Rush sem limites
Capítulo 28
Lutando para conseguir respirar apesar da dor, eu me virei e fui atrás dela. Ela não me queria. Ela não queria aquilo. Mas eu não podia simplesmente deixá-la ir embora. Aonde ela iria? Onde dormiria? Quem cuidaria para que ela se alimentasse? Quem a abraçaria quando ela chorasse? Ela precisava de mim. E, meu Deus, eu precisava dela.
Blaire chegou ao primeiro degrau, tirou o telefone do bolso e o jogou para Abe.
– Tome. Eu não quero isso – disse ela.
– Por que eu ficaria com o seu celular? – perguntou Abe.
– Porque eu não quero nada de você – gritou ela.
– Mas eu não dei esse telefone a você – disse ele.
– Fique com o celular, Blaire – eu disse. – Se quer mesmo ir embora, não posso impedir, mas, por favor, leve o celular. – Eu estava pronto para implorar de joelhos. Ela precisava levar o telefone. Caramba, ela precisava de um telefone.
Blaire deixou o aparelho no primeiro degrau.
– Não dá – ela disse, e eu soube que não conseguiria fazê-la levá-lo também. Eu não conseguiria fazer nada. Eu era uma porra de um inútil. O mundo dela havia acabado de ser destruído em pedacinhos, e eu era uma porra de um inútil.
– Você é igualzinha a ela – disse minha mãe para as costas de Blaire.
– Só espero que eu consiga ser metade da mulher que ela foi – Blaire disse, com total convicção na voz.
A porta se fechou atrás dela.
Eu precisava fazer alguma coisa.
Desci a escada, sem tirar os olhos da porta. Não podia simplesmente ficar ali e deixá-la ir embora.
– Aonde ela vai? – perguntei a Abe. Ele faria uma ideia.
– Ela vai voltar para o Alabama. O único lar que conhece. Tem amigos lá. Eles vão acolhê-la – ele disse.
O grito de Nan veio do lado de fora, e meu coração parou. Será que havia acontecido alguma coisa com Blaire? Desci a escada correndo, mas não antes que minha mãe e Abe saíssem correndo pela porta.
– Blaire! Abaixe essa arma. Nan, não se mexa. Ela sabe usar esse troço melhor do que a maioria dos homens – ordenou Abe com a voz tranquila.
Puta merda, Blaire estava apontando uma arma para Nan. Que porra Nan havia dito?
– O que ela está fazendo com essa arma? A lei por acaso permite isso? – perguntou minha mãe.
– Ela tem porte de arma e sabe o que está fazendo. Fique calma – Abe disse, parecendo irritado.
Blaire abaixou a arma.
– Vou subir nesta picape e sumir da vida de vocês. Para sempre. Mas cale a boca em relação à minha mãe. Não quero ouvir isso outra vez – Blaire disse, olhando furiosamente para Nan. Então subiu na picape e, sem olhar para trás, foi embora.
– Ela é louca, caralho – Nan disse, olhando para nós.
Eu não podia ficar ali escutando-os. Ela estava me deixando. Eu não podia simplesmente deixá-la ir sozinha. Podia acontecer alguma coisa com ela. Me virei, entrei em casa e subi para o meu quarto.
Fui atingido pelo cheiro de Blaire assim que cheguei ao último degrau, e precisei parar e trincar os dentes para suportar a dor. Apenas duas horas antes eu estava deitado ali com ela nos meus braços.
Fui até a cama, sentei, peguei o travesseiro em que ela estava dormindo e o segurei no rosto. Meu Deus, cheirava exatamente igual a ela. Deixei escapar um soluço e lutei para segurar o choro, mas não consegui. Eu a havia perdido. Minha Blaire. Eu havia perdido a minha Blaire.
Não. Não. Eu não ia aceitar aquilo.
Levantei e pus o travesseiro de volta no lugar com reverência. Iria atrás dela. Precisava de roupas e da minha carteira. Iria buscá-la. Ela precisava de mim. Ela não me queria naquele momento, mas iria querer depois que passasse o choque. Eu poderia abraçá-la e aliviar a dor. Eu a abraçaria enquanto ela chorasse. Então passaria a vida acertando as coisas. Fazendo-a feliz. Feliz para caralho.
Desci a escada com a mochila nas mãos, enquanto, eu tinha certeza, minha mãe, minha irmã e Abe conversavam no saguão sobre Blaire e o que havia acontecido. Não ia escutá-los. Estava saindo.
– Aonde você está indo? – minha mãe me perguntou.
– Ela apontou uma arma para a minha cabeça, Rush! Você não se importa com isso? Ela poderia ter me matado! – Nan sabia aonde eu estava indo.
Parei e olhei primeiro para a minha mãe.
– Vou buscar Blaire. – Então olhei para minha irmã. – Você vai aprender a calar a porra da sua boca. Você disse a coisa errada para a pessoa errada desta vez, e aprendeu uma lição. Da próxima vez, pense antes de dizer merda. – Abri a porta com força.
– E se ela não voltar com você? Ela nos odeia, Rush – minha mãe disse, parecendo irritada com a ideia dela voltar para lá.
– Se ela não voltar comigo, todos vocês terão de se mudar. Não vou viver na minha casa com as pessoas que destruíram o mundo dela. Decidam aonde planejam ir, porque não quero vocês aqui quando voltar. – Bati a porta atrás de mim.
O trajeto de oito horas até Summit, no Alabama, teria sido mais fácil se eu não estivesse seguindo Blaire e também tentando evitar que ela me visse. Esconder um Range Rover preto em estradas do interior não era nada fácil. Precisei perdê-la de vista mais vezes do que gostaria, mas era a única maneira de segui-la. Estava com a cidadezinha marcada no meu GPS e, por sorte, Blaire parecia estar fazendo o mesmo caminho sugerido pelo aparelho.
Quando entrei na cidade, vi que a placa que dizia “Bem-vindo a Summit, Alabama” estava gasta e precisava de uma nova pintura, mas dava para ver bem o que estava escrito. Eu a deixei ficar uns bons dez minutos à minha frente, porque era a única maneira de ficar fora de vista. Passei pelo primeiro semáforo. Segundo o Google, a cidade tinha apenas três semáforos. No seguinte, vi a placa do cemitério e virei. O estacionamento estava vazio, exceto pela picape de Blaire e outra picape. Não parei onde ela pudesse me ver. Tratei de estacionar um pouco abaixo.
Ela havia ido ver a mãe. E a irmã. Algum dia eu havia ficado tão sentido por outra pessoa desse jeito? Eu detestara a forma como Nan fora rejeitada, mas será que algum dia senti esse tipo de emoção por sua dor? A ideia de Blaire lidar com tudo aquilo sozinha era demais. Ela precisava me escutar.
Quando vi sua picape azul se mover, esperei até ter certeza de que ela havia entrado na estrada antes de segui-la com segurança. Ela virou à direita no primeiro semáforo e então estacionou em um motel. Eu tinha certeza de que era o único motel em vários e vários quilômetros. Por mais que detestasse a ideia dela ficar ali, gostei de saber que eu não precisaria fazer isso na casa de algum estranho. Ali, tínhamos privacidade.
Enquanto ela estava pegando um quarto, estacionei o carro, saí e fiquei esperando. Não tinha certeza do que iria dizer ou se iria apenas implorar. Mas eu precisava fazer alguma coisa. Blaire saiu da recepção, e seu olhar encontrou o meu. Ela cambaleou, então suspirou. Não esperava que eu a seguisse. Mais uma vez, ela não compreendia o quanto eu era louco por ela, caralho?
Uma porta de carro bateu exatamente quando Blaire começou a caminhar na minha direção, e ela virou a cabeça e franziu a testa para o cara que havia acabado de sair da picape, a mesma que eu vira no cemitério. Soube sem precisar ser apresentado de que o cara era Cain. A forma possessiva como ele a observava me disse que um dia ela havia sido dele. Ele só precisava saber que não era mais.
– Tomara que saiba quem é esse cara, porque ele seguiu você do cemitério até aqui. Reparei que ele estava no acostamento observando a gente de uma certa distância, mas não falei nada – disse Cain, apressando o passo e ficando na frente de Blaire.
– Eu o conheço – disse Blaire sem parar.
– Foi por causa dele que você voltou correndo para casa? – perguntou Cain.
– Não – disse ela, olhando para mim. – O que você está fazendo aqui? – ela me perguntou, sem se aproximar.
– Eu vim porque é aqui que você está – respondi simplesmente.
– Rush, não dá.
Dá, sim. Eu precisava fazê-la enxergar isso. Dei um passo em sua direção.
– Blaire, por favor, fale comigo. Tenho tanta coisa para explicar...
Ela sacudiu a cabeça e recuou.
– Não, não dá.
Eu queria bater na cabeça de Cain.
– Pode nos deixar um minuto sozinhos? – perguntei a ele.
Ele cruzou os braços sobre o peito e ficou parado na frente dela.
– Não vai dar. Parece que ela não quer conversar. Não sou eu quem vai obrigá-la. Nem você.
Comecei a ir em sua direção, quando Blaire saiu de trás dele.
– Está tudo bem, Cain. Este é o meu irmão postiço, Rush Finlay. Ele já sabe quem você é. Se ele quer conversar comigo, a gente vai conversar. Pode ir embora. Eu vou ficar bem – ela falou por cima do ombro antes de destrancar a porta do quarto 4A.
Ela havia acabado de me chamar de irmão postiço. Que porra era aquela?
– Irmão postiço? Mas espere um instante... Rush Finlay? O filho único do Dean Finlay? Caraca, Bee, você é parente de um astro do rock! – disse Cain, olhando para mim boquiaberto.
Era só o que me faltava, um fã tão grande do Slacker Demon que sabia o nome do filho de Dean.
– Pode ir, Cain – disse Blaire, friamente, entrando no quarto.