Perto o bastante para tocar
Parte III
Deveríamos nos encontrar em outra vida, deveríamos nos
encontrar no ar, eu e você.
Sylvia Plath
(Vinte anos atrás)
The New York Times
(...continuação da página 19B) Isso levanta a pergunta: como será o futuro de uma menina que não pode ter contato humano?
“Nada de esportes de contato, para começar”, diz o Dr.
Benefield. “E, sim, a senhora Jenkins deve ter muito cuidado quando for abraçar ou tocar a filha em qualquer lugar que não esteja protegido por uma camada de roupa. As alergias são imprevisíveis, e não se pode simplesmente correr o risco. Um dia, é uma erupção cutânea severa e, no outro, uma anafilaxia — vida ou morte.”
Uma perspectiva aterrorizante para qualquer criança,
mas e quando ela ficar mais velha? Refiro-me aos meninos, aos ritos normais de passagem que os adolescentes experimentam: mãos dadas, o primeiro beijo — por fim, o sexo.
O doutor Benefield se mexe em seu assento.
“Às vezes a ciência pode avançar a um ritmo rápido”, diz
ele. “É perfeitamente possível que, com a devida atenção e pesquisa, algum tipo de cura possa ser concebido para a doença de Jubilee nos próximos cinco ou dez anos.”
E se não for?
Ele pigarreia. “Nesse caso, sim, Jubilee continuará
incapaz de ter contato de pele com outra pessoa.”
“Então, nada de beijo”, esclareço. “Nada de sexo.” O doutor Benefield faz um breve sim com a cabeça. “Correto.”
Trata-se de uma doença difícil de entender, e muitos
fazem comparações entre o caso de Jubilee e O Menino da Bolha de Plástico, um filme de 1976 feito para televisão cujo protagonista era John Travolta. A trama estava vagamente baseada na vida real de David Vetter e Ted DeVita, dois meninos que nasceram com o sistema imunológico extremamente comprometido — qualquer contato com água, alimentos ou roupas que não tivessem sido muito bem esterilizados poderia matá-los. Eles ficaram confinados a quartos esterilizados, livres de germes, durante o curto espaço de tempo que viveram (Vetter sobreviveu 13 anos, enquanto DeVita viveu para ver seu aniversário de 18 anos).
Quando menciono os “meninos da bolha” ao doutor
Benefield, ele assente, como se não fosse a primeira vez que a associação havia sido feita. “É uma circunstância totalmente diferente”, diz ele. “Jubilee pode sair por aí — só não pode ter contato com ninguém no mundo.”
Ele se refere a “contato” no sentido físico, naturalmente,
mas é preciso se perguntar se isso tem a ver com o lapso freudiano. Afinal, se a pessoa não pode tocar, abraçar ou beijar outra, até que ponto está mantendo contato?
Por ora, Jubilee não se deixa incomodar com essas
perguntas centrais da vida sobre seu futuro. Quando nossa pequena entrevista chega ao fim e ela termina sua lição de casa na mesa da cozinha, ela tira os olhos de mim e olha para a mãe. “Posso ir ler agora?”
Esta história faz parte de uma série especial de artigos de saúde sobre o aumento acentuado de alergias infantis no mundo, incluindo uma abordagem de algumas das doenças mais raras. Veja o artigo da próxima semana: “O Menino que Não Podia Ver o Sol”.