Perto o bastante para tocar

Colleen Oakley · Capítulo 14 de 37

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Perto o bastante para tocar

Parte II

 

Eu moro na possibilidade.

Emily Dickinson

(Vinte anos atrás)

 

The New York Times

 

(...continuação da página 3B) De volta a 1947, 42 anos antes do nascimento de Jubilee Jenkins, um cientista chamado Frank Simon realizou um pequeno estudo para descobrir se a raiva humana poderia ser a causa de alguns casos de eczema — particularmente o eczema infantil. Os resultados deram positivo. Cinco pacientes desenvolveram dermatite atópica quando entraram em contato com as células cutâneas de outras pessoas. Publicado no Journal of Investigative Dermatology, o estudo atraiu pouca atenção, uma vez que a dermatite atópica era uma reação cutânea leve e se sabia que era causada por muitos alérgenos — agora, graças ao doutor Simon, inclusive por outras células cutâneas humanas.

No entanto, o trabalho do doutor Simon não passou

despercebido pelo doutor Gregory Benefield, um expert em alergia formado na Johns Hopkins, em 1967, e pós-graduado com residência na Mount Sinai. “Ele foi a primeira pessoa que me veio à cabeça quando examinei a ficha médica de Jubilee”, diz com a voz profunda e séria de um barítono.

Na verdade, tudo o que diz respeito ao doutor Benefield

é sério — desde a sua gravata-borboleta asseada e os óculos bifocais com moldura grossa aos olhos escuros que só brilharam quando mencionei o nome de Jubilee pela primeira vez.

“Ah, sim.” Ele sorriu. “Meu pequeno mistério ambulante

da medicina.”

Embora o doutor Benefield nunca tivesse se deparado

com um caso de uma pessoa com uma alergia tão grave a outros seres humanos (e, de fato, só existem outros três casos documentados do problema — nenhum nos Estados Unidos), ele tinha um palpite sobre a possível causa.

“Lembrei-me do trabalho do doutor Simon da época dos

meus estudos de pós-graduação”, diz ele. “E todo médico antes de mim — e houve muitos — descartou quase todas as demais possibilidades. Eu só pensei: E se? Realizei alguns testes simples — experimentos, na verdade. Nós a mantivemos em uma ala de isolamento por uma semana, e seus sintomas melhoraram. Então toquei seu braço para ver o que aconteceria. Como era de esperar, uma hora depois, uma erupção cutânea. Parecia ser a causa do seu problema.”

Seu problema, que, após mais testes, finalmente teve um

diagnóstico: alergia a seres humanos.

“É a coisa mais fascinante, geneticamente falando”, diz o

doutor Benefield. “Quando o indivíduo é alérgico a algo, como uma proteína alimentar, por exemplo, seu corpo a confunde com um invasor e a ataca, liberando anticorpos e histaminas. É uma confusão compreensível até certo ponto — é uma proteína estranha, não apenas perigosa. Porém, para o corpo humano, atacar outras proteínas humanas significa que a pessoa afetada não tem pelo menos uma dessas proteínas — esses elementos fundamentais que nos tornam humanos. Tecnicamente falando, isso a torna não humana?”

Uma teoria surpreendente, com certeza, mas o doutor

Benefield não fala literalmente, ele me assegura. “Há, obviamente, alguma mutação genética no seu DNA — uma variação que a deixa sem uma ou mais proteínas humanas.” Estima-se que o corpo humano seja composto por mais de dois milhões de proteínas. “Ela seria uma candidata fascinante para mapeamento genético.”

Ele não é o único a pensar assim. Uma vez divulgado o

problema peculiar de Jubilee, a senhorita Jenkins recebeu inúmeros telefonemas e pedidos de pesquisadores de todo o

país — e, em alguns casos, internacionais — para estudarem o problema da menina.

Contudo, mais testes ou o sequenciamento genético

poderiam levar à cura?

“Talvez no futuro”, diz o doutor Benefield. “Ainda há

muita coisa que não sabemos, particularmente como curar alguém com esse problema. Estudos estão em andamento, mas nossas melhores práticas no momento consistem em administrar sintomas — no caso de Jubilee, mantê-la longe de qualquer contato pele a pele com outro humano — e em alimentar a esperança de que as crianças se livram das suas alergias com a idade.”

“Isso acontece com frequência?”, pergunto.

“Acontece”, diz ele. “Embora normalmente não com

alergias muito graves.”

“Como a de Jubilee?”

“Como a de Jubilee.” (... continua na página 26E)