Rush sem limites

Abbi Glines · Capítulo 7 de 37

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Rush sem limites

Capítulo 4

 

Deixei que o telefone tocasse três vezes antes de desligar e ligar de novo. Ia ligar para a minha mãe até ela atender. Era melhor ela não brincar comigo, ou eu desligaria a porcaria do telefone e cancelaria seus cartões de crédito. Assim ela me retornaria.

– Sinceramente, Rush, é mesmo necessário ficar me ligando sem parar? Se eu não atender, deixe uma mensagem, e eu retorno as suas ligações quando for conveniente para mim.

– Não dou a mínima para a sua conveniência. Quero falar com o filho da puta com quem você se casou. Agora.

Minha mãe bufou ao telefone.

– Eu não vou admitir que meu filho se dirija a mim desse jeito, ou ao meu marido. Ligue quando estiver pronto para falar com respeito e...

– Mãe, que Deus me perdoe, mas se você não puser aquele homem no telefone, o celular e os cartões de crédito serão cancelados em dez minutos. Não brinque comigo.

A ameaça a calou. Sua respiração forte foi a única resposta que recebi.

– Agora, mãe – repeti com firmeza.

Ouvi sussurros abafados antes de escutar Abe pigarreando.

– Alô – atendeu ele, como se estivesse alheio ao fato de que havia abandonado a filha.

– Compreenda uma coisa. Eu controlo tudo. O dinheiro. Minha mãe. Tudo. É tudo meu. Se foder comigo, você está fora. Trouxe você aqui porque amo a minha irmã. Mas você está me mostrando que não vale o tempo dela. Agora, me explique por que cargas d’água você falou para sua outra filha vir até a minha casa e depois simplesmente saiu da porra do país.

Abe fez uma pausa, e eu o ouvi respirando fundo.

– Esqueci que ela ia até aí.

O cacete que esqueceu.

– Ela está aqui agora, seu merda, e precisa de ajuda. Você e a minha mãe têm que pegar um avião e voltar para cá agora.

– Eu não a vejo há cinco anos. Não... não sei o que dizer a ela. Ela é adulta agora, pode dar um jeito. Eu não devia ter falado para ela ir até a sua casa, mas precisava dizer alguma coisa. Ela estava implorando por ajuda. Se não a quer aí, mande-a embora. É uma garota inteligente. Tem uma arma. Vai sobreviver. Ela é uma sobrevivente.

Ela é uma sobrevivente. Ele tinha dito isso mesmo? De verdade? Minha cabeça começou a latejar, e pressionei os dedos nas têmporas para aliviar a dor.

– Você deve estar brincando comigo – consegui comentar apesar do meu choque horrorizado. – Ela acabou de perder a mãe, seu merda. Está completamente desamparada. Você já a viu? Ela é muito ingênua para estar andando por aí sem proteção. Não venha me dizer que ela é uma sobrevivente, porque a garota que apareceu na porta da minha casa ontem à noite parecia totalmente destruída e sozinha.

A pausa na respiração dele foi o único sinal de que Abe dava a mínima para a filha.

– Não posso ajudá-la. Não posso ajudar nem a mim mesmo.

Era isso. Ele estava se recusando a voltar para casa e resolver aquilo. Blaire foi deixada aqui para ser ajudada ou ser expulsa. Ele não se importava. Eu não conseguia encontrar as palavras. Encerrei a ligação e larguei o telefone no sofá antes de olhar pela janela à minha frente.

Nan odiara aquela garota a vida inteira. Ela a invejara. Ela a culpara. Pelo quê? Por ter tido um pai pior do que a mãe?

Ninguém bateu à porta que levava para o último andar, que era todo meu. Ouvi a porta se abrir, seguida pelo barulho de passos. Apenas uma pessoa entraria ali sem bater.

– Abasteci a picape dela – disse Grant ao pisar no último degrau. – Não precisa me pagar.

Não olhei para o cara que eu considerava meu irmão. Fomos irmãos postiços quando nossos pais ficaram casados por um curto período. Eu precisava de alguém em quem me apoiar naquele momento, e Grant se tornou um amigo. Criamos um vínculo.

– Você vai deixá-la embaixo da escada igual ao maldito Harry Potter? – perguntou, atirando-se no sofá à minha frente.

– Ela vai ficar mais segura embaixo da escada – respondi, desviando o olhar para ele. – Bem longe de mim.

Grant riu e pousou os pés no pufe à sua frente.

– Eu sabia que você não ia ignorar o fato de ela ser gostosa para cacete. Aqueles olhos grandes e inocentes a deixam ainda mais tentadora.

– Fique longe dela – avisei. Grant não faria bem a ela. Éramos dois escrotos. E Blaire precisava de segurança. Não tínhamos como dar isso a ela.

Grant piscou e reclinou a cabeça para olhar para o teto.

– Calma. Não vou tocar nela. Ela é do tipo que a gente admira a distância. Mas não posso prometer que não vá admirar. Porque, caramba, ela é gata.

– A mãe dela morreu – comentei, ainda sem acreditar que Abe sabia o tempo todo que a mãe dela estava doente e não fez nada.

Grant baixou os pés e se inclinou para olhar para mim, apoiando os cotovelos nos joelhos. A expressão preocupada no rosto dele me lembrou de quanto meu irmão podia ser sensível. Eu não podia deixá-lo cometer um erro e magoar Blaire. Ele não faria de propósito, mas acabaria magoando.

– Morreu? Tipo, recentemente? – perguntou.

Assenti.

– Sim. Ela não tem ninguém. Veio para cá porque Abe tinha lhe dito que a ajudaria. E então viajou.

Grant soltou um assobio furioso por entre os dentes.

– Que filho da puta.

Concordava com ele. Completamente.

– Você já falou com o Abe?

Antes da minha conversa com Abe, eu não gostava dele e o desprezava. Agora eu o odiava. Odiava tê-lo levado até lá. Deixado seu coração frio e egoísta entrar na minha família. Ninguém mais poderia ser culpado por isso.

– Ele disse que não pode ajudá-la – respondi. A indignação na minha voz era clara.

– Você vai ajudá-la, certo? – perguntou Grant.

Tive vontade de falar que aquilo não era problema meu. Que eu não tinha pedido por essa merda. Mas tinha, sim – quando trouxe aquele homem para casa.

– Vou tratar de conseguir para ela um emprego que pague bem e seja seguro. Quando tiver dinheiro suficiente para ter sua própria casa, farei o possível para ajudá-la a encontrar algo acessível.

Grant soltou um suspiro de alívio.

– Ótimo. Quero dizer, sabia que faria isso, mas é bom ouvir você dizer. – Somente Grant esperava que eu fizesse a coisa certa. Todo mundo me via como o filho mimado de uma lenda do rock. Grant via mais. Sempre viu. Não decepcioná-lo era um dos motivos por eu ter feito alguma coisa da minha vida. Não me tornei o que o mundo tinha imaginado para mim. Ou o que muita gente achava que eu era. Trilhei meu próprio caminho porque alguém acreditou em mim.

– O melhor lugar para ela é o clube – comentei, pegando o telefone. Eu era membro do country club de Kerrington, o eixo da pequena cidade turística de Rosemary Beach. Um emprego lá seria seguro para Blaire e pagaria bem.

– Não ligue para o Woods. Ele é um cretino. Vai dar uma olhada nela, e comê-la passará a ser sua meta – disse Grant.

Imaginar Woods Kerrington, filho do proprietário do clube, tocando Blaire me deu arrepios. Woods era um cara legal – éramos amigos quase a vida toda –, mas ele adorava as mulheres. E as adorava por apenas uma noite, depois se livrava delas. Eu não o estava julgando – agia exatamente igual. Só não pretendia deixar que Woods tocasse em Blaire.

– Ele não vai tocar nela. Eu garanto – disse, antes de ligar para a diretora de recursos humanos do clube.

Blaire já havia conhecido o clube, e Darla já tinha lhe dado um emprego. Não pude deixar de sorrir. Talvez ela fosse mais forte do que aparentava. Mas o orgulho que senti travou meu súbito bom humor. Por que diabos eu estava todo feliz com o fato de Blaire Wynn ter conseguido um emprego? E daí? Ela tinha 19 anos, não 10. Eu não devia sentir nada em relação a ela. Blaire era uma maldita estranha. Que eu desprezara durante quase toda a vida.

Peguei o telefone e liguei para Anya. Ela estava sempre disponível e sempre ia embora depois que terminávamos. E não passava a noite. Era o único motivo pelo qual eu sempre deixava que ela voltasse. Isso e o fato de que ela fazia o melhor boquete do mundo e uma comida italiana deliciosa.

Ela poderia tirar Blaire da minha cabeça. E Blaire chegaria em casa e me veria com Anya esta noite. Não que precisasse ser lembrada de ficar longe de mim. Ela tinha medo de mim. A única vez em que vira interesse em seus olhos foi naquela manhã em que ela se virou e me flagrou a observando. Tinha gostado de me ver sem camisa. E eu adorei, caralho.

É... Era melhor ligar para Anya. Uma trepada sem compromisso, uma beleza morena era exatamente do que eu precisava.