Perto o bastante para tocar

Colleen Oakley · Capítulo 23 de 37

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Perto o bastante para tocar

dezessete

ERIC

A dinâmica da carona mudou, agora que Aja está conosco. E lembro por que um trio de crianças nunca deu certo no parquinho — alguém sempre fica de fora. No carro, essa pessoa sou eu. Quando Aja não está concentrado em seu iPad, ele e Jubilee conversam. Constantemente. Sobre coisas estranhas, coisas das quais nunca ouvi falar, nem sei se são reais, como a anatidaefobia, o medo irracional de que, não importa onde você esteja, está sendo observado por um pato. Aja ri tanto com isso no banco de trás que até se dobra, segurando a barriga de dor.

Os dois conversam muito, mas nossas conversas se resumiram a um olá, perguntas do tipo sim ou não, e o “até amanhã” que ela responde toda vez que a deixo em casa, tiro sua bicicleta do carro e digo: “Até amanhã?”.

Por isso, não faz sentido que eu me veja ansioso para chegar logo o fim do dia. Que meus braços e pernas se sintam mais leves quanto mais perto estou da biblioteca. Que seja ela — mesmo quando está falando de patos — com quem eu mais quero estar.

Sexta-feira não é diferente. Durante todo o trajeto para casa, eles falaram sobre invenções, embora fosse mais uma troca de fatos do que uma conversa.

— A senhora que inventou biscoitos com gotas de chocolate vendeu a ideia para a Nestlé por um dólar.

— O plástico bolha foi um acidente. Estavam tentando fazer um papel de parede tridimensional.

— O inventor da Fender Stratocaster nem sabia tocar guitarra.

É como se houvesse um bolso extra no cérebro onde eles guardam fatos inúteis, como alguém guardando um lenço de papel sujo, caso venha a precisar dele novamente.

Quando chegamos à casa de Jubilee, ocorre-me que só irei vê-la novamente na segunda-feira, e essa ideia me incomoda. Ela põe a mão na maçaneta da porta.

— Acabei de ler Eclipse Total — deixo escapar. Não é exatamente verdade, pois ainda estou na metade.

Sua mão para.

— O que achou?

— Eu não queria ser o cara que encheu o saco dela.

Ela ri.

— Então, você quer... — Meus lábios estão secos, e molho o inferior com um movimento rápido da língua. — Eu sei que é fim de semana, mas talvez pudéssemos... sei lá. Nos encontrar. Falar sobre ele.

Ela olha para as janelas escuras da sua casa, como se a resposta estivesse colada em uma das vidraças.

— Hum... sim — diz. — Claro. Quer vir aqui amanhã? Eu não... eu vou estar de folga.

— Sim, ótimo — digo. — Que ótimo! Trago o almoço. Está marcado.

— Tudo bem — diz, saindo do carro em seguida.

Em uma ação que agora se tornou rotina, saio do carro, tiro a bicicleta do porta-malas, coloco-a atrás do portão e espero para ter certeza de que ela está segura dentro de casa antes de voltar para o carro e dar marcha à ré.

— Você acabou de marcar um encontro com ela? — Aja abre a boca no banco de trás.

— Não. Não, é claro que não. Ela só está me ajudando com... uma coisa.

— Ah — diz, e volta a atenção para seu jogo.

Assim que chegamos à casa de Jubilee no sábado, Aja vai de mansinho para a poltrona, coloca os fones de ouvido e começa a bater com os dedos no iPad, deixando Jubilee e eu sem jeito, olhando um para o outro. Dessa vez sou até grato a esse aparelho idiota, já que me dá a oportunidade de conversar a sós com ela.

— Aceita um chá? Um café? — pergunta.

— Sim, o café seria ótimo — digo, embora já tenha tomado duas xícaras nessa manhã e, na verdade, não devesse tomar mais.

Porém, estou mais inclinado a apenas admitir a derrota no plano de diminuir o consumo. Tiro o gorro de lã com a mão livre. Na outra, carrego uma sacola de papel com sanduíches. Vou até Jubilee para lhe oferecer um, mas ela se vira e sai pela porta dos fundos da sala. Observo-a, perguntando-me se deveria apenas sentar e esperar, quando ela chama:

— Você pode vir aqui?

Sigo sua voz pela sala até chegar a uma cozinha antiga com eletrodomésticos da década de 1980 e um papel de parede amarelado forrado de cerejas. Jubilee está em pé junto à bancada, de costas para mim. Tento não notar a forma como o sol, entrando pela janela, destaca o louro avermelhado do seu cabelo. Ou como seus cachos caem nas costas, chegando quase às curvas da sua cintura. O modo como sustenta todo o peso em um pé, projetando seu quadril arredondado, a curva do seu...

— Como você gosta? — pergunta por cima do ombro.

Pigarreio.

— Hum... preto está ótimo.

Ela se vira com a caneca na mão e faz sinal para que eu me sente à pequena mesa. Coloco a sacola na mesa à minha frente e ela coloca a caneca diante da sacola. Fico olhando para suas luvas, uma vez que parecem ser o lugar mais seguro para eu concentrar meus olhos. Por que ela está sempre com essas malditas luvas?

— E aí? — Senta-se na cadeira à minha frente. — Eclipse Total.

— Eclipse Total — repito.

A mesa é pequena, com pouco mais de meio metro de diâmetro. Uma mesa para dois, feita para que as pessoas se sentem muito perto uma da outra. Tão perto que, se estenderem a mão apenas alguns centímetros, podem se tocar.

— O que a sua filha achou?

— Não sei — digo. — Gostou de umas frases.

— Deixe-me adivinhar: a frase que diz que ser uma megera às vezes é a única coisa que uma mulher tem para se agarrar?

— Não — digo, tirando do bolso o bloco de anotações que fechei e pus ali, abrindo-o na página certa. — Eu entendi outra coisa também: que um beijo não mudou nada. Afinal, qualquer um pode dar um beijo.

— Hum — diz Jubilee, cruzando os braços.

— Sim, essa foi a minha reação também. Quer dizer, acha que ela já está beijando as pessoas? Os meninos?

— Bem, ela tem 14 anos.

— Só 14 anos — digo. — Você saía beijando aos 14 anos?

— Não — sussurra, olhando para a mesa. E vai ficando tão vermelha que me sinto mal por ter feito a pergunta.

Depois de alguns segundos de silêncio, pego a sacola de papel.

— Trouxe sanduíches — digo.

Ela se levanta e pega pratos e guardanapos no armário. Levo um sanduíche para Aja e o coloco na mesinha de centro diante dele. Ele nem levanta os olhos.

Quando volto para a cozinha, Jubilee diz:

— Essa é uma citação bem irônica. Não parece que você precisa se preocupar tanto com o jeito dela de idealizar o amor.

Suas palavras me acertam no estômago, e percebo que Jubilee estava certa: prefiro que Ellie seja uma idealista em se tratando do amor a alguém que não acredita nele. E estou apreensivo porque, se ela já for cética, a culpa é minha. Como um filho pode acreditar no amor quando seus próprios pais fugiram dele?

— Então, qual você vai ler agora? — pergunta Jubilee enquanto comemos. — Carrie, A Estranha ou Misery, Louca Obsessão?

— Não sei.

— Você deveria perguntar a ela. Ver o que ela acha.

Deixo escapar uma risada curta e triste.

— É. Não acho que... não tenho certeza se isso vai funcionar.

Jubilee inclina a cabeça para o lado. Sei que preciso lhe dizer a verdade.

— Ellie não está falando comigo. Ela não fala há, ah... — Faço as contas de cabeça e me encolho — Seis meses. Com exceção de uma mensagem de texto, pedindo basicamente que eu a deixasse em paz.

— Ah — diz, e fico imaginando o que ela está pensando. Ou melhor, sei o que está pensando, o que deve estar pensando, e odeio isso. — Por quê?

A pergunta de um milhão de dólares. Não sei como responder até que minha boca se abre e as palavras saem:

— Eu a chamei de vagabunda.

Por mais doloroso que seja admitir, é um alívio dizer isso, tirar o peso desse terrível segredo dos meus ombros. Confessar. Tenho um súbito e inesperado estalo sobre as visitas semanais de Stephanie ao padre para fazer suas próprias confissões de culpa.

— Você o quê? — Os olhos de Jubilee se arregalam. — A sua filha?

— Sim. Não estava no meu melhor momento.

Dou outra mordida no meu lanche e mastigo, cuidadosamente, como se contasse as mastigadas até chegar às trinta necessárias antes de engolir. Jubilee apenas me encara, esperando.

Viro a orelha na direção da sala, mas tudo o que ouço são as batidinhas fracas de Aja na tela do iPad. Solto um sopro forte.

— Há mais ou menos um ano, Ellie começou a andar com uma menina, a Darcy. Ela não passava de uma dessas meninas encrenqueiras, com uma família desunida, essas coisas; o tipo de pessoa com quem você espera que o seu filho nunca se junte. — Apesar de dizer isso em voz alta, agora vejo a ironia: Ellie vem de uma família desunida também. — Enfim, na nossa cidadezinha, a rede de rumores estava cheia de acusações contra Darcy: ela batia nos professores do sexo masculino, usava drogas, não só maconha, mas coisas mais pesadas, como oxicodona e Ritalina. Quer dizer, sei que crianças podem ser cruéis, e que rumores são apenas isso... rumores. Mas eram tantos que devia existir alguma verdade por trás deles. Então, nos fins de semana que eu ficava com a Ellie, eu não a deixava sair com Darcy. Isso era algo em que Stephanie e eu não estávamos de pleno acordo; ela tinha essa postura de “crianças são assim mesmo” e “você tem que dar espaço para elas experimentarem”. Para mim, era uma reação violenta à própria educação rígida da Stephanie. Isso me deixava furioso. Tivemos brigas feias por causa disso. Um fim de semana, quando Ellie estava comigo, pensei que estava no seu quarto, com fones nos ouvidos; ela sempre estava com eles. Eu estava brigando com a Stephanie porque não queria que Ellie fosse à festa de aniversário da Darcy. Ao que parece, ela já tinha deixado a menina ir sem falar comigo, o que me irritou. Aí ela me perguntou por que eu tinha que ser tão controlador o tempo todo. Eu me exaltei e gritei: Porque a nossa única filha está virando uma vagabunda viciada em drogas como a Darcy, e você não parece estar nem aí para isso!

Jubilee puxa o ar.

— Ai!

— E quando me virei...

— A Ellie estava lá.

Faço que sim.

— Ela ouviu a conversa toda. Bem, o suficiente, enfim. — Balanço a cabeça. Nunca vou me esquecer da expressão nos seus olhos. Era de dor, não a explosão de raiva habitual à qual eu estava acostumado. Eu podia lidar com a raiva, mas com a mágoa... Saber que eu era o responsável por ela era angustiante. — Pedi desculpas na mesma hora, é claro, mas ela não quis saber. Disse que ia fazer a mala e queria voltar para a casa da mãe. Eu não ia levá-la; não podia deixá-la ir embora sem que entendesse meus motivos, ou pelo menos que me perdoasse. Mas, finalmente, no sábado, quando percebi que meus esforços estavam sendo inúteis, e que mantê-la na minha casa a estava deixando com mais raiva ainda de mim, eu a levei para a casa da Stephanie. Desde então, ela não fala comigo.

— Mas vocês não têm nenhum tipo de acordo em relação à guarda?

Cruzo os braços na cadeira e passo a mão no rosto antes de responder.

— Fim de semana sim, fim de semana não. Passei a guarda total para a Stephanie, porque não queria que a Ellie ficasse de lá para cá. Eu sabia que estabilidade era mais importante para ela, mas, depois que eu disse... o que eu disse, ela não quis vir mais, e achei que forçá-la só pioraria a situação. E, honestamente, pensei que ela apareceria. Sei que o que eu disse foi horrível, mas ela é uma criança. E sou o pai dela. — Encolho os ombros. — Acho que o estrago foi grande demais. Ela já me odiava por causa do divórcio.

Pego novamente o lanche, e Jubilee faz o mesmo. Ficamos sentados ali, ouvindo um ao outro mastigar o lanche, até que o silêncio se torna insuportável. Parte de mim quer saber o que ela está pensando, enquanto a outra parte tem pavor de ouvir a verdade.

— Isso é uma droga mesmo — diz ela, finalmente. — Mas, se servir para fazer você se sentir um pouco melhor, você ainda é muito melhor do que meu pai.

Viro bruscamente a cabeça na sua direção. Passei meses tentando convencer Aja de que poderes paranormais não são reais, mas poderia jurar que ela estava lendo minha mente.

— Onde ele está?

Ela dá de ombros.

— Nem sei quem ele era. Minha mãe nunca me disse.

Tento assimilar isso.

— Ah, bem — digo, tentando aliviar o clima. — Então não sou o pior pai do mundo, apenas o segundo pior.

— Exatamente. Viu? Ânimo!

Eu rio e pego minha caneca. Enquanto dou um gole no café, observo Jubilee com o canto do olho, desviando meu olhar para seus lábios. Sigo a curva deles; meus olhos são como o carrinho de uma montanha-russa: subindo até os picos e mergulhando no vale entre eles. São lindos. Seus lábios. Espanto-me ao pensar que ela pode vê-los todos os dias, toda vez que olha para um espelho ou um reflexo na janela do carro. Como consegue tirar os olhos deles?

É então que noto a maionese, uma pequena protuberância no canto da sua boca.

Estico a mão, o polegar estendido para limpá-la para ela, eufórico como uma criança com a oportunidade inesperada de tocá-la. Jubilee congela, os olhos fixos em mim.

— Você tem um...

No último segundo, ela joga a cabeça para trás, tirando-a do meu alcance, e leva a própria mão à boca, deixando meu polegar suspenso no ar, triste.

— Um pouquinho de maionese — digo, trazendo minha mão de volta aos meus lábios, simulando em mim mesmo onde ela deve limpar.

Suas bochechas ficam coradas, fazendo minha respiração parar na garganta, enquanto ela limpa a mistura gordurosa com um guardanapo.

— Saiu? — pergunta.

Faço que sim com a cabeça.

Ficamos sentados ali por um minuto, olhando um para o outro.

E, uma vez que não posso me conter, ou não quero mais, estendo a mão mais uma vez, dominado pela necessidade de acabar com a distância que nos separa, de me conectar de alguma forma com ela. Jubilee congela novamente, tensionando os músculos dos ombros, mas, dessa vez, não me importo. Minha mão encontra um cacho do seu cabelo. Delicadamente, enrolo meus dedos nele, envolvendo-os no emaranhado macio de cachos, com meu olhar perdido nas mechas castanhas que não têm fim.

Ouço uma forte tomada de ar, e isso me faz cair em mim. Estou invadindo seu espaço, sendo ousado demais. Subitamente constrangido com minha falta de controle e minha respiração irregular, solto seu cabelo como se estivesse pegando fogo e endireito a coluna. Porém, antes que possa me desculpar, antes que possa encontrar as palavras em meu cérebro confuso para explicar meus atos estranhos, ela pega meu pulso com uma das mãos. Seu aperto é forte, e juro que posso sentir o calor dos seus dedos através do material das suas luvas. Encontro seu olhar novamente. E, com minha visão periférica, vejo seu peito arfante, inspirando e expirando de forma tão irregular quanto o meu.

E então seus lábios se abrem. E é o único convite de que preciso. Com a mão esquerda presa, me inclino em sua direção, levantando a mão livre para tocar seu rosto, já imaginando o doce relevo da minha boca na...

— Pare!

O grito alto faz exatamente isso. Faz-me parar no mesmo instante. Viro-me, com a mão a alguns centímetros do rosto dela; em minha cabeça, um misto de desejo e confusão. Vejo Aja parado no batente da porta com os olhos arregalados e a boca formando palavras que estou tentando decifrar.

— Você não pode tocá-la! Tire a mão, tire a mão!

Ele está puxando meu braço agora, aos gritos. Será que está tendo algum tipo de surto? Levanto-me, agarrando-o pelos ombros, tentando fazê-lo olhar para mim e se acalmar. Mas nada. Ele continua gritando e seu pânico aumentando, até que finalmente entendo o que parece ser o clímax assustador do seu confuso delírio:

— Você vai matá-la!