Perto o bastante para tocar
dez
JUBILEE
— Bem, esse foi o primeiro — diz Louise.
Tiro os olhos das devoluções que estou examinando.
— Encontrei isso na estante — diz ela, segurando um chinelo de dedo.
— Chinelos? — pergunto.
— Só um — responde. — Já encontrei um monte de coisas estranhas aqui... Guardo tudo em uma caixa nos fundos, mas nunca um pé de chinelo. — Ela dá a volta no balcão. — A gente acha que a pessoa notaria se entrasse com dois chinelos e saísse com um.
Roger aparece sobre o ombro de Louise.
— Na estante? — pergunta ele, fazendo um sinal de cabeça para o chinelo.
Ambos estão atrás do balcão agora e os pelos da minha nuca começam a se levantar. A área está parecendo um pouco cheia. Começo a dar tapinhas no pulso esquerdo.
— Sim — diz Louise. — Pode ser a coisa mais esquisita até agora.
— Sei lá — diz Roger. — E aquela boneca American Girl nua com alfinetes espetados nos olhos, lembra? Aquilo foi bem assustador.
— Ah, querido, sim. Foi estranho.
— Um amigo meu que é bibliotecário na cidade, sabe? Encontrou uma daquelas tornozeleiras de prisão domiciliar, aberta — diz Roger.
— Ah, meu Deus! Dá para imaginar?
Roger e Louise riem e continuam conversando, mas em um tom mais baixo, e é assim que sei que alguém está se aproximando. Ergo os olhos, esperando que não seja alguém me perguntando como usar a internet novamente. Aquela foi uma experiência tomada pela ansiedade. Meus olhos se deparam com Madison H. Estou surpresa em vê-la, uma vez que só faz uma semana que ela esteve aqui, e ela não me parece alguém que vem à biblioteca com tanta frequência assim, mesmo fazendo parte da diretoria.
— Oi — diz ela, sorrindo. O gloss espesso nos lábios brilha como um pirulito que acabou de ser lambido.
— Oi — digo, olhando para ela. Olho para suas mãos à procura de livros, mas ela não segura nenhum. — Hum... em que posso ajudar?
— Ah, bem, pensei que tínhamos falado em sair para almoçar semana passada. Eu estava por essa região; ainda quer almoçar?
Hã. Acho que ela quis dizer isso quando perguntou no Halloween. Dou uma olhada para o relógio; são 12h10, e eu, tecnicamente, poderia fazer uma pausa agora, se quisesse. Volto a olhar para seu rosto esperançoso.
— Desculpe, você já comeu? Eu deveria ter ligado primeiro.
— Não, não — digo, voltando minha atenção para a tela do computador. — Hum... só me deixe acabar de registrar esses livros e, hum... estarei pronta.
Madison manobra seu carro em direção à vaga do estacionamento em frente a TeaCakes. Fica a apenas alguns quarteirões da biblioteca, mas ela disse que iria de carro por causa da mudança brusca do tempo, que ficou frio nos últimos dias.
Ela estaciona o carro, enquanto olho para a fachada da cafeteria — a grande extensão da janela, onde as pessoas do outro lado estão comendo, conversando e gesticulando com as mãos. Porém, quando imagino que Madison e eu logo estaremos sentadas em uma daquelas mesas, o punho gigante começa a apertar meu peito, e meu corpo, membro por membro, congela. Não consigo sair do carro. E sei que quantidade nenhuma de tapinhas mudará isso.
Por isso, fico sentada ali, em silêncio — diante das pessoas comendo e gesticulando e que fazem parecer tão fácil ser humano. De certo modo, eu as odeio. Não de forma a desejar que algo ruim aconteça com elas, mas daquele modo que você odeia a menina bonita e popular da escola. Do modo que eu, mais ou menos, odiava Madison H.
— Você vem? — pergunta ela.
Fico olhando para ela, e meu rosto se enche de calor.
— Não — digo, minha garganta seca expele a palavra como se fosse uma migalha entalada.
— Não? — Ela inclina a cabeça.
Meu cérebro corre para encontrar uma desculpa, algo plausível que explique por que não posso sair do carro, e, então, olho para baixo.
— Esqueci meu casaco.
É verdade, deixei-o na sala dos fundos da biblioteca, chocada e confusa com o convite de Madison para almoçar, mas sei que é uma justificativa fraca, considerando que fui até o carro sem ele, e a TeaCakes está a apenas alguns metros à nossa frente.
Seus olhos se fixam em mim por um instante, e me pergunto se ela começará a rir. Ou se simplesmente me levará de volta à biblioteca, parabenizando-se por tentar ser minha amiga, mas c’est la vie: no fim, eu sou estranha demais e, bem, ela tentou.
Ela mantém os olhos meio fechados, olha na direção da cafeteria e depois de novo para mim. Fico ansiosa.
— Quer comer no carro? Eu poderia ir lá dentro rapidinho e comprar alguns sanduíches para viagem.
Tento esconder minha surpresa e concordo com a cabeça.
— Isso seria uma boa.
Dez minutos depois, Madison está de volta ao carro, oferecendo-me um sanduíche embrulhado em papel-manteiga. Eu o pego com a mão enluvada.
— Gosta de atum? Eu deveria ter perguntado. Também tenho salada de frango.
— Está ótimo — digo.
Enquanto comemos, ela me fala sobre o soco que Hannah deu em um menino que a empurrou para fora de um balanço.
— Sério, bem no peito — conta, rindo. — Sei que deveria estar puta, e é claro que fingi estar na frente da outra mãe, mas, no fundo, estou orgulhosa dela. Gosto de ver que ela não deixa ninguém se meter com ela.
Concordo com a cabeça e viro uma saída de ar voltada para mim, como se estivesse ficando estranhamente quente dentro do carro agora.
Mastigamos nossos sanduíches em silêncio por alguns minutos.
— Não foi porque você esqueceu o casaco, foi?
— O quê?
— Por que você não quis entrar?
Não digo nada, concentrando-me nas últimas duas mordidas do meu sanduíche de atum. Na verdade, não gosto de atum, ou talvez seja apenas porque o gosto não é bom se não tiver picles, que foi como cresci comendo. Engulo. Como vou explicar, não apenas meu problema, mas meu medo irracional de lugares e pessoas novas? Parece ridículo dizer isso em voz alta, então só faço um pequeno não com a cabeça.
— É... você está... — Ela gagueja as palavras, e percebo que é a primeira vez que vejo Madison H. titubear. — Quer dizer, houve rumores na escola, mas nunca soube com certeza quais eram verdadeiros.
Fico olhando para ela, sem saber o que dizer.
— Que rumores?
— Acho que o mais comum era o de que sua pele se queimou completamente do pescoço para baixo em um incêndio doméstico quando você era pequena. Por isso, as luvas. — Ela gesticula para minhas mãos. — Alguns diziam que você era de outro planeta, mas a maioria não acreditava nisso. Humm... vamos ver. Acho que alguém disse que você era mórmon? E por isso não podia mostrar qualquer parte da pele. Esses são os mórmons? Ou muçulmanos? Não lembro. Mas, aí, você não cobria o rosto, e isso era o que mais deixava as pessoas confusas, acho. E, então, depois do Donovan... bem, você sabe.
Quando ela menciona o nome dele, meu rosto pega fogo. Sei de imediato que ela está se referindo ao Incidente, e parte de mim quer disparar do carro. A ironia é que não posso.
— Ele disse que você era alérgica. A pessoas.
Ela me examina como se estivesse tentando descobrir a verdade pela expressão no meu rosto.
— Não acho que alguém acreditou de verdade nele, mas eu acreditei. — Ela faz uma pausa e depois zomba. — Meu Deus, eu acreditava em tudo o que ele dizia naquela época, mas havia alguma coisa nessa explicação, por mais louca que parecesse, que parecia particularmente verdadeira. Ou só achei que ele era idiota demais para inventar algo assim.
Ela olha para mim de novo, e espero a sensação. A que eu tinha no ensino médio, como se eu fosse uma coisa rara. Algo em exibição, como a cobra de duas cabeças flutuando no formol na aula de biologia. Porém, ela não vem.
Encho a boca com o último pedaço de sanduíche sob seu olhar atento e mastigo lentamente, enquanto amasso o papel-manteiga, fazendo dele uma bola. Engulo, depois viro para encontrar seus olhos.
— É verdade.
— O que o Donovan disse?
— Não, o lance de eu ser de outro planeta.
Ela ri, e sinto um calor se espalhando por minha barriga, diferente do calor que sentia tomar meu rosto. Gosto de ouvi-la rir e saber que foi por algo que eu disse. É como a satisfação de plantar uma semente e depois colher um tomate, mas melhor.
— E aí? Sério. O que isso significa? Você não pode, tipo, tocar as pessoas?
Tenho uma sensação espetacular de déjà vu, minha cabeça parece voltar no tempo e estou sentada em uma pedra no pátio da minha escola do ensino médio olhando para os olhos curiosos de Donovan, no lugar dos de Madison.
Sinto algo no estômago.
Eu me forço a voltar para o presente.
— Sim, esse é o ponto principal — digo.
Os olhos de Madison se arregalam.
— Então você pode morrer ao ser tocada?
Dou de ombros.
— Hipoteticamente. Na maioria das vezes, só tenho uma erupção feia na pele. Tive choque anafilático algumas vezes quando criança, mas foi antes de ser diagnosticada, por isso não sabem se foi muito contato pele a pele que sobrecarregou meu sistema ou se eu, de alguma forma, ingeri células cutâneas, como dividir uma maçã com minha mãe ou algo assim. — Faço uma pausa. — E aí, é claro, houve o que aconteceu com o Donovan. O problema é que as alergias são imprevisíveis. Havia uma garota que era alérgica ao leite, então os pais dela cuidavam para que ela nunca tomasse leite. Então, em um café da manhã, a jarra de leite virou e parte do líquido espirrou no braço dela, e ela teve um choque anafilático e morreu. Bem assim. Os pais da garota não conseguiram chegar com ela no hospital a tempo.
— Meu Deus!
Conheço um montão dessas histórias de horror. Minha mãe as contava para mim como se fossem histórias que outros pais liam para os filhos na hora de dormir. Eram para ser advertências, mas só conseguiram me aterrorizar.
Depois de mais alguns minutos de silêncio, ela diz:
— Eu gostaria que o Donovan tivesse isso. Uma alergia a pessoas.
Levanto as sobrancelhas para ela. Quem desejaria isso a alguém?
— Ele me traiu quando éramos casados — diz ela. — Muito, eu acho.
Ah.
— Eu sinto muito.
— Eu também. — Ela encolhe os ombros, depois volta a prestar atenção em mim. — Você quase morreu mesmo?
Faço que sim com a cabeça.
— Nossa — diz ela. Ficamos sentadas em silêncio no carro enquanto isso é assimilado.
— Espere, e depois? Você não voltou para a escola. Não estava na formatura. É como se tivesse desaparecido da face da Terra. Algumas pessoas disseram que você realmente havia morrido, mas eu sabia que teria saído algo no jornal. — Faz uma pausa. — Para onde você foi?
Meus lábios se separam enquanto ela fala, depois secam com minha respiração lenta. Não posso acreditar que ela notou minha ausência na escola. Na formatura. As pessoas ficavam olhando para mim no ensino médio como se eu fosse uma coisa rara, mas não pensei que alguém tivesse me notado alguma vez. Era uma sensação estranha: ser vista, mas ser invisível ao mesmo tempo. Sempre me senti um pouco como uma aparição. Lá, mas não lá. Enfim, até Donovan me beijar. Depois, eu me senti uma tonta.
E, então, pergunto para mim mesma: Ela me procurou no jornal? Procurou a minha morte? Sinto um calafrio diante da morbidez. Madison está olhando para mim, esperando, os cílios engrumados de rímel se projetando dos olhos redondos como penas de pavão.
— Realmente não fui a lugar nenhum — digo. — Meio que fiquei em casa.
— O quê... por alguns meses?
Eu me protejo, a região dos ombros ficando tensa.
— Um pouco mais.
— Quanto tempo?
Hesito novamente.
— Nove anos.
Seus olhos se arregalam.
— Nove? Mas, sério, você saiu, né? Você não tinha que trabalhar? Só não entendo por que ninguém viu você. Porque eu não vi. Ou ouviu falar de você. Essa cidade não é exatamente grande.
Ocorre-me uma citação do meu professor do sexto ano: “Quem está na chuva, é para se molhar.” Respiro fundo e chego à conclusão de que posso me abrir completamente com Madison H.
— Eu não saía de casa de jeito nenhum. Nunca. Para nada. Fiquei meio eremita, reclusa. O que você quiser chamar. E aí meio que fiquei um pouco agorafóbica, acho, e não conseguia sair de casa. Para nada. Porém, tive que sair. Fiquei sem dinheiro e precisei trabalhar. Ainda não gosto de estar fora de casa — gesticulo para a cafeteria à nossa frente — como é o caso aqui. Com outras pessoas. A biblioteca tem sido difícil o suficiente.
Mantenho os olhos fixos no meu colo, esperando sua reação. Com o canto do olho, todavia, vejo que Madison é uma estátua. Está em silêncio por tanto tempo que me pergunto se me ouviu. Ou se o tempo está, de alguma forma, sendo manipulado e o que parecem minutos para mim não passam de segundos para ela. Viro um pouquinho a cabeça na sua direção para dar uma olhada, e é quando ela fala.
— Então — diz. — Você não vai, tipo, à Starbucks? Ou ao cinema? Ou arrumar o cabelo?
Levanto as sobrancelhas para ela.
— Parece que arrumo o cabelo?
Ela sorri.
— Enfim, eu não poderia deixar que arrumassem meu cabelo nem que eu quisesse. Não posso ser tocada, lembra?
— Ai, meu Deus, então você nunca foi à manicure? — Ela olha para as próprias unhas brilhantes, com esmalte cintilante roxo hoje.
— Não.
— Ou fazer uma massagem?
— Hã-hã. — Faço que não com a cabeça.
Então seus olhos ficam grandes e ela estende a mão como se fosse me deter, embora eu não esteja fazendo nada.
— Espera. Ai, meu Deus! Você nunca fez sexo.
Ela sussurra a palavra “sexo”, o que me parece engraçado, considerando que ela quase gritou a palavra “foder” em uma biblioteca alguns dias atrás. Estou perplexa com o jeito que decide quando ser discreta.
Nego com a cabeça.
Ela suspira e leva a mão ao peito, as unhas feitas se estendem sobre seu coração, como se para se certificar de que ainda está batendo.
— Você não tem vontade?
Reflito sobre essa pergunta como se ninguém nunca tivesse me perguntado isso. Principalmente porque ninguém nunca me perguntou isso.
— Eu não sei — digo.
Porém, então, lembro aqueles adolescentes se devorando às escondidas entre as estantes na biblioteca, e meu corpo lateja da cabeça aos pés, e me pergunto se, talvez, isso não seja verdade.
Enquanto pedalo para casa, o vento cortante atravessa meu casaco, como se eu nem estivesse usando um. Faço uma anotação mental para me lembrar de pesquisar roupas térmicas, e algum tipo de máscara facial, pois não consigo sentir meu nariz. E quem sabe um farol dianteiro? Será que fazem para bicicletas? Às 17h30, ainda está claro lá fora, mas sei que é só questão de tempo para que isso mude. Enquanto me aproximo da ponte do rio Passaic, fico imaginando quando virão os primeiros flocos de neve e como farei para ir trabalhar nessa época, quando noto uma figura em pé logo abaixo da ponte, encostada em uma das vigas de apoio. Diminuo o ritmo e olho, com os olhos meio fechados, dois carros passarem rapidamente um atrás do outro. Parece um menino, mas não consigo entender como ele chegou ali — ou o que está fazendo. E, de repente, ele está no ar — o corpo na horizontal, como um paraquedista sem paraquedas, e, então, bate na água com tanta força que sei, mesmo da minha posição vantajosa, que deve ter doído horrores. Ofegante, olho ao redor à procura de outras crianças. Talvez ele esteja participando de um desafio, mas não vejo uma alma viva. Os carros que passaram por mim já estão na ponte lá longe, e não parece que notaram o menino. Olho novamente para o rio, onde vejo braços se agitando e olhos arregalados de pânico, com sua boca abrindo e fechando como a de um peixe, procurando ar quando sobe à superfície. Qual é, eu o encorajo em silêncio. Nade para a margem. Porém, seu corpinho permanece lá no meio, e a corrente o leva rio abaixo.
E, então, ele submerge.
Fico olhando para a água turva, atordoada demais para me mexer. Parece que estou em um filme, ou que talvez minha mente esteja me pregando alguma peça esquisita. Olho ao redor novamente à procura de uma pessoa — qualquer uma — que possa ajudar, mas estou sozinha. Minha boca seca, olho de novo para a água a tempo de ver o alto da sua cabeça, com seu cabelo preto, romper a superfície, agitando-se como se fosse uma boia. E sei que tenho que fazer alguma coisa.
Largo a bicicleta no acostamento e desço a ribanceira coberta de relva pisando em falso, com os olhos fixos na cabeça flutuante do menino, enquanto tiro o casaco. Quando chego lá embaixo, corro em paralelo ao rio até passar pelo menino, então salto, com um ataque de ousadia correndo em minhas veias como se eu fosse uma maldita super-heroína — até que meu corpo bate na água gelada e rouba meu fôlego. Solto um grito involuntário e começo a agitar os braços, imitando a própria reação do menino quando caiu na água. Então, abaixo os pés e percebo, com certo alívio — especialmente porque faz mais de dez anos que não nado — que consigo tocar o fundo. Fico em pé, com a água fria arranhando meu peito, e, com os olhos no menino de novo, começo a mover as pernas em direção ao meio do rio. Com um temor cada vez maior, vejo seu corpo vindo mais rápido — a correnteza deve ter aumentado — e não tenho certeza se vou chegar a tempo ao nosso ponto de encontro. Movo as pernas com mais força, usando as mãos enluvadas para fazer meu corpo atravessar ainda mais rápido a água. Então, no último segundo possível, eu me jogo para a frente, estico as pontas dos dedos até onde é possível e agarro o tecido molhado do seu suéter. Com uma boa parte do suéter na mão, começo a puxar o menino na minha direção — surpresa com a leveza do seu corpo encharcado — enquanto procuro um ponto de apoio para meus pés novamente no leito do rio. Com a cabeça fora d’água, o menino começa a falar de modo confuso, expelindo grande quantidade de água pelos lábios; até que sua cabeça cai para o lado, inconsciente.
O retorno à margem parece ilogicamente mais rápido — talvez impulsionado por meu ímpeto de sair da água fria ou pelo meu pânico diante do seu corpo imóvel. Gemendo, empurro seu pequeno corpo para a margem enlameada e me arrasto para sair depois dele.
Tremendo — e meu coração pula, ao que parece, no mesmo ritmo com que meus dentes batem —, inclino-me sobre ele.
— Ei — digo, cutucando-o no braço com um dedo enluvado.
Ele não responde. Sei que o próximo passo lógico é a reanimação cardiopulmonar. Eu a vi em uns mil dramas médicos, mas sempre parece tão intuitiva, como se fosse uma habilidade inata codificada no seu DNA. Espero que meu corpo assuma o controle, faça o que precisa ser feito, mas a única coisa que minha intuição está gritando para mim agora é que, se eu não fizer alguma coisa imediatamente, esse menino vai morrer. Olhando para seus lábios roxos, penso por um instante se ele já morreu. Hesitante, coloco as mãos sobre seu peito e pressiono, mas não faço ideia se estou fazendo isso no local certo ou aplicando a quantidade correta de força. Depois de pressionar umas dez vezes ou algo assim, hesito. Sei o que preciso fazer em seguida. E também sei que isso pode me matar.
Merda! Merda! Merda! Viro sua cabeça com uma das mãos enluvadas, aperto seu nariz e cubro sua boca com a minha. Libero ar para seus pulmões. Uma vez. Duas vezes. E, em seguida, volto a pressionar seu peito, sentindo aquele formigamento familiar em meus lábios. Ouço um grito e ergo os olhos. Alguns carros param antes da ponte e de um deles sai um homem, balançando o celular no ar. Sinto um alívio inundar meu corpo dormente. Abro a boca para gritar para que ele chame uma ambulância, mas minha garganta está muito fechada para expelir o ar. Respiro com dificuldade, tentando puxar o ar, enquanto ainda pressiono o peito do menino. Minha visão começa a escurecer, pontinhos escuros surgem nas extremidades, enquanto olho para o rosto do garoto para ver se minha ajuda está fazendo alguma diferença — e é quando percebo que o reconheço. Já vi esse menino antes. De todas as coisas, a expressão “assassina em série” surge espontaneamente em minha mente.
O homem vindo do carro, de repente, está ao meu lado, e me afasto, observando-o imediatamente começar a pressionar o peito do menino. Apertando minha própria garganta, implorando em silêncio para que minhas vias respiratórias se abram, caio para trás na grama. Ouço um ataque de tosse, mas não tenho certeza se é meu ou dele. Em algum lugar à parte disso, ouço a sirene de uma ambulância à distância. Meu corpo inteiro está quente, e o deixo afundar mais na terra, enquanto o pânico por não conseguir respirar estranhamente começa a diminuir.
E tudo fica preto.