Perto o bastante para tocar
doze
JUBILEE
Nunca usei as roupas de um homem. Parece estranhamente íntimo — ainda mais porque o casaco de moletom de Eric não cheira a roupa lavada. Cheira um pouco a mato — cheiro doce e de pinheiro ao mesmo tempo. Como ele, eu acho.
Entrei em pânico quando o doutor Houschka disse que não me daria alta se eu não tivesse alguém para cuidar de mim. Se eu tivesse que ficar mais um segundo naquele hospital, naquele estranho quarto com aqueles estranhos entrando e saindo, eu tinha certeza de que morreria. E lá estava aquele homem sério da biblioteca, Eric Keegan, parado, e a ideia simplesmente surgiu.
Estou realmente surpresa por ele ter concordado com ela. Tudo a seu respeito parece tão tenso — não só sua postura, sua coluna rígida, seus ombros tensos e quadrados, mas também a intensidade dos seus olhos, a maneira como seus lábios permanecem alinhados e paralelos, como um sinal matemático de igual.
Porém, eles se levantaram, só um pouco, quando ele se ofereceu para me levar para casa, e me surpreendeu mais uma vez.
Agora, sentada ao lado de Eric no banco do passageiro do seu carro, todos os traços de qualquer jovialidade se foram e ele está segurando o volante, imóvel e pétreo como uma estátua — Atlas segurando o peso do mundo nos ombros.
É verdade, seu filho quase morreu, mas não morreu. E, mesmo tendo dito a Eric que não foi nada, eu achava que ele seria um pouquinho mais caloroso, mais grato a mim, em vez de agir de forma tão indiferente.
Talvez ele seja meio babaca, como Louise sugeriu.
Por outro lado, também é meio educado.
Tipo, depois que o doutor Houschka saiu do meu quarto, ele não me encheu de perguntas sobre o motivo pelo qual eu estava no hospital ou o que havia de errado com meu rosto.
Ele levou para mim as roupas extras que tinha no seu carro — a blusa de moletom de Wharton e um par de calças de ginástica, uma vez que minhas roupas ficaram tão encharcadas e enlameadas por causa do ocorrido no dia anterior que tiveram que ir para o lixo.
Fez que não me ouviu quando me ofereci para me sentar no banco de trás para que seu filho, apresentado a mim como Aja, pudesse ficar no banco da frente.
Tanto faz. Realmente não me interessa quem é esse cara, exceto que ele é o meio pelo qual, finalmente, estou chegando em casa. Após os eventos inesperados das últimas 24 horas — e ter passado a noite inteira em claro em um quarto de hospital —, só consigo pensar em passar pela porta da frente da minha casa e ficar sozinha. Segura.
No caminho até lá, quebro o silêncio insuportável algumas vezes com uma ou duas palavras: “Direita, aqui.” “Esquerda.” E, quando Eric para na entrada da garagem, faço todo o esforço do mundo para não saltar do carro antes de ele parar completamente e correr para dentro de casa, girando o trinco atrás de mim com um clique de satisfação.
Sei que seria falta de educação da minha parte.
— Obrigada pela carona — digo, abrindo a porta do carro e fazendo esforço para expelir cada palavra da minha garganta ferida.
Ele puxa o freio de mão entre nós e vira a chave, desligando o motor.
— Vou pegar sua bicicleta — diz, abrindo sua porta também.
Abro a boca para protestar, mas, quando me levanto, estou tão exausta que, se eu mesma tivesse que levantar a bicicleta, seria uma tarefa impossível. Além disso, a calça de moletom que estou usando ameaça cair até meus tornozelos a qualquer segundo, embora eu tenha puxado o cordão para apertá-la o máximo possível e dado um nó. Coloco minha bolsa no ombro e seguro uma boa parte do cós elástico para me sentir segura.
— Onde você quer que eu a coloque? — diz Eric, parado atrás do porta-malas.
— Dentro do portão está ótimo — digo, gesticulando com a mão livre para o fim do caminho da garagem ao lado da casa.
Em vez de empurrá-la no chão como eu faria, ele a levanta pelo quadro com uma das mãos fechadas e faz conforme o instruído, enquanto vou em direção à varanda. Quando chego à porta da frente, viro-me para fazer um rápido aceno, mas me assusto quando vejo que ele está no pé da escada, bem atrás de mim. Ele coloca uma das mãos no bolso e coça a parte de trás da cabeça, sua postura é tão desajeitada quanto o que sinto. Fico olhando para ele, com a mão na maçaneta, louca para entrar.
Ele dá um aceno com a cabeça, como se estivesse selando um acordo nosso.
— Bem, hum... você vai ficar bem? — pergunta, olhando para Aja mais uma vez. — Talvez possamos ficar por aqui... Você sabe, o médico disse...
— Estou bem — digo, e meu pânico aumenta ao pensar nele, ou em qualquer um, entrando na minha casa. — Vou ficar bem. Bem, obrigada. Obrigada por, hum... tudo.
— Não, pelo amor de Deus — diz. — Eu que agradeço a você. — Ele põe a mão direita no bolso traseiro e tira uma carteira. Meus olhos se arregalam, alarmados. Ele vai me dar dinheiro? Como recompensa por salvar seu filho? Lembrando-me do meu reflexo no espelho do hospital, talvez eu pareça mesmo tão necessitada assim.
Ele abre a aba de couro e tira algo dela, depois o oferece a mim. Meus ombros relaxam quando vejo que é apenas um cartão de visita.
— Fique com meu número — diz. — Por favor. Para o caso de precisar.
Tiro a mão da maçaneta e pego a ponta do cartão, tomando cuidado para não tocar as pontas dos dedos dele com os meus. Minhas luvas, ainda úmidas por conta do episódio do dia anterior, estão no fundo da minha bolsa.
— Tudo bem — digo, jogando o cartão dentro da bolsa e tentando desajeitadamente pegar minhas chaves com uma das mãos; a outra ainda está segurando minha calça. — Bem, Hum... tchau. — Levanto a mão com as chaves, fazendo um pequeno aceno, e me viro para entrar em casa sem esperar uma resposta.
— Ei, espere — diz ele. Paro, lutando contra a vontade de gritar de frustração ou desespero, não sei qual, e viro a cabeça na sua direção.
— Sim...?
— Isso não tem nada a ver, eu sei, mas você não disse que As Virgens Suicidas era seu livro favorito?
Faço uma pausa.
— Um deles.
— Por quê? — pergunta ele. — Quer dizer, o que há de tão bom nesse livro?
Estreito meus olhos para ele, a pergunta do nada me faz lembrar a sua estranha escolha de livros na biblioteca.
— Não sei — respondo, não querendo prolongar a conversa. Mas eu sei. Lembro exatamente como me senti quando entrei na vida das irmãs Lisbon. Me senti compreendida.
— Mas você sabe. Tem que saber — diz. — Se é um dos seus favoritos.
Eu o encaro, querendo que leia minha linguagem corporal, que está gritando Deixe-me entrar!, mas ele só olha para mim, esperando a resposta. Respiro fundo e uso a pausa momentânea para examinar seu rosto. Bonitão. Essa foi a outra coisa de que Louise o chamou; e ele é, uma vez que seu rosto é impressionante, quase um convite à exploração. Boa estrutura de ossos. Isso é o que mamãe teria dito. Sempre achei engraçado, porque, se você já viu um crânio humano, a posição do osso é bem universal. O que me atrai, o que não consigo deixar de encarar, são seus olhos. São verdes, como duas azeitonas que caíram no centro do seu rosto, com um brilho molhado. E são intensos, sim, mas também há uma bondade neles. São uma contradição, semelhante ao próprio Eric. E acho difícil olhar desviar o olhar.
Percebo que ele ainda está esperando minha resposta. Que só vai embora quando eu responder. Pigarreio.
— É simplesmente tão real — digo. — Eu o li quando era adolescente, e ele me cativou... não sei, tudo. A solidão. O modo como idolatramos a vida de outras pessoas. O desejo de ser aceito. Ser notado.
Ele fica olhando para mim, com a boca um pouco entreaberta, e começo a me sentir exposta, como se ele, de alguma forma, pudesse ver através de mim. Desvio do seu olhar e finjo examinar as pedras aos seus pés.
— Hum... para mim, pelo menos. Foi o que eu gostei.
Ele ainda não responde, e sinto o calor subir pelas minhas bochechas novamente.
— Bem, é melhor eu entrar — digo, e me viro novamente para a porta.
— Ok — diz ele atrás de mim. E depois: — Tchau, Jubilee. — É a primeira vez que diz meu nome, e as chaves se desequilibram da minha mão, caindo na varanda. Rapidamente me agacho para pegá-las, tendo o cuidado de não soltar o cós da calça de moletom, ciente de como devo estar ridícula.
Eu me aprumo, coloco a chave na fechadura e a viro, girando a maçaneta com alívio. Entro correndo e fecho a porta, trancando-a com um movimento rápido do pulso. Encosto-me na porta, deixando minha bolsa cair aos meus pés, ao lado da pilha de correspondências que se acumulou ali durante a minha ausência. Suspiro, olhando ao redor. Minha casa.
Estou na minha casa. Enquanto estava deitada na cama do hospital, fiquei imaginando todas as coisas que gostaria de estar fazendo em casa: deitada na minha própria cama, para começar, lendo um livro na minha confortável poltrona de canto, fazendo ovos e torradas, esfregando o piso, assistindo à próxima aula da série de Harvard.
Por isso, surpreendo até mesmo a mim quando a primeira coisa que faço não é subir e trocar de roupa. Vou até a janela e delicadamente empurro a cortina para o lado e fico observando enquanto Eric se senta no banco da frente do seu carro. Observo seu rosto enquanto ele se vira para dizer algo para Aja, que ainda está no banco de trás, e o observo lentamente tirar o carro da entrada da garagem. Eu me imagino no banco do passageiro, ao seu lado. O que devo ter parecido — o que nós parecemos para as pessoas que passavam de carro por nós.
Não consigo dormir nessa noite. As palavras do doutor Houschka não saem da minha cabeça: Talvez você consiga controlar essa coisa. Essa é a razão pela qual mamãe se mudou comigo do único lar que conheci, no Tennessee, para a escola de ensino médio em Nova Jersey: para que pudéssemos estar mais próximas da doutora Zhang e conseguir controlar essa coisa. (Embora, para ser honesta, eu também ache que ela fugiu dos homens com quem namorou na nossa pequena cidade de Fountain City.)
Porém, depois da primeira consulta, recusei-me a voltar. Estava claro que não haveria uma cura mágica e, além disso, eu não gostava do modo como a doutora Zhang ficava olhando para mim, com aquele brilho nos olhos. Ela queria me estudar, como se eu fosse alguma espécie de alienígena. Eu não estava interessada em ser a sua cobaia. Mamãe me incentivou a lhe dar outra chance, mas não me forçou — não podia me forçar — a ir.
Ainda não estou interessada em ser um rato de laboratório, mas sei que Houschka está certo a respeito de uma coisa: não quero acabar no hospital de novo da mesma forma que ele não quer me ver lá. E não posso mais ficar escondida em casa. Tenho um emprego, um emprego de que preciso. E se ele estiver certo sobre as demais coisas? E se souberem muito mais coisas sobre alergias? Quem quer que eles sejam. E se houver algo que possa ser feito?
Saio da cama e me arrasto escada abaixo, não querendo interromper o silêncio com o rangido da madeira. No escritório, sento-me na cadeira junto à mesa e mexo o mouse do computador. A tela clareia ao ganhar vida e quase me deixa cega. Quando meus olhos se adaptam, digito “Doutora Mei Zhang” no Google. Sua foto imediatamente aparece sob o cabeçalho Universidade de Alergia & Imunologia George Watkins. Estremeço, lembrando-me de como me senti sob seu olhar fixo. Como se eu fosse um sapo na aula de ciências e ela estivesse feliz da vida segurando um bisturi. Porém, talvez isso fosse apenas um medo irracional de infância, como imaginar monstros debaixo da cama. Clico no link, pego uma caneta e um pedaço de papel na mesa e anoto seu número de telefone e e-mail. Fico olhando para a anotação, usando a luz do monitor, e sou dominada por um sentimento. É uma emoção tão estranha que não consigo identificar de imediato.
Esperança.
Parece tão inocente, a esperança que eu levava de um lado para o outro como o cobertor do Linus, imaginando uma nova vida — uma vida sem essa alergia debilitante — surgindo diante de mim, mas lá está ela, brotando na minha barriga, e não posso contê-la. Não de imediato. Quer dizer, não tenho a intenção de sair por aí fazendo RCP em estranhos o tempo todo, mas, e se eu pudesse trabalhar na biblioteca sem minhas luvas e apertar as mãos das pessoas — ou, sei lá, aceitar um cartão de visita e deixar meus dedos roçarem os delas, como uma pessoa normal? Talvez isso não seja normal: pensar em tocar com os próprios dedos os de um quase estranho.
No escuro, olho para o casaco de moletom de Wharton que ainda estou usando — que eu, no fundo, simplesmente não queria tirar — e me pergunto se talvez isso também não seja normal.
Então lembro: o doutor Houschka disse “controlar”, não “curar”. Porque não há cura. Não há cura. Digo a frase em voz alta para que ela entre na minha cabeça. Eu sempre vou usar luvas. Não há uma vida nova à minha espera em um futuro próximo.
Olho para o número de telefone no pedaço de papel uma última vez antes de amassá-lo, jogá-lo no cesto de lixo ao lado da mesa e subir a escada para voltar para a cama.
Acordo com um sobressalto pela manhã, os cabelos grudados no rosto e o travesseiro molhado de suor. Estava tendo um pesadelo. Com as mãos de Eric. Seus dedos estavam inchados, exageradamente grandes, como em um desenho animado, e tocavam os meus — os envolviam, na verdade —, a ponta dos seus polegares esfregavam os nós dos meus dedos. Eu tentava lhe dizer para parar, que não posso ser tocada, mas era como se eu estivesse debaixo d’água, como se minha boca não obedecesse ao meu cérebro, como se minhas palavras fossem roubadas no ar, incapazes de cumprir seu dever de serem ouvidas. Quanto mais difícil era mover a minha boca, mais eu tentava, até que fiquei paralisada de medo, e o pânico consumiu cada nervo do meu corpo.
Sento-me, tentando desacelerar meu coração disparado, mas, enquanto respiro fundo, repassando a cena na minha mente, quase posso sentir o calor áspero dos seus dedos na minha pele. Ou como imagino que seria — faz tanto tempo que não sou tocada. Desde que o doutor Benefield me colocou naquela sala de isolamento plástico quando eu tinha seis anos. Pouco antes de ser diagnosticada, antes do momento no qual meu mundo inteiro mudou. Durante meses e anos depois, tentei me lembrar daquela última interação com minha mãe. A última vez que ela me tocou. Ela apertou meu rosto? Beijou o alto da minha cabeça? Envolveu seus braços em torno do meu corpo minúsculo e me apertou muito? Tenho certeza de que disse algo reconfortante como: “Vai ser só uma semana. Estarei aqui, querida.” No entanto, as palavras não importam. Se ao menos eu soubesse que era a última vez que seria tocada, a última vez que sentiria a palma da sua mão no meu braço, sua respiração no meu rosto, eu teria aguentado um pouco mais, gravado a sensação da ponta dos seus dedos na minha pele. Teria procurado me lembrar.
Só que não foi assim. E agora, sentada na minha cama, a tentativa de lembrar o toque de Eric em meu sonho — realmente senti-lo em minha pele — é o mesmo esforço inútil que fiz por anos tentando lembrar o último toque da minha mãe. E, então, à medida que meu batimento cardíaco desacelera, começo a me perguntar se realmente foi um pesadelo. Pergunto-me se meu coração estava palpitando porque eu estava apavorada — ou porque foi muito maravilhoso.
— Foi bom o seu fim de semana, querida? — pergunta Louise quando vou para o balcão na segunda de manhã. Ela se vira para olhar para mim e suspira.
— Ah, querida — diz, cobrindo a boca com a mão. A erupção cutânea em torno da minha boca havia diminuído quando olhei no espelho antes de sair, mas algumas manchas vermelhas persistiam e meus lábios ainda estavam um pouco machucados e inchados. Encontrei um tubo de batom na cômoda da minha mãe, mas só serviu para acentuar o problema, por isso o tirei.
— O que aconteceu? — pergunta Louise.
Meus ombros ficam tensos e, em silêncio, castigo-me por não ter preparado uma resposta. Eu esperava que ninguém percebesse.
— Reação alérgica — digo. Uma vez que a resposta não parece satisfazê-la, acrescento: — Batom novo. — Porque é a primeira coisa que passa pela minha cabeça.
— De que marca? Me lembre de nunca comprar essa.
— Não lembro — digo fracamente, enquanto Roger se aproxima do balcão, segurando uma caneca de café.
— Bom dia, senho... eita! — diz, olhando para mim.
— É apenas uma reação alérgica — diz Louise, mandando-o embora com a mão. — E não é de admirar, de verdade. Você sabe o que colocam no batom? Insetos esmagados. Insetos! E chumbo, acho, se não me engano. Li um artigo sobre o assunto há algumas semanas.
Olho para uma pilha de devoluções sobre a mesa e começo a examiná-las, enquanto a conversa de Louise e Roger se transforma em uma discussão sobre coisas estranhas na comida, como partículas de tapete usado para praticar ioga no pão de forma. Eu me desligo deles, por isso não sei ao certo se ouvi direito quando, cerca de cinco minutos depois, Louise diz:
— Não importa, vamos todos ser demitidos de qualquer jeito.
Minha cabeça se vira rapidamente na direção dela.
— O quê?
Ela olha para mim.
— Ah, não ouviu? Maryann está em outra briga grande com a cidade, tentando evitar que nossa verba seja cortada de novo. Tínhamos quatro assistentes no balcão, dá para acreditar? Mas aquele idiota do Frank Stafford, presidente do Conselho de Finanças da cidade, continua a concentrar o dinheiro no centro de recreação, porque o filho dele joga em um time mirim de futebol americano, e ele está convencido de que o menino vai ser o próximo Ted Brady, que é um quarterback, certo?
— Eu acho que é Tom — diz Roger.
— Ted, Tom — diz ela, balançando a mão. — Enfim, ela tem tentado provar que somos importantes para a comunidade, mas o número de visitantes está baixo e os poucos programas que temos quase não têm participantes...
— Podemos mesmo ser demitidos? — interrompo.
— Ah, querida — diz ela, e estende a mão para dar tapinhas na minha mão enluvada. Afasto-me dela. — Não quis alarmar você. — Suspira. — Mas não sei mesmo como vamos manter as portas abertas e as luzes acesas se cortarem ainda mais o orçamento. Já está escasso como está.
Fico olhando para ela, minha cabeça gira. Esse trabalho basicamente caiu do céu, e não posso perdê-lo. Preciso do dinheiro. E, apesar de tudo, estou praticamente à vontade aqui. Não consigo imaginar a ideia de procurar outra coisa, entrar em todos aqueles edifícios estranhos, conversar com pessoas novas. Só de pensar, um torno ameaça apertar meu coração e fazê-lo parar de uma vez por todas.
Quando saio da sala de descanso às quatro da tarde, sou surpreendida com a imagem de Madison H. em pé ali, com a bebê no colo. Fico curiosa para saber por que ela vem à biblioteca com tanta frequência, já que nunca retira livros. Talvez tenha algo a ver com o fato de participar da diretoria.
— Jubilee! — diz, quando me vê, e seus olhos denunciam seu espanto. Levo a mão enluvada à boca, querendo que o vermelhão desapareça. — O que aconteceu?
— Longa história — digo, caindo na minha cadeira.
Ela coloca a bebê do outro lado e olha para mim de maneira direta e incisiva. Suspiro e olho para trás, certificando-me de que Maryann e Louise ainda estão na sala dos fundos. Em seguida, dou-lhe uma versão resumida do fim de semana, terminando com a visita do doutor Houschka.
Ela me olha com a boca aberta.
— Meu Deus! Eu a deixo sozinha por dois dias e você vai e quase se mata.
— Que drama — digo.
— Bem, você marcou a consulta?
— Com quem?
— Com um alergista. Para conseguir esse lance da pulseira. E a epinefrina. Você deveria carregar injeções de epinefrina na bolsa! Meu sobrinho tem alergia a pasta de amendoim e não sai de casa sem isso.
— Não preciso de epinefrina. Nem de pulseira. Acontece que não vou sair por aí fazendo reanimação nas pessoas — digo, reiterando meus pensamentos internos da noite anterior.
— Bem, e se houver outro tipo de emergência?
— Tipo?
Ela pensa por um minuto e olha para a bebê.
— E se uma criança babar em você?
— Eu teria erupções na pele — digo, tentando fazer com que não pareça nada de mais, porém estremeço diante da possibilidade, pensando na menina que quase morreu por causa de um pingo de leite na pele. Então minha barriga começa a latejar e queimar perto do umbigo como se eu tivesse provocado uma erupção só em dizer a palavra em voz alta. A mente é algo engraçado e poderoso. Começo a coçá-la através do material da minha camisa. — E aí ficaria longe daquela criança.
— E se ela mordesse você?
Meus olhos se arregalam.
— Por que uma criança me morderia?
Ela dá de ombros.
— Por que as crianças fazem qualquer coisa? Hannah encontrou um pote de mel e o passou por todo o rosto e cabelo da Molly na semana passada quando eu estava no banheiro. Parecia que ela estava com uma máscara de beleza. Tem ideia do quanto foi difícil limpar?
Eu a fito, tentando decidir se deveria continuar seu jogo.
— Não acho que uma criança vá me morder.
Ela suspira.
— Olha, só vou sair com você quando você estiver com a epinefrina, está bem?
Olho para ela, confusa.
— Sair comigo para onde?
— Uma aventura — diz, com um sorriso cheio de segurança no rosto. Se bem que não sei ao certo se ela tem outro tipo de sorriso. Acho que Madison H. já saiu do ventre da sua mãe irritantemente confiante. — Foi o que vim dizer a você. Vou ser sua guia oficial em todas as coisas que você perdeu nos últimos nove anos.
Olho francamente para ela agora, com minha boca em um formato oval de descrença.
— Você só pode estar de brincadeira comigo.
— Não.
— Isso é ridículo.
— Não, não é — diz, colocando a bebê novamente do outro lado. — Vai ser divertido.
— E se eu não quiser?
— Ah, qual é! — diz, fazendo um biquinho como se estivesse chateada. — Você quer. E precisa. Me dê pelo menos uma noite. Se achar horrível, a gente nunca mais repete. Palavra de escoteira.
— Você foi escoteira? — pergunto, com a barriga queimando novamente. Devo ter levado uma picada de inseto ou algo do tipo.
— Não — responde. — É isso que essa frase significa?
Bufo e nego com a cabeça. Em seguida, mudo de assunto.
— Ei, a diretoria se reuniu esse mês?
Ela se surpreende:
— Ah! — A bebê salta em seus braços, assustada. — Não — diz, mais calma. — Nós nos reunimos, tipo, uma vez por ano. Por quê?
— A biblioteca está com um problema de verba. A cidade quer cortá-la.
— Qual a novidade?
— Ah. Bem, vocês podem fazer algo a respeito?
— Na verdade, não — diz. — A diretoria é meio que uma piada. Na maioria das vezes, nós nos reunimos para fofocar e comer o bolo de rum da Enid. Na verdade, não temos poder nenhum. Não como a câmara municipal.
— Hum — digo, enquanto meu coração acelera debaixo da blusa. Alguém deve ter poder para fazer algo. Não posso perder esse emprego. Não vou perdê-lo. Preciso de dinheiro.
Ela coloca a bebê do mesmo lado de quando chegou.
— E aí? Você vai?
Dou-lhe um último olhar feio e levanto as mãos como se estivesse me rendendo.
— Por que não? — pergunto, engolindo a verdadeira pergunta que está me queimando profundamente por dentro: Por quê? Por que Madison H., a garota mais popular da escola, de repente quer ser minha amiga? Ela não tem coisas melhores para fazer com seu tempo? Por que está tão preocupada comigo?
Contudo, mais tarde, enquanto organizo uma exibição de livros sobre Índios Norte-Americanos para o Dia de Ação de Graças, censuro-me por ter esses pensamentos infantis. Não estou mais no ensino médio. Somos adultas. Ela está sendo legal. Eu deveria parar de questioná-la tanto e simplesmente aceitar a ideia pelo que ela é. Além disso, tenho que admitir, é bem legal ter uma amiga.
Ergo o último livro, Alce Negro Fala, no final da fileira e, distraidamente, coço novamente minha barriga. Está queimando um pouco agora, e fico me perguntando se ter coçado tantas vezes minha erupção fantasma, de algum modo, irritou a pele. Levanto a blusa para examiná-la, e um suspiro audível escapa de meus lábios quando vejo minha pele nua — furúnculos inflamados e protuberâncias vermelhas formam uma faixa que está queimando do umbigo até o quadril. No entanto, não entendo — não toquei em ninguém, e ninguém me tocou. Respiro fundo. É provável que seja apenas uma... apenas uma... erupção cutânea. Por causa de outra coisa. Sabão para lavar roupa — não é isso que as pessoas sempre dizem? Mas não troquei de sabão. E já vi essa reação o suficiente na vida para saber exatamente o que é.
O que me assusta é que não faço ideia de como ela foi parar ali.