Perto o bastante para tocar
vinte e um
ERIC
— Aja! — grito, tentando encontrar meu celular. Tiro-o do bolso, mas ele desliza da minha mão e cai no chão. Os gemidos continuam. Lembram a noite em que tentei contar aquela história sobre Dinesh. — Você está bem? Você se machucou?
Fico de joelhos e apoio as mãos no chão, apalpando ao redor na tentativa de encontrar o aparelho. Um grito agudo irrompe logo acima de mim, aumentando a cacofonia.
— Desculpe, esse é o seu pé — digo à Jubilee, movendo minha mão. — Estou procurando o telefone.
Não sei se ela conseguiu me ouvir; o choro queixoso de Aja é tão alto que soa como um cantor de heavy metal gritando diretamente em um microfone. Em meu ouvido.
— Achei! — Minha mão alcança o telefone. Quando o pego e encontro a configuração da lanterna nele, a sala fica em silêncio. — Aja? — grito, colocando no modo “lanterna” e apontando meu telefone na direção que imagino ser a de onde veio o barulho. Ele não está lá. Movo o telefone em um círculo lento, passo por Jubilee. Seus olhos estão arregalados, preocupados. — Fique aí — digo, com a mão levantada.
— Acho que tem uma lanterna de verdade nos fundos. Vou dar uma olhada — diz ela.
Bem, sim, essa talvez seja uma ideia melhor. Exceto...
— Você não vai conseguir enxergar nada!
— Meu celular está no balcão — diz ela.
— Tudo bem — digo, lançando a luz do meu telefone para que ela consiga chegar ao balcão. Quando ela chega lá e vejo que ligou a luz do seu celular, volto-me para as fileiras de livros à minha frente.
— Aja, cadê você? Saia agora — digo com a voz mais séria possível, tentando esconder o pânico que há nela.
Ouço um gemido e caminho na direção das estantes. Jogo a luz em cada uma, até que, finalmente, na quarta fileira, vejo-o cabisbaixo, sentado no chão, abraçando os joelhos e de costas para os livros. Ele olha para mim, estreitando os olhos para a luz. Suas bochechas estão molhadas.
— Desculpe, desculpe — diz várias vezes. — A culpa é minha.
Corro para acabar com a distância entre nós e me ajoelho.
— Que culpa, amiguinho?
— As luzes! Fui eu que apaguei as luzes.
— Não, não. Foi a tempestade, a nevasca. Tenho certeza de que ela derrubou um cabo elétrico em algum lugar. Não foi você.
Coloco a mão no seu ombro, mas ele se esquiva. Sento-me na sua frente e coloco o celular no chão para que a luz fique direcionada para o teto, como um farol no meio do mar. Aja está balançando a cabeça.
— Fui eu! — grita. — Fui eu. — E então começa a chorar intensamente de novo. — Eu estava... praticando... a coisa... errada — diz em meio a soluços.
— O quê? Respire fundo para que eu possa entender você.
— Cadê a Jubilee? — pergunta. — Quero falar com ela.
— Não — digo, coçando a barba de um dia em meu queixo. — Não. Você tem que falar comigo, Aja. Você tem que falar comigo.
Ele olha para baixo, mas não diz nada. Espero. Não faço a menor ideia de quanto tempo se passa, mas ele, finalmente, finalmente, fala.
— Esse tempo todo... eu pensei que... fosse telecinético. Era isso que... eu estava praticando, tentando... controlar. Mas não é isso. Eu controlo a eletricidade... assim como... o Vulcano.
Pisco com os olhos meio fechados, tentando entender o que ele está dizendo, mas não consigo.
— Quem é Vulcano?
— Um dos X-Men — diz, e, mesmo em seu estado, há um quê de irritação na sua voz que soa como: Sério que você não sabe quem é Vulcano?
Sorrio, aliviado com isso. Aí está o Aja que conheço.
— O nome verdadeiro dele é Bradley e ele trabalha para o Stryker.
— Quem é Stryk...
— O vilão! — diz, interrompendo-me. Ele abaixa voz, como se estivesse falando para si mesmo, não para mim. — O que faz sentido, sério. Eu sabia que era mau. Sei que sou mau. Sou o cara mau. — E começa a bater na própria cabeça com os punhos cerrados.
Agarro seus braços.
— Aja! Aja, pare com isso. Você não é mau. Você não é um cara mau. Por que acha isso? Pare com isso! Calma, amiguinho.
Aja fica com os punhos parados, mas as lágrimas caem dos seus olhos como uma torneira pingando. Sento-me ao seu lado.
— Você tem que conversar comigo, Aja. Estou preocupado com você. Você tem que me contar o que está acontecendo.
Ele aperta os olhos e balança a cabeça.
— Não, não posso. Eu não posso, eu não posso, eu não posso.
— Por favor. Por favor. Quero ajudar você.
Ele para de mexer a cabeça e se encolhe ainda mais, os punhos cerrados contra as bochechas. Preocupado que ele comece a bater em si mesmo de novo, estendo as mãos para tocar seus braços, mas é nesse momento que ele sussurra algo.
Inclino-me mais.
— O quê?
— A culpa não é sua. A culpa não é sua. É minha.
— O quê? As luzes? Não, já disse, amiguinho, que foi por causa da neve. Você não...
— Os meus pais! — grita, jogando a cabeça um pouquinho para trás. — Eles estão mortos por minha culpa!
— Os seus pais? Não. Não, Aja. Como poderia ser culpa sua?
As lágrimas caem mais rápido agora, e espero, com a cabeça rodando.
— Não queria que eles fossem — disse, finalmente. Ele funga. — O papai... — Sua voz embarga ao dizer a palavra e ele tenta novamente. — O papai... tinha prometido que a gente ia ver o filme novo dos X-Men. Estava estreando naquele fim de semana. Mas, então, ele teve que fazer aquela viagem de trabalho.
— Certo — digo, encorajando-o.
— Aí, quando eles saíram, fiquei pensando que talvez alguma coisa pudesse acontecer. Talvez o avião não conseguisse voar, ou o tempo impedisse a decolagem. E fiquei pensando nisso! Eu não parei! Fiquei pensando, pensando, pensando e aí... e aí...
Ele desaba, a cabeça apoiada nos joelhos, os ombros tremendo. Hesitante, coloco o braço em torno dele, mas ele se esquiva.
— Eu pensei que eu devia ser telecinético — diz em voz baixa — e que precisava aprender a controlar isso para não machucar mais ninguém.
— Então era por isso que você estava praticando isso o tempo todo?
Ele faz que sim com a cabeça.
— Mas agora acho que foi a eletricidade. Devo ter feito o controle do motor do avião parar de funcionar, assim como apaguei as luzes, sem querer, hoje à noite.
— Aja — digo, agarrando os ombros dele e o virando para mim.
— Não me toque! — grita.
— Desculpe! — digo. — Desculpe.
Espero ele se acalmar e olhar para mim, e depois continuo:
— Detesto ser a pessoa que vai dizer isso, mas... você não tem nenhum superpoder. O que aconteceu naquele avião...
— Você não acredita no que eu falo! Você nunca acredita! O meu pai... ele sempre acreditou em mim. — Seus punhos se fecham novamente.
— Não, não acredito — digo, e ele levanta a cabeça, e seus olhos me fuzilam de raiva. — Mas — digo, de forma mais delicada —, acredito em você. E acredito... não, eu sei... que não foi você que fez aquele avião cair. Não foi ninguém. Foi só algo que aconteceu. Uma coisa terrível, uma merda, que aconteceu, mas não foi culpa de ninguém.
Ele me olha com ceticismo. Sei que não está completamente convencido, que ainda é provável que me odeie um pouco por ser a razão pela qual eles estavam no avião, em primeiro lugar. Mas ainda me odeio um pouco por isso também, então estamos quites.
Os olhos molhados de Aja estão iluminados com a luz do iPhone.
— Você falou “merda” — diz, fungando.
Concordo.
— Falei.
— A gente não deveria falar essa palavra.
— Eu sei. Mas, honestamente? Às vezes é a única que serve.
Jubilee não encontrou a lanterna, mas encontrou dois cobertores no escritório da sua chefe. Montamos um acampamento na seção infantil, usando a lanterna do meu telefone como se fosse uma fogueira. Dobrei um dos cobertores para servir de colchão para Aja e coloquei o outro em cima dele, mesmo achando que Jubilee deveria ficar com um deles.
— Vou ficar bem — diz ela, recusando minha oferta. — Estou usando roupas térmicas.
Sorrio para Jubilee, muito embora ela não possa realmente me ver no escuro.
— Você está tentando me seduzir? — pergunto, baixinho, para que Aja não possa ouvir.
Ela dá uma risada sonora.
Agora, grato por Jubilee ser tão generosa, prendo o cobertor ao redor de Aja, uma vez que seu corpinho ainda está tremendo um pouco. Espero que seja suficiente para mantê-lo aquecido durante a noite.
Jubilee e eu nos sentamos perto do iPhone, falando sobre a nevasca, tentando prever a quantidade de neve que terá caído quando acabar. Pegamos leve para não assustar Aja, embora eu possa dizer que Jubilee está preocupada.
Quando percebemos que sua respiração ficou pesada, e tenho certeza de que ele está dormindo, viro-me para Jubilee.
— Você ouviu tudo? — pergunto.
Ela faz que sim.
— A maior parte da conversa. Então há dois anos ele pensa ser o responsável pela morte dos pais?
— Sim — digo, deixando a cabeça cair.
Sinto-me culpado por não ter tentado conversar antes com ele sobre o assunto, por não ter feito as perguntas certas, mas está tudo às claras agora e, por isso, estou aliviado.
Ela leva a mão ao coração.
— Esse menino é um doce.
— Eu sei.
Ficamos olhando para a luz.
— Eu queria que fosse uma fogueira de verdade. Está congelando aqui. — Ela esfrega as mãos enluvadas.
Concordo.
— Poderíamos fazer polichinelos. Fazer o sangue circular não ajuda ou algo assim?
— É melhor se despir.
Viro abruptamente a cabeça na sua direção, sem saber ao certo se ouvi direito.
— O quê?
Ela encolhe os ombros.
— Se duas pessoas ficam presas no tempo frio, digamos que acampando ou algo do tipo, elas devem tirar todas as roupas e ficar abraçadas debaixo de um cobertor ou saco de dormir. Quanto maior o contato de pele com pele, melhor, pois elas podem transferir calor uma para a outra.
Sinto os lábios secos e percebo que minha boca está aberta. Tento tirar da cabeça a imagem de Jubilee sem roupa, mas descubro que é uma tarefa difícil. Então, ocorre-me outro pensamento, e começo a rir.
— Qual é a graça? — pergunta ela.
— É só irônico — digo. — A única coisa que impediria você de morrer se tivesse uma hipotermia é a mesma que poderia matá-la.
Ela ri.
— Melhor nunca acampar — digo como uma brincadeira, mas, uma vez que o silêncio se estende, gostaria de não ter dito isso. Estou apenas a lembrando de mais uma coisa que não pode fazer, como se ela não soubesse. Então, fico pensando se ela imagina o que quero fazer, mas não posso. Se imagina que só o fato de estar ao seu lado me tira o fôlego, que sonho com minhas mãos no seu cabelo, que tocar sua pele com minha mão nua, ainda que só as dobras do seu cotovelo, seria a definição de alegria. E, então, não consigo mais guardar isso dentro de mim.
— Quero tocar em você — sussurro. Ela não responde. Nós ficamos olhando para a luz, como se fosse uma fogueira. O tique-taque indica que minutos se passam, e me pergunto se realmente disse isso em voz alta, ou se deveria tentar dizer novamente.
Então ela fala.
— Pode ser que haja um... tratamento.
Respiro fundo.
— Sério?
Ela assente com a cabeça, mas ainda não faz contato visual. Espero que diga mais, e tudo vai ficando mais lento. Meus movimentos parecem lentos, o coração bate no ritmo dos passos de um homem de 94 anos.
— A doutora Zhang, minha médica, alergista em Nova York. Ela quer tentar a imunoterapia.
Ela explica brevemente o que é e como poderia levar um ano, se não mais, apenas para isolar a proteína à qual é alérgica.
Vou assimilando isso, o coração quase parando completamente quando abro a boca para fazer esta pergunta. Não sei por que parece que todo o equilíbrio da minha vida depende dela, mas parece. Engulo em seco.
— Você vai fazer?
Ela não responde de imediato. O ar está tão quieto que posso ouvir sua respiração silenciosa. Meu telefone emite um som, fazendo-nos saltar.
Eu o pego. É Connie.
Tudo bem? Ainda estou no seu apartamento. Vou passar a noite aqui.
Que bom que pensei de antemão, quando estava uma confusão nos trens, em lhe pedir para ir levar Rufus para passear, caso eu chegasse tarde em casa. Não me ocorreu que não conseguiria chegar em casa de modo algum. Digitei rapidamente uma explicação para o meu paradeiro. Quando clico em “enviar”, ouço Jubilee sussurrar, dessa vez, três palavras:
— Estou com medo.
Viro-me para ela.
— Vamos ficar bem. — Chego um pouco mais perto para tentar oferecer conforto com a proximidade. — Tenho certeza de que, assim que a neve parar, as ruas estarão limpas. Talvez até pela manhã.
— Não — sussurra.
E é quando me dou conta do que ela está falando. Do que ela tem medo.
— Por quê?
Ela mordisca o lábio inferior.
— Não sei. Quando eu era criança, era tudo o que eu sempre quis. Ser normal. — Ela dá uma risadinha. — Seja lá o que isso significa. Mas agora... — Faz uma pausa, procurando as palavras certas. — Sabe aquela ideia que os meninos em As Virgens Suicidas fazem de quem são as irmãs Lisbon? Mas eles, na verdade, não as conhecem. Só as admiram à distância, por isso acabam exaltando-as, reinventando-as como aquelas criaturas fascinantes; imagens às quais as meninas nunca poderiam corresponder.
Inclino a cabeça, tentando dar sentido à sua metáfora.
— Você fica imaginando como seria a sua vida sem a alergia, e fica pensando se ela não vai corresponder às suas expectativas? Como quando você estava falando dos monges tibetanos?
Ela concorda lentamente com a cabeça, piscando para conter as lágrimas.
— E se eu passar por tudo isso e não der certo? E se fizer tudo isso para nada?
Inclino-me para ficar mais perto dela agora, tentando atrair sua atenção com meus olhos na luz do iPhone.
— Mas, e se der certo? — pergunto.
Ela começa a sacudir a cabeça, e, antes que eu possa me deter, levanto a mão e seguro seu rosto para pará-lo. Felizmente, estou de luvas. Ela não olha para mim.
— E se for a única opção? — sussurro.
Finalmente, no brilho da luz do iPhone, seus olhos encontram os meus.
Ela fica olhando para mim, inquisitiva, curiosa, mas não desvio os olhos. E, então, a biblioteca, o tapete no qual estamos sentados, o próprio tempo, se dissolvem e eu me perco. Em meus pensamentos, nos seus olhos. Nela. Quero beijá-la. Não, isso não é verdade. Quero devorá-la. E exatamente quando penso que não posso — quando sei que não vou conseguir me controlar nem mais um segundo, ela afasta o rosto da minha mão, rompendo o transe. Fico sentado ali, com o braço parado no ar, constrangido com o que estava prestes a fazer, com minha falta de controle. Meu peito pula como se eu tivesse acabado de correr uns cinco quilômetros, e cruzo os braços, sentado no chão, tentando desacelerar minhas palpitações. É quando noto que ela está sem fôlego também. Seus dedos agarram com força seu coração, subindo e descendo com a mesma rapidez de seu próprio peito. Pela primeira vez, acredito que essa situação seja tão difícil para ela quanto é para mim. Isso faz com que ela seja um pouco mais fácil de suportar.
O silêncio se prolonga enquanto recuo lentamente, colocando metros, em vez de centímetros, entre nós. Então, quando tenho certeza de que minha voz não trairá minha fraqueza perto dela, quebro o silêncio do ar.
— Ei, Jubilee?
— Sim?
— Da próxima vez que quiser ter uma discussão profunda, você pode pular toda aquela baboseira de metáfora literária. Você sabe que esse lance vai além da minha compreensão.
Ela ri baixinho, e isso soa como sinos de vento em um dia tempestuoso. E me faz lembrar de alguém: a esposa de Dinesh, Kate. A maneira como seu riso enchia uma sala. Mas é ainda melhor.
— Deveríamos dormir um pouco — digo.
— Sim.
Nós nos deitamos onde estamos sentados, nossos casacos farfalhando até nos acomodarmos. Olho para fora pela janela, surpreso ao ver que o céu parece mais claro — e percebo que a neve parou e a lua está brilhando. É bom — os tratores vão começar a limpar a neve e é provável que consigamos sair pela manhã —, por isso não sei ao certo por que uma ponta de frustração acompanha o pensamento. Ou por que, como se fosse uma criança, eu queria que o tempo parasse. Ficar nesse momento, em que Aja está em paz e eu estou com Jubilee e, por pelo menos algumas horas, tudo parece direito, como se fosse ficar bem.
— Não consigo dormir — sussurra Jubilee.
Dou uma olhada nela, a luz quase beijando seu rosto. Estou com inveja da lua.
— Também não — admito.
— Você pode ler para mim?
Levanto as sobrancelhas, tentando me lembrar da última vez em que alguém me pediu isso. Só podia ser Ellie, quando pequena. Imagino seus olhos grandes, sua língua presa ao pronunciar o “s” aos três anos.
— Hum... sim, claro — digo. — Posso ler para você. O que você quer que eu leia?
— Sei lá. Qualquer coisa. Há uma pilha de livros perto de você que Aja e eu estávamos olhando.
Estendo a mão na direção para a qual ela está apontando e pego o livro no topo da pilha. Tem uma garota de rabo de cavalo com um vestido vermelho na capa.
— A Teia de Charlotte — digo, lendo o título. — Ah, meu Deus! Esse não é o livro que inspirou aquele filme depressivo em que o porco é abatido no final ou algo assim?
— Não! O porco não morre — diz.
Eu o deixo de lado.
— Ah, que ótimo! Agora você entregou o final da história.
— Não! — sussurra, rindo. — Leia esse. Eu o adoro.
Pego novamente o livro, acomodo-o, abro a primeira página e apoio a cabeça com uma das mãos. Então, pigarreio e leio baixinho para Jubilee sob a luz da lua que entra pela janela, até que a ouço ressonar e se alongar. E, então, continuo a ler, mesmo assim, mas não só porque estou gostando da história. Gosto de saber que a estou tocando com minhas palavras. Que elas entram nos seus ouvidos enquanto dorme.