Perto o bastante para tocar

Colleen Oakley · Capítulo 19 de 37

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Perto o bastante para tocar

treze

ERIC

Sete recados na caixa postal. Cento e quarenta e dois e-mails. Vinte e três mensagens de texto. (Nenhuma de Ellie.) Essa é a merda que estou tentando limpar, sentado à mesa da cozinha às 17h30 na quarta-feira, enquanto um pacote inteiro de macarrão parafuso cozinha no fogão.

Fato pouco conhecido: se pensam que seu filho possivelmente tentou suicídio, só vão deixá-lo voltar à escola quando um profissional disser que ele já não é um risco para si mesmo nem para os outros. E esse profissional talvez só tenha horário na quinta-feira. E, uma vez que o paciente deve ser supervisionado o tempo todo, e como eu não consegui encontrar uma babá em um prazo tão curto, aqui estamos nós.

Porém, as tantas coisas das quais tenho que me inteirar não são culpa de Aja. Em vez de trabalhar em casa durante a semana toda, como disse ao meu chefe que faria, passei os três dias com o nariz enfiado em um livro. A manhã inteira e grande parte da tarde de segunda-feira foram dedicadas à releitura de As Virgens Suicidas. Era como se uma luz tivesse se acendido, e sei que foi Jubilee quem apertou o interruptor. Frases começaram a saltar diante dos meus olhos, como se fossem escritas só para mim.

Como: Naquele momento o sr. Lisbon sentiu que não sabia quem ela era, que filhos eram apenas estranhos com quem a gente concorda em viver.

E me perguntava se esse Jeffrey Eugenides realmente era um gênio. Ou talvez apenas um pai. Depois da notícia de Stephanie, tentei ligar para Ellie algumas vezes para falar sobre sua suspensão, mas ela não atendeu. Pensei em lhe enviar uma mensagem sobre o assunto, mas fiquei com medo de afastá-la ainda mais. Em vez disso, enviei-lhe mais uma das minhas frases favoritas do livro. A resposta de Cecilia, que, quando perguntada por seu médico por que havia tentado suicídio quando era muito jovem para saber quanto a vida fica ruim, disse: “É óbvio, doutor, você nunca foi uma menina de 13 anos.”

Ah!, escrevi após a citação. Boa! Com amor, pai.

Agora estou no meio de A Redoma de Vidro. Ellie escreveu em seu diário que queria ser editora de revistas em Nova York, o que me surpreendeu. Nem sabia que ela gostava de escrever. Ou ler revistas. No entanto, o que mais me preocupa é o modo como disse que “se identifica totalmente” com Esther, a personagem principal, que está claramente passando por algum tipo de depressão maníaca.

Fecho meu e-mail e me pego pensando em Jubilee, no que ela diria sobre esse livro. Sobre Esther. Sobre Ellie.

— A água da panela está derramando.

Levanto os olhos e vejo Aja parado à porta. Depois olho para o fogão.

— Droga!

Dou um salto e, sem pensar, pego o cabo da panela para tirá-la da boca do fogão. O impacto do calor na palma da minha mão com minha estúpida falta de jeito, de alguma forma, faz a panela inteira parar no chão, e uma cascata de água fervente e macarrão se espalha por todo o piso. Milagrosamente, escapo dos respingos, mas meus sapatos já estão absorvendo o líquido gosmento quente e meus pés começam a queimar.

— Tudo bem? — pergunto.

Aja fica parado ali, de braços cruzados.

— O macarrão já era.

Suspiro.

— Sim. — Vou deslizando até onde ele está para poder me livrar das meias e dos sapatos encharcados de água. — Quer pizza?

— Cachorro-quente com chili.

Abro a boca para dizer que não existe entrega de cachorro-quente com chili, mas estamos trancados nessa casa o dia todo, e acho que poderia ser bom sair um pouco.

— Maravilha — digo. — Deixa o papai limpar essa bagunça e nós vamos.

Vinte minutos depois, estamos saindo do drive-thru. Eu deveria virar à esquerda para ir para casa, mas, em vez disso, viro à direita.

Quero vê-la. Jubilee.

Faz parte da educação. Ver como ela está. Ter certeza de que está bem.

Engulo um cachorro-quente no caminho e, quando entramos no estacionamento, olho pelo espelho retrovisor para ver se estou com alguma sobra de pão nos dentes.

— O que estamos fazendo aqui? — pergunta Aja entre uma mordida e outra.

Olho para ele.

— Tenho que renovar meus livros.

— Você não trouxe nenhum livro.

Merda. Ele tem razão.

— Acho que conseguem fazer isso pelos computadores.

Ele tira um salgadinho enrugado de dentro do pacote no colo.

— Posso ficar no carro?

Hesito. Realmente não quero deixá-lo sozinho depois de tudo o que aconteceu, mas é o estacionamento de uma biblioteca, penso, e poderei vê-lo pela janela.

— Acho que sim — digo, e então: — Mas apenas coma o seu lanche. Nada desse negócio telecinético ou de destruição ou qualquer coisa, entendeu?

Ele assente, e eu me pergunto quantas outras pessoas precisam dar essa ordem aos filhos antes de deixá-los sozinhos por cinco minutos.

Tiro os olhos de Aja e olho pelo para-brisa dianteiro do carro. De onde estou no estacionamento, tenho uma linha de visão direta do interior iluminado da biblioteca. E de Jubilee. Ela está em pé junto ao balcão, com o rosto parcialmente ofuscado pelas vinhas rebeldes de cabelo. Não sei por que estou tão atraído por ela. Ela é bonita, sim, mas é mais do que isso. Há algo diferente nela... O modo como é comedida, mas, ao mesmo tempo, completamente vulnerável. Ela é como um cubo mágico em que me vejo ansioso para formar um padrão que faça sentido. Ou talvez eu esteja ansioso para descobrir por que não paro de pensar nela. Não sei. Nunca conheci ninguém como ela. E nunca fui bom em cubos mágicos.

Meu estômago faz barulho. Tomo um gole da água que veio com meu lanche para tentar silenciá-lo. Não deveria ter comido tão rápido.

Ao entrar, percebo que a biblioteca está praticamente vazia, exceto por um homem sentado em um travesseiro, jogando o que parece ser um videogame de golfe em uma mesinha individual. Pergunto-me se ele acabou de passar por uma cirurgia ou algo assim.

— Noite parada — digo quando chego a poucos metros do balcão e de Jubilee.

Ela se assusta e olha para mim com os olhos arregalados. Nunca realmente os notei, além do fato de serem castanhos. Porém, sob a luz fluorescente da biblioteca, parecem chocolate salpicados de caramelo.

— Desculpe. Não quis assustar você.

Ela suaviza a expressão.

— Tudo bem — diz. — Estava tão quieto aqui. Não ouvi você entrar.

Ficamos olhando um para o outro por alguns segundos, e examino seu rosto de perto. Seus lábios e bochechas parecem um pouco melhores, não tão vermelhos ou inchados. Tiro os olhos da sua boca e os passo pelo seu pescoço, pelo terninho mal ajustado, pelas mãos revestidas com luvas de couro. As mesmas luvas que usou no Halloween. Olho para elas por um instante.

— Hum... posso ajudá-lo? — Ela olha para a parede ao nosso lado, e acompanho seu olhar. Um relógio. Ele marca 18h55.

— Sim, desculpe. — Dirijo meus olhos para seu rosto novamente. — Preciso renovar meus livros.

Ela olha para minhas mãos vazias e depois estreita os olhos.

— Você não acabou de retirá-los? No Halloween?

— Sim.

— Você tem três semanas. Só se passaram... — Ela calcula os números na cabeça. — Onze dias.

— Ah. — Bato os nós dos meus dedos levemente no balcão. — Certo. Bom, bom. Então não expiraram.

Vim com a intenção de lhe perguntar sobre A Redoma de Vidro, mas agora vejo que não sei como fazer isso. Ou talvez eu não queira que a conversa acabe tão rápido.

— Como está se sentindo? — pergunto no exato momento em que ela pergunta:

— Você está fazendo alguma aula ou algo do tipo?

Nós dois rimos.

— Você primeiro — digo.

Ela repete a pergunta.

Inclino a cabeça.

— Como assim?

— Sei lá; você está tendo aulas de literatura moderna? Só estava tentando descobrir por que está tão interessado em As Virgens Suicidas. Você não faz parte exatamente do público-alvo.

— Não? Quer dizer que não tem muitos homens de meia-idade retirando livros para jovens adultos o tempo todo?

— Você está longe da meia-idade — diz ela, depois olha para baixo.

Está fazendo aquela coisa novamente, quando é ousada e atrevida, mas, em seguida, fica subitamente tímida e sem jeito. É uma dança, e não sei os passos.

— É para a minha filha — digo.

Ela franze as sobrancelhas.

— Filha?

— Sim. Ellie. Ela tem 14 anos. Mora em New Hampshire com a mãe. — E acrescento: — Minha ex.

Ela franze a sobrancelha.

— Então... vocês fazem parte de um clube do livro de pais e filhas ou algo assim?

Ofereço um sorriso largo, mas sei que é um triste impostor. Como explico o que estou fazendo? Afinal, o que estou fazendo?

— Mais ou menos isso — digo. — Só estou, sei lá, lendo alguns dos livros que ela leu, tentando me identificar com ela, acho. Tentando compreendê-la melhor. — Ela olha novamente para o relógio. — Desculpe, é... que horas a biblioteca fecha?

— Às sete — diz. — Mas tudo bem. Michael ainda está aqui.

Ela faz um sinal na direção do homem com o travesseiro. Olho para ele e depois novamente para ela e decido que devo ir ao que interessa.

— Então, você leu A Redoma de Vidro, certo?

— Claro — responde, como se todo mundo tivesse lido, enquanto eu só fiquei sabendo da existência dele por causa do diário de Ellie.

— Se alguém se identifica para valer com Esther, acha que isso é preocupante? Tipo, talvez essa pessoa seja, sei lá, suicida ou algo assim?

— Estamos falando da sua filha?

— Sim.

Ela franze a boca como se realmente estivesse pensando, ou talvez apenas estivesse tentando lembrar detalhes do livro, e noto que tem uma leve projeção do lábio inferior, forçando o superior a se projetar também, como se fosse a aba de um chapéu minúsculo. Fico olhando para ele, incapaz de desviar o olhar. Finalmente, ela diz:

— Acho mais preocupante quando uma adolescente não se identifica com Esther.

— Sério? — pergunto, levantando os olhos para encontrar os dela. — Por quê?

— Bem, ela está se debatendo, certo? Ela se sente presa, insegura, não sabe ao certo quem é e qual é o seu lugar no mundo. Mesmo fazendo aquele estágio glamoroso pelo qual outras garotas matariam, ela se sente uma impostora.

— E isso é bom? Baixa autoestima?

Ela prende o minúsculo lábio inferior nos dentes.

— Melhor do que a alternativa.

— Que é...?

— Você já esteve no ensino médio. Existe alguma coisa pior do que um adolescente arrogante?

Rio e, em seguida, sinto uma pequena angústia ao pensar em Ellie lutando com essas grandes questões da vida, imaginando onde se encaixa.

— Mas, então, mais uma vez — diz Jubilee —, esse livro é parcialmente autobiográfico, e Sylvia Plath se matou um mês depois da publicação. Então, o que eu sei?

Fico olhando para seu rosto inexpressivo, até que ela abre um pequeno sorriso.

— Obrigado — digo, com uma risada suave, tentando esconder minha surpresa com sua sagacidade. — Ajudou muito.

Ela olha para as mesinhas individuais com computadores. Sigo seu olhar e vejo que Michael acabou de desligar a tela do computador e está em pé agora, alongando-se. Observo-o pegar o travesseiro e lentamente seguir em direção à porta.

— O que você tem que fazer para fechar a biblioteca? — pergunto.

— Não muito — diz. — Apenas apagar as luzes. Trancar.

— Posso acompanhá-la? — A pergunta simplesmente sai da minha boca, mas, então, quando ela olha para a mesa, receio que foi muito atrevido da minha parte.

— Hum...

— Desculpe, culpa da minha avó.

— O quê? — pergunta ela, olhando para mim, confusa.

— Sei que estamos na era moderna — explico, esfregando minha mandíbula —, mas tenho certeza de que ela se levantaria do túmulo e me mataria se eu, pelo menos, não me oferecesse para isso.

— Hum... tudo bem — diz, levantando o lado direito da boca. — Só preciso pegar meu casaco.

Do lado de fora, olho para o banco da frente do carro, onde Aja está tomando refrigerante com o canudo. O ar da noite havia antecipado temperaturas ainda mais baixas, e espero que ele não esteja congelado, sentado lá dentro. Colocando minhas mãos nos bolsos do meu casaco para tentar mantê-las quentes, viro-me na direção de Jubilee, que está atrapalhada com as chaves e a fechadura. Quando termina, pigarreio. Olho para o estacionamento, iluminado pelo poste de luz da rua, e é quando percebo que o meu carro é o único lá.

— Onde está o seu carro?

— Ah, hum. Venho trabalhar de bicicleta.

Sei que ela estava de bicicleta quando salvou Aja, e estava frio naquele dia, mas não tão frio quanto hoje.

— Você é uma ambientalista assumida ou algo do tipo?

— Não — responde e, então, faz uma pausa, considerando. — Quer dizer, fecho a torneira quando escovo os dentes.

Meus lábios se abrem em um sorriso.

— Então, por que vem trabalhar de bicicleta com esse tempo? Eu vi um carro na sua garagem ontem.

Ela faz que sim com a cabeça.

— Ele não pega. Esperava que fosse apenas porque estava sem combustível, mas não era isso.

— Posso ajudá-la com isso? — A pergunta sai de minha boca antes que eu possa pensar, mas ela salvou a vida de Aja e isso é o mínimo que posso lhe oferecer.

— Você quer comprar um carro novo para mim?

Tenho um ataque de riso, como um tiro de canhão passando pelo cano. O som atravessa o ar. Ela sorri para mim, e é como se algo tivesse se quebrado entre nós. A estranha falta de jeito que parecia pairar como uma névoa no hospital, em frente à sua casa e agora na biblioteca, se vai. Minhas mãos já não sentem frio.

— Ah, não — digo. — Não exatamente, mas eu poderia dar uma olhada no carro para você. Ver qual é o problema.

— Você sabe consertar carros?

Encolho os ombros.

— Um pouco.

Ela morde o lábio enquanto pensa no assunto, e tento não olhar. Não consigo.

Depois do que parecem ser dois minutos inteiros de silêncio, seus olhos encontram os meus novamente.

— Tudo bem.

— Tudo bem — digo. — No sábado?

— Tudo bem — repete.

Olho para Aja, que está olhando pelo para-brisa, seu lanche há muito se foi. Sei que preciso levá-lo para casa, mas, estranhamente, me vejo sem vontade de sair do lado de Jubilee.

Viro-me para ela.

— Bem, posso dar uma carona para você? Está congelando essa noite. Literalmente. O termômetro no banco marcava abaixo de zero.

— Não, estou bem — diz. — Estou acostumada com isso.

Insisto mais uma vez.

— Tem certeza?

— Sério. Não precisa — diz ela. — Mas obrigada.

— Tudo bem — digo, aceitando a derrota. — Bem, boa noite, Jubilee.

— Boa noite.

Sento-me no banco do motorista e fico observando-a passar uma das pernas por sobre a bicicleta, tirá-la do estacionamento e ir embora pela rua silenciosa, uma pequena massa escura sob a luz dos postes. Noto que não há nenhum refletor na bicicleta, e tenho o súbito impulso de segui-la. Mantê-la segura. Observo-a pedalar até perdê-la de vista e, então, encosto-me no apoio para cabeça do banco e expiro.

Menti. Não sei nada sobre consertar carros.

Meu pai sabia fazer tudo sozinho. Ele sempre tinha algum tipo de sujeira e graxa debaixo das unhas e passava finais de semana inteiros na garagem fazendo sabe lá Deus o quê. Connie se juntou a ele quando tinha idade suficiente, e os dois analisavam problemas de carro durante o jantar como se discutissem procedimentos médicos de vida e morte. Ele tentou me ensinar a trocar o óleo uma vez, mas eu simplesmente não conseguia entender onde ele queria chegar quando havia uma oficina mecânica a menos de três quilômetros e meio da nossa casa.

Não sei por que me ofereci para dar uma olhada, exceto que tinha esse desejo fortíssimo de fazer algo por Jubilee. Por essa mulher que, em tão pouco tempo, fez tanta coisa por mim. Como saltar na correnteza fria e puxar meu filho para a segurança. O mínimo que eu poderia fazer era tentar consertar seu carro. Pelo menos era isso que eu estava dizendo a mim mesmo.

Sentado na sala de espera da terapeuta enquanto Aja termina sua sessão na tarde de quinta-feira, teclo uma mensagem para Ellie:

Não sabia que você queria trabalhar com revistas. Pai.

Em seguida, procuro no Google: Carro não dá partida. A primeira entrada que aparece é “solução de problemas de carro para estúpidos”. Em vez de me sentir ofendido, estou grato. Talvez realmente entenda parte da terminologia. Porém, depois de examinar os primeiros parágrafos, percebo que é impossível e guardo o telefone. Fico em pé para me servir, em um copo de isopor, do que estou certo de que é café frio, de dentro do recipiente de vidro de uma máquina que está sobre uma mesa abarrotada de revistas. Enquanto dou um gole no líquido lamacento morno, a espessa porta de madeira à minha frente se abre e Aja sai. Coloco um sorriso acolhedor no rosto.

— Como foi lá, amiguinho? — Minha voz está carregada de uma alegria forçada, como se ele tivesse acabado de jogar uma partida de basquete, em vez de passar uma hora na terapia.

Ele encolhe os ombros sem olhar na minha direção e pega o iPad que deixou na cadeira ao meu lado. Senta-se e coloca os fones enquanto a terapeuta, que se apresentou como Janet quando chegamos, aparece na porta pela qual Aja acabou de sair.

— Senhor Keegan? Poderia entrar para conversarmos?

— Já volto — digo a Aja, que já está absorto no mundo da sua tela.

Ele não me nota. Constrangido, olho para Janet, que me oferece um sorriso de consolação.

No consultório, sento-me na cadeira em frente à sua mesa. Uma foto de três crianças louras, todas com sorrisos bonitos e roupas brancas e cáqui combinando, em uma praia cheia de areia, olha para mim.

— São suas? — pergunto.

Ela afirma com a cabeça, e tenho que me controlar para não revirar os olhos. Pergunto-me se já lhe ocorreu como é desagradável ver uma família perfeita exposta enquanto você está ali para discutir as imperfeições da sua. Talvez seja sua forma de apresentar credenciais. Olha, meus filhos podem ficar em fila e sorrir ao mesmo tempo com roupas sem rugas e que combinam! Sua família pode ser tão bem-ajustada quanto a minha, assim que encontrarmos uma solução para esses pensamentos suicidas/delirantes!

— Todos já são adultos agora — diz ela. — Difícil de acreditar.

— Hummm. — Eu a observo mais de perto.

À primeira vista, pensei que tivesse, no máximo, uns 39 anos. Agora posso ver uma fina linha cinza aparecendo na raiz das suas mechas louras, presas firmemente em um coque. E a pele do seu rosto está um pouco esticada demais. Ao examiná-la mais de perto, vejo que ela parece bem preservada.

— Bem, é óbvio que você tem um filho muito inteligente ali fora — diz, sentando-se lentamente em sua grande poltrona de couro.

Eu normalmente diria obrigado, mas estou muito estressado — em relação ao trabalho, Aja e à vida — para lidar com sutilezas. Vou direto ao assunto.

— Você acha que ele é suicida?

Seus olhos se arregalam por um instante, e ela faz um não rápido com a cabeça, como se entendesse que só quero seguir com isso.

— Não — responde. — Não acho.

— Ótimo. — Entrelaço as mãos à minha frente. — Você assinou a papelada necessária? Preciso dela para a escola dele.

Ela tira uma folha de papel da pilha à sua frente e a desliza pela mesa, em minha direção.

— Eu gostaria de ver Aja uma vez por semana.

— Por causa desses delírios? — pergunto. — Está ótimo. Vou conciliar com o trabalho. — Pego meu telefone e a folha de papel que ela me deu e começo a me levantar.

— Não — responde ela.

Congelo, com o corpo ainda não completamente estendido; e olho-a.

— Não? Não o quê?

— Não quero vê-lo por causa dos delírios, embora seu modo de agir com base neles seja preocupante. E discordo da avaliação da terapeuta anterior. Acho que ele pode estar no espectro — diz ela. — Mas, nesse momento, eu gostaria de vê-lo por causa da dor que ele sente.

A gravidade me faz sentar novamente na cadeira e franzir as sobrancelhas.

— Dor?

Tento me lembrar de Aja chorando ou se comportando de forma triste. Não consigo. Nem mesmo acho que ele chorou no funeral, embora minha memória daquele momento seja fragmentada, na melhor das hipóteses, considerando que eu estava no meio de uma enorme auditoria, trabalhando 16 horas por dia, com a notícia de que meu melhor amigo estava morto e que descobri, da noite para o dia, que o número de filhos que eu tinha dobraria.

— Eu não... não sei ao certo... os pais dele morreram há mais de dois anos. Ele comentou isso com você?

— Não... ele não disse muita coisa. Eu li a ficha dele — diz. — Mas percebi isso por causa das poucas coisas que ele disse pelas quais nunca sofreu. Acho que não sabe como fazer isso.

Tento assimilar o que ela disse. Existe uma maneira adequada de sofrer? Um passo a passo? Pensei que a gente apenas chorasse um pouco e seguisse em frente. Minha mente lembra rapidamente o dia em que cheguei da escola, quando era criança, e Alvin, meu ratinho, estava deitado na gaiola, imóvel. “Ânimo”, disse minha mãe. “A vida continua.” Só me lembro de pensar: Não para o Alvin.

— Você fala sobre os pais dele? — pergunta ela, interrompendo meu devaneio. — Fala com ele sobre o passado? Conta histórias?

Fico pensando. É claro que sim. Penso em Dinesh tantas vezes. O que ele faria em meu lugar. Como ele era um pai, um marido, tudo, muito melhor do que eu. Como ele não estragaria as coisas do jeito que muitas vezes eu estrago. Mas falo sobre ele? Com Aja?

— Não tenho certeza — digo.

— Humm — diz ela, mas aquela sílaba curta carrega um mundo de julgamento.

— O que isso significa?

— Nada — diz ela. — Eu gostaria que você tentasse fazer isso nessa semana. Fale para Aja alguma coisa sobre o pai dele; qual era o nome dele?

— Dinesh — digo. Minha voz embarga no “nesh”, e isso me surpreende. Pigarreio.

— Ou sobre a mãe dele.

— Kate.

A imagem dela aparece rapidamente diante de mim. Os cachos escuros, como os de uma elfa, emoldurando as bochechas rechonchudas e um sorriso grande demais para o rosto dela. Quase posso ouvir sua risada extravagante em resposta às palhaçadas de Dinesh. Soava como um sino em um dia tempestuoso. Ou talvez seja só minha lembrança disso.

Engulo em seco.

— Você pode fazer isso?

— Sim — digo. — Posso fazer isso. — Junto as minhas coisas e me levanto pela última vez. — Obrigado, doutora... — Olho ao redor na tentativa de ver uma placa de identificação, já tendo me esquecido do seu sobrenome.

— Ah, por nada. É Janet.

A caminho de casa, Aja ainda está entretido com seu jogo. Dou um tapinha no seu ombro.

— Você pode, por favor, tirar esse negócio?

— Hã?

— Os fones de ouvido. Tire — digo, mais alto.

Ele engancha um dedo em cada fio e tira.

— Precisamos conversar — digo.

Ele olha para o painel do carro.

— Volto a trabalhar amanhã — digo. — E você vai voltar para a escola.

Silêncio.

— Mas a assistente social no hospital diz que não posso mais deixar você sozinho à tarde, por isso aquela mulher boazinha que veio na terça-feira, a senhora Holgerson, estará à sua espera quando você descer do ônibus. Ela vai ficar com você, arrumar o apartamento e fazer o jantar para nós dois. Ao que parece, ela é muito boa em fazer comida sueca.

Quando percebi que precisava de alguém para cuidar de Aja depois da escola, Connie perguntou em seu escritório e uma assistente jurídica conhecia uma babá aposentada que estava procurando algo de meio expediente. Glenda Holgerson cheirava um pouco a cebolas cozidas, mas tinha um currículo impressionante e uma conduta firme, mas gentil, e não hesitou quando lhe falei sobre os problemas recentes de Aja. Contratei-a no mesmo instante e acrescentei isso à lista bem longa de coisas que devo à minha irmã.

— Aja — digo.

Ele não responde, e continuo falando:

— Você se lembra daquelas almôndegas que comia na IKEA? Acho que ela pode fazer umas iguais. Ela mencionou algum tipo de sobremesa também. Fila? Fika? Alguma coisa assim. De qualquer forma, será bom tentarmos algumas coisas novas.

Aja murmura algo.

— O quê?

— Disse que não preciso de uma babá.

— Eu sei. Na verdade, ela não é uma babá. Apenas alguém que estará por perto caso você precise de alguma coisa.

— É uma estranha — diz ele. — Não gosto de estranhos.

— Na verdade, ela não é uma estranha. Quer dizer, você a conheceu na terça.

— Por que as coisas não podem continuar como eram?

— Porque não, está bem? — Digo, e minha voz sai mais alta do que gostaria.

A essa altura, Aja pega os fones e volta a colocá-los nos ouvidos.

Suspiro e ligo a seta enquanto entro no estacionamento do complexo de apartamentos. Meu telefone toca no bolso pela terceira vez desde que entramos no carro e, quando estaciono, tiro-o para checar as ligações do trabalho e as mensagens que sei que perdi.

Cinco são do meu chefe, como eu suspeitava.

Mas a sexta? Ah, a agradável sexta. É de Ellie.