. Minha filha que me odeia. Eu sabia que o divórcio não seria fácil para ela — será que alguma vez foi fácil para alguma criança? Porém, nunca pensei que chegaríamos a esse ponto. Tínhamos um bom relacionamento. Quer dizer, pensei que tínhamos. Melhor do que o da maioria. Eu sabia exatamente como fazê-la rir. Piadas ridículas, caretas pelas costas de Stephanie, um trocadilho oportuno. Assistimos juntos a todos os episódios de todas as temporadas de A Corrida Milionária — e o melhor momento da minha vida poderia ter sido quando ela virou e disse: “A gente poderia fazer isso. A gente venceria com certeza.”
Como passamos daquilo — de uma equipe hipotética em um reality show viajando pelo mundo — para isso? Olho de relance para o diário de Ellie mais uma vez e depois desvio os olhos, como se não olhar para ele diminuísse a tentação de abri-lo. Não diminui. Levanto-me da cama, apanho-o e abro rapidamente a gaveta superior, jogando-o lá dentro e fechando a gaveta antes que minhas mãos e meus olhos tenham a chance de trair minhas melhores intenções.
Então atravesso o corredor e bato na porta de Aja. Ouço-o resmungar e considero isso um convite para abri-la. Deparo-me com seu perfil, os olhos grudados na tela do computador. Fico ali por um minuto, mas ele não se move.
— Encontrei sua cadeira de rodas hoje.
Ele resmunga novamente.
— Ei, você me ouviu? Pensei que ficaria muito animado.
Ele se vira para mim, com seus olhos grandes e sérios.
— Acabei de descobrir que eles não usam fantasia nessa escola como usam lá em casa. A senhora Bennett disse que é muita distração.
Abafo um suspiro. Teria sido bom saber disso antes de passar minha hora de almoço inteira atrás de uma cadeira de rodas.
— Mas pelo menos você pode usá-la na noite de Halloween? Na brincadeira do doce ou travessura?
— Estou velho demais para isso.
— Está? — Tento me lembrar de quando Ellie parou. Acho que foi mais ou menos nessa idade. — Bem, vamos encontrar um lugar para usá-la — digo, embora parte de mim esteja aliviada, considerando minha preocupação original com a natureza ofensiva da fantasia.
Ele dá de ombros.
— O que está fazendo aí? — pergunto, acenando com a cabeça na direção do computador.
— Falando com Iggy.
Fico ali por mais um minuto, depois digo:
— Só mais alguns minutos e, depois, cama. Está ficando tarde.
Ele não responde, então fecho a porta com cuidado. Antes de fechá-la totalmente, entretanto, eu o ouço murmurar algo. Parece algo como: “Odeio isso aqui.”
A maçaneta faz um clique quando volta ao lugar, respiro fundo e fecho os olhos, tentando engolir a culpa que sinto e lembrando a mim mesmo: Só por seis meses.
No sábado, eu deveria estar me preparando para levar Aja ao abrigo de animais — embora um cachorro seja a última coisa de que precisamos agora —, mas não consigo parar de pensar em Ellie.
Li o diário. Sei que não deveria, mas, uma vez que não pude parar de pensar nele, imaginando se teria alguma revelação mágica sobre a mente de Ellie que me ajudaria a entender por que ela está tão zangada — por que não fala comigo —, eu me levantei e abri a gaveta onde o guardei. Antes que pudesse me convencer de que o que eu estava fazendo era errado, peguei o caderno em espiral, virei a capa e comecei a ler. E eis o que acontece: não é, na verdade, um diário, o que provavelmente explica por que Ellie não está surtando por causa do seu paradeiro. Quer dizer, é um diário, no sentido de que são seus pensamentos escritos no papel, mas deve ter sido algum tipo de trabalho escolar, porque há uma nota e um comentário escrito à mão na parte interna da capa da frente: “A. Ótimo trabalho!” (Essa é a minha garota. Ou essa era a minha garota, até que ela começou a sair com Darcy e suas notas começaram a cair para C e D.) Cada página é dedicada a um livro diferente — aparentemente, livros que leu e depois discutiu, escrevendo suas opiniões.
Mesmo assim, para ser justo, enviei uma mensagem de texto para ela logo em seguida.
Encontrei seu caderno de lições. Tudo bem se eu der uma folheada nele? Pai
Em que sentido essas palavras estão dizendo que é melhor pedir perdão do que permissão? Tudo bem, então talvez tenha mais a ver com pedir permissão depois de já ter feito aquilo para o qual quer permissão, mas o princípio é o mesmo. Mais ou menos. Independentemente disso considerei o silêncio dela como aprovação.
Estou relendo sua anotação para O apanhador no campo de centeio (um livro que acho que li no ensino médio, mas não me lembro muito da história) quando Aja aparece na porta do meu quarto.
Solto o diário como se fosse uma revista pornográfica com a qual fui pego. (Talvez, mesmo com a aprovação silenciosa de Ellie, ainda me sinta um pouco culpado.)
— Está pronto? — pergunta ele. — Você disse que sairíamos para ir ao abrigo de animais às nove.
— Sim, desculpe — digo, olhando para o diário. De repente, tenho uma ideia. Uma maneira de tentar fazer progresso com Ellie. — Só precisamos dar uma paradinha primeiro.
— Onde?
— Na biblioteca.