Perto o bastante para tocar

Colleen Oakley · Capítulo 17 de 37

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Perto o bastante para tocar

onze

ERIC

Quem inventou essas pequenas cadeiras hospitalares que se transformam em camas portáteis deveria ser executado. Depois de cinco horas deitado em uma delas, os músculos das minhas costas agora se contraem em uma longa sequência de nós, como aquela corda que usávamos para fazer escaladas na aula de educação física. Estou impressionado com o fato de que as cadeiras não tiveram uma melhoria significativa nos 14 anos desde a última vez que dormi em uma delas, quando Ellie nasceu. Meu coração palpita quando penso no seu rosto amassado e nos gemidos baixinhos que saíam dos seus lábios franzidos. Naquela noite, não consegui dormir, não por causa da cadeira desconfortável, mas com medo de algo acontecer com Ellie — e se ela, de repente, parasse de respirar, rolasse para o lado ou, de algum jeito, conseguisse se livrar da faixa que envolvia seu corpo, passasse por aquela terrível proteção plástica que deveria servir de berço e caísse no chão? Deitado, passei a noite toda em claro, ouvindo cada vez que ela respirava e choramingava, perguntando-me como eu conseguiria descansar novamente algum dia. Agora olho no escuro para o rosto sereno de Aja, como se para me lembrar de que é essa criança que está sob os meus cuidados.

Seu peito sobe e desce enquanto ele dorme, e repasso mentalmente os eventos do dia: dirigir por toda a cidade com Connie à procura de Aja, o alívio e o temor que tomaram conta de mim no instante em que recebi a ligação avisando sobre o seu paradeiro no St. Vincent’s Hospital depois de sofrer um incidente de quase-afogamento, o médico nos dizendo que ele era um “menino de muita sorte” e que só precisaria passar a noite em observação.

Estou tentando permanecer concentrado nas protuberâncias duras da cadeira enterradas em minha espinha e meu quadril, no bipe metódico do monitor de frequência cardíaca de Aja, nos passos do zelador no corredor, o vaivém do esfregão deslizando no piso de linóleo, na luz dos postes que atravessava as brechas entre as venezianas de plástico de má qualidade — em tudo, menos no fato de que Aja quase morreu. Que sou um grande fracasso como pai não só de um, mas de dois filhos. Que eu daria qualquer coisa para que Ellie falasse comigo de novo — para, quem sabe, neutralizar parte da minha culpa pela situação atual com Aja. Em um momento de esperança, penso se, talvez, ela tentou enviar uma mensagem durante a noite, enquanto eu estava cuidando de Aja. Sento-me e tiro o celular do bolso. A tela anuncia a hora em números brilhantes — 3h14 —, e nada mais.

Meus dedos se contorcem sobre as teclas, querendo escrever para ela, mas sei que está muito tarde.

Na manhã seguinte, a primeira coisa que vejo é Aja sentado, lambendo uma colher com pudim de chocolate. Pisco, espantado por ter realmente dormido em algum momento.

— Ei, fera — digo, gemendo à medida que tento colocar meu corpo rígido na posição sentada. Esquecendo-me da lesão na minha mão, apoio na palma com curativo para me levantar e faço uma cara de dor aguda.

— Oi — diz ele, com os olhos fixos no pote de pudim.

— Como está se sentindo?

— Bem.

Eu estava cheio de perguntas quando Connie me deixou no hospital na noite passada antes de ela ir buscar O Cão, mas Aja já estava dormindo, seu corpinho estava exaurido. Agora que está acordado, na luz da manhã, não faço ideia do que lhe dizer. Será que grito com ele? Deixo-o de castigo? Abraço-o? Pergunto que diabos ele estava pensando? Sou um misto de emoções, sendo a principal delas o medo familiar de que direi a coisa errada. De que o afastarei ainda mais de mim. Cometi esse erro com Ellie, e não posso me dar ao luxo de cometê-lo novamente.

Olho para o quadro de avisos das enfermeiras na parede, que diz: Tricia —Ext. 2743. Volto a olhar para Aja.

— E aí? Como foi o mergulho?

Ele mantém a colher parada na língua, na metade da lambida, e parece pensar na pergunta. Em seguida, ele a coloca na bandeja.

— Frio.

Concordo com a cabeça, passando a mão nos pelos ásperos do meu rosto.

— Aja, você tem que me ajudar aqui, amiguinho. O que você estava...

— Cadê a bibliotecária? — pergunta, os olhos fixos em mim.

— O quê?

— A bibliotecária. Eles a levaram embora.

O médico disse que Aja estava acordado e alerta quando chegou ao hospital, deixando pouca preocupação com algum dano neurológico permanente, mas faz uma semana que estivemos na biblioteca, e me pergunto se ele está tendo algum tipo de lapso de memória. Volto a olhar para o número de Tricia.

— Sabe que dia é hoje? — pergunto, com as sobrancelhas unidas.

Aja pensa.

— Domingo.

— Quem é o presidente?

Aja me encara com seus olhos castanho-claros.

— Você não sabe?

Uma leve batida na porta antecede uma enfermeira que a abre e entra.

— Bom dia — diz, cantarolando. — E como está o nosso paciente nessa manhã?

Ela está olhando uma prancheta que tem na mão, por isso não sei ao certo se está falando comigo ou com Aja. Nenhum de nós responde. Ela ergue os olhos.

— Vamos verificar essa pressão, hein?

Coloca o prontuário no pé da cama e prende o velcro em volta do braço fino de Aja. Depois disso, mede a temperatura dele e escuta seu peito com um estetoscópio. Em seguida, rabisca no papel com o qual entrou.

— O doutor Reed passará por aqui na próxima hora ou mais ou menos isso, ok?

— Tricia?

— Ah, não. — Ela vai até o quadro e apaga o nome com um apagador. — Era a enfermeira da noite. Eu sou Carolyn.

— Ah. Desculpe — digo, e depois aceno na direção de Aja. — Como ele está?

Ela olha para o prontuário, como se já tivesse esquecido.

— Os sinais vitais estão ótimos — diz. — Acredito que poderá ir para casa hoje à tarde. — Ela aperta o prontuário contra o peito. — Alguma outra pergunta? — diz e se vira para Aja. — Precisa de alguma coisa?

— Meus óculos — diz Aja. — Não consigo ver nada.

A enfermeira sorri e vai até a bancada onde estão os óculos de Aja. Ela os pega e os entrega a ele.

— E cadê a mulher? A bibliotecária? — pergunta ele enquanto encaixa as hastes nas orelhas.

Bem, aqui vamos nós. Cubro meu rosto com as mãos.

— A que salvou você? — Levanto a cabeça rapidamente.

Aja faz que sim.

— Está se recuperando no quarto andar — diz ela. — Teve algumas, hã... complicações.

— Um minuto, o que aconteceu? — E me dou conta de que estava tão focado em Aja que nem sei, de fato, o que aconteceu com ele. Sei que, de alguma forma, ele caiu no rio e algum transeunte o avistou e ligou para a emergência. Não pensei em perguntar mais nada. Típico de homem, posso ouvir Stephanie em minha cabeça.

— Uma mulher que estava andando de bicicleta viu seu filho e mergulhou atrás dele. Ela fez a RCP até alguém chamar a ambulância.

— Era aquela bibliotecária. Do outro dia — interrompe Aja, lançando-me uma expressão vazia que interpreto como Eu falei.

Sinto a boca seca e estou estranhamente ciente de que meu coração está batendo no meu peito. Emily. Tenho certeza de que não é o nome verdadeiro dela, mas é o único pelo qual a conheço. Vem-me uma súbita imagem dela mergulhando de braços abertos no Passaic com sua longa camisola branca. Olho para a enfermeira.

— Você disse alguma coisa sobre complicações. Ela está bem?

— Desculpe, eu realmente não tenho permissão para dizer.

Não posso acreditar que aquela mulher — aquela mulher pequenina e tímida que estava apenas recitando poesia e dando saída nos nossos livros na biblioteca — salvou a vida de Aja. Sinto-me em dívida com ela. E preciso ter certeza de que ela está bem.

— Posso vê-la?

A enfermeira faz uma pausa.

— Vou ter que perguntar a ela. Eu o informarei. — Ela volta a olhar para o prontuário. — Ah, e a assistente social passará aqui mais tarde.

— Assistente social? — pergunto.

— Apenas protocolo padrão — diz ela, mas não retribui meu olhar.

Depois que se vai, tiro a bibliotecária da cabeça e volto a atenção para Aja.

— E aí? Vai me dizer por que estava naquela ponte?

Ele encara o pote vazio de pudim como se quisesse enchê-lo novamente com a mente. Droga, talvez seja exatamente isso que está tentando fazer.

— Tudo bem — digo. — Por que não começamos com a mesinha de centro?

Ele não se mexe.

— Aquilo não foi um acidente, foi?

Ele permanece como uma estátua, e eu fico olhando, lembrando-me de um truque jornalística que ouvi uma vez, embora não faça ideia de onde eu a teria ouvido: apenas ficar em silêncio. O silêncio estimula seu entrevistado a preenchê-lo com palavras. Então, espero. Sento-me com os braços cruzados e espero mais um pouco. Depois do que parecem ser dez minutos, mas, na realidade, é mais provável que tenha sido um ou dois, percebo que eu seria um péssimo repórter.

— Aja — digo. — Olhe para mim. — Não consigo espantar o desespero da minha voz, e talvez seja isso que o faz olhar para cima até que seus olhos encontram os meus. — Fale comigo.

Ele abre a boca e murmura algo.

— O quê? — Inclino-me na cadeira para tentar ouvi-lo melhor.

— Energia cinética.

Lembro-me do termo das aulas de física, mas estou confuso quanto ao motivo pelo qual ele disse isso.

— O que tem ela?

— Eu estava tentando usá-la — diz.

— Tuuuudo bem — digo, estudando seu corpo e rosto minúsculos.

Ele suspira e se senta um pouco.

— Sabe a Primeira Lei de Newton?

— Acho que sim — digo.

— Um objeto em repouso permanece em repouso a menos que sobre ele atue uma força externa.

— Certo.

— Tenho tentado mover objetos em repouso. — Ele me olha por trás dos óculos com seus olhos grandes, como se isso explicasse tudo.

— Com sua mente — digo.

— Exato.

Ele se encosta ao travesseiro, empurrando a mesa de rodinhas com a bandeja do café da manhã e o pote de pudim vazio, e percebo que ele terminou de falar. Que pensa que explicou tudo.

— Hum. Vou precisar de um pouco mais — digo.

Ele me dá uma olhada tão parecida com uma das expressões de Ellie, Você é tão idiota, pai, que quase me quebra ao meio. Começa assim tão cedo?

Aja suspira.

— Percebi que durante esse tempo todo eu estava tentado converter a energia potencial de um objeto, quando faz muito mais sentido tentar manipular sua energia cinética. Se um objeto já está em movimento, não deveria ser mais fácil movê-lo? Como um carro que não dá partida; talvez você precise de algumas pessoas para empurrá-lo, mas, uma vez que está se movendo, uma pessoa pode facilmente mantê-lo em movimento.

Considero a questão e o que ele está dizendo faz sentido, mas ainda não sei ao certo o que isso tem a ver com minha mesinha de centro quebrada e o incidente no qual ele quase se afogou.

— Tudo bem — digo, concordando com a cabeça. E, então, é como se o sol tivesse rompido as nuvens e eu pudesse ver tudo claramente. — Um minuto. Você jogou o martelo para que ele gerasse energia cinética, então seria mais fácil movê-lo com sua mente?

— Eu não joguei o martelo — diz ele. — Só meio que deixei ele cair. Eu estava usando a gravidade como a ação, a força externa para transformar a energia potencial em cinética. Existe uma fórmula...

— Não estou nem aí para a fórmula. — Quase cuspo a palavra. — Mas por que a mesinha de centro? Por que não deixar o martelo cair no tapete?

— Eu tentei! Comecei com o tapete, tentando com a minha mente impedir o martelo de cair, ou pelo menos mudar a trajetória dele, mas não estava dando certo. Pensei que, se houvesse uma consequência maior, algo que eu não quisesse mesmo que acontecesse, então meu cérebro teria mais poder, se esforçaria mais ou algo assim.

Fico olhando para ele, incrédulo.

— Não deu certo — acrescenta.

— Não, não deu. — Eu me sento, com a cabeça girando, e me lembro da conversa que li em que ele queria tentar algo maior, talvez um carro. — E aí? O que estava tentando deixar cair no rio?

Ele olha para os lençóis do hospital e cobre as pernas pequenas. É nesse momento, do nada, que minha ficha cai.

— Ah, meu Deus! Era você que deveria cair no rio. — Realmente não posso acreditar que ele se jogaria em um rio agitado de propósito, mas, assim que olho para seu rosto, sei que é verdade. — Aja, você nem sequer sabe nadar!

Sua voz é baixa.

— Eu pensei que seria... motivador.

— Para ajudar você a levitar?

E percebo que essa era a ótima ideia, a coisa sobre a qual ele estava falando com o amigo pela internet.

Ele estuda o canto do quarto onde o teto se encontra com a parede como se fosse a coisa mais fascinante que já viu, e sei que terminou de falar.

Ficamos sentados lá, eu olhando para ele e ele olhando para o teto, enquanto tento examinar as emoções conflitantes em meu cérebro. A que predomina é o medo de que talvez sua imaginação não seja tão inocente quanto pensei. De que minimizei demais a importância do assunto. De que não quis ver o que estava bem na minha frente. De que talvez Stephanie, a terapeuta e a orientadora da escola possam estar certas — talvez Aja precise de ajuda.

*

Seu cabelo está bem parecido com o penteado do dia em que a vi pela primeira vez na biblioteca — fios castanhos compridos e desgrenhados, como se fossem vinhas emaranhadas emergindo da sua cabeça e avançando sobre o travesseiro atrás dela. Ocorre-me que talvez seja esse o único penteado que ela usa, em vez de parte de uma fantasia ou o resultado de alguma missão heroica.

No entanto, seu rosto... seu rosto está diferente. Ela está pálida — mais do que me lembro — e tem círculos escuros sob os olhos como se não dormisse há uma semana. Há manchas vermelhas em torno dos seus lábios, e uma se arrasta até a bochecha. Cubro minha boca com a mão, esperando esconder minha surpresa com a sua aparência.

Ela se surpreende um pouco quando me vê, e tem a mesma expressão assustada em seus olhos — e percebo que, embora ela tenha dito à enfermeira que eu poderia visitá-la, ainda sou um estranho no seu quarto.

Ficamos olhando um para o outro em silêncio por alguns segundos, até que me recupero o suficiente para falar.

— Obrigado — digo. — Você sabe, por... — Ocorre-me que não sei exatamente ao certo qual foi seu papel em salvar a vida de Aja. Pigarreio.

— Tudo bem — diz ela, mas as palavras saem roucas, como se tivesse acabado de fumar um maço inteiro de cigarros. — Não foi nada. Eu estava voltando do trabalho para casa. Lugar certo, hora certa, acho.

— Bem, não diga que não foi nada — respondo, pensando Olhe para você. Em vez disso, digo: — Você está no hospital.

Ela dá de ombros e começa a tossir, mas soa mais como um chiado que faz minha própria garganta coçar.

Noto que tem um monitor cardíaco como o de Aja.

Ela provavelmente quase se afogou ao resgatá-lo — quero perguntar, mas, de algum modo, sei que é muito pessoal. Então, ocorre-me que ainda não sei seu nome.

— A propósito, eu sou Eric.

Ela acena com a cabeça e, então, ao abrir a boca para responder, a porta se abre.

— Jubilee Jenkins — diz uma voz muito forte.

Um homem de óculos trajando jaleco branco entra na sala em seguida. Ele é encorpado, como se tivesse sido jogador de futebol no ensino médio e nunca tivesse parado de comer como um. Saio do seu caminho e ele mal olha para mim, com os olhos fixos em Emily, cujo nome, ao que parece, é Jubilee.

— Eu não tinha certeza se veria você de novo — diz ele. — Queria que fosse em circunstâncias melhores, é claro. Quanto tempo faz? Cinco, seis anos?

— Nove — responde Jubilee.

— Nove! Caramba! Onde vai parar o tempo? — diz ele. — Apesar disso, nunca me esqueci de você. Você tem sido assunto de muitas conversas à mesa do jantar. Quer dizer, não o seu nome, claro, sigilo de paciente e tudo aquilo. — Ele pigarreia. — Enfim, você teve sorte de o médico do pronto-socorro ter notado seus lábios inchados e ministrado epinefrina. Ele já cuidou de muitos casos de anafilaxia para saber, eu acho. No entanto, você realmente deveria usar uma daquelas pulseiras de identificação de alergia... Você tem uma? Se não tiver, posso arrumar para você. — Ele olha o prontuário médico que tem na mão, sacode a cabeça e deixa escapar um longo assobio. — Menina, você realmente tem sorte. Então, como estamos nos sentindo?

Os olhos de Jubilee estão grandes, e ela parece tão desconcertada com esse homem quanto eu me sinto. Não acho que ele vá parar de falar. E o que era aquele papo de alergia? Ela foi picada por uma abelha ou algo do tipo enquanto estava tentando salvar Aja?

— Estou bem — diz Jubilee, e não posso dizer se foi imaginação minha ou se seus olhos se voltaram para mim por um segundo. — Quando posso ir para casa?

— Bem, seu batimento cardíaco está bom, mas não estou gostando desse chiado persistente que você tem aí — diz. — Você ainda não está fora de perigo. A anafilaxia pode acontecer de novo em até 72 horas após o evento, e a sua foi muito grave. De acordo com o laudo do médico do pronto-socorro, você estava inconsciente quando foi encontrada.

Ela faz que sim delicadamente com a cabeça.

— Quer dizer, se tiver alguém para cuidar de você, eu estaria mais predisposto a liberá-la. — Ele olha para mim, como se finalmente me notasse em pé ali. — Você é da família?

Começo a fazer que não quando Jubilee diz:

— Sim.

O desespero em seus olhos é tão terrível que mudo imediatamente a direção de minha cabeça para um movimento que vai de cima e para baixo.

— Eu sou — começo. — Um... primo dela?

Ela move a cabeça para cima e para baixo, imitando a minha.

— Ele é. Ele pode cuidar de mim.

— Tuuuudo bem — diz o médico, então se aproxima de Jubilee. — Olha só, quem é o seu alergista? Verifiquei com a enfermeira do doutor McCafferty, mas ele não tem a sua ficha.

Ela faz que não.

— Outra pessoa?

Ela nega brevemente com a cabeça outra vez.

— Jubilee! Você precisa ser acompanhada por um médico. Houve tantos avanços com alergias nos últimos anos. Talvez você consiga controlar essa coisa de algum jeito. Com quem você consegue a receita para comprar epinefrina? Não me diga que é com algum charlatão na internet.

— Eu não... — começa ela, sua voz falha. — Minhas injeções estão vencidas.

O médico tem uma reação visceral, e acho que é possível que ele saia de si.

— Você não tem epinefrina? Meu Deus! Era preferível que você dissesse que estava conseguindo na internet.

Ela não responde.

O médico a encara por um instante, depois olha para o relógio.

— Jubilee, no mínimo, no mínimo, você precisa andar com a epinefrina e uma pulseira. No mínimo. — Ele a encara. — Estou falando sério. Não quero ver você aqui de novo. — E faz uma pausa, como se para dar um efeito dramático. — Não consigo imaginar você com essa sorte uma segunda vez.

Funciona. Em mim, pelo menos.

Então, ele se vai, e fico parado ali, com os olhos nos de Jubilee, o ar pesado entre nós. Há tantas perguntas, mas sei que as respostas não são da minha conta, por isso só espero, na expectativa de que talvez ela fale primeiro. Ela não fala. O único som que posso ouvir é o do meu coração batendo como se fosse a cauda de um cachorro que vem ao encontro do dono cheio de euforia. Pergunto-me por que ele está fazendo isso. Gostaria de saber se ela pode ouvi-lo também.

— Bem, prima — digo, sorrindo, na tentativa de amenizar a estranheza. — Posso levá-la para casa?

Quando volto ao quarto de Aja, há uma mulher em pé do lado de fora, junto à porta. Com uma calça preta informal, uma blusa cinza e tênis sem cadarço, ela se parece com outros visitantes pelos quais passei no corredor, com exceção do crachá com aspecto oficial ao redor do seu pescoço e da pasta que está carregando. Seja como for, não a reconheço, então a primeira coisa que me vem à cabeça é que ela está no quarto errado.

— Com licença — digo, ao esbarrar nela para alcançar a maçaneta da porta.

— Senhor Keegan? — pergunta ela.

Eu paro.

— Sim?

— Latoya Halliday, assistente social aqui da equipe médica — diz ela, estendendo a mão para mim.

Ah, verdade, a enfermeira mencionou isso.

— Entre — digo, dando um leve aperto na sua mão estendida e voltando a segurar a maçaneta em seguida. — Vamos ver se ele está acordado.

— Ah, não, eu queria conversar com o senhor — diz. — Em particular. Já conversei com Aja.

Dou um passo para trás.

— Conversou? — pergunto. — Quer dizer, isso é legal, sem minha presença?

— Procedimento padrão — diz ela, fazendo eco ao que a enfermeira havia dito antes.

Estreito os olhos.

— Procedimento padrão para o que, exatamente? — pergunto. — Você visita todas as crianças que dão entrada no pronto-socorro?

— Não — responde, desviando os olhos para a porta e depois para mim. — Só quando julgam ser necessário.

— Quem julgou ser necessário?

Tenho a sensação de que estou perdendo alguma coisa, como se não estivesse chegando ao xis do problema com minhas perguntas, mas sou pego de surpresa e minha cabeça está girando.

— Por que não nos sentamos, senhor Keegan? — Ela faz sinal na direção de um banco no corredor.

Sem muita escolha, sigo-a como um cachorrinho com uma coleira. Uma vez acomodados, ela olha diretamente para mim, e sinto uma mudança em seu tom.

— Nossa preocupação é que a queda de Aja não tenha sido um acidente.

Enquanto seus olhos procuram os meus, percebo imediatamente o que ela está insinuando.

— Ah, não, não. Ele não estava tentando se matar. — E, então, paro. Não sei muito bem como explicar o que ele estava fazendo.

Ela aperta os lábios, e seu rosto se transforma em uma expressão de preocupação.

— Entendo que seja difícil, mas se o senhor puder apenas responder a algumas perguntas... — Ela olha ao redor, como se esperasse que alguém se materializasse no corredor. — Existe uma senhora Keegan? A mãe de Aja está... envolvida?

— Não — digo. — Os pais dele morreram há alguns anos, e eu o adotei. Sou... hum... divorciado. — Embora seja comum, odeio dizer em voz alta. É como se estivesse anunciando que falhei, que sou um fracasso. — Espere... tudo isso está na ficha dele. Você não a tem?

— Em Nova Jersey? Não havia nada sobre ele.

— Ah, verdade. Acabamos de nos mudar para cá.

Ela assente rapidamente e, então, retoma o assunto em questão.

— O senhor notou algum comportamento depressivo ou estranho de Aja nas últimas semanas?

Massageio meu maxilar, sendo, finalmente, pego pela falta de sono da noite anterior.

— Como assim? — pergunto.

— Passar um tempo anormal no quarto e/ou na cama dele, afastar-se dos amigos, afastar-se do senhor, idealizar coisas que poderiam prejudicá-lo, como armas, explosivos...

Quase engasgo com uma risada e começo a tossir para disfarçar. A mulher olha para mim de um jeito engraçado.

Meu telefone toca, e consigo sorrateiramente tirar ele do bolso e ver quem está ligando. É Stephanie. Minha ex-mulher raramente liga, mas ela terá que esperar. Eu o coloco no modo silencioso.

— Não há nada fora do comum no comportamento habitual dele — digo, recompondo-me. — Olha, receio que tudo isso tenha sido um grande mal-entendido.

— E receio que o senhor não esteja entendendo a gravidade daquilo pelo qual seu filho está passando — diz ela, com um tom incisivo na voz. — Há algum histórico de doença mental na família dele?

— Não — digo, com firmeza, mas paro. A verdade é que não sei nada sobre os pais e os avós de Dinesh e Kate além do pouco que me contaram.

— Problemas na escola? Algum bullying?

Hesito, pensando na suspensão de três dias que ele recebeu e em Jagger, aquele grandalhão do quinto ano. — Um pequeno mal-entendido. Uma vez.

O telefone vibra em minha mão. Stephanie de novo.

— Desculpe — digo. — Deixe-me só... bem rápido... — Deslizo o dedo sobre a tela e o levo ao ouvido.

— Stephanie, desculpe, estou no meio de uma...

— Aconteceu algo com a Ellie.

Estou com o coração na mão quando me levanto. Olho para a assistente social e levanto o dedo.

— Você pode me dar só um minuto? Desculpe. Tenho que...

Vou me afastando no corredor sem esperar uma resposta.

— O que aconteceu? Ela está bem?

— Ela está bem. Só achei que você deveria saber... bem, ela foi suspensa.

— Da escola?

— Bem, sim, Eric, de onde mais ela seria suspensa?

Ignoro seu sarcasmo.

— Por quê?

Stephanie faz uma pausa.

— Ela foi pega fumando.

— Cigarro? — Sussurro, olhando para Latoya. Ela está olhando seriamente para mim.

Dou as costas para ela.

— Não exatamente.

— Maconha?

— Sim.

— Meus Deus, Stephanie!

— Calma, Eric! Foi só um pouquinho de maconha. Não é heroína.

— Não é hoje.

— Ah, não comece com aquela merda de acesso às drogas. Nós fumamos maconha. É uma coisa que os adolescentes fazem.

Não posso acreditar que ela está tão tranquila em relação a isso.

— Não aos 14 anos!

— Sim, aos 14 anos. Nós tínhamos 17. Pouca diferença. Olha, admito que foi uma má escolha, e disse isso a ela, mas não acho que precisamos fazer um escândalo por isso.

— Não, tenho certeza de que você não — digo. — Ponha ela no telefone.

— Não. Ela não quer falar com você — diz. — E, mesmo que quisesse, ela não está aqui.

Aperto os dentes e falo em voz baixa para que Latoya não consiga me ouvir.

— Ela foi suspensa da escola por causa de drogas e você a deixa sair de casa? Que tipo de mãe é você?

Assim que as palavras saem de minha boca, sei que não deveria tê-las dito. Fecho os olhos e espero pelo tsunami que vai vir.

— Que tipo de mãe sou eu? Está falando sério? Sou o tipo que está aqui, algo que não pode ser dito sobre você, não é?

Pressiono entre as sobrancelhas com a mão livre, reconhecendo a ironia. Não, eu não estou lá. Estou com meu outro filho, que está, nesse momento, no hospital.

— São só seis meses, e você concordou que eu deveria aceitar. Que seria a melhor coisa — digo, cansado. — Olha, não vamos... prometemos que não faríamos isso.

— Sim, bem, prometemos um monte de coisas um para o outro, não é?

E, então, ouço um clique encerrando a ligação.

Aperto o telefone com mais força, e resisto à vontade de atirá-lo no corredor e vê-lo se quebrar em uma centena de pedaços. Odeio quando faz isso — se finge de santa quando o assunto é nosso divórcio, como se ela não o quisesse tanto quanto eu, ou até mais do que eu. Respiro fundo e lembro onde estou. Recomponho meu rosto e me viro para Latoya, ainda sentada no banco com uma expressão preocupada.

— Onde estávamos? — pergunto, caminhando em sua direção.

Ela inclina a cabeça com ceticismo, como se quisesse perguntar sobre a ligação, mas, felizmente, volta a olhar para as suas anotações.

— Estamos preocupados com o estado emocional do seu filho...

— O que exatamente ele disse para você? — pergunto, interrompendo-a.

Ela abaixa os olhos.

— Bem, não muito — admite. — Fiz as perguntas usuais: se ele quis se machucar, se já tinha pensado nisso, se já pensou em machucar os outros. Ele me ignorou na maior parte do tempo.

Aceno com a cabeça, um pouco ridiculamente grato por saber que não sou só eu que ele ignora.

— Mas, quando perguntei se ele queria pular daquela ponte, ele disse que sim.

Pigarreio.

— Não acho que ele quis dizer que estava tentando cometer suicídio — digo, e depois faço uma pausa, tentando descobrir como explicar isso. — Recentemente, ele tem se interessado muito pela ideia de... poderes mentais. Telepatia, telecinesia, coisas do tipo X-Men. Acho que o que ele estava tentando fazer na noite passada, por mais ridículo que possa parecer, era levitar sobre o rio. — Acrescento uma risada pouco convincente, tentando expressar um tom do tipo Crianças sendo crianças, hã?, mas a mulher não sorri.

Ela franze os lábios e cruza os braços.

— Entendo — diz. — O senhor sabe que esses tipos de delírio podem ser indicativos de um problema psiquiátrico mais sério...

— Eu sei — digo. — Ele fez terapia. Algumas vezes, enfim, e não conseguiram dar um diagnóstico.

— O senhor também sabe que é possível que ele não esteja lhe dizendo toda a verdade? Não estou dizendo que seu filho é um mentiroso, longe disso, mas as crianças nem sempre são sinceras com os pais.

O rosto de Ellie surge em minha mente.

— Nem me fale — digo.

— E não podemos subestimar a possibilidade real de que tenha sido uma tentativa de suicídio — termina ela.

Abro a boca para argumentar, mas perdi a vontade. Sei que Aja não estava tentando se matar, mas também sei que o que ele estava tentando fazer não é muito melhor. Ficamos sentados em silêncio por alguns segundos e, então, ela pega a pasta ao seu lado e a abre. Revira os papéis até chegar ao que está procurando.

— Certo, bem, eis o que eu gostaria de fazer, senhor Keegan. Dadas as circunstâncias, não penso que a transferência de Aja para o setor psiquiátrico seja necessária nesse momento, mas gostaria de encaminhá-los a vários profissionais de saúde mental que tratam de crianças; esses são os que conheço. O senhor precisará marcar uma consulta nesta semana, e, então, esse médico irá aconselhá-lo sobre outro plano de tratamento. — Ela me passa um pedaço de papel com uma lista de nomes e números telefônicos. — Também acho que ele precisa de supervisão 24 horas por dia. O senhor trabalha?

— Sim — digo.

— Quem leva Aja à escola?

— Sou eu. Eu o deixo lá e depois vou para a estação de trem.

— Quem cuida de Aja depois da escola?

— Ninguém — admito, pensando na nossa rotina nas últimas semanas. — Ele pega o ônibus, e eu ligo para ter certeza de que chegou bem. Então, ele joga no computador e faz o dever da escola até eu chegar em casa. São só algumas horas. Sei que não é o ideal, mas...

— O senhor precisará fazer outros ajustes na rotina. Ele realmente não deve ficar sozinho, caso decida agir novamente com base nas coisas em que acredita — diz. — Vou preparar um formulário para o senhor assinar, afirmando que concorda com essas condições, antes de Aja ter alta do hospital. Vou transferir o caso para o Departamento de Crianças e Famílias, que o estará acompanhando por meio de telefonemas e uma visita domiciliar para se certificar de que o senhor está cumprindo essas condições. O não cumprimento poderá resultar na retirada da sua guarda. — Ela parece uma máquina escrevendo oitenta palavras por minuto, monótona e superficial.

— Um minuto... mais devagar. Retirada da minha... você vai tirá-lo de mim? — Raiva e medo querem correr por minhas veias. Fico em pé para que tenham mais espaço para circular.

Ela levanta a mão.

— Calma, senhor Keegan — diz, com a voz mais suave, como se tentasse me acalmar com o tom. — Só preciso conscientizá-lo dos procedimentos convencionais. Se o senhor cumprir essas obrigações, dificilmente isso acontecerá.

— Pode ter a maldita certeza de que não vai acontecer — digo.

A mulher se acomoda pacientemente, esperando minha frustração passar. Isso me lembra de como eu lidava com os ataques de raiva de Ellie quando ela era pequena, e percebo que, neste cenário, sou a criança. Fecho a boca. Depois de alguns momentos de silêncio, ela fala:

— Veja, todos aqui queremos o melhor para Aja — diz, colocando a mão no meu braço. É a primeira vez que ela me toca, e é um gesto tão gentil, que sinto, alarmantemente, um excesso de água se acumulando em minhas córneas. Viro a cabeça e arregalo os olhos na esperança de que sequem. — Se ele estava tentando se matar ou não, ele quase conseguiu — continua. — E precisamos cuidar para que isso não aconteça novamente.

Meus ombros caem sob o peso do que ela disse. Sei que tem razão. Sei que eu deveria ter ouvido Stephanie com relação à Ellie, a última terapeuta de Aja e a orientadora da escola desde o começo. Sei que falhei em mais uma coisa como pai, mas o que também sei, mais do que qualquer uma dessas coisas, é este fato: não vou perder Aja também.