Rush sem limites
Capítulo 19
–Seu quarto agora é lá em cima – lembrei a ela quando entramos na casa e ela seguiu para a cozinha. Não tínhamos aberto a boca até então. Eu não sabia direito o que dizer ou mesmo como conversar com ela agora.
Blaire fez uma pausa, então se virou e andou na direção da escada. Eu não podia deixar que ela fosse assim.
– Tentei ficar longe de você – falei.
Ela parou e se virou para me olhar. A tristeza nos olhos dela era insuportável. Eu não queria magoá-la. No entanto, eu seria a causa do maior sofrimento de sua vida. Eu me odiava. Odiava o que eu era, quem eu era.
– Naquela primeira noite, tentei me livrar de você. Não porque você me desagradasse. – Dei uma risada amarga diante da verdade. – Mas porque eu sabia. Sabia que ficaria a fim de você. Que não conseguiria manter distância. Talvez eu a tenha detestado um pouquinho nessa hora, por causa da fraqueza que você conseguiria encontrar em mim. – Eu sabia desde o primeiro momento que ela era um problema. Que acabaria comigo. Mas não sabia que ela me deixaria de quatro.
– O que há de tão errado em você ficar a fim de mim? – perguntou ela, com uma lágrima brilhando no canto do olho. Cacete. Eu detestava saber que ela não compreendia.
– É que você não sabe tudo e eu também não posso contar. Não posso revelar os segredos de Nan. Porque são dela. Blaire, eu amo Nan. Durante a vida inteira, eu a amei e protegi. Ela é a minha irmã mais nova. É isso que eu faço. Mesmo que eu queira você como nunca quis ninguém mais na minha vida, não posso revelar os segredos da minha irmã. – Se ao menos Blaire pudesse aceitar essa resposta e me dar um tempo... Eu precisava consertar todas as coisas que eu havia feito. Deveria ter uma forma de consertar tudo.
– Isso eu entendo. Tudo bem. Não deveria ter perguntado. Desculpe – murmurou ela. Blaire estava sendo sincera. E estava pedindo desculpas, caralho. Para mim. – Boa noite, Rush – despediu-se, virando-se e subindo as escadas.
Eu deixei que ela fosse. Ela queria dizer que não era problema ter segredos, só que eu não poderia tê-la também. Como eu faria aquilo? Eu a tivera em meus braços. Sabia do que seu sorriso era capaz e como a forma de me olhar mudava o meu humor. Era como se ela tivesse se tornado o sol, e eu girasse em sua órbita. Ela era o centro do meu universo.
Ainda assim, eu era o motivo pelo qual ela tinha sofrido tanto. Eu dera a seu pai um lugar para onde fugir. Eu fora atrás dele quando ele estava fraco e precisava ficar com a filha e a esposa. Eu tinha lhe dado uma alternativa. Outra vida. Outra filha para chamar de sua e outra família.
E ele deixara Blaire completamente sozinha. Se eu ao menos tivesse me importado o suficiente para descobrir de quem eu o estava tirando... mas não dei a mínima. Apenas quis dar a Nan o que ela tanto queria. Não pensei em mais ninguém. Apenas em Nan. Era sempre Nan.
Ou tinha sido. Agora não mais.
Eu não podia ignorar a verdade. A felicidade e a segurança de Blaire significavam muito para mim. Proteger Nan não era mais a minha prioridade. Blaire estava começando a assumir esse lugar. Ela havia entrado na minha vida e mudado tudo. Eu deveria odiá-la por isso. Mas não conseguia. Nunca a odiaria. Era impossível.
Subi as escadas e parei na porta do quarto dela. Eu a queria na minha cama naquela noite. Mas pelo menos ela estava dormindo ali em cima, então eu conseguiria ficar mais tranquilo. O remorso seria minha única companhia na cama naquela noite.
O toque do telefone irrompeu na escuridão, e me forcei a abrir os olhos e andar até aquele barulho perturbador. Tinha passado a maior parte da noite acordado. Agora que finalmente caíra no sono, meu maldito telefone tinha que tocar. Ao atender a chamada, percebi o sol através das persianas. Era mais tarde do que eu imaginava. Talvez eu estivesse dormindo havia mais tempo.
– Alô – rosnei ao telefone.
– Você ainda está dormindo? – A voz irritante de Woods não melhorou o meu humor.
– O que você quer? – perguntei. Não era da conta dele se eu ainda estava dormindo.
– É a sua irmã – ele disse.
Eu me sentei e esfreguei os olhos. Não estava a fim de acordar e ter que resolver os problemas da Nan. Já tinha os meus com que me preocupar.
– O que foi? – disparei.
– Se ela falar com Blaire ou com qualquer outro funcionário meu com desrespeito, vou tratar de anular o título dela. Você pode não se importar de ela ser uma garota mimada, mas quando o veneno dela provoca um escândalo e constrange a melhor atendente que temos no restaurante em meses, isso se torna um problema.
Blaire? O quê?
– O que você está dizendo? Nan fez alguma coisa para a Blaire? Ou para outro atendente? Estou confuso.
– Blaire é uma das minhas melhores atendentes. Eu a passei para o salão do restaurante na semana passada. E a cadela da sua irmã a chamou de gentalha e exigiu que eu a demitisse hoje. Na frente de todo mundo. – A voz de Woods ficava cada vez mais alta. Ele estava irritadíssimo, mas nada perto do nível de fúria que eu estava sentindo. – Entendo que você não se importe com Blaire. Isso é óbvio, já que ela está dormindo na porra da sua despensa. Mas ela é especial. Trabalha duro, e todo mundo gosta dela. Não vou permitir que Nan a magoe. Está me entendendo?
Não gostei de Woods dizer que Blaire era especial. É lógico que eu sabia que ela era especial, caralho, e ele precisava segurar a onda. E por que ele a transferiu do campo de golfe para o restaurante? Para ficar perto dele? Era isso? Por mais que eu quisesse me sentir aliviado por ela não ter mais que trabalhar debaixo do sol, a ideia de que ele a transferira para ficar perto dele me enfureceu. Além de Nan. Porra. Ela havia forçado demais a barra. Eu teria que lidar com ela. Estava puto por ter falado com Blaire daquele jeito também. Ninguém ia xingá-la. Nunca. Outro problema que eu deveria resolver. E outra vez a culpa era minha.
– Você. Está. Me. Entendendo? – Woods me lembrou que eu não havia respondido nada. Se ele não estivesse zangado pela forma como Blaire havia sido tratada, eu o lembraria exatamente com quem ele estava falando. Mas, só desta vez, eu deixaria que ele ficasse com raiva de mim. Porque ele tinha razão. A culpa era minha. Eu tinha criado o monstro em que a minha irmã havia se transformado.
– Ela não está mais na despensa. Coloquei-a em um quarto. Vou falar com Nan – prometi. Então decidi que ele precisava entender outra coisa também. – Blaire é minha. Se tocar em um fio de cabelo dela, eu mato você. Fui claro?
Woods soltou uma risada debochada.
– Ok. Que seja, Finlay. Não tenho medo das suas ameaças. O único motivo pelo qual vou me afastar de Blaire é que ela não me quer. Está na cara quem ela quer, cacete. Então trate de se acalmar. Você a conquistou desde o começo. Mas com toda maldita certeza não a merece – afirmou ele, encerrando a ligação.
Woods achava que ela me queria. Meu Deus, esperava que ele tivesse razão.
Levantei e liguei para Nan.
– Alô! – ela atendeu irritada.
– Onde você está? – perguntei a caminho do banheiro.
– No clube. Vou entrar na quadra de tênis em dez minutos.
Eu levaria meia hora para tomar banho e comer alguma coisa.
– Minha casa, em trinta minutos – falei, desligando o telefone, sem esperar que ela discutisse. Nan estava certa de que não devia me irritar, e eu não tinha dúvidas de que ela sabia exatamente do que isso se tratava.
Eu garantiria que minha irmã deixasse Blaire em paz. Depois compraria um celular para Blaire. Ela precisava de uma porra de um telefone! Eu queria ter certeza de que ela estava bem quando não sabia onde se encontrava.
E eu ia cozinhar para ela. Queria vê-la comer. Queria alimentá-la. Precisava compensar por tudo o que eu tinha causado antes.
Também não queria que ela dormisse naquele quarto. Eu a queria no meu quarto.