Perto o bastante para tocar

Colleen Oakley · Capítulo 26 de 37

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Perto o bastante para tocar

vinte

JUBILEE

Dezembro é cheio de surpresas. Na primeira semana, Madison me forçou a comprar um telefone celular.

— É estranho você não ter um — disse ela. — Celulares são praticamente obrigatórios. — Metade de um Xanax e, uma hora depois, eu estava eufórica por ter um, mas agora ele parece meio inútil, porque a única pessoa que liga para mim é Madison.

Na segunda semana, Eric me convidou para passar o Natal com eles. Não acho que ele realmente quisesse a minha presença — provavelmente foi mais uma questão de não ter escapatória e não ter, na verdade, uma escolha.

— O que você vai fazer no Natal? — perguntou, em tom informal, enquanto voltávamos para casa certa noite.

— Quando vai ser, na próxima sexta?

Ele riu, e percebi que ele estava falando sério.

— Hum, sim — disse. — Você comemora ou algo assim?

Fiz um rápido não com a cabeça.

— Não. Odeio o Natal. — Não tinha a intenção de dizer isso, mas simplesmente saiu.

— Você odeia o Natal?

Faço que sim com a cabeça.

— Por quê?

Os primeiros anos depois que minha mãe foi embora, fiz um esforço. Colocava o CD Now This Is Christmas, com melodias populares do terrível feriado, ao som das quais ela ficava dançando pela casa. Tirava do armário a caixa de decorações com metade delas caindo aos pedaços e colocava algumas aqui e ali. Mas, quando realmente chegava o dia, o fato de olhar para elas, especialmente para a estatueta de plástico de Papel Noel sem metade da barba de algodão, deixava-me triste. Nunca me importava de morar sozinha — de verdade, não —, exceto naquele dia. Aquele dia inevitável em que cada programa e comercial na TV e cada música fazem você se lembrar de que deveria estar com alguém. Porque, na verdade, de que adianta comemorar um feriado que se resume a dar presentes quando você não tem ninguém a quem dar um presente? Meu aniversário não é muito melhor, para ser honesta, mas, pelo menos, não há uma centena de lembretes de que estou sozinha nesse dia.

O fato é que tudo isso parece meio patético, até mesmo para mim, por isso tentei explicar desta forma:

— Não sei, o comércio. Toda aquela alegria forçada. Ah, e as luzes! Meu Deus, as luzes. Olhe para esse bairro — digo, sacudindo a mão em direção à janela. — Parece uma pista de aeroporto! Como se esperassem um 737 pousar a qualquer minuto.

Eric ri alto.

— Um Grinch da vida real. Eu nunca teria imaginado. E agora? Vai se enfiar em todas as casas para roubar os presentes das crianças?

— Quem sabe — respondo, dando-lhe um sorriso de lado.

— Você deveria ir lá para a nossa casa — disse Aja. — Eric vai cozinhar.

E foi quando Eric se mexeu no banco e pigarreou.

— Sim, você deveria ir. Você é bem-vinda. Sério, se você quiser. Sem pressão.

Viu? Não acho que ele realmente quisesse me convidar, o que explica por que hesitei antes de sair do carro.

— O convite está feito — gritou depois que saí. — A menos que você não tenha o coração do tamanho certo!

*

A maior surpresa acontece na terceira semana do mês, quando entro na biblioteca na segunda de manhã e encontro Roger em pé no balcão, parecendo desesperado. Ou confuso. Não sei dizer.

— Louise foi demitida — disse.

— O quê?

— A primeira coisa que aconteceu hoje de manhã. Ela entrou. Maryann a chamou lá nos fundos e fim de papo.

Não consigo encontrar palavras. Louise? Pensei que ela fosse como um objeto permanente na biblioteca.

— Há quanto tempo ela trabalhava aqui?

— Desde antes de eu começar. E isso faz oito anos. Eu diria, tipo, uns 15 anos, pelo menos. — Ele balança a cabeça. — Foi horrível; você devia ter visto. E numa segunda-feira, também. Ela estava chorando. Então eu comecei a chorar. — Ele engasga um pouco enquanto fala e põe um dedo sobre a boca. Com lágrimas se acumulando nos olhos, ele mantém os olhos em mim por um segundo e, em seguida, vai para a sala dos fundos.

Atordoada, fico parada ali, ainda de casaco e com a bolsa atrás do balcão. Não tenho certeza do que fazer. Como Louise foi demitida?

Por quê? Se a câmara municipal cortou a verba, eu é que deveria ter sido demitida. O último a ser contratado é o primeiro a ser demitido, como ela mesma disse.

Maryann sai da sala dos fundos e para quando me vê. Seus ombros ficam tensos.

— Olá — diz ela.

A palavra soa estranhamente formal, mas, por outro lado, ela acabou de demitir uma mulher que parecia ser não só uma colega de trabalho, mas também uma amiga, por isso imagino que seu humor não esteja muito bom.

— Bom dia — digo.

— Já ficou sabendo, né?

Afirmo com a cabeça.

— É terrível.

Ela joga um pouquinho a cabeça para trás e morde o lábio, como se estivesse evitando chorar.

— Bem, vamos todos ter que acelerar um pouco as coisas por aqui, já que estaremos com menos mão de obra.

— Claro — digo. — O que for preciso.

Ela pigarreia e segue em direção à mesa para pegar uma pasta, depois volta para os fundos sem dizer outra palavra.

O dia passa voando e, apesar de Louise e eu nem sempre termos tido o mesmo horário de trabalho, é estranho não a ter por ali. Estranho saber que ela não voltará. É emocionalmente desgastante e, quando Aja entra, às quatro horas, dou-lhe meu habitual aceno e, em seguida, deixo-o em paz para aproveitar a tarde. Não tenho energia para as nossas conversas de sempre.

— Qual o problema? — pergunta Eric no caminho para casa.

— Hã? — pergunto, ainda pensando em Louise.

— Parece que você... não está bem.

E me pergunto como sou para ele. Quem sou. O que ele pensa de mim quando estou “bem”.

Conto o que aconteceu na biblioteca e sobre a falta de verba, e que Louise era a última pessoa que alguém esperava ser demitida.

Eric ouve atentamente e depois diz:

— Antes ela do que você, né? — Mexo-me no banco do passageiro, mas não respondo. — Desculpe, foi insensível de minha parte.

Concordo com a cabeça.

— Se servir para alguma coisa, tive um dia de merda também.

— Você não deveria dizer “merda” — manifesta-se Aja no banco de trás.

— Você também não — diz Eric.

— O que aconteceu? — pergunto.

— Um dos nossos clientes está adquirindo uma S&P 100 e a diligência devida está uma b... — Ele olha para Aja no banco de trás e tosse. — Está péssima — diz. — Não conheço a minha equipe, já que sou novo no escritório, por isso não estou 100% confiante de que eles consigam o LAJIDA ou o fluxo de caixa esperado, ou qualquer outra coisa nesse sentido, e argh, é muita... muita supervisão. Muita pressão.

Fico olhando para ele.

— Você falou a minha língua?

Ele ri e balança a mão.

— Deixa para lá. Chega de falar de trabalho — diz.

Porém, depois desta declaração, parece não haver mais assunto e o carro fica em silêncio pelo restante do trajeto.

Na quinta-feira daquela semana, Madison me envia minha primeira mensagem de texto.

Deixei uma coisinha para você na varanda.

Abro a porta da frente e encontro uma dúzia de donuts de maçã em uma caixa branca, um envelope com um Xanax e um cartão que diz: Sei que vou precisar de um no Natal — pensei que você talvez precisasse também. P.S.: Só tome meio comprimido por vez, Bobby McFerrin.

Vou para a cama com os donuts e como quatro deles enquanto releio O Parque dos Dinossauros. Acabo dormindo em um mar de migalhas.

Na manhã seguinte acordo e dou uma olhada no relógio. São 9h15. Resmungo, estico-me, olho para a mesinha de cabeceira onde deixei o comprimido e pego o livro, abrindo-o na página em que parei na noite anterior. Ao meio-dia, olho novamente para o comprimido. Realmente não preciso dele — não vou a lugar nenhum hoje. Mas, então, mais uma vez, por que não? Se ele me ajudou a dominar minha ansiedade na cidade, talvez me ajude a odiar um pouco menos o Natal. Jogo-o na boca e engulo, só então me lembrando da instrução de Madison para cortá-lo ao meio. Vixe!

Deito de barriga para cima e espero a sensação relaxante começar a fazer efeito. Não demora muito. Às 15h, estou morrendo de fome e percebo que ainda não comi hoje. Enjoada de donuts de maçã, desço e reviro a geladeira. Quase sem mantimentos — o mercado só entrega as compras na segunda —, fico em pé junto ao balcão, comendo um pedaço de pão puro, uma massa mole e sem graça na minha boca seca. É quando me lembro do que Aja disse quando me convidou: Eric vai cozinhar! Meu estômago ronca.

Acho o cartão de visita de Eric na minha mesa e ligo para ele. Ele atende no terceiro toque.

— A oferta ainda está de pé? — percebo, tarde demais, talvez, que foi ousado, quase deselegante, e muito diferente de quem sou, mas realmente não estou nem aí. A frase da música, Don’t Worry, Be Happy, fica se repetindo na minha cabeça sem parar.

— Hã, Jubilee?

— Sim. Desculpe. Sou eu.

— Você estava... hã... você está bem? Você está falando esquisito.

— Ah. Tomei um remédio. Estou com fome.

— Remédio?

— Sim.

— Que tipo de remédio?

— Ah. Só um Xanax. Para ajudar a relaxar. Acho que está fazendo efeito.

— Tudo bem... — diz ele. Imediatamente o imagino passando a mão na parte de trás da cabeça, bagunçando o cabelo. Ele faz isso quando está pensando. Parece que está pensando. — Bem, nós acabamos de comer, mas tem muita comida. Quer que eu vá buscá-la?

— Não, posso ir de bicicleta. Qual é o seu... qual é o seu... — Começo a rir. — Não consigo me lembrar da palavra que quero. Onde você mora?

— Hã, vou buscá-la.

Trinta minutos mais tarde, estou de roupa trocada e dentes escovados. Percebo que deveria levar alguma coisa para ele e para Aja. É Natal! Enquanto penso se terei tempo de ir de bicicleta ao Wawa, ouço o carro de Eric parar na frente da casa. É quando me lembro dos donuts. Subo correndo a escada, de dois em dois degraus, e pego a caixa ao pé da minha cama. Restaram apenas oito e, uma vez que parecem meio solitários na caixa, levo um minuto para ajeitá-los um pouco e preencher o espaço vazio.

Depois de colocar as luvas e o casaco, abro a porta no momento em que Eric está batendo.

— Oi — digo, um pouco sem fôlego.

— Oi — diz ele, sorrindo. Gosto do seu sorriso.

Entrego a caixa de donuts para ele.

— Feliz Natal.

— Ah! Obrigado. — Ele pega a caixa.

— Já comi quatro. Ontem à noite. — Não sei por que me sinto coagida a lhe dizer a verdade, mas digo.

Ele ri e sacode cabeça.

— Tudo bem. Pronta para ir?

— Sim.

Quando chegamos ao apartamento de Eric, passo pela porta atrás dele, esperando ver Aja. Não esperava ver a sala cheia de rostos me cumprimentando. Congelo.

— Ah, meu Deus — digo baixinho. — Você tem companhia... eu deveria ter...

A sensação leve e relaxada que eu ainda estava sentindo no trajeto do carro desaparece, e me pego desejando que Madison tivesse colocado um segundo comprimido naquele envelope.

Eric se vira e me olha nos olhos.

— Está tudo bem — diz, de modo caloroso.

— Você conhece o Rufus. — Ele aponta para o cachorro, que está mordiscando algo nos seus calcanhares, e sorri para mim. Sinto uma sensação boa.

— Você mudou o nome dele.

Ele pisca para mim.

— E você se lembra de Connie, é claro.

— Oi! — Ela dá um pequeno aceno com a mão de onde está sentada no sofá.

Eu a cumprimento.

— E estes são meus pais, Gary... — Ele faz sinal para o homem sentado em uma cadeira dobrável na sala de jantar — E Deborah. — Sua mãe está em pé perto da TV. E começa a andar na minha direção, com os braços abertos.

— Ah, é Natal — diz ela. — Podemos nos cumprimentar com um abraço.

Um “Não!” em coro a faz parar onde está.

Confusa, ela olha para Eric e Connie. Em seguida, os dois começam a falar ao mesmo tempo.

— Ela está com um resfriado terrível!

— Ela não gosta de ser tocada!

— Ela é uma mutante! — comenta Aja, alegre. Ele acaba de aparecer no corredor.

Os olhos da mãe de Eric se arregalam a cada explicação, e ela põe a mão sobre o peito, como se o alvoroço estivesse fazendo seu coração acelerar e ela precisasse se acalmar. Constrangida, ofereço-lhe um sorriso e balanço os dedos enluvados da mão direita para ela.

Obviamente confusa, ela ergue a cabeça na minha direção, como se perguntasse: O que é, afinal?

Pigarreio.

— Ah, praticamente o que Aja disse. Tenho uma alergia rara. Uma alergia a, bem, outras pessoas. Não posso ser tocada.

— Ah! — urra, do seu assento, o pai de Eric, até então em silêncio. — Como a minha esposa! Né, Deborah? — E ri da própria piada. Sua barriga redonda literalmente treme com o esforço.

— Gary! — Ela o repreende rispidamente. E alivia o tom. — Acho que bebemos uísque demais, não é?

— Ah, que nada, meu bem. — Ele olha para mim e começa a balançar a mão levantada. — Vem para cá. Estávamos para atacar a sobremesa.

Dou uma olhada para Connie, que está revirando os olhos, e depois para Eric, que enche as bochechas e solta o ar lentamente. Aproximando-se de mim, sussurra:

— Esqueci de dizer que também odeio o Natal.

Quando todos estamos sentados nas cadeiras dobráveis de metal, Deborah começa a servir pedaços de torta de maçã em pratos de papel. O cachorro se senta aos meus pés como uma estátua, olhando para mim com seus olhos grandes de filhote.

— Está uma delícia, Eric — diz Deborah, limpando a boca com um guardanapo.

— Foi a Connie que trouxe.

— Ah — diz ela, virando-se para a filha. — Que qualidade de maçã é essa? Gala?

— Sim, acho que sim — diz Connie, animando-se.

— Da próxima vez, experimente a Fuji ou a Verde. Realmente são as melhores para ir ao forno.

— Ah. Anotado — diz Connie, lançando um olhar para Eric. Ele ri.

— Posso ir para o meu quarto agora? — pergunta Aja. Meus olhos se arregalam com seu prato vazio. Ainda estou na primeira garfada.

— Não — diz Eric. — O vovô e a vovó só vão passar a tarde aqui. Faz meses que eles não veem você.

— Eles não são os meus avós — diz Aja, placidamente. — E o Iggy tem o novo King’s Quest também. Ele está me esperando para jogar.

— Ah, tudo bem, Eric — diz Deborah. — Deixe o menino ir. É Natal!

Eric suspira pela terceira vez.

— Tudo bem. — Aja se levanta da mesa com um pulo e sai correndo. — Alguém precisa de alguma coisa? — Ele olha para mim e pergunta em voz baixa: — Você está bem?

Assinto com a cabeça.

— Então, Jubilee, não quero me intrometer, mas nunca ouvi falar da sua alergia — diz Deborah. — Você não pode mesmo ser tocada?

— Como o Jimmy Bolha — declara Gary, alguns decibéis mais alto do que os demais à mesa. Ele estende a mão para pegar o copo de uísque, mas Deborah gentilmente coloca a mão sobre seu braço.

A mesa fica silenciosa, e sinto os olhos de todos em mim.

— Hum. Não, exatamente. Ele tinha um tipo de doença ou deficiência imunológica, por isso era, na verdade, suscetível a germes do ambiente e de outras pessoas. O meu é apenas uma alergia, como uma alergia a ovos ou pasta de amendoim. Acontece que é só a células cutâneas de outros seres humanos.

— Fascinante — diz Deborah, tomando um gole de café. — Então o que isso significa exatamente?

— O que você acabou de dizer, na verdade. Não posso ter contato de pele com pele com ninguém. — Olho para Eric. Meu rosto está ficando quente, e espero que ele não perceba. — Fico com erupções muito feias, e há o risco de um choque anafilático.

— Ah, meu Deus. — Deborah coloca a mão no peito, e dou uma garfada na minha torta, esperando que ela não faça mais perguntas. — Coitada da sua mãe.

Puxo o ar ao ouvir suas palavras, e um pedaço da massa da torta fica preso na minha garganta, fazendo-me tossir violentamente. Meus olhos lacrimejam, e tomo um gole de café.

Eric fala alto:

— Então, mãe, hum... a Jubilee adora Emily Dickinson. Ela não é a sua poetisa favorita também? — Olho para ele, esperando expressar gratidão pela mudança de assunto, por mais estranho que possa ser.

— Sim, uma delas.

— Minha mãe é especialista em Língua Inglesa pela Smith.

— Ela é brilhante, na verdade — acrescenta Connie. Em seguida, diz baixinho: — É uma pena que nunca fez nada com isso.

Deborah dá uma olhada para a filha.

— Bem, felizmente, uma mulher pode levar uma vida realizada de várias maneiras, Connie.

Dou um pedacinho da massa da torta para o cachorro debaixo da mesa.

— Jubilee é bibliotecária — diz Eric.

Pigarreio.

— Assistente de circulação.

— Que maravilha! — diz Deborah. — Você deve adorar ler tanto quanto eu.

— Você deveria ver a casa dela — ri Eric. — Não dá para atirar uma pedra sem acertar um livro.

— Quais são alguns dos seus favoritos? — pergunta Deborah. — Estou focada em T. S. Eliot ultimamente. Ele era um homem interessante.

— “A Canção de Amor de J. Alfred Prufrock” — digo, lembrando-me do poema em uma das aulas de literatura norte-americana de 1800 que fiz on-line. O professor deu uma aula apaixonada sobre ele, cerrando o punho para enfatizar as palavras. Este não é um poema de amor [punho cerrado], mas, sim, um poema sobre desejo [punho cerrado]. Eliot quer o amor romântico, sim, mas, mais do que isso, ele quer se conectar [punho cerrado]. Ele quer encontrar sentido [punho cerrado] em sua rotina estagnada de bebedor de chá. — Gosto dele.

Deborah inclina a cabeça, estudando-me.

— Sim — diz ela, com bondade nas palavras. — Eu também.

A mesa fica em silêncio, e o único som é o dos garfos raspando o que resta nos pratos. Uma tranquilidade se instala na sala, e me ocorre que é assim que deve ser. Família. União. Embora seja uma intrusa, permito-me ter um momento indulgente e faço de conta que eles são minha família, passando lentamente os olhos de um rosto para outro, para outro, até pararem em Eric.

Eric.

A voz estrondosa arranca-me do meu devaneio.

—“Vamos juntos, então, você e eu. A noite já se estende pelo céu.”

Connie olha para o pai, confusa.

— Pai?

— Ah, Gary — Deborah dá uma risada nervosa. — Honestamente. — Ela se vira para Connie. — Ele só está recitando o poema. O de Eliot.

— Mas realmente deveríamos ir embora — diz Gary. — Temos um longo caminho pela frente.

A confusão está armada: a limpeza da mesa, quem vai fazer o quê, e, então, Deborah e Gary colocam os casacos e os chapéus e se preparam para partir.

— Aja! — grita Eric.

— Ah, não perturbe o menino — diz Deborah. — Vamos entrar rapidinho e dar tchau.

Quando voltam para a porta da frente, Connie anuncia que está indo embora também, e é aquela confusão de um abraçando o outro. Fico afastada, perto da mesinha de centro sem tampo de vidro, o cachorro sentado perto dos meus pés, de modo a não ficar no caminho de ninguém. Deborah preenche os espaços entre as despedidas, os votos de Feliz Natal e as declarações de “Eu te amo” com conversas banais, do tipo: “Você ouviu falar da nevasca que vai chegar na semana que vem?” e “Esse conjunto de mesa e cadeiras dobráveis serviu muito bem para nossa festinha, Eric. Um charme!”. Ao ouvir isso, Connie dá uma risada sarcástica e uma cotovelada na costela de Eric. Então, Deborah vem em minha direção e levanta as mãos.

— Nada de abraços desta vez, juro — diz.

Sorrio.

— Foi muito bom conhecê-la. Talvez nos vejamos outra vez.

— Eu adoraria — digo.

*

Quando todos se vão, Eric se vira para mim e encolhe os ombros como se dissesse: Família. O que a gente pode fazer?

— Você ainda está com fome? Tem um pouco de peru lá dentro. E mais torta.

— Sim, estou, de verdade — digo, com o estômago roncando. A torta não foi suficiente para me satisfazer. — Peru parece ótimo.

Sigo-o até a cozinha, o cachorro ainda no meu encalço, e Eric começa a tirar coisas da geladeira.

— Sua mãe é muito simpática — digo, enquanto ele coloca, com dois garfos, um pouco de peru em um prato.

— Sim. Mas não diga isso à Connie.

— Elas não se dão bem?

— Você sabe, é só aquele lance típico de mãe e filha. — Ele para, com os garfos suspensos no ar. — Desculpe. Sou um babaca. Sua mãe acabou de... e eu...

— Tudo bem — digo. — De verdade.

Mesmo sentindo um nó se formando em minha garganta. Pisco para evitar as lágrimas. Estive pensando mais na minha mãe desde a conversa com Eric, e fico me perguntando se talvez minha ira com ela fosse, em parte, a revolta típica de adolescente. Nunca tive a oportunidade de resolver isso com ela. Ou nunca lhe dei a oportunidade. Penso em todas as vezes que me convidou para ir a Long Island ao longo dos anos, e a frustração na sua voz quando eu dizia que não. Mas, meu Deus, tudo sempre girava em torno dela. Isso simplesmente era muito irritante.

Talvez pessoalmente tivesse sido diferente, ou talvez, à medida que envelhecêssemos, pudéssemos ter-nos dado melhor. Eu simplesmente nunca lhe dei a oportunidade. Ao mesmo tempo, depois de observar Connie e Deborah essa noite, pergunto-me se, talvez, as mães são sempre irritantes, não importa quantos anos você tenha. E talvez você as ame de qualquer maneira.

Como em silêncio enquanto Eric coloca um par de luvas de borracha e começa a lavar a montanha de pratos empilhados na bancada e na pia. Dou a Rufus alguns pedaços de peru toda vez que Eric vira de costas para mim.

Quando termino de comer, pego o prato, jogo no lixo o que sobrou e o coloco na bancada, junto aos outros pratos sujos.

— Obrigado — diz Eric.

Apanho um pano de prato na porta do forno no qual ele está pendurado e pego uma panela que ele acabou de lavar. As gotas de água que ficaram nela imediatamente molham minhas luvas, e as tiro para mantê-las secas.

Eric olha para mim.

— Isso é seguro?

— Não sei. Você vai conseguir resistir à tentação de tocar minhas mãos muito sexys? — Mexo os dedos, provocando-o. Não sei ao certo de onde veio esse surto ousado de confiança, mas fico contente quando ele ri. Pego novamente a panela e começo a secá-la. Fazemos o serviço em silêncio, uma linha de produção sossegada, até que expresso algo que vem me incomodando.

— Você descobriu muito sobre mim ao ler aquele artigo do The New York Times.

— Sim. — Eric dá uma olhada para mim, como se esperasse para ver aonde quero chegar com isso.

— Não é justo — digo. — Me conte algo que eu não saiba sobre você.

Ele continua a lavar a louça, esfregando vigorosamente uma travessa de vidro. Está fazendo isso há tanto tempo que começo a pensar que talvez não tenha ouvido minha pergunta.

De repente, ele para de esfregar, e a cozinha fica em silêncio.

— Eu matei o meu melhor amigo — diz.

Fico ali parada, um pouco atordoada.

— Bem — digo, recuperando-me um pouco. — Eu meio que esperava algo nesta linha: Minha cor favorita é roxo. Ou: Eu tenho seis dedos no pé esquerdo.

Ele não ri.

Pego uma colher de pau limpa e começo a secá-la. Então, pergunto delicadamente:

— O que aconteceu?

Ele enxágua o recipiente de vidro, coloca-o na bancada para eu secar e, em seguida, fecha a torneira.

— Eu tinha um cliente, a Bilbrun & Co., que estava adquirindo uma fábrica de alumínio em Kentucky. Uma pequena fábrica de quinhentos funcionários. A minha equipe era responsável pela diligência devida, e achei que a fábrica estava supervalorizando a propriedade. Tive que contratar uma corretora de imóveis que eu não conhecia em Kentucky, por isso quis ir até lá e acompanhar tudo com ela, ter certeza de que o trabalho era confiável. — Ele faz uma pausa e coloca as mãos na bancada, apoiando-se nela. — Ellie tinha um jogo do campeonato de futebol naquele fim de semana, e eu já tinha perdido um monte dos jogos dela naquela temporada. Então, perguntei ao Dinesh se ele podia ir a Kentucky no meu lugar.

— Então vocês trabalhavam juntos?

— Sim. Não na mesma equipe, mas estávamos sempre fazendo pequenos favores como esse um para o outro. “Sempre quis conhecer o Estado da Grama Azul”, disse ele quando lhe perguntei. “Talvez leve a minha esposa para andarmos a cavalo enquanto estivermos lá.” O lado da boca de Eric se levanta com a lembrança, formando um pequeno sorriso. — A Bilbrun fretou um avião. Só soube que ele tinha levado a Kate quando recebi a ligação de que o avião tinha caído no voo para lá. Falha do motor ou algo assim.

— Ah, meu Deus! — sussurro.

Quero dizer outras coisas, mas um grito tão primitivo enche o ar e rouba meu fôlego. De repente, Aja está na cozinha, sua boca emitindo o som louco, seus pequenos punhos cerrados de ambos os lados, os olhos bem apertados e o rosto bronzeado ficando vermelho-pastel. Então, os gritos começam a se transformar em palavras.

— VOCÊ MATOU ELES! VOCÊ MATOU ELES! COMO PÔDE FAZER ISSO? — Lágrimas gotejam dos seus olhos como café passando por um filtro, e suas palavras começam a se embolar, como se estivessem cansadas de serem palavras e quisessem voltar a ser apenas sons. — VOCÊMATOUELESVOCÊMATOUELESVOCÊMATOUELESVOCÊMATOUELES.

— Ah, meu Deus! Aja — ouço Eric sussurrar.

Ele dá um passo em direção ao filho, mas Aja o vê e corre como uma flecha, batendo a porta do seu quarto com tanta força que o som reverbera pelo corredor.

Eric vai atrás dele, e ouço batidas leves na porta e palavras sussurradas, mas, um minuto depois, ele está de volta, segurando o encosto da cadeira da cozinha e debruçando-se sobre ela.

— Merda! — diz, prolongando a palavra.

— Ele está bem? — pergunto.

Ele faz que não com a cabeça.

— Não sei. Ele não vai falar comigo. Não vai abrir a porta.

— Quer que eu tente?

Pressionando os lábios em uma linha reta, ele diz:

— Acho que não. Vamos dar um minuto para ele se acalmar.

Ele estica as costas de modo abrupto, ficando totalmente aprumado.

— Preciso beber alguma coisa — diz.

Ele vai até a sala de jantar, pega a garrafa de uísque na mesa e a traz para a cozinha, onde divide o que restou em dois copos pequenos.

— Ah, eu não... eu nunca...

— Bebeu uísque? — pergunta.

— Bebi nada — digo.

Ele levanta as sobrancelhas para mim.

— Só curte drogas pesadas, né?

Abaixo a cabeça.

— Elas eram prescritas.

Nós dois rimos, e a tensão se dissipa um pouco. Ele abre o freezer, coloca alguns cubos de gelo em um dos copos e o entrega para mim.

— Deixe o gelo derreter um pouco antes de provar.

Pego o copo e o levo à boca mesmo assim. Será que é muito ruim? Dou um gole.

Ruim. A resposta é muito ruim. Tusso e cuspo a pequena quantidade do líquido que desceu pela minha garganta queimando tanto quanto se eu tivesse engolido gasolina e alguém colocasse um fósforo aceso nela.

Ele sacode cabeça e murmura:

— Teimosa — depois vai pegar um copo de água, o qual aceito com gratidão.

Depois que me recupero, ele se senta comigo à mesa da cozinha, e ficamos ali, sorvendo nossas bebidas. No meu caso, a água.

— Aaaaaahhhhh. — Um barulho sai da sua boca, uma mistura de um gemido e um suspiro. — Cara, estou fazendo o papel de pai para burro esse ano.

Olho para ele e, mesmo preocupada com ele e com a gravidade do que acabou de acontecer com Aja, não posso ajudá-lo. Dou uma risadinha nervosa.

— O quê? — pergunta.

— Para burro? — pergunto.

— O quê? Significa...

— Sei o que significa — digo, interrompendo-o. — É que... isso é da década de 1950? Você é tão velho assim?

Seus lábios se levantam em um sorriso genuíno, e fico feliz.

— Ah, desculpe. Desculpe se minhas expressões não são modernas e elegantes o suficiente para você.

Devolvo um sorriso largo para ele. Enquanto estamos sentados em um silêncio gostoso, repasso na cabeça o que Eric estava contando para mim. Tomo outro gole da minha água e pigarreio.

— Foi assim que o Aja passou a ser seu filho? Ele me disse que você o adotou depois... mas eu não sabia exatamente o que tinha acontecido.

Ele respira fundo.

— Sim — diz, expirando. — A Stephanie não achava que deveríamos. Adotá-lo, digo. Foi a nossa última briga feia. Bem, como casal.

— O quê? Por quê? — pergunto. — Não consigo imaginar uma pessoa não querendo o Aja.

Ele me examina por um minuto, dá um pequeno sorriso e toma outro gole do uísque.

— Ela achava que ele tinha que ficar com os parentes dele. Na Inglaterra. Mas isso não era o que o Dinesh queria. Além disso... — Ele faz uma pausa e olha de relance para o corredor, querendo confirmar que Aja não reapareceu como em um passe de mágica. — Ela estava preocupada com a Ellie. E como isso iria afetá-la. Eu estava preocupado também, é claro, mas as crianças se adaptam. Pensei que seria bom para ela, uma lição de que a vida pode dar uma grande reviravolta às vezes. E que temos que estar ao lado das pessoas que amamos. Acolhê-las.

Ele levanta a mão direita para bagunçar o cabelo, esquecendo que ainda está com as luvas de borracha. Quando percebe, ele a coloca novamente sobre a mesa.

— Stephanie não concordou. Disse que simplesmente não podia levar isso adiante. E eu não podia deixar isso para lá.

— Nossa!

Ele esvazia o copo.

— O fato é que — diz — isso foi meio que o fim do fim para nós, para mim e para a Stephanie. Preenchemos a papelada do divórcio logo depois que eles morreram.

Coloco as mãos em volta do meu copo frio, absorvendo tudo o que Eric acabou de me contar. Tudo pelo que ele passou. Meu coração dói por ele de um modo que nunca doeu nem por mim. Olho para ele. Eu o estou assimilando, não apenas sua “boa estrutura” e os olhos cor de azeitona, mas as pequenas linhas ao redor da sua boca; o jeito espetado do seu cabelo, como se tivesse acabado de sair da cama, por mais que tivesse tentado ajeitá-lo; seu colarinho desabotoado revelando a parte vulnerável de pele no pé do pescoço; as ridículas luvas amarelas de borracha ainda em suas mãos.

E é quando noto.

Uma das luvas de borracha está se movendo. Em minha direção. Sobre a mesa.

Fico ansiosa, observando-a. Esperando.

Ela para a milímetros da minha mão, que ainda envolve o copo.

— Não posso, você sabe — diz ele, com a voz rouca, quase em um sussurro.

— Não pode o quê? — pergunto, na mesma altura de voz.

— Resistir às suas mãos muito sexys.

Delicadamente, ele puxa meu pulso, forçando minha mão a soltar o copo. Observo seus dedos passearem da base do meu polegar, pela palma de minha mão, até meus dedos nus, até que nossos dedos se entrelaçam como as raízes de uma árvore muito velha.

Ele suspira.

— Meu Deus, pisei mesmo na bola com Aja, né? — sussurra.

Sim, mas ele não precisa que eu lhe diga isso, então não respondo.

E ficamos apenas sentados ali, de mãos dadas na mesa da cozinha como se fôssemos um casal normal e como se esta fosse uma noite comum de terça ou quarta-feira em nosso apartamento.

Mas não é. É Natal.

Meu feriado favorito.

*

Shayna está sentada no balcão quando chego ao trabalho na segunda-feira. Ela está de cabeça baixa, uma cortina de seda de cabelos escuros esconde seu rosto e, ao me aproximar, vejo que está concentrada, pintando as unhas. Preto, parece. Acho que só percebeu que passo por ela quando a ouço dizer:

— Ouviu falar daquela nevasca que está para chegar? — Ela não ergue os olhos, nem quebra o ritmo da pintura com pinceladas curtas. — Pelo que dizem, o céu vai despejar mais de meio metro de neve em nós.

— Sim — digo, lembrando que a mãe de Eric disse algo a respeito.

— Mas talvez não seja nada — diz ela, soprando as unhas da mão direita. — Você se lembra do ano passado? Disseram a mesma coisa: era para termos, tipo, quase um metro, e tivemos 17 centímetros. — Ela revira os olhos.

— É — digo, embora não me lembre.

Vou para a sala dos fundos deixar meu casaco e minha bolsa. Maryann está sentada no seu escritório, com a porta aberta. Dou-lhe um pequeno aceno. — Como foi o Natal?

Ela olha para mim e deixa os olhos caírem no que quer que esteja trabalhando.

— Muito bom — diz.

— Que bom — digo, não esperando que ela pergunte como foi o meu.

Ela está áspera e impaciente desde que despediu Louise, e tenho tentado evitá-la e entendê-la um pouco. Não deve ser fácil demitir uma amiga, especialmente uma amiga com quem você trabalhou por tanto tempo.

A neve começa a cair logo depois que acaba o expediente de Shayna, às três. Apenas flocos minúsculos caem das nuvens no início, como grãos de arroz branco sendo jogados por convidados eufóricos em um casamento.

Por volta das quatro, pego-me com os olhos fixos em Aja, coberto de neve. Os flocos aumentaram de forma exponencial — de pequenos grãos de arroz a marshmallows rechonchudos e úmidos em diagonal — e estão grudados no seu cabelo e no casaco de inverno estofado.

Faço um sinal com a cabeça para ele, e ele segue para a mesinha do computador, largando a mochila no chão.

Eric liga às cinco.

— Ei — diz. — Está uma confusão nos trens. Todo mundo está tentando sair da cidade. Estarei aí assim que puder.

— Sem problema — digo. — Está tudo bem por aqui. Não acho que vai ser tão ruim como todo mundo está dizendo.

Eric diz algo, mas há um chiado na linha e sua voz é cortada.

Desligo o telefone e olho ao redor, surpresa quando percebo que Aja e eu somos as únicas pessoas que restaram na biblioteca. Até o golfista do travesseiro já foi embora.

— Ei — digo, caminhando até ele. — Quer fazer uma brincadeira? — Ele olha para mim, indeciso. — Qual é! — digo. — Vai ser divertido. Vá pegar uma pilha de livros nas prateleiras. Uns cinco ou dez. Qualquer livro.

Pego alguns também, e nos sentamos no chão em frente ao balcão, cercados pelos livros que escolhemos. Levanto um deles.

— Tudo bem, agora vou dizer três frases para você. Duas vão ser frases que eu inventei, enquanto uma vai ser a frase verdadeira do livro. Você tem que adivinhar qual delas é a verdadeira.

Aja se concentra na brincadeira, e ficamos jogando por mais de uma hora. Estamos rindo tão alto que só percebo que a porta se abriu quando ouço uma voz abafada gritar:

— Hum, aqui! Hum, aqui.

Olho para trás, e Eric está debruçado, metade do corpo para dentro da porta, e, ao que parece, respirando fortemente. É difícil dizer, no entanto, por que ele está com um cachecol enrolado da metade para baixo do rosto e um chapéu cobrindo a metade de cima. Na verdade, seus olhos são a única parte que podem ser vistos. Levanto-me e corro em sua direção, percebendo seu olhar agitado, seu peito arfante, e me pergunto se ele está tendo um ataque cardíaco.

— Está tudo bem? O que aconteceu?

Ele se apruma e entra um pouco mais, tirando o cachecol coberto de neve enquanto caminha. Para alguns metros à minha frente e responde às minhas perguntas com suas próprias perguntas.

— Já deu uma olhada lá fora? É uma nevasca de verdade. Tive que deixar o carro a três quarteirões daqui, na Prince Street. — As luzes piscam, como se estivessem pontuando seu relato. — Não dava para ver dois palmos à minha frente. Tive sorte de não me perder vindo para cá.

A curiosidade impulsiona meu corpo na direção da porta. Não olhava para a rua desde que as janelas ficaram escuras, uma hora mais cedo. Dou uma espiada na noite lá fora e abro a boca de espanto. Não consigo ver o poste de luz no final do estacionamento, mas o brilho suave que ele emite é suficiente para revelar um mundo banhado em branco. É impossível distinguir o céu dos flocos de neve no asfalto.

Estreito os olhos, tentando encontrar a silhueta da minha bicicleta no lugar onde a deixo, não mais do que a cinco metros da porta.

— Cadê o seu carro? Vamos ter que andar até ele? Nessa neve? — pergunto, como se ele já não tivesse pensado nisso.

Ele fica quieto, com as sobrancelhas erguidas, a gola do casaco levantada até metade na parte de trás.

— Hã... não vamos a lugar nenhum — diz. — Pelo menos, não esta noite.

É tão sombrio, como uma cena de um filme de terror, que uma gargalhada sufoca minhas cordas vocais.

Aja diz alto:

— Aposto que a energia vai...

E então acontece. As luzes se apagam, silenciando Aja, como se a energia também controlasse sua voz. Não me mexo. Está um breu, e não consigo ver nada.

— Eric? — chamo enquanto espero meus olhos se adaptarem e, pelo menos, me darem formas e vultos.

Em resposta, um grito atravessa a escuridão, tão agudo, tão assustador, que os pelos da minha nuca se arrepiam, em alerta.