Rush sem limites
Capítulo 8
Dois dias haviam se passado desde que eu vira Blaire pela última vez. Evitá-la não estava sendo fácil. Era difícil lutar contra a vontade de descer e vê-la todas as manhãs. Mas não foi por isso que quebrei minha regra hoje. Pelo menos foi o que eu disse a mim mesmo.
Grant aparecera bêbado com uma de suas garotas de sempre. Eu não sabia se eles acordariam cedo, mas não queria que Blaire os encontrasse na cozinha. Para ser sincero, eu não queria que ela entendesse errado caso visse a garota. Ela já tinha dito o que achava da minha vida sexual. Eu devia tê-la deixado pensar que aquele era mais um dos meus lances... mas estava descendo as escadas mesmo assim. Sem conseguir me conter.
– Você acabou de sair da despensa? – perguntou a amiga de Grant, cujo nome eu não conseguia lembrar, dirigindo-se a Blaire em um tom confuso. Andando a passos largos, queria entrar logo naquela maldita cozinha para calar a boca da menina. Blaire não precisava responder.
– Sim. Você acabou de sair da cama do Rush? – retrucou Blaire. Sua voz suave contornou as palavras, fazendo a pergunta parecer inocente. Diminuí o ritmo, surpreso por perceber uma insinuação territorial.
– Não. Não que eu fosse recusar se ele me convidasse, mas não diga isso ao Grant. Esqueça. Ele já deve saber mesmo – respondeu.
Parei na porta e procurei por Blaire na cozinha. Ela estava parada do outro lado da ilha. A garota estava entre nós, encobrindo minha visão.
– Quer dizer que você acabou de sair da cama do Grant? – perguntou Blaire. Segurei um sorriso. A confusão na voz dela pareceu alívio.
– É. Ou, pelo menos, da antiga cama dele.
– Antiga?
Lutei contra a vontade de ficar ali escutando até onde Blaire iria com seu interrogatório. Eu estava adorando, caralho. Ela se importava, e eu gostava disso. Droga, isso não era bom.
A garota se mexeu, e os olhos de Blaire encontraram os meus. Fui pego. A conversa terminou. Estava na hora de consertar o que começava a se tornar um problema. Lidar com meu próprio interesse por Blaire era uma coisa. Outra era ela estar interessada em mim. Ela não sabia de nada. Eu não podia deixar que gostasse de mim. Nem um pouquinho. Blaire me odiaria no fim das contas, e eu nunca precisaria saber o que ela poderia sentir por mim além de falta de interesse.
– Blaire, desculpe se a interrompi. Pode continuar a interrogar a amiga do Grant. Tenho certeza de que ele não vai se importar – falei, apoiado no batente da porta e agindo como se procurasse uma posição mais confortável.
Blaire arregalou os olhos antes de baixar a cabeça e despejar farelos das mãos na lata de lixo. Eu nunca a vira comer. Gostei de ver que ela estava se alimentando bem.
– Bom dia, Rush. Obrigada por nos deixar ficar aqui ontem à noite. Grant tinha bebido demais para voltar dirigindo para a casa dele – agradeceu a garota.
– Grant sabe que o quarto é dele sempre que quiser – respondi, sem olhar para ela. Mantive os olhos em Blaire, e então fui até a ilha.
– Bom, hã, então eu acho que vou voltar lá para cima. – A menina ainda estava falando, mas não lhe dei atenção. Não me importava com ela, até preferia que fosse embora logo. Quando ouvi seus passos desaparecerem pelo corredor, me aproximei de Blaire.
– Blaire, querida, a curiosidade matou a gatinha – falei, adorando o jeito como seu rosto se enrubesceu. – Pensou que eu tivesse trazido mais alguém para dormir? Humm? Estava tentando saber se essa daí tinha passado a noite na minha cama? – Porra, eu queria tocá-la. Ela se remexia nervosamente, mas, por um maldito minuto, eu queria senti-la perto de mim. Não! Eu precisava lembrar quem ela era. O que eu havia feito. E mantê-la longe de mim acabaria salvando a nós dois. – Com quem eu vou para a cama não é assunto seu. A gente já não falou sobre isso? – Ela deveria estar com raiva de mim, e não me olhar com aqueles grandes olhos indefesos. Sem conseguir me afastar, estendi a mão e enrolei uma das mechas dos cabelos dela no meu dedo. A textura sedosa me fez estremecer. Eu estava chegando perto demais. Isso era errado, e perigoso. – Você não quer me conhecer. Talvez ache que quer, mas não quer. Juro que não.
Se ela ao menos percebesse isso, tudo seria mais fácil. Mas, em vez de fugir, ela continuava me olhando como se houvesse algo mais. Algo além de um cretino arrogante. Como diabos ela conseguia enxergar através do personagem que eu estava interpretando? Ela não devia ver nada além do pirralho mimado que o mundo imaginava que eu era.
– Você não é o que eu imaginava. Preferiria que fosse. Seria bem mais fácil – comentei, percebendo que havia dito aquilo em voz alta. Soltei os cabelos dela, dei um passo para trás, me virei e saí da cozinha. Precisava me afastar. Mas como eu conseguiria com ela dentro da minha casa, cacete?
Levei horas para cair no sono, e acabei sendo despertado pelo toque do celular. Rolando na cama, peguei o aparelho na mesa de cabeceira e estreitei os olhos para a luz na tela. Era Will. Meu primo mais novo. Merda. De novo, não.
– O que foi? – rosnei ao telefone, já sabendo por que ele estava ligando. Ou ele tinha fugido outra vez e estava vindo para a minha casa ou já estava aqui e precisava entrar. Minha tia era uma vaca. Uma vaca indomável. Eu entendia por que o garoto fazia aquilo, mas ele não podia continuar fugindo. Principalmente para cá.
– Estou aqui fora – disse ele.
– Merda, Will. O que foi agora? – perguntei, atirando as cobertas para o lado e procurando um moletom para vestir.
– Ela quer me obrigar a ir para o acampamento. Durante toda a porra do verão – respondeu. – Na Irlanda!
Ou seja, ela queria férias da maternidade e estava se preparando para despachá-lo. Provavelmente seria o melhor verão da vida dele. Um verão livre dela.
Desliguei e atirei o telefone na cama antes de descer até a porta da frente. Ao abri-la, hesitei diante da visão de Will segurando uma mochila como se eu fosse mesmo permitir que ele ficasse ali. Eu já tinha criado uma criança. Não pretendia criar outra.
– Você vai para casa de manhã. Você vai amar a Irlanda. Vá para o quarto do Grant. Durma lá – resmunguei, fechando a porta.
– Eu nem falo irlandês – reclamou.
Como diabos esse garoto chegou ao ensino médio?
– Eles falam inglês, imbecil – retruquei, dando um tapa na cabeça dele. – Estou exausto. Você me acordou. Agora, vá dormir, cacete.
Ele assentiu e deixou os ombros caírem como se eu tivesse acabado com seu mundo. Ignorei o beiço e o acompanhei escada acima. Não era a primeira vez. Will fugia para a minha casa sempre que eu estava por perto. Isso costumava acontecer com mais frequência no verão, quando a mãe dele gostava de visitar Rosemary Beach.
– Você já foi à Irlanda? – perguntou o garoto ao chegar ao quarto em que passaria a noite.
– Já. Um país incrível. Agora, vá dormir – respondi, subindo de volta para minha cama.
Ele ia voltar para casa no dia seguinte, mas eu teria que pedir ao Grant que viesse buscá-lo. Assim que chegasse à casa da minha tia e ele começasse a brigar com ela, eu cederia e o traria de volta comigo.
Grant conseguiria deixá-lo em casa. Tinha feito isso por mim mais de uma vez.