Rush sem limites
Capítulo 5
Ela tinha me visto. Porra.
Foi fácil fechar os olhos e usar Anya enquanto imaginava Blaire olhando para mim. A boca ligeiramente aberta e as bochechas rosadas. A respiração rápida enquanto eu a preenchia em estocadas sucessivas. Eu tinha ficado tão duro que estava fraco quando tudo acabou.
Também não consegui olhar para Anya. Fiquei me sentindo um escroto. Eu não trepava com uma mulher tendo outras na cabeça. Era errado. Mas senti que Blaire me olhava. Meu corpo inteiro ficou em alerta quando o calor do olhar dela me atingiu.
Quando virei a cabeça o suficiente para olhar para ela, a porta da despensa estava se fechando. Ela havia ido embora. Mas sua presença me deixara mais duro do que nunca. Por que Blaire me afetava tanto assim?
A primeira coisa que notei quando entrei na cozinha naquela manhã foi que estava tudo limpo. Eu não havia deixado as coisas daquele jeito. Mandara Anya para casa com um agradecimento e um beijo rápido no rosto antes de fechar a porta e voltar correndo para o quarto, onde fiquei xingando e andando de um lado para outro.
O que queria dizer que... Blaire havia limpado a cozinha. Por que ela estava limpando tudo? Eu já tinha dito que ela não precisava fazer a limpeza.
Comecei a fazer café, batendo portas de armários e gavetas. Detestei pensar em Blaire ali arrumando a bagunça que Anya e eu havíamos feito. Detestei pensar que ela fizera isso depois de me ver comendo Anya. Mas, mais do que isso, detestei o fato de me incomodar com tudo aquilo.
– Que bicho mordeu você? – A voz de Grant me assustou, e acabei derramando café quente na mão.
– Pare de aparecer de surpresa – resmunguei.
– Eu bati na porra da porta quando entrei. Qual é o seu problema? – Grant soou perturbado pela minha explosão de raiva. Ficou atrás de mim para preparar um café.
– Você me fez queimar a mão, imbecil – rosnei, ainda furioso por estar tão perdido nos meus pensamentos que nem havia escutado Grant entrar em casa.
– Ainda não tomou o café? Beba logo. Você está agindo feito um babaca. Depois da noite com Anya e seus talentos orais, achei que você estaria mais bem-humorado.
Enfiei a mão debaixo da água corrente da pia, em uma tentativa de esfriar a pele queimada.
– Acabei de acordar. E como você sabe que Anya esteve aqui ontem à noite?
Grant deu um salto e se sentou no balcão em frente, antes de tomar um gole de café. Sequei a mão numa toalha e esperei que ele me dissesse como sabia sobre Anya.
– Ela me ligou ontem à noite. Queria saber quem era a garota que estava morando na sua casa. – Grant deu de ombros e tomou outro gole.
Não sei bem se gostei daquilo. Como ela sabia sobre Blaire? Eu não tinha contado nada.
– Pare com essa sua cara de intrigado. É irritante – falou Grant, sorrindo e acenando para mim com a xícara. – Ela viu Blaire chegando na noite passada. Parece que vocês dois estavam bem ocupados lá fora, mas Anya conseguiu ver a lourinha por cima do seu ombro. Ficou curiosa quando a viu desaparecer embaixo da escada... – disse ele, interrompendo a frase.
Achei que havia mais história, então fiquei esperando. Como Grant não continuou, lancei-lhe um olhar furioso.
Ele respondeu com uma risada e então deu de ombros.
– Tudo bem. Eu não queria falar a parte em que você olhou para Blaire e depois comeu Anya como se não houvesse amanhã. Ela percebeu que você ficou mexido, cara. Me desculpe, mas você não é bom em disfarçar emoções. – Seu sorriso se abriu ainda mais. – Mas foi a melhor trepada da vida dela. Se bem que ela ainda não trepou comigo.
Eu teria que mandar flores a Anya. Ou algo assim. Merda! Ela sabia que tinha sido Blaire quem me deixara maluco na noite passada. Eu conseguia ser ainda mais escroto do que pensava.
– É a Anya. Ela não se importa. Você sabe disso. Ela só quer sexo, exatamente como você. Nada além de sexo. Mas sugiro que você se recomponha, e rápido. Se você está começando a se interessar pela Blaire, precisa parar logo com isso. Agora. Ela não é uma Anya, você sabe. Além disso, você não pode tocar nela. Ela vai odiar você quando tudo vier à tona. O pai dela, a sua irmã, tudo. Você não pode e sabe disso.
Ele tinha razão. Blaire não era alguém de quem eu poderia me aproximar. Em breve, eu seria seu inimigo, e ela me odiaria tanto quanto eu a tinha odiado por tantos anos. A única diferença seria que ela teria um motivo para me odiar. E eu ia merecer.
– Eu sei – respondi, detestando o gosto daquelas palavras na minha boca. O gosto da verdade.
– Preciso ir trabalhar. Mas achei que devia passar aqui e contar sobre o telefonema de Anya – disse Grant, pulando do balcão e levando a xícara até a pia.
– Obrigado.
Ele deu um tapa nas minhas costas.
– É para isso que estou aqui. Para manter o seu traseiro na linha – provocou, dando meia-volta e indo embora.
Esperei que a porta se fechasse antes de seguir para o banho. Tinha um dia cheio pela frente. Primeiro, precisava mandar umas flores e um cartão de desculpas para Anya. Seria o fim das nossas trepadas. Não podia mais fazer isso com ela. Mesmo que ela não se importasse.
Nan estava me esperando quando desci depois de me vestir. Imaginei por quanto tempo ficaria fazendo birra. Ela sabia que Blaire ainda não tinha ido embora, e estava furiosa. Seus longos cabelos ruivos estavam presos em um rabo de cavalo lateral que caía sobre o ombro esquerdo nu. A saia de tênis branca que ela vestia devia ser usada com uma camisa polo. Mas era um uniforme certinho demais para Nan. Ela tinha encomendado uma regata que tinha um nome sofisticado. Tirei sarro dela um tempão por isso.
– Blaire ainda está aqui – disse Nan, com um tom de voz irritado.
– Não, ela está no trabalho – respondi, me fazendo de desentendido.
– Trabalho? Ela está no trabalho? Você só pode estar brincando! – O tom de Nan passou de irritado para guinchado. Minha irmãzinha não estava acostumada a que eu não fizesse o que ela queria. Eu era a única pessoa no mundo que movia montanhas para fazê-la feliz. Mas nesse caso... nesse caso era diferente. Eu não podia magoar alguém inocente. Havia limites, e ela acabara me forçando a estabelecer um desta vez.
– Não – respondi, enquanto passava por ela a caminho da sala de estar, onde eu tinha certeza de que havia deixado a carteira na noite anterior, antes de ficar nu lá fora.
– Por que ela está trabalhando? Por que ela ainda está aqui? Você ligou para a mamãe?
Nan não entendeu a indireta. Eu teria mesmo que dizer que não cederia desta vez. E ela ia perder a discussão. Eu não expulsaria Blaire. Não por ela... Caramba, não por ninguém. A garota precisava de ajuda.
– Ela conseguiu um emprego. Precisa de dinheiro para sobreviver. A mãe dela morreu, Nan. Ela acabou de enterrar a mãe sozinha. Completamente sozinha, caralho. E o pai de vocês está em Paris com a nossa mãe, aproveitando a vida. Eu não vou expulsá-la. A culpa é minha.
Nan veio na minha direção pisando forte e apertou meu braço.
– Culpa sua? Como pode ser culpa sua, Rush? Ela não é ninguém para nós. Ninguém. A mãe dela morreu, mas não estou nem aí. A mãe dela acabou com a minha vida. Azar o dela. Mas nada disso é culpa sua. Pare de tentar salvar o mundo, Rush.
Eu havia criado essa mulher sem coração. Outra coisa que era culpa minha. Nan fora rejeitada quando criança, e eu tinha feito um esforço tremendo para recompensar isso. Mas acabei criando uma adulta insensível e vingativa. Faria qualquer coisa para mudar isso, mas não sabia como.
Olhei para ela e desejei não ver a menininha triste que eu quis tanto salvar. Ficaria mais fácil ser duro com ela. Mas ela era minha caçula. Sempre seria. Eu a amava para o bem e para o mal. Ela era minha família.
– É tudo culpa minha. Os problemas da Blaire e os seus – falei, arrancando meu braço da mão dela. Peguei a carteira da mesa de centro e segui para a porta. Precisava me afastar de Nan. Ela não estava ajudando em nada o meu humor.
– Onde ela está trabalhando? – Nan perguntou.
Parei ao passar pela porta. Talvez Nan acabasse descobrindo sozinha, mas eu não contaria. Blaire precisava de mais tempo para se estabelecer antes que minha irmã fosse atrás dela. Eu queria estar presente quando isso acontecesse.
– Não sei – menti. – Vá visitar suas amigas. Vá jogar tênis. Vá fazer compras. Apenas vá fazer o que deixa você feliz. Esqueça que Blaire está aqui. Ela é problema meu, não seu. Confie que eu vou fazer a coisa certa.
Abri a porta e saí antes que ela pudesse resmungar mais. Havia encerrado aquela conversa. Tinha outras coisas para consertar.