Perto o bastante para tocar

Colleen Oakley · Capítulo 21 de 37

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Perto o bastante para tocar

quinze

ERIC

Sou um idiota. Stephanie sempre disse que eu não sabia quando deixar as coisas como estão. Que, quando cismo com algo, forço a barra. E fiz isso com Jubilee. O que estou tentando descobrir enquanto volto de carro para casa é o motivo. Sim, ela salvou a vida de Aja. E, de algum modo, sinto-me em dívida com ela. Mas ela deixou claro que não quer a minha ajuda — que não precisa dela. Então, por que simplesmente não posso deixar as coisas como estão? Ocorre-me que pode muito bem ser algum desejo arraigado, movido pelo ego, de me sentir necessário para alguém — qualquer pessoa — a fim de estancar o sentimento bastante comum de ser totalmente inútil para todas as pessoas em minha vida.

Olho para Aja no banco de passageiro, onde ele está batendo naquela tela ridícula com os polegares. Olho para a estrada, tentando clarear as ideias, concentrar-me nas placas de rua e outras coisas relacionadas ao trânsito, mas parece que, quanto mais tento não pensar em Jubilee, mais me pego pensando nela.

Ela estava usando meu casaco de moletom quando abriu a porta. O de Wharton. O que lhe emprestei quando a levei do hospital para casa. E sei que é bem possível que não signifique nada — bem possível que tenha sido a blusa mais próxima quando, de forma tão mal-educada, acordei-a com minhas batidas na porta, e ela a vestiu correndo para me receber.

E ainda assim, por alguma razão, não consigo parar de pensar naquele casaco. E nos lugares onde o tecido encontrou na sua pele.

— Eric — diz Aja ao meu lado com seu tom monótono de sempre, interrompendo meus pensamentos.

— Sim? — Viro rapidamente a cabeça na sua direção.

— Você acabou de passar por aquele sinal vermelho.

— O quê? — Olho pelo retrovisor. De fato, o sinal estava vermelho. — Passei?

Mas Aja, olhando novamente para sua tela, não responde. Passo as mãos em meu cabelo e deixo o ar escapar, perguntando o que deu em mim.

O trabalho está uma loucura tão grande na segunda-feira que só tenho tempo de fazer uma ligação rápida à tarde para ver se Aja chegou bem em casa e se a senhora Holgerson está lá. Quando finalmente entro no trem às 18h15, tiro o livro Diário de uma Paixão da bolsa. Só restam 15 páginas, mas, em vez de abrir o livro, fecho os olhos e encosto a cabeça no assento. Penso, não pela primeira vez, se realmente quero me tornar sócio da empresa.

Será que tudo isso vale a pena? É para isso que tenho trabalhado ao longo de toda a minha carreira. A resposta pronta que dava à Stephanie toda vez que se queixava da minha longa jornada de trabalho, da minha ausência na família, do meu nível de compromisso com ela, de Ellie, da casa. “Vai melhorar”, sempre lhe prometia. “Quando eu me tornar sócio.” O que eu não ressaltava era que eu era um pai melhor do que muitos dos meus colegas. Na verdade, eu de vez em quando saía do trabalho mais cedo para participar de uma reunião com professores, para um jogo de softball ou para a feira regional de ciências onde Ellie, quando estava no sexto ano, ficou em segundo lugar depois de concorrer com todos os demais alunos do ensino médio. Não consegui entender, na época, por que ela ficou com um D em ciências no oitavo ano.

“É sua matéria favorita”, disse-lhe em um dos poucos fins de semana que consegui passar com ela depois do divórcio.

Ela revirou os olhos, um novo hábito que eu não conseguia suportar. “Não é mais.”

“Desde quando?”

“Desde agora”, disse ela. Isso foi pouco antes de me dizer que iria passar a noite na casa de Darcy, nossa primeira briga feia. Pelo menos, a primeira de que me lembro, não só porque foi a primeira vez que ela me disse que me odiava, quando a proibi de ir, mas porque ela também disse: Entendo perfeitamente por que a mamãe se divorciou de você.

Agora me pergunto se deveria tê-la deixado ir. Se, talvez, aquilo tenha sido o começo do fim.

Sei, é claro, que relacionamentos não se dissolvem por causa de um evento, uma briga. São centenas de golpes dados ao longo do tempo — golpes no queixo, socos no rosto, cruzados —, alguns a gente mal sente. E então, antes de se dar conta, você já está no chão vendo estrelas e se perguntando que merda aconteceu.

Penso na mensagem que ela me enviou na quinta-feira. O que está tentando fazer? Pare já.

Uma resposta! Minha filha, minha Ellie, me notou. As primeiras oito palavras que ouvi dela depois de mais de quatro meses. Não é exatamente a resposta emocional irresistível que eu esperava, mas a aceitei mesmo assim.

Passei duas horas tentando elaborar a resposta perfeita. Torturei meu cérebro à procura de outras citações de As Virgens Suicidas e A Redoma de Vidro para impressioná-la enquanto fazia cachorros-quentes para o jantar. Elaborei explicações longas enquanto enchia a máquina de lavar louça e limpava as bancadas. Inventei observações engraçadas enquanto verificava se a porta da frente estava trancada, apagava as luzes e parava à porta de Aja para dar boa-noite para ele e para O Cão.

Contudo, quando caí na cama naquela noite, mais tarde, descartei todas as possibilidades — muito cafonas, não muito engraçadas, muito estúpidas, muito cansativas —, e a única coisa que restou foi a verdade, cujas letras, uma a uma, teclei com o dedo indicador:

Não posso. Você é minha filha. Com amor, Pai

Quando desço do trem em meio à noite escura, o vento me acerta em cheio no peito, e abaixo mais a cabeça para proteger as orelhas debaixo do colarinho. Penso novamente em Jubilee de bicicleta nesse tempo e sinto um desejo ardente de que ela tivesse aceitado minha oferta de lhe dar carona.

Atravesso rapidamente o estacionamento em direção ao meu carro. Sento-me no banco da frente e ligo o aquecedor no máximo, esfregando as mãos para esquentá-las. Olho para o relógio. São 18h56. A biblioteca fecha às sete. E, de repente, sou impelido a ir até lá, mesmo sabendo que não deveria. Tentar uma última vez.

A um quarteirão de distância, ocorre-me que ela pode não estar lá. São 19h04 agora, e ela já poderia muito bem ter trancado as portas, subido na bicicleta e começado a voltar para casa. Mas não. Quando entro no estacionamento, ela está lá, em pé na porta, de costas para mim. Meu sangue começa a bombear mais rápido ao vê-la, e percebo que estou nervoso. Ouço sua voz na minha cabeça: Não preciso da sua ajuda. Engulo em seco. Por que vim aqui?

Eu deveria ir embora, mas é tarde demais. Meus faróis, iluminando sua silhueta, chamaram a sua atenção, e ela se vira, segurando um molho de chaves na mão direita, usando a esquerda para proteger os olhos da luz. Com um movimento de pulso, apago as luzes, para não a deixar cega. Ela pisca, olhando para o carro e, ao reconhecê-lo, seus olhos se arregalam. Engulo em seco mais uma vez e depois levanto as mãos, com as palmas para cima, e encolho os ombros, esperando expressar a forma não ameaçadora com que vim, não o comportamento assustador de um perseguidor que, acaba de me ocorrer, é o que provavelmente estou parecendo.

Fico na expectativa enquanto ela me fita, imóvel. Em seguida, ela lentamente balança a cabeça de um lado para o outro. Então vejo: o canto dos seus lábios levantando-se lentamente. É tudo de que preciso. Abro a porta e fico em pé.

— O que está fazendo aqui? — pergunta ela, mas seu tom está cheio de surpresa, não de raiva. Encho-me de alívio.

— Eu disse que era caminho de casa — digo. — Só pensei em dar uma passada aqui. Ver se alguém precisava de uma carona. Quer dizer, não você, é claro; você tem a sua bicicleta.

Ela sorri agora, um sorriso largo que se estende em seus lábios e ilumina seus olhos.

— Eu tenho — diz. — Tenho minha bicicleta.

Assinto, pensando rapidamente.

— Sabe, eu queria saber, no entanto, se você poderia me ajudar.

Ela ergue a cabeça, curiosa. À espera.

— Preciso de ajuda para decifrar o significado oculto de todos esses livros que estou lendo que vão muito além da minha compreensão. E acontece que você os entende — digo. — Estava pensando se, quem sabe, poderíamos fazer um acordo: você ser minha tutora enquanto eu dirijo.

Ao ouvir isso, ela joga a cabeça para trás e ri; um som pleno que me pega de surpresa. E sei que a envolvi. Sinto um frio na barriga.

Quando para de rir, ela me fita com um olhar.

— Alguém já disse que você é irritantemente persistente?

Concordo.

— Uma ou duas vezes — digo. — E aí? Temos um acordo? — Saio de trás da porta do carro e vou até ela, com a mão estendida na sua direção.

Porém, quando vejo sua expressão, paro de andar. Seu sorriso relaxado se transformou em algo que parece puro terror. Seu corpo está tenso, e Jubilee está olhando para a minha mão como se ela fosse uma cobra capaz de picá-la. Abaixo a mão e pigarreio. Ela olha para mim, e seu rosto muda com a mesma rapidez de antes.

— Eu só, hum... tenho que pegar minha bicicleta — diz, estendendo o polegar e fazendo um sinal na direção do bicicletário.

— Ah... ok. — digo, andando alguns passos atrás dela, mantendo certa distância. Não sei o que foi aquilo, mas não quero assustá-la novamente.

Quando chegamos à bicicleta, ela vai para a esquerda e eu, para a direita, colocando minhas mãos no quadro para levantá-la ao mesmo tempo em que ela segura o guidom.

— Ah, eu não quis dizer... posso levá-la — diz, sem soltá-la.

— Eu sei — digo. — Mas eu gostaria de fazer isso.

Seus olhos encontram os meus.

— Você já não está fazendo o suficiente?

Há um sorriso nos seus lábios, mas seu olhar é forte e inflexível. Meu Deus, ela é teimosa.

— Deixe que eu levo — digo com os dentes cerrados, levantando a bicicleta com mais força do que preciso por causa da minha frustração, não lhe dando outra escolha senão tirar as mãos do guidom.

Ela dá um passo para trás, olhando para mim, e depois me segue enquanto vou até o carro com a bicicleta na mão.

— E aí? Qual é o próximo livro? — pergunta, esperando-me, ao lado da porta do passageiro, colocar a bicicleta no porta-malas.

Levanto a sobrancelha para ela.

— Hein?

— Que vamos discutir. Sou sua tutora, você dirige, lembra?

— Ah, certo — digo. — Hã, é Diário de uma Paixão.

— Diário de uma Paixão?

— Sim.

Ela solta uma gargalhada.

— Se você precisa de ajuda para entender o Diário de uma Paixão, estamos com um problema.

Faço uma pausa, meus olhos encontrando os dela.

— Então, eu diria que estamos com um problema.

Não sei ao certo o que acontece, mas, quando entramos no carro, a relativa naturalidade que tínhamos um com o outro no estacionamento desaparece e um silêncio desconcertante paira entre nós. Enquanto saio do estacionamento, o tique-taque da seta preenche o ar, parecendo, de repente, tão alto e ameaçador quanto uma bomba nuclear pronta para explodir. Olho para ela e vejo suas mãos enluvadas fechadas sobre o colo. Ela parece tão desconfortável e tensa quanto inesperadamente me sinto, e me pergunto se isso foi uma má ideia. Ela é claramente independente, mas fui cercado por mulheres decididas a minha vida toda, e ela parece ser mais do que isso. Ela é difícil de decifrar, não que eu sempre tenha sido bom em decifrar pessoas. É fria e quente como uma torneira com comando duplo, e nunca sei o que vou encontrar. Como o que aconteceu na sua casa no sábado. Era quase como se ela nem nos quisesse lá, mas, então, quando entrei na casa depois de mexer no carro, ela e Aja estavam rindo juntos. Fiquei confuso, e não só porque não tinha ouvido Aja rir daquele jeito, bem, desde sempre, mas, meu Deus, o sorriso dela. Ocupou a sala inteira, e fiquei com ciúme — ciúme! — de um menino de 10 anos. Do meu próprio filho. Por ser para ele que ela estava sorrindo daquela maneira.

Massageio a barba cerrada em meu rosto. O que estou fazendo? Acabei de chegar aqui para fazer um trabalho temporário e dar espaço à minha filha e agora estou agindo como se fosse um estudante com uma queda estúpida pela bibliotecária.

— Você está bem?

— Hein? — viro a cabeça. Jubilee está olhando para mim.

— Você fez um barulho. Tipo um gemido.

— Ah... certo. Estou bem — digo, envergonhado. — Hã... apenas um dia difícil no trabalho.

— Ah.

Antes que ela tenha a chance de perguntar sobre isso, pigarreio e mudo de assunto.

— Então, hum... Diário de uma Paixão — digo. — Acabei de ler no trem.

— Você leu? — pergunta ela, e não sei se é imaginação minha ou se seu corpo relaxa um pouco. — Você chorou?

— O quê? Não — digo. Um semáforo à nossa frente fica amarelo. Piso no freio. — Por que choraria? Você chorou?

— Sim. Choro toda vez que leio esse livro.

— Toda... — Estreito os olhos para ela. — Espera aí, quantas vezes você leu Diário de uma Paixão?

— Sei lá. Seis ou sete. Mas faz alguns anos que não o leio.

Olho para ela, espantado.

— Por que raios você leria um livro seis ou sete vezes? Não me venha com esse papo de que não sabe o que acontece.

Ela me lança um olhar, um que conheço muito bem por causa de Ellie, que dá a entender que é inútil explicar se eu ainda não sei.

— Tudo bem, mas esse livro? — continuo. — É tão cafona. — Estendo a mão na direção do banco traseiro e tiro meu exemplar da bolsa aberta no chão do carro. Com uma das mãos no volante, uso a outra para virar as páginas até o exemplo que quero mostrar.

— O que está fazendo? Você não pode ler e dirigir.

— Olha, o semáforo está vermelho — digo, passando os olhos nas páginas para achar o que estou procurando.

— Não mais — diz.

Ergo os olhos e, de fato, o semáforo está verde. Olho para ela, e ela está sorrindo. Um carro buzina atrás de nós, e coloco o livro no colo.

— Bem, é a parte em que, na guerra, ele estava com um exemplar de Folhas de Relva no bolso da camisa quando levou um tiro. Lembra?

Ela faz que sim com a cabeça.

— Sim.

— Qual é! Um livro de poesia salvou a vida dele? — pergunto, rindo. — Não dá para ser mais brega do que isso.

Ela ri.

— Tudo bem, sim, talvez seja clichê em alguns detalhes, mas também é uma linda história de amor. É como Romeu e Julieta, só que do nosso tempo.

— Agora Nicholas Sparks é Shakespeare? Ah, meu Deus, isso para mim é uma blasfêmia. Ele deve estar se revirando no túmulo em algum lugar.

Embora devesse estar prestando atenção na estrada, olho de relance para Jubilee. Ela está rendida, com os lábios se abrindo em um sorriso de um lado ao outro do rosto, e sinto um leve arrepio subir pela espinha. O mesmo arrepio que senti quando ela estava sorrindo para Aja, só que agora o sorriso está direcionado a mim.

Meu telefone toca no console onde o deixei. Imagino que seja trabalho e o ignoro. Quando fica em silêncio, pego-o e fico surpreso ao ver o nome da senhora Holgerson aparecer na tela. Sei que estou um pouco atrasado, mas lhe avisei que isso aconteceria às vezes, especialmente nessa semana, já que estou levando Jubilee para casa primeiro. Não, deve ter mais coisa aí. Meu coração acelera quando clico no seu nome. O telefone chama e chama, mesmo ela tendo acabado de me ligar.

Meu coração pulsa forte nos meus ouvidos.

— Merda.

Viro abruptamente o volante, fazendo um retorno em U no meio da rua. Jubilee se segurava porta para se manter firme, mas, como ponto a seu favor, mal faz um som.

— O quê...

— É o Aja — digo, cortando-a, e meu pânico aumenta a cada segundo. Vou às pressas para casa, a mente criando os piores cenários com a mesma rapidez com que eu calculava raízes quadradas de números por diversão quando era criança. Será que ele fugiu de novo? Pulou de uma janela? Ou algo pior? Quando entro no estacionamento do apartamento, fico um pouco aliviado por não ver nenhum carro de polícia, bombeiros ou ambulância com as luzes piscando.

Sem esperar por Jubilee, subo as escadas de dois em dois degraus e destranco a porta, abrindo-a para ver a senhora Holgerson de quatro esfregando o tapete. O aroma pungente do produto para limpar tapetes e de algo mais — o jantar queimado? — enche minhas narinas. Fora isso, o apartamento está tranquilo.

Rugas de raiva se amontoam em seu rosto quando me vê.

— Não! — diz. — Não, não, não. — Ela luta para ficar em pé, e vou para junto dela, estendendo minha mão para que ela se apoie. — Não fui contratada para isso.

— O Cão teve um acidente? — pergunto.

— Tente quatro — diz, segurando um pano úmido. Meu coração desacelera quando percebo que é só com o filhote que ela está louca. — Mas isso não é nada comparado ao fogo!

— Fogo?

E foi quando senti o cheiro. A fumaça ácida persistente no ar que confundi com comida queimada. Sinto, em vez de ver, Jubilee à porta, atrás de mim.

— Seu menino! Quase pôs fogo no prédio inteiro — diz ela. — Ainda bem que fui dar uma olhada nele. E ele não tem nada a dizer para se defender. Nada! — Ela faz que não com a cabeça. — Você disse um probleminha, não um delinquente!

Faço uma pausa e estreito os olhos.

— Ele não é um delinquente.

— Tanto faz — diz ela.

— Não, não é tanto faz. Ele não é um delinquente — repito, mais firme dessa vez. — Me desculpe pela confusão, mas acho melhor a senhora ir embora.

Pego notas suficientes na carteira para cobrir a quantia que combinamos e estendo a mão na sua direção, sem tirar os olhos do seu rosto. Ela troca o pano úmido que está segurando pelo dinheiro e pega a bolsa na mesinha de centro.

— Adeus — diz, seca, e depois murmura algo que nem parece ser o meu idioma. Passa bufando por Jubilee, deixando a porta bater com força depois de atravessá-la.

Os olhos de Jubilee encontram os meus, e há uma pitada de orgulho em seu rosto, coincidindo com a mesma sensação de satisfação que tive ao pedir à senhora Holgerson que fosse embora, ao ficar do lado de Aja, ao lado do meu filho, mas esse sentimento logo é substituído por outra coisa.

— Merda — digo, com um pedaço de pano encharcado de urina na mão. — Acho que acabei de botar para correr a melhor, e a única, babá que arrumei para Aja.

Jubilee murmura algo baixinho. Parece algo do tipo: “Eu odeio ver o lado ruim das coisas.” Sorrio.

— Eu tenho que... — Estendo o polegar na direção do quarto de Aja.

— Vá. — Ela me manda sair com um gesto, dobrando os joelhos para se sentar no sofá. — Estou bem aqui.

Levo o pano para a pia da cozinha e atravesso o corredor. O cheiro persistente de queimado fica mais forte a cada passo.

— Aja? — chamo, e coloco a cabeça na esquina do corredor, sem saber ao certo o que vou encontrar. Ele está sentado na cama com O Cão no colo. Seus olhos arregalados me acolhem quando entro.

— Amiguinho?

Ele está como uma pedra, com exceção dos pequenos tremores que posso ver pelo seu corpo, e minha mente lembra o incidente do martelo na mesa. Preciso lidar melhor com isso dessa vez. Sento-me na beira da cama e espero.

Ficamos olhando um para o outro por pelo menos três minutos, até que O Cão solta um gemido, como se também estivesse se cansando do jogo.

Aja pisca.

— A polícia vai vir me pegar? — sussurra.

Sua voz soa tão jovem, tão impotente, nem um pouco como a maneira adulta com que ele normalmente fala, que parece que meu corpo inteiro está se liquefazendo. A raiva que subia por meus braços e pernas se dissolve, e estendo a mão em sua direção na cama, até onde ele me permite. Desejo envolvê-lo em meus braços.

— Não — digo, e repito a palavra para enfatizar. — Não. Foi isso que a senhora Holgerson disse? — Nossa! Realmente fiz um excelente trabalho na escolha da babá. — Me conte o que aconteceu.

— Foi um acidente.

— Tudo bem. Você estava tentando pôr fogo em alguma coisa? De modo telecinético ou algo do tipo?

Ele sacode a cabeça.

— Foi burrice — diz.

Espero, com receio de dizer algo que o faça se fechar. O silêncio persiste, até que Aja finalmente o rompe:

— Eu e Iggy? A gente estava no Skype.

— Iggy — digo, lembrando-me das mensagens instantâneas que li entre os dois, e me perguntando se esse Iggy é uma má influência e alguém com quem devo me preocupar mais. Por ora, decido apenas ouvir. — Certo.

Aproximo mais meus dedos até roçarem a rótula do seu joelho. Tento apertá-lo de forma reconfortante, mas ele mexe a perna. O Cão se levanta, desgostoso por ter sido perturbado, e volta a se acomodar no travesseiro de Aja com um suspiro.

— A gente estava jogando.

— Que jogo?

— O jogo do fósforo. — Ele termina cada palavra como se fosse a última. Como se nenhuma outra explicação fosse necessária. Continuo tentando.

— Como se joga?

— Cada um acende um fósforo ao mesmo tempo e quem soltar o fósforo primeiro perde.

Tento assimilar isso.

— E você soltou o seu?

Ele afirma com a cabeça.

— Sim. Estava queimando a ponta dos meus dedos. E a lata de lixo estava bem ali.

A lata de lixo ao lado da sua mesa finalmente chama minha atenção, e posso ver as manchas pretas de cima a baixo em seu interior, junto com algumas gotas de água onde, imagino, a senhora Holgerson apagou as chamas. Tudo o que posso pensar é: Graças a Deus, não era de plástico.

— Foi ideia do Iggy.

Massageio meu rosto com as mãos.

— Entendo — digo. Porque realmente entendo. Ele estava jogando. Um jogo idiota. E, quando a lata de lixo pegou fogo, ele provavelmente ficou paralisado de medo. Graças a Deus a senhora Holgerson estava aqui.

E, mesmo sabendo que deveria ficar zangado, não só por causa do fogo, mas pelo fato de Aja ter colocado para correr a única opção que pude arrumar em tão pouco tempo para cuidar dele depois da escola, um sorriso começa a surgir em meu rosto. Meus lábios se contorcem, e deixo escapar um som entre eles. Seguido de outro. E, antes que eu perceba, estou rolando de rir, como não ria há anos. Não sei o que é mais engraçado para mim: imaginar a cara da senhora Holgerson quando descobriu o fogo ou a cara de espanto de Aja quando percebeu que um fósforo aceso podia queimá-lo e procurou o recipiente mais próximo. Não consigo controlar as gargalhadas que continuam a vir de minha barriga. Lágrimas escorrem pelas minhas bochechas, e, só quando penso que posso finalmente respirar, Aja diz:

— Pelo menos a gente conseguiu se livrar do cheiro de cebola velha dela.

E me acabo de rir de novo, os ombros tremendo por causa do esforço. Quando finalmente começo a perder as forças, Aja está sorrindo para mim e, mesmo sabendo que ele odeia isso, levanto a mão para tocar seu ombro. Aja se esquiva antes que eu possa tocá-lo. Solto a mão e apenas olho para ele. Naquele momento, embora tenha o cabelo liso e grosso de Dinesh, os tufos de cabelo no alto da sua cabeça, sua covinha na bochecha direita, o nariz graciosamente grande, seus olhos — e o modo como estão olhando para mim — são de Kate. E estou tão feliz por tê-lo, fazendo-me lembrar das minhas duas pessoas prediletas que já não estão na Terra, que digo:

— Meu Deus, eu te amo.

Seu sorriso desaparece e ele olha para o colo, claramente constrangido com essa demonstração de afeto.

Pigarreio, sentando-se um pouco mais ereto. E me lembro do que Janet sugeriu, percebendo que essa é a oportunidade perfeita para falar de Dinesh para Aja e da vez em que ele quase pôs fogo na república masculina da faculdade com sua terrível brincadeira de soltar fogo pela boca.

— Sabe, os meninos fazem um monte de coisas idiotas — começo, sorrindo um pouco com a lembrança. — E seu pai, na verdade, tinha uma pequena obsessão com fogo. — Ao ouvir a palavra “pai”, os olhos de Aja se abrem ainda mais, quase de pânico. Enquanto abro a boca para continuar a história, Aja coloca a palma das mãos sobre as orelhas e começa a sacudir a cabeça, emitindo um gemido com os lábios:

— Nããããããããããããão-nãããããããããããão.

— Aja — digo, ficando em pé. Olho para ele, sem saber como reagir. — Está tudo bem! Calma! Está tudo bem, amiguinho.

Mas ele não para. Os gemidos ficam mais altos, e ele aperta os olhos fechados como se o som ofensivo estivesse vindo de outra pessoa e ele quisesse bloqueá-lo. Fico parado ali, inútil, querendo saber o que Janet me aconselharia a fazer em seguida, quando Aja tira uma das mãos da orelha e aponta para a porta.

— Saaaaaaaaaaaaaaaaai! — grita.

E saio.

Saio do quarto e fecho a porta, com o coração batendo alto nos meus tímpanos, tentando, mas incapaz de apagar da memória o som dos gemidos atormentados de Aja. Talvez por isso eu não tenha compartilhado nenhuma história sobre seus pais, penso, querendo direcionar toda a minha raiva para Janet e seu conselho furado.

No entanto, sei que a verdade é muito mais difícil de engolir.

Jubilee se levanta quando me vê entrar na sala. Eu me assusto, depois de quase ter me esquecido de que ela estava aqui. Ela tirou o casaco, mas ficou com as luvas, como se fosse mexer com joias raras ou algo assim.

— Ele está... bem? — pergunta, atraindo meus olhos para seu rosto. Os gemidos diminuíram, mas ainda estão em meus ouvidos.

— Sim — digo, mas sei que não é nem um pouco convincente quanto parece. — Olha, vamos... hã... tudo bem se dermos um minuto para ele e depois eu levar você para casa?

— Que tal eu chamar um táxi? — pergunta, e o alívio com um quê de culpa toma conta de mim. Sinto-me mal por tê-la envolvido em meus problemas.

— Sim. Essa talvez seja a melhor opção.

Depois de chamar o táxi, sentamo-nos no sofá, separados pela almofada inteira de um assento. O silêncio parece se estender entre nós, de um lado ao outro da sala, até ser rompido por Jubilee.

— Qual é o nome do cachorro? — pergunta.

Eu rio.

— Na verdade, não temos um nome para ele. Estamos chamando de O Cão.

— O Cão — repete.

— Sim.

— É um nome horrível.

Arregalo os olhos diante da sua franqueza.

— Só não é pior que Rufus ou Petey.

— Não, na verdade, é — diz. — Venha aqui, Rufus. Esse soa bem. Venha aqui, O Cão. Esse nem sequer faz sentido gramaticalmente.

Rio, sentindo-me bem e aliviado.

— Acho que você tem razão. Tudo bem se ele se chamasse só Cão?

— Não sei — diz. — Eu meio que gosto de Rufus agora.

— Vou ter que pedir a opinião do Aja — digo.

Ela concorda, contente, e ficamos sentados em silêncio por mais alguns minutos. E então:

— O que você vai fazer?

Esfrego a mão no rosto.

— Em relação ao Rufus? — pergunto, mesmo sabendo que não é disso que ela está falando.

O fato é que não tenho resposta. O que vou fazer em relação a Aja, à dor dele, em relação à Ellie, em relação à minha aparente incapacidade de ser um pai com qualquer tipo de know-how ou perspicácia de verdade?

Ela sorri.

— Não, em relação ao Aja. Hum... a babá dele?

Ah. Certo. A senhora Holgerson.

— Não sei. — E, enquanto digo as palavras, o pânico começa a tomar conta de mim. O que vou fazer? De repente, arrependo-me de tê-la enxotado, embora tenha parecido bom naquele momento. Não posso faltar ao trabalho amanhã, não com essa enorme aquisição em andamento. Nem em qualquer outro dia dessa semana. Por mais que odeie, eu, na verdade, preciso dela. — Talvez eu tenha que ligar e implorar para ela voltar, pelo menos até encontrar outra pessoa.

— Hum... não acho que vai dar certo.

— Por quê?

— Quando ela saiu? Ela murmurou algo em sueco: Fan ta dig, din jävel. — Olho para ela, sem entender. — A primeira parte basicamente significa “Que o diabo te carregue”, ou, como diríamos: “Vá pro inferno.”

— E a segunda?

Ela faz uma pausa e, então, diz baixinho:

— “Seu filho da puta.”

Meu queixo cai ao pensar naquelas palavras saindo da boca daquela senhorinha idosa e começo a rir. Jubilee se junta a mim, e nós dois nos sentimos bem e aliviados.

— Espera — digo, quando nos acalmamos. — Você sabe sueco?

— Não. — Ela encolhe os ombros. — Só os palavrões.

Eu sorrio, divertindo-me com esse detalhe inesperado.

Ela olha para baixo e depois levanta a cabeça novamente.

— Ele poderia ir à biblioteca.

Concentro meus olhos nela.

— Como assim?

— Tipo, depois da escola. Se você precisar de um lugar para ele.

Estreito os olhos em sua direção e nego com a cabeça.

— Não. Não, não posso fazer isso. Você não precisa... você tem muita coisa para fazer lá. — Mesmo não sabendo se isso é verdade. O que os bibliotecários realmente fazem o dia todo?

Ela encolhe os ombros.

— Só pensei... quer dizer, você vai me buscar nessa semana, afinal. — Ela olha para os pés. — Se, hum... se você ainda estiver com essa intenção, quer dizer.

— Claro. Sim — digo.

— Então, meio que faz sentido. Pelo menos por alguns dias, e aí você vê o que prefere fazer.

Olho para ela. Essa mulher. Essa bela e desconcertante mulher que, aparentemente, usa luvas 24 horas por dia (será que dorme com elas?) e pode traduzir palavrões do sueco. Sei que ela tem razão. Faz sentido. Cruzo os braços, afundando as costas na almofada atrás de mim, e aproveito a rara sensação de algo simplesmente entrando nos eixos. De verdade.

E então me ocorre de repente — que, entre nós, talvez ela não seja a única que precisa de ajuda.

Quando o táxi buzina, nós nos levantamos e vamos até a porta. Atrás de mim, ela diz:

— O que aconteceu com a sua mesinha de centro?

Ambos olhamos para ela. Não consegui repor o tampo de vidro, por isso, se você colocar uma bebida ou os pés sobre ela, eles vão parar no chão, o que significa que, a essa altura, já não é uma mesinha de centro, mas apenas uma armação de metal.

Esfrego minha mão no rosto novamente e suspiro.

— Longa história.

Ela desce as escadas atrás de mim e tiro sua bicicleta do porta-malas, a despeito dos seus já esperados protestos de que ela mesma pode fazer isso.

Enquanto entra no táxi, para e se vira para mim.

— Vejo você amanhã?

Afirmo com a cabeça.

— Amanhã — digo, e não sei ao certo se é imaginação minha ou se seus lábios se dobraram em um sorriso.

Então, ela entra no carro e se vai, deixando-me na calçada fria, com os olhos fixos nas luzes traseiras vermelhas do táxi e, depois, em absolutamente nada.