Perto o bastante para tocar
vinte e seis
ERIC
No ensino médio, quando cheguei em casa do meu encontro com Penny Giovanni, minha mãe estava me esperando à mesa da cozinha com uma xícara de café. Com toda a sua sabedoria infinita, ela sentiu que algo estava errado. Confessei minha frustração por não ter conseguido segurar a mão de Penny e confidenciei pensar que talvez houvesse algo de errado comigo — isso, é claro, foi antes de perceber que havia algo de errado comigo aos olhos de Penny: meu gênero. Mamãe espantou minhas preocupações. “Amor tem tudo a ver com tempo”, disse ela, e a lógica dessa explicação falou diretamente com a minha racionalidade. Confortou-me. Desmistificou os sentimentos frívolos e os corações palpitantes sobre os quais as meninas sempre falavam nos filmes e livros.
Porém, ao sair da casa de Jubilee, percebo que o que ela deveria ter dito é: “Relacionamentos têm tudo a ver com tempo.” Porque o amor — ele aparecerá quando você menos esperar, quando você não estiver procurando por ele, no meio da biblioteca de uma cidadezinha com uma mulher de cabelo rebelde usando uma camisola. Em se tratando de tempo, o amor não está nem aí.
— Encontrei uma terapeuta em New Hampshire que acho que seria ótima para o Aja — diz Janet, deslizando um cartão sobre a mesa para mim. — Ele fez um grande progresso, e não quero que regrida.
Pego o cartão e me endireito um pouco na cadeira para que possa guardá-lo no bolso de trás.
— Não, é claro — digo. — Vou ligar assim que estivermos instalados por lá.
Aja tem progredido, uma vez que venho compartilhando histórias sobre seu pai e ele me deixa contá-las. E até ri de algumas, como a do feriado de Quatro de Julho em que Dinesh comeu trinta cachorros-quentes em uma aposta de que ele venceria o campeão de Coney Island, e depois passou mal por três dias. Até onde sei, ele tem praticado menos sua telecinesia e tem evitado tentar controlar a eletricidade, algo que penso que começou depois do incidente na biblioteca; e acho que talvez já tenhamos passado dessa fase, o que é um alívio.
No entanto, há certa tristeza em seus grandes olhos castanhos, e, em algumas noites, bem tarde, eu o ouço até mesmo chorar. Embora, para ser honesto, desde que saí da casa de Jubilee, não sou exatamente um exemplo de alegria. Somos o que minha mãe chamaria de dois poços de tristeza.
— Quanto tempo esse... processo de dor normalmente dura? — pergunto, sem saber ao certo se estou perguntando por Aja ou por mim.
Ela aperta os lábios em um sorriso amável.
— Mais do que se poderia esperar — diz. — Fica melhor, mas nunca desaparece.
Faço que sim com a cabeça. É bem o que eu esperava.
— Mantenha as linhas de comunicação abertas. E continue ao lado dele — diz ela. — Assim como você vem fazendo.
Coloco as mãos nos joelhos e os empurro para baixo, usando o impulso para me levantar. — Bem, obrigado — digo. Como se diz adeus a uma terapeuta? Um aperto de mão? Devemos nos abraçar? Opto por um pequeno aceno. — Você ajudou muito. A nós dois.
Ela assente.
— Só estou fazendo o meu trabalho.
Ando em direção à porta e coloco a mão na maçaneta.
— Ah, Eric — diz atrás de mim.
— Sim? — Viro-me.
— É sobre Jubilee.
Congelo.
— Acho que seria bom para o Aja dar adeus a ela. Ele parece um pouco... desolado quando fala dela, e no modo como o relacionamento deles acabou tão... abruptamente. Acho que eles ficaram muito próximos.
Ela olha de lado para mim, e me pergunto até onde ela sabe, ou suspeita. Afirmo com a cabeça e levanto a mão para ela em sinal de reconhecimento.
— Obrigado — digo.
Enquanto andamos até o carro, pego o telefone e envio uma mensagem para Ellie. Tenho enviado todos os dias, muito embora ela nem sempre responda. Algumas são sérias e outras, como essa:
Estou pensando em colocar um piercing no nariz. Uma argola ou uma bolinha?
Pai
Coloco o celular de volta no bolso e viro-me para Aja.
— Pizza no jantar? — pergunto enquanto entramos no carro.
— Tanto faz — murmura, enquanto afivela o sinto de segurança.
Andamos por alguns minutos em silêncio. Eu gostaria de ter saído do consultório de Janet antes que ela tivesse a chance de dizer qualquer coisa, mas sei que está certa. Não posso simplesmente varrer a relação de Aja e Jubilee para debaixo do tapete, por mais que queira esquecer Jubilee. Seguir em frente. Não é justo com Aja.
— Ei — digo.
Ele ergue os olhos.
— Você sabe que não é culpa da Jubilee você ter que parar de ir à biblioteca, não sabe?
Ele levanta as sobrancelhas.
— Não é?
— Não — digo. — É minha.
— Ele não pergunta por quê, e ainda bem que não tenho que contar para ele. — Eu sei que ela sente saudade de você. Quer tentar vê-la mais uma vez antes de irmos embora?
Ele morde os lábios e olha pela janela. Depois de alguns minutos, diz:
— Sim. Quero.
— Tudo bem — digo, com muito medo de ter que dizer adeus mais uma vez, ao mesmo tempo em que estou morrendo de vontade de vê-la.
— Vamos no sábado.
Meu telefone faz um zumbido, e o tiro do bolso no próximo sinal vermelho.
Meu Deus, você é muito idiota.
Sorrio.
— E o Rufus? — pergunta Aja naquela noite enquanto arrumamos as últimas caixas na cozinha. Estou escrevendo CANECAS DE CAFÉ com letras pretas grandes na caixa de papelão onde guardei minha coleção, para não perdê-las novamente.
O cão late quando ouve seu nome.
— O que tem ele? — pergunto, dobrando as abas da caixa sobre si mesmas.
— Acho que a gente deveria deixá-lo... com ela — diz ele.
Faço uma pausa.
— Quem? — pergunto, embora já saiba.
— Com a Jubilee.
— Por quê?
Ele dá de ombros.
— Ela gosta dele — diz, lentamente. Então abaixa a cabeça. — E tenho medo de ela se sentir sozinha sem a gente.
Concordo. Meu medo é egoísta; o oposto por conta do ciúme. Estou com medo de que ela não se sinta sozinha por tempo suficiente.
— Sim, amiguinho — digo. — Podemos dar o cão para ela.
Com isso, Rufus late, e o assunto está resolvido.
No início da noite de sábado, paro o carro na frente da casa de Jubilee, mas não na entrada da garagem, tendo decidido que, por mais que eu queira, não posso vê-la novamente. Não frente a frente.
Aja sai e abre a porta de trás para pegar Rufus.
Fico de olho enquanto ele atravessa o jardim escuro até chegar à porta da frente, bate e espera. A luz da varanda se acende. A porta se abre. Rufus pula em cima de Jubilee, e quase a derruba. Fico surpreso ao perceber como ele cresceu nos poucos meses que ficamos com ele. Ela se ajoelha, e ele lambe seu rosto com a língua rosa enquanto ela ri. Ela acaricia sua pele, acalmando-o, e seu rosto fica sério à medida que Aja explica o motivo da sua visita.
Ela faz que não com a cabeça, uma vez. Duas vezes. E então Aja diz algo para convencê-la, e ela sorri, concordando.
Então desaparece lá dentro, fechando a porta. Encolho-me, como se tivesse levado um soco no estômago. Ela nem sequer olhou para mim. Não acenou. E fico me perguntando, embora só tenha feito uma semana, se talvez ela já tenha superado tudo. Talvez seus sentimentos não fossem tão intensos quanto os meus.
Porém, então, percebo que Aja não se mexeu. Não está voltando para o carro. Espero junto com ele pelo que está prestes a acontecer.
Em seguida, a porta se abre. E Jubilee está em pé com um cobertor estendido. Abro a boca para dizer algo. Gritar. Avisá-la que Aja odeia ser abraçado, mas é tarde demais. Ela o envolve com o cobertor, apertando-o muito. E, por um milagre, Aja não se mexe. Ele fica parado ali, permitindo-se ser amado.
Sobre a cabeça de Aja coberta pelo cobertor, vejo os olhos de Jubilee voltados para o carro, à procura dos meus na escuridão. Não sei se ela pode me ver, mas abro um sorriso tão grande que minhas bochechas vão doer por dias. E penso em como fui idiota de não perceber que, de todas as pessoas do mundo, Jubilee seria a única que poderia tocá-lo.