Perto o bastante para tocar

Colleen Oakley · Capítulo 34 de 37

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Perto o bastante para tocar

vinte e sete

JUBILEE

Em vez de me revolver na autopiedade do jeito como vinha fazendo na maioria das noites dessa semana depois do trabalho, ontem à noite decidi me distrair com o livro On the Road. A leitura estava tão boa que o li até as três da manhã, quando meus olhos já não ficavam abertos. Estou terminando as últimas páginas quando Madison irrompe na biblioteca na sexta-feira de manhã.

— Onde você estava? — exige ela.

Abaixo o livro. Olho para ela.

— Bem aqui — digo calmamente.

— Ah, não me venha com essa. Sabe o que quero dizer. Você não respondeu a nenhuma ligação e ainda fez Roger mentir para mim. Sei que estava aqui naquele dia.

Inclino para trás e suspiro. Já previa essa confrontação e estou realmente surpresa por ter demorado tanto.

— Onde você estava? — pergunto, devolvendo a pergunta para ela. — Isso foi o quê? Há duas semanas?

— As crianças ficaram doentes.

Sinto-me mal no mesmo instante.

— Ah, meu Deus — digo. — Elas estão bem?

— Sim, só vomitando em mim e nelas mesmas. — Ela faz uma careta. — Hannah foi a primeira, mas com crianças é o efeito dominó, uma após a outra.

— Sinto muito.

— Não tanto quanto eu — diz, e, pelo modo como está olhando para mim, sei que já não está falando dos filhos. — Donovan me contou o que disse para você. Que idiota!

— É verdade? — pergunto, agarrando-me a um fio de esperança de que ele estivesse mentindo.

— Sim — diz, olhando para baixo.

— Por que você fez isso? — pergunto.

— Ciúme.

— De mim? — gargalhei. — Você tinha tudo na escola. Simplesmente não entendo como é possível.

— Eu não sei — diz. — Você era tão bonita e tinha todo esse ar de mistério à sua volta. E Donovan... tanto faz, não importa agora. Foi idiotice. Eu fui uma idiota.

— Queria que você tivesse me dito. Queria não ter que descobrir por ele.

— Eu sei — diz. — Eu deveria ter dito.

— Então nada disso era real? Sua amizade? Ou foi só por culpa... algum projeto de piedade para você?

— Não! Jube, eu... eu, bem, acho que começou assim...

Eu a corto. É o que pensei, mas dói ter a confirmação.

— E, meu Deus, a Louise? Sério, ela foi demitida. Ela trabalhou a vida inteira aqui. No que você estava pensando?

Ela olha para baixo, envergonhada.

— Eu sei, eu sei — diz Madison. — Eu me sinto péssima. Vou pensar em alguma coisa, juro. — Seus olhos encontram os meus novamente. — Mas você tem que entender...

— Acho que entendi perfeitamente — digo. — E acho que a nossa conversa acaba aqui.

— Jubilee!

Ela não faz qualquer movimento para sair, então me levanto abruptamente da cadeira e vou para a sala dos fundos, porque é o único lugar aonde consigo pensar em ir. Ela não me segue.

Minha cabeça está zumbindo de raiva, e isso faz meu nariz formigar e meus olhos marejarem até que lágrimas escorrem pelo meu rosto. Sinto-me tão idiota. Em relação à Madison. Em relação à partida de Eric e Aja. Em relação a tudo. É como se eu estivesse vivendo em um mundo da fantasia no ensino médio onde a garota mais popular quisesse ser minha amiga e eu pudesse me apaixonar e ter um namorado como uma pessoa normal.

— Cresça — murmuro para mim mesma, morrendo de vergonha da minha ingenuidade.

Meu Deus, as coisas eram tão mais fáceis quando eu estava sozinha! Mas, felizmente, com exceção deste emprego, acho que estou de volta ao ponto de partida. Sozinha. E assim está ótimo para mim. Pensando bem, até mais seguro. Aprumo as costas, enxugo o rosto e respiro fundo. Em seguida, volto para o balcão.

Madison se foi.

Mais tarde, estou reabastecendo as prateleiras de biografias quando noto Michael, o golfista do travesseiro, em pé junto à impressora, resmungando sozinho. É estranho vê-lo em qualquer lugar além da sua mesinha, os olhos grudados naquela tela verde ridícula e batendo a bolinha ou seja lá o que ele faz naquele videogame.

Aproximo-me mais um pouco para investigar.

— Droga! — diz baixinho e bate de leve no alto da máquina com o punho. Dou um salto, assustada. Ele ergue os olhos.

— Ah, desculpe — diz, parecendo um estudante que foi apanhado escrevendo na sua carteira. Se eu não estivesse tão triste, aquilo teria sido até um pouco simpático.

— Posso ajudar?

Seus olhos se arregalam, como se não lhe tivesse ocorrido a ideia de pedir ajuda.

— Sim — diz. — Se você puder... Estou tentando imprimir essa coisa há meia hora, mas o papel fica preso. Já perdi uns quatro dólares em moedas de 25 centavos. Pensei que tivesse conseguido, mas agora ela está me dizendo que ainda está congestionada ou algo assim.

— Ela é temperamental — digo, lembrando que Louise me disse qual era o truque no meu primeiro dia. Estendo a mão e puxo uma gaveta da parte de baixo da impressora na qual armazenamos o papel. Michael está perto, por isso olho para ele.

— Pode ir um pouco para trás?

Ele dá um passo para trás.

— Mais um pouco.

Ele dá outros dois passos.

— Obrigada — digo e, em seguida, encho a bandeja de papel até o topo. Viro-me para ele. — Tem que estar com papel pelo menos até a metade ou ela não funcionará corretamente. Uma coisa ou outra.

— Ah — diz ele. — A tecnologia é uma coisa maravilhosa. Vocês deveriam colocar um aviso ou algo assim.

— Nós colocamos. Algumas vezes. As pessoas o rasgam e escrevem nele. Uma vez, alguém até o roubou. Então paramos de tentar.

— Uau — diz. — Isso é meio louco.

— Sim — digo. — Bem, olha, vou pegar a chave no balcão e devolver seu dinheiro.

— Não, está tudo bem — diz ele. — O dinheiro não importa; só quero isso impresso.

— O que é isso? — pergunto, com a curiosidade levando vantagem sobre mim. — Algo para fazer com o seu videogame?

Ele olha para baixo, constrangido.

— Não, hã... nada disso. É só um... plano de negócios.

— Sério? — digo, surpresa por ver que ele tem ambições além do jogo. — Que tipo de negócios?

— Sabe aquele campo de golfe antigo fora da cidade? O abandonado?

— Sim — digo.

Lembro-me de passar por ele no meio da noite a caminho de New Hampshire. Com Eric. Engulo em seco e o expulso da minha cabeça.

— Quero comprá-lo. Fazê-lo funcionar de novo. É uma ótima localização — diz, olhando para mim agora. Seus olhos estão brilhando.

— A-hã — digo. — Que bom! Bem, vou pegar a chave agora.

Volto alguns minutos depois e ele está em pé junto à sua mesa ajeitando uma pilha de papéis: seu plano de negócios, suponho. Abro a caixa de moedas na impressora e pego para ele os quatro dólares em moedas de 25 centavos, colocando-as em um copo plástico que peguei no balcão.

Eu o coloco perto do seu computador.

— Aqui está — digo.

— Obrigado — diz, sentando-se novamente e voltando a atenção para seu jogo.

Fico ali por um minuto até ser vencida pela minha curiosidade.

— Ei, por que você vem aqui todos os dias? Só para jogar esse jogo? — Fico envergonhada assim que as palavras saem da minha boca, sem perceber como foi rude da minha parte perguntar. — Desculpe. Eu não quis...

— Não, tudo bem — diz, mas fica olhando para a tela e não responde. Depois de vinte ou trinta segundos, estou prestes a sair quando ele finalmente fala. — Meus pais morreram. No ano passado. Minha mãe, de câncer de mama. E, alguns meses depois, meu pai. Um acidente estranho.

— De carro?

— Não, ele caiu da escada enquanto tentava limpar as calhas. — Ele ri baixinho. — Minha mãe estava sempre dizendo para ele contratar alguém.

— Meu Deus, sinto muito.

— É — diz ele. — De qualquer forma, meus pais eram pessoas muito importantes, e depois disso, as pessoas ficaram ligando, passando na minha casa e no meu escritório sem avisar para verem como eu estava, enviando coisas para mim, e eu simplesmente não consegui aguentar mais. Os lembretes. A piedade. Aí peguei uma licença do trabalho. Um dia fiquei perambulando por aqui para fugir de tudo. E aí continuei a vir. Realmente não pensei nisso, mas acho que foi uma boa distração. Enfim, foi mais fácil do que estar lá fora. — Ele faz um sinal com a mão na direção da porta. — Acho que isso parece um pouco louco.

— Não — digo. — Não parece. Não para mim.

Ele ergue os olhos, surpreso.

— Sério?

— Sim.

Ele assente.

— Legal.

Ele se volta para o computador, e volto para minha mesa com lágrimas nos olhos pela segunda vez nesse dia.

*

Nas semanas seguintes, Madison é ainda mais incansável em seus telefonemas, mensagens e visitas aleatórias e inesperadas à biblioteca e à minha casa. Tento ignorá-la, mas ela é praticamente impossível de ignorar. Por fim, um dia, quando chego em casa, ela está esperando por mim na varanda. Paro a bicicleta atrás da cerca e ando até os degraus da frente, parando no primeiro.

— Por favor, vá embora — digo, tirando as chaves da bolsa.

— Só depois que você me ouvir.

Cruzo os braços e olho para ela.

Ela respira fundo.

— Quando vi você no posto de gasolina há alguns meses, fiquei chocada. Isso trouxe de volta muitas lembranças... tantos sentimentos que tentei esquecer ao longo dos anos, especialmente a culpa por aquela aposta terrível e estúpida e o que ela fez a você. Então, quando você disse que precisava de um emprego, sim, eu quis ajudar, quis fazer qualquer coisa que pudesse por você, uma forma de compensar o que eu tinha feito. E, meu Deus, quando fiquei sabendo do seu problema e de como você estava levando a vida, que Donovan tinha dito a verdade, me senti ainda pior. Então, sim, talvez tenha sido um pequeno projeto de piedade, ou como você quiser chamá-lo, apenas para diminuir egoisticamente meu remorso.

Ao ouvir isso, reviro os olhos e dou risada. Ela levanta a mão.

— Admito isso — diz. — Mas, Jube, quanto mais fui conhecendo você, mais fui gostando. E fiquei tão animada por ter uma amiga na minha vida. Você não faz ideia de como tem sido difícil desde que Donovan e eu nos separamos. Dizem que, quando coisas assim acontecem, você descobre quem são os seus verdadeiros amigos, e é verdade. Acontece que a maioria das pessoas na minha vida só estava ali porque achavam que o Donovan e eu éramos um casal de ouro, ou porque ele era um figurão no banco... Quando nos divorciamos, fiquei sozinha. E, então, lá estava você. E você precisou de mim. Mas acontece que precisei de você também. Mais do que você imagina.

Fico olhando para ela, assimilando tudo o que diz. Percebo que sempre imaginei que Madison tivesse um milhão de amigos, como tinha na escola. Nunca me ocorreu que ela pudesse ser tão solitária quanto eu era. Quanto sou.

Mordo o lábio, querendo ficar com raiva — sabendo que deveria ficar com raiva —, mas, quando ela olha para mim, sei que vou perdoá-la. Que já a perdoei. Além disso, o senhor Walcott sempre dizia que a cavalo dado não se olham os dentes e, a bem da verdade, ela é a única amiga que me restou.

— Meu Deus, Madison — digo, soltando os braços. — Você pode sair da minha varanda?

Ela olha para mim com tristeza.

— Sim — diz, com os ombros caídos e começando a descer os degraus.

— Não seja tão dramática — digo. — Preciso que você se mexa para que eu possa abrir a porta para você entrar.

— Sério? — pergunta, levantando a cabeça.

— Sim — digo. — Sério.

— Ah, meu Deus! Como eu gostaria de poder abraçar você!

— Não precisamos nos empolgar — digo. — Acabamos de fazer as pazes. E, já que sou a sua única amiga, você não deveria correr o risco de me mandar para o hospital.

Mais tarde, quando estamos acomodadas no sofá colocando a conversa em dia com xícaras de café e Rufus deitado, contente, aos meus pés, coloco-a a par de Eric.

— Ah, Jube — diz. — Que droga!

E, lamentavelmente, rio do modo como isso resume bem toda a situação. Em seguida, faço-lhe uma pergunta que remoo desde que Eric saiu da minha casa.

— Às vezes você gostaria de nunca ter conhecido o Donovan?

Ela olha para mim, como quem está pensando.

— Às vezes, sim — diz. Dá um gole no café. — Depois olho para Sammy, Hannah e Molly e é aí que ter conhecido o Donovan é a melhor coisa que já me aconteceu.

Assinto.

— Mas e se vocês não tivessem filhos? E se você e o Donovan tivessem se casado, depois ele tivesse traído você e você não tivesse ganhado nada com isso?

— O que está querendo perguntar? Se o amor vale o risco?

Encolho os ombros.

— Sei lá. — Mas, em seguida: — Sim, acho que é isso que estou querendo perguntar.

Ela dá um longo suspiro, rindo um pouco.

— Olha, o amor pode ser uma grande merda — diz. — Especialmente a minha vida amorosa. Se soubesse que o Donovan e eu acabaríamos do modo como acabamos, será que eu ainda teria ido até o fim? Não sei. Mas a vida é assim, não é? Nunca sabemos. Amar as pessoas, confiar nas pessoas. É sempre um risco. E só há um jeito de descobrir se vale a pena.

Relaxo no sofá, assimilando o que ela diz. E, então, do nada, penso em Michael.

No que ele disse na biblioteca: como a vida é mais fácil quando você se esconde do mundo, se esconde da dor. Como fiz por nove anos. Então, quando finalmente saí do esconderijo, conheci Eric. E, embora doa — embora ainda doa a cada segundo de cada dia —, será que realmente preferiria nunca o ter conhecido? Nesses nove anos sozinha, nunca senti nem um terço dessa alegria pura, a euforia que senti naqueles poucos momentos com Eric.

Fico me perguntando: se voltasse a me esconder, me proteger do mundo e das pessoas nele, de que outros momentos eu sentiria falta?

E é quando sei que Madison está certa. É preciso correr riscos.

No domingo, acordo, passeio com Rufus e como um ovo cozido na torrada, cortado em pedacinhos — embora minha agorafobia pareça melhor, ainda tenho um medo profundo de morrer sufocada. Fico parada à porta do quarto da minha mãe. Olho para ele, como se tirasse fotografias mentais da colcha com borda arredondada, dos frascos de perfume falsificado na penteadeira, das caixas cheias de joias — e começo.

Levo a maior parte da manhã e da tarde separando as coisas do seu armário e das gavetas, fazendo pilhas de coisas para a caridade, para o lixo e para guardar, sendo a última a menor de todas. Rufus observa com uma leve curiosidade de onde está empoleirado dentro do quarto. Desmonto a cama, empurrando a armação, o colchão e o box até o corredor, junto com a penteadeira e o criado-mudo. Então, passo para a primeira das três caixas de joias. Sei que são todas bijuterias — ela levou as poucas peças verdadeiras que tinha para Long Island —, mas mexo em todas mesmo assim, nem que seja só para segurar cada colar e brinco pela última vez. Para evocar a lembrança de quando a vi com eles pela última vez.

Só quando mexo no fundo da terceira caixa que a encontro — uma carta, endereçada à Kimberly Yount, em Fountain City, no Tennessee. O endereço de remetente é o de minha mãe, o meu — de quando vivíamos em Fountain City. Uma notificação em preto foi carimbada no mesmo lado do destinatário: devolver ao remetente. Eu a viro e vejo que está fechada.

Fico olhando para ela, curiosa para saber quem poderia ser. Ela nunca mencionou nenhuma Kimberly, mesmo quando vivíamos no Tennessee, aparentemente a alguns quilômetros de distância dessa mulher.

Sento-me no chão de madeira e deslizo o polegar sob a aba do envelope, soltando a cola velha com pouco esforço. Tiro do envelope uma folha de caderno dobrada e a abro. Começo a ler.

Kimmy,

Sei que você não quer ouvir falar de mim, mas você não retorna as

minhas chamadas. Não que seja culpa sua, acho. Só preciso de

alguém agora. E você é a coisa mais próxima de uma amiga que já

tive.

Jubilee — que é a minha filha, esse é o nome que dei a ela, talvez

você já saiba disso, não sei —... Os médicos estão dizendo que ela tem

algo terrível. Estou com medo. Dizem que não posso tocá-la. Que

ninguém pode.

Ela sempre foi uma menina ansiosa — muito antes desses

problemas começarem. Acordava no meio da noite gritando como

uma louca, como nunca se viu. Terrores noturnos, foi o que o médico

disse, mas eu sabia que era algo mais — como se ela tivesse nascido

com medo do mundo. Como se sempre soubesse o que tinha antes de

mim. E pensei que fosse minha culpa. Você sabe que não acredito em

pecado ou nesse negócio de Deus castigar as pessoas ou seja lá o que

for, mas também sei que o que eu fiz não é certo,— e talvez a Jubilee

tenha que pagar por isso. Como um carma, ou algo assim.

E agora ela tem esse negócio; está ainda mais nervosa do que

antes, embora eu ache que não posso culpá-la. Ela não me deixa

chegar perto dela. Os médicos disseram que, se eu tivesse cuidado, se

usasse luvas e não tivesse nenhum contato de pele, provavelmente

tudo ficaria bem, mas ela fica muito assustada.

Comprei essa camisola na Belk — esse negócio feio e antigo com

mangas compridas e tecido que não acaba mais. (Não sei como

alguém consegue dormir com um negócio assim — embora, pensando

bem, ache que é exatamente o tipo de coisa que você usaria. Sem

querer ofender!) E em algumas noites, quando a Juby está dormindo,

entro escondido no quarto e coloco os braços em volta dela, com

cuidado para não acordá-la, para não tocar a pele dela. E, ah, ela tem

um cheiro tão bom. Assim como quando era a minha bebezinha,

embora esteja com 6 anos agora. Isso parte o meu coração.

Não sei por que estou lhe contando tudo isso, exceto, talvez, que

saber que estou em um mundo de dor a faça se sentir melhor. Acho

que mereço isso por ter arruinado seu casamento, como fiz. Ou talvez

só queira que você sinta pena de mim. Deus sabe como eu adoraria

ter uma amiga agora, nem que fosse por pena.

Enfim, se servir de algo, eu sinto muito.

Vicki

Quando termino, leio novamente. E depois uma terceira vez. E, embora a carta me dê pistas sobre quem é meu possível pai e uma ideia do passado que nunca soube da minha mãe— e nem sei ao certo se queria saber —, só consigo me concentrar naquela camisola ridícula que achei no armário dela e usei como fantasia de Halloween. Estou rindo, ainda que minhas mãos estejam tremendo e lágrimas rolem pelo meu rosto. Minha mãe — que tinha um número exagerado de blusas muito apertadas, fumava muitos cigarros e estava longe, muito longe de ser perfeita —, ela me abraçou. Ela me amou. Da única maneira que sabia.

Por fim, levanto-me do chão, coloco a carta de minha mãe na pilha de coisas para guardar e continuo a separar as coisas. Algumas horas mais tarde, com dores musculares, desço a escada, satisfeita com o dia de trabalho. Sento-me no sofá, pego um livro no topo de uma das minhas pilhas titubeantes e decido passar o resto da noite lendo, com a cabeça de Rufus no meu colo.

Amanhã arrumo os móveis.

Logo depois telefono para a doutora Zhang.