Perto o bastante para tocar
quatro
ERIC
Um ano antes do nosso divórcio, Stephanie e eu procuramos um padre para fazermos aconselhamento. Não foi ideia minha. Quando ela a sugeriu, perguntei: “Como ele vai ajudar a gente? Ele nunca foi casado.” Porém, como aconteceu em muitas das nossas discussões, perdi. Em uma das sessões, ela se queixou de que eu era muito negativo.
“Só sou realista”, respondi. Ainda assim, querendo fazer o que estava ao meu alcance para salvar nosso casamento, aceitei o conselho do padre Joe e tentei mostrar uma atitude positiva em relação às coisas.
Sentado em frente à orientadora e ao diretor da nova escola de Aja, vejo-me fazendo isso agora. Aja foi para a escola durante seis semanas inteiras sem se meter em encrenca alguma. Ele não é encrenqueiro em si, ou pelo menos não quer ser, mas as escolas levam tudo muito a sério hoje em dia.
— O senhor ouviu o que dissemos, senhor Keegan? — pergunta a orientadora. Ela se apresentou quando entrei, mas agora não consigo me lembrar do seu nome. Parecia nome de um chocolate. Hershey? — Aja ameaçou explodi-lo. Levamos ameaças como essa muito a sério aqui.
Suspiro e esfrego a mão no rosto. Depois de concluir, em setembro, que foi uma má ideia reduzir meu consumo de cafeína ao mesmo tempo em que contemplava um novo emprego, prometi a mim mesmo que tentaria de verdade mais uma vez em outubro. É por isso que nessa manhã — faltando duas semanas para acabar o mês, mas ainda, tecnicamente, outubro — abri mão de vez do meu hábito. E agora uma dor de cabeça monstruosa começa a espreitar bem atrás dos meus olhos. E começo a achar essa uma má decisão.
— Sim, estou ciente — digo. — Mas duvido que ele tenha ameaçado alguém. Ele não é exatamente perigoso. Olhe para ele.
Aja está sentado na cadeira ao meu lado, os ombros ossudos curvados, os pés balançando abaixo dos joelhos dobrados — pequenos demais para alcançar o chão. Está com fones de ouvido e olhos fixos no seu iPad, tocando freneticamente a tela com os dedos, mas seu rosto não parece tão, bem, ameaçador. Tiro um daqueles malditos fones da sua orelha e ele olha para mim.
— Aja, você ameaçou explodir alguém?
Seus olhos grandes se arregalam. Ele faz que não com a cabeça.
Coloco o fone de volta, resistindo à vontade de sorrir desdenhosamente para a orientadora.
— Eu ameacei explodir a mochila dele — diz Aja em voz alta, incapaz de modular o nível de decibéis da sua voz por causa dos sons do jogo que penetram os seus ouvidos. Ele volta a atenção para o iPad.
— Você o quê?
O diretor e a senhora Hershey olham para mim com a expressão extremamente preocupada, mas convencida. Algo explode de forma impetuosa na tela de Aja.
— Yahtzee! — grita. Espero que não consigam ver o que ele está jogando.
Ele volta a erguer os olhos, como se tivesse acabado de perceber por que estamos aqui. — Mas não deu certo — diz, e volta para o jogo.
— É óbvio que ele estava brincando — digo, encarando Aja. — Não tinha nenhum explosivo com ele, tinha? — Estou convencido de que não tinha, mas faço uma pausa só para ter certeza.
O diretor faz um pequeno não com a cabeça, e sinto um grande alívio.
— Então, como ele poderia explodir algo?
— Senhor Keegan, temos que levar cada ameaça a sério — diz o diretor.
— Bem, não é exatamente uma ameaça se ele não tinha nenhum dos materiais necessários para levar a cabo o que disse. E, enfim, e esse garoto? — Aponto o polegar e volto a atenção deles para o gigante do quinto ano que vemos sentado do outro lado da janela de vidro. — Ele não só ameaçou Aja, mas o agrediu também.
— Sim, bem, estamos cuidando de Jagger. Mas, nesse momento, estamos falando de Aja — diz a senhora Hershey.
— Jagger? O nome dele é Jagger?
Ela me ignora.
— Considerando o... hum, histórico de Aja, é uma pena, mas temos que tomar algumas medidas preventivas.
— O histórico dele?
Lá vem.
Ela olha para a folha que está sobre a grossa pasta de arquivo que tem nas mãos.
— Sim. — Seus olhos se movem rapidamente para Aja. — Aja, você poderia sair da sala por um instante?
Aja não a ouve. Bato suavemente no braço dele e ele tira um dos fones de ouvido.
— Aja, vá para o corredor. Estarei lá em um minuto. — Ele pausa o jogo, fica em pé e caminha até a porta. — E fique longe daquele Jagger — gritei.
A porta se fecha atrás dele e volto a olhar para a senhora Hershey.
— Para ser específica, estamos preocupados com o transtorno de personalidade esquizotípica — diz ela.
Reviro os olhos.
— Ele nunca foi formalmente diagnosticado com isso. Não deveria nem estar no formulário dele.
O diretor, que não havia dito muito durante esse encontro, pigarreia. Olho para ele, esperando que participe da conversa, mas não é o que acontece.
— Olha, ele não preenche os requisitos para esse, esse... transtorno, ou para o espectro de autismo ou grandes ilusões, ou para qualquer outro rótulo que vocês têm tentado pôr nos poucos anos de vida dele. Ele é apenas uma criança! Uma maldita criança normal.
Tudo bem, para ser justo, eu sei que Aja não é normal. Mas, falando sério, quem é? Esse Jagger não é exatamente um típico garoto do quinto ano também. E não vou levar Aja a um psiquiatra de novo só para que ele possa ser medicado como se fosse um louco mais uma vez. Minha cabeça está latejando seriamente agora, e massageio uma das têmporas com dois dedos. Eles deveriam oferecer café aos pais nessas situações.
— Vamos nos acalmar agora — diz o diretor com sua voz profunda de barítono. — Vamos dar a todos alguns dias para esfriar a cabeça.
— Você está suspendendo o menino. É o que isso significa, certo?
Droga!
Mesmo estando no trabalho há cinco semanas, ainda sou o cara novo que está tentando ser o exemplo para minha equipe, sem falar que estamos arrasados. Não tem como me dar bem.
— Achamos que é o melhor para todos agora — diz ele.
— Como não ir à escola é o melhor para Aja?
Ele continua como se eu nem tivesse falado.
— E então poderemos discutir uma maneira de buscar um... plano de monitoramento comportamental apropriado para Aja. Talvez ele se saísse melhor em um ambiente diferente de uma sala de aula.
— Se está falando de algum tipo de educação especial, pode esquecer. Aja é uma das crianças mais inteligentes da sua escola. Que droga! Até cinco minutos atrás ele era a pessoa mais inteligente nessa sala. De longe.
Indico com a cabeça na direção da pasta que a orientadora ainda está segurando.
— Veja isso no formulário dele.
Eu me levanto, saio sem nem sequer dar um adeus e deixo a porta do escritório se fechar atrás de mim. Aja está sentado em uma cadeira no lado oposto da sala onde está Jagger. Encaro o garoto gigante enquanto dou um tapinha no ombro do meu filho.
— Vamos. Vamos embora.
Enquanto caminhamos para o carro, quase posso ouvir Dinesh em meu ouvido. Isso aí, parceiro. Que se fodam todos. Vamos tomar uma gelada.
Não, isso é o que ele teria dito se eu tivesse dito umas verdades a um colega de trabalho chato ou à Stephanie, em meio ao nosso processo de divórcio, mas à administração da escola do seu filho? Dinesh nunca teria feito isso. Ele os teria cativado com seu sotaque britânico atrapalhado e amenizado as coisas em menos tempo do que levei para me sentar.
Não sei por que me escolheu para ser o guardião de Aja. Sei que, geograficamente, era a única pessoa possível. Os pais da sua esposa, Kate, de quem ela não era assim tão próxima, para começar, ainda vivem em Liverpool; e Dinesh e Kate queriam que Aja fosse criado nos Estados Unidos. Os pais de Dinesh não deixaram a metrópole moderna do seu lar em Londres influenciar a crença deles de que Dinesh deveria se casar com a moça indiana que lhe foi escolhida. Por isso, pararam de falar com ele logo depois da notícia sobre o noivado com Kate.
Dinesh e eu nos conhecemos na faculdade, quando fomos colocados no mesmo grupo de um projeto em uma classe de administração de empresas. Eu já era casado com Stephanie, e fiquei encantado, como a maioria das pessoas, com sua atitude despreocupada em relação à vida em geral. Talvez tivesse inveja disso. No entanto, também fiquei rapidamente irritado com sua propensão a debater todas as opiniões que surgiam ao longo do projeto. Tivemos uma briga feia sobre a estratégia de marcas correta para a empresa de cereais fictícia que estávamos gerenciando juntos, e, justamente quando pensei que explodiria de raiva por causa da sua irracionalidade, ele começou a rir, deu-me uns tapinhas no braço e disse: “Você venceu, parceiro. Vamos beber uma gelada.” Tudo era um jogo para ele. Debater. Ser o advogado do diabo. Deixar o pessoal irritado e, então, amenizar as coisas com a mesma facilidade. E tomar uma gelada era sua solução para tudo.
Quatro anos mais tarde, depois de outra cerveja, ele me disse que Kate estava grávida e brincou, dizendo que, por ter sido o padrinho no seu casamento, eu havia herdado o papel de padrinho do seu filho, com a responsabilidade de entrar em cena se alguma coisa acontecesse com ele. Brindamos a isso com canecas de vidro e logo me esqueci do compromisso assumido, porque o que poderia acontecer com Dinesh? Ele era invencível.
Até não ser.
— O que a gente vai jantar? — pergunta Aja quando entramos no carro. Por um segundo juro que posso ouvir a voz de Dinesh na dele. O garoto só tem um vestígio do sotaque britânico: uma pequena parte do pai que carrega consigo como se fosse uma moeda no bolso. E, às vezes, ele intercala palavras e expressões como “perfeitamente” e “a bem da verdade” em suas frases, fazendo-o parecer ainda mais velho do que já parece com seu vocabulário avançado.
— Jantar? Não vamos falar de jantar, Aja — digo. — Você está bem encrencado.
— Por quê? Eu não fiz nada.
— Como assim não fez nada? Você ameaçou explodir alguém!
— Alguém, não; uma mochila.
— Tudo bem, uma mochila. Você não pode fazer isso, Aja. E agora está suspenso por três dias e eu tenho que ir trabalhar. Você tem que parar com esse negócio de explosão telecinética.
— Destruição.
— Tanto faz, destruição. De qualquer forma, isso tem que parar.
Em vez de concordar com a cabeça, ele fica olhando para mim com seus olhos grandes.
— Mas não deu certo.
— Não interessa. Você não pode falar sobre isso. É como no aeroporto. Você não pode dizer a palavra “bomba”. — Engato a ré no carro e começo a sair do estacionamento.
— Por que não?
— Porque bombas são perigosas — digo, colocando o pé no freio e me virando para ele. — Elas podem machucar as pessoas. Muitas pessoas. E, quando você fala sobre isso, ou diz a palavra, especialmente no aeroporto, as pessoas ficam assustadas e acham que você quer machucá-las.
— Eu não estava tentando machucar ninguém — diz ele.
Suspiro e esfrego meu queixo.
— Eu sei. Eu sei, amiguinho. Você só não pode dizer isso, só isso.
Engato a primeira e piso no acelerador. Rodamos em silêncio por alguns minutos antes de Aja dizer:
— Mas, e se eu estiver falando de um videogame?
— Não! Aja, não. Você não pode falar em explodir coisas. Essa é a regra. Ponto. Fim de papo. Entendeu?
— Tá bom — responde, olhando para o porta-luvas.
Resolvido isso, crio mentalmente uma lista das coisas que preciso fazer quando chegarmos em casa. Ligar para Connie, para começar, e ver se ela pode tirar alguns dias de folga no trabalho para ficar com Aja enquanto estou no trabalho. Sei que é pedir demais, mas não sei mais o que fazer.
Quando chegamos à entrada da garagem, percebo que ele ainda está olhando para o porta-luvas.
— Aja?
Ele não responde.
— Aja, estamos em casa.
Ele não se move.
— Aja! O que você está fazendo?
Ele se vira e, com uma voz calma, diz:
— Não devo falar sobre isso.
— Ah, meu Deus, você está tentando explodir o carro?
— Não — diz ele. E então: — Só o porta-luvas.
— Não! Chega de explosão telecinética! Chega.
— É destruição, não explosão.
— Tanto faz! Você precisa voltar a tentar mover as coisas com a mente. Entendeu?
Nada.
— Aja?
Ele abre a boca:
— A gente ainda pode ter um cachorro?