Rush sem limites

Abbi Glines · Capítulo 18 de 37

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Rush sem limites

Capítulo 15

 

 

Agora ela estava lá em cima. Bem atrás da porta que dava para o meu quarto. Tomando um banho... Droga.

Eu precisava sair. Era importante estabelecer um espaço entre nós. Aquela manhã com ela havia sido boa. Não queria mais afastá-la e deixar que suas necessidades básicas fossem negligenciadas. Ela comeria da minha comida, caramba. Ela dormiria em uma boa cama e tomaria banho em um banheiro bom e grande. Não a trataria mais como uma maldita empregada.

O peso que eu tinha nos ombros fora substituído pelo medo. Medo de não conseguir ficar longe dela. Sabendo que estaria logo ali, dormindo. Vendo-a comer, o que eu começaria a fazer, para garantir que ela comesse direito. Eu não ia conseguir me manter tão afastado dela assim.

Grant. Precisava conversar com Grant. Ele me lembraria de por que eu não poderia tê-la. Por que eu não poderia aninhá-la em meus braços. Depois de olhar para a escada mais uma vez, segui na direção da porta. Estabelecer um espaço entre nós e conversar com alguém racional me faria bem.

Entrei no meu Range Rover e liguei para minha mãe. Eles precisavam voltar logo para casa. Meu tempo estava se esgotando. Blaire ficaria sabendo de tudo, e eu a perderia. Mas me certificaria de que cuidassem bem dela. Não a deixaria simplesmente ir embora. Apontaria uma maldita arma para Abe se fosse preciso, para que ele corresse atrás da filha. Escroto idiota.

– Rush – atendeu minha mãe depois do terceiro toque.

– Quando vocês voltam? – perguntei. Não estava a fim de enrolação.

– Não sei direito. Ainda não conversamos sobre isso – ela respondeu. O tom irritado na voz não me surpreendeu. Ela detestava saber que eu poderia obrigá-la a voltar agora, se quisesse.

– Deixe eu falar com o Abe.

Ela suspirou dramaticamente.

– Por quê, Rush? Para você gritar com ele por não estar nem aí para a filha adulta que pode se cuidar sozinha?

Agarrando o volante, respirei fundo várias vezes, lembrando a mim mesmo que xingar minha própria mãe não era legal. Essa reação era apenas ela sendo a egoísta de sempre.

– Cartões de crédito, casas, carros... é tudo meu, mãe – decidi recordá-la.

Do outro lado da linha, ela sibilou.

– Olá, Rush. – A voz de Abe surgiu ao telefone.

– Ela tem um emprego no clube. Disse que vai se mudar assim que conseguir um lugar para alugar – contei a ele. Com certeza ele veria que não era boa ideia deixar que Blaire morasse sozinha.

– Ótimo. Eu sabia que ela ia conseguir se virar – comentou.

Parei a Range Rover no acostamento. O sangue pulsava nos meus ouvidos e minha vista ficou borrada. Filho da puta. Ele tinha mesmo dito aquilo?

– Você não merece respirar o mesmo ar que ela, seu cretino de merda.

Ele não respondeu.

– Ela não tem culpa de nada, caralho. É tão inocente e ingênua. E maravilhosa. Ofuscantemente maravilhosa. De parar o trânsito. Está entendendo? Sua filha não tem ninguém. Ninguém. E está vulnerável. Magoada e sozinha. Qualquer um poderia abusar dela. Você não se importa com isso? – Eu estava arfando. Os nós dos dedos estavam brancos pela força com que eu agarrara a direção, tentando controlar a raiva.

– Ela tem você – foi a única resposta dele.

– Eu? Ela tem a mim? De que porra você está falando? Você me conhece. Eu sou filho do Dean Finlay, e não sou o protetor dela. Sou o insensível que tirou o pai dela quando ela mais precisava dele. Esse sou eu, caralho! – Ele disse que ela tinha a mim. Como se eu merecesse essa responsabilidade. Será que ele não gostava dela? Como um pai podia ter uma filha como Blaire e não querer protegê-la?

– Eu teria ido embora mesmo que você não tivesse aparecido lá, Rush. Não aguentava mais. Ela não precisou de mim durante anos. Não precisa de mim agora. Não sou o que ela precisa. Mas você... talvez seja.

Como diabos ele achava que aquilo fazia sentido?

– Ela vai ficar bem. Vai ficar muito melhor sem mim. Tchau, Rush – disse Abe, com um peso na voz que eu nunca ouvira antes. Então o telefone ficou mudo.

Ele havia desligado.

Fiquei ali sentado, olhando a estrada. Ele não faria nada por ela, a deixaria resolver tudo sozinha. E esperava apenas que eu a ajudasse. Só isso.

Ela ia ficar bem. Eu garantiria isso. Ela ia ficar perfeitamente bem, caralho. Não deixaria que ninguém lhe fizesse mal. Eu a protegeria. Blaire não tinha um pai para cuidar dela, mas tinha a mim. Não estava sozinha. Não mais.

Ela tinha a mim.

Eu não queria mais conversar com Grant. Precisava ficar sozinho. Para pensar. Planejar. Tinha que proteger Blaire agora. Não a decepcionaria de novo. Ela merecia muita coisa boa.

Voltei para casa horas mais tarde. Decidi que seria amigo de Blaire. Seria o melhor amigo dela. O melhor amigo que ela já teve na vida. Não deixaria que nada a fizesse mal ou a magoasse. Como ela não me permitiria facilitar as coisas ou cuidar dela, eu tinha que protegê-la discretamente. Fazê-la acreditar que ela conseguia dar conta de tudo.

Abri a porta com um sorriso nos lábios. Saber que ela estava em casa tornava tudo melhor. Até eu vê-la vestida como um sonho erótico.

Puta merda, por que ela estava vestindo aquelas roupas?

Saia jeans curta com botas de caubói... Meu Deus, tenha misericórdia.

– Caraca – murmurei, fechando a porta. Ela ia sair daquele jeito. Iria à boate... com Bethy. Merda. – Você, hã, vai sair para a boate vestida assim? – perguntei, tentando disfarçar o pânico na voz.

– Não vou à boate, vou a um bar de música country. Tenho certeza de que são coisas totalmente diferentes – respondeu ela, dando um sorriso nervoso.

Um bar. Ela ia a um bar. Com aquela roupa.

Passei a mão pelos cabelos e tentei lembrar a mim mesmo que éramos apenas amigos. Amigos não perdiam o controle e exigiam que o outro trocasse de roupa antes de sair de casa.

– Posso ir com vocês? Nunca fui a um bar desses – perguntei.

Blaire arregalou os olhos.

– Você quer ir com a gente?

Percorri o corpo dela mais uma vez com o olhar. Ah, caramba, eu queria, sim.

– É, quero.

Ela deu de ombros.

– Está bem. Mas a gente tem que sair daqui a dez minutos. Bethy está esperando eu ir buscá-la.

Ela permitiu que eu fosse. Sem discussão. Graças a Deus.

– Fico pronto em cinco – garanti, subindo a escada correndo. Eu me arrumaria rápido e desceria a tempo. Não queria que os bêbados do bar vissem Blaire vestida como um anjo em botas de caubói. Pelo menos queria estar lá para afastá-los dela.

Se era para ir a um maldito bar de música country, queria parecer o filho de Dean Finlay. Não curtia muito esses lugares, mas as botas de Blaire, sim. Enfrentaria qualquer coisa para vê-la usando aquelas botas.

Peguei uma camisa do Slacker Demon e vesti meus jeans. Acrescentei um anel no polegar. Escovei os dentes e passei o desodorante. Parei para me olhar no espelho. Faltava alguma coisa.

Peguei algumas argolinhas que eu usava às vezes e as prendi na orelha. Botei a língua para fora e sorri, pensando se Blaire se interessaria pelo meu piercing. Ela quase tinha subido no meu colo na noite anterior, tentando vê-lo. Se fizesse isso esta noite de novo, eu deixaria que ela se esfregasse em mim. Balancei a cabeça para me livrar desses pensamentos, que apenas me renderiam problemas, e corri para a escada. Eu não tinha demorado nem dez minutos, mas estava forçando a barra.

Quando cheguei lá embaixo, meus olhos encontraram Blaire, que estava me observando atentamente. Meu coração disparou ao perceber que ela me olhava com malícia. Deus sabe como eu vinha pensando em prová-la de muitas, muitas maneiras. A ideia de que ela estava tendo pensamentos eróticos a meu respeito me deixou mais excitado do que eu queria naqueles jeans apertados.

Quando o olhar de Blaire chegou ao meu rosto, estiquei a língua para que ela visse o piercing. Os olhos dela brilharam, e tive vontade de gemer. Caramba, como eu queria lhe mostrar o que podia fazer com aquele pedacinho de prata.

– Imaginei que, se estava indo a um bar cheio de caras de botas e chapéus de caubói, precisava me manter fiel às minhas raízes. O rock corre nas minhas veias. Não posso fingir que me encaixo em nenhum outro lugar – expliquei.

Ela riu.

– Você vai ficar tão fora do seu ambiente hoje quanto eu nas suas festas. Vai ser divertido. Vamos lá, filho de roqueiro – disse, parecendo satisfeita antes de seguir para a porta.

Corri para dar a volta e abrir a porta do carona para ela. Outra coisa que eu sempre deveria ter feito.

– Já que sua amiga também vai, por que não pegamos um dos meus carros? Vai ser mais confortável do que a sua picape – sugeri. Eu queria que ela se sentasse na frente comigo. Perto de mim. Para que eu pudesse olhar aquelas pernas... e as botas. Não queria ficar espremido junto com a Bethy na cabine da picape.

Ela olhou para mim por cima do ombro.

– Mas a gente se encaixaria melhor se fosse na minha picape.

Tirei o controle remoto do bolso para abrir a porta da garagem. Blaire olhou na direção do carro.

– Com certeza é bem vistoso – ela disse.

– Quer dizer então que podemos ir no meu? Não fico muito à vontade dividindo o mesmo banco com a Bethy. Aquela menina gosta de tocar nas coisas sem permissão – falei. Ela nunca me tocara, mas eu já tinha ouvido sobre sua fama.

– É, gosta mesmo. Ela dá mole, né? – disse Blaire, sorrindo.

– “Dar mole” é um eufemismo no caso dela – respondi.

– Está bem. Claro. Podemos ir no supercarro matador de Rush Finlay, se ele insiste.

Ponto para mim. Agora eu precisava fazê-la entrar no banco do passageiro antes que se sentasse no traseiro. Segui na direção da Range Rover, acenando com a cabeça para que ela me seguisse.

Abri a porta, e ela parou e olhou para mim.

– Você abre a porta do carro para todas as suas amigas?

Eu nunca abria nem para as garotas com quem eu saía. Isso só as deixava com mais expectativa. Mas, com Blaire, eu apenas tive vontade. Queria que ela se sentisse especial. Droga, isso era perigoso.

– Não – respondi sinceramente, indo para o lado do motorista. Eu não devia flertar. Não devia tratá-la como se pudesse haver algo mais.

Entrei no carro. Não sabia ao certo o que dizer.

– Desculpe. Não quis ser grossa – ela interrompeu o silêncio.

Eu estava tornando a situação esquisita para ela. Precisava me esforçar se quisesse que aquilo funcionasse.

– Não, você tem razão. É que eu não tenho nenhuma amiga mulher, então não sei distinguir muito bem o que devo ou não fazer.

– Então você abre a porta para as garotas com quem sai? Que cavalheiro. Sua mãe criou você muito bem. – Ela quase soou ciumenta. Mas... não. Não fazia sentido.

– Na verdade, não. Eu... você... é que você parece ser o tipo de garota que merece esse tipo de gesto. Pareceu ser a coisa certa a fazer. Mas entendo o que está dizendo. Se vamos ser amigos, preciso estabelecer um limite e não ultrapassá-lo.

Os lábios de Blaire se abriram num sorrisinho.

– Obrigada por abrir a porta para mim. Foi gentil.

Dei de ombros. Não sabia o que poderia dizer sem parecer um idiota.

– Temos que pegar Bethy lá no clube. Ela deve estar no escritório atrás da sede do campo de golfe. Teve que trabalhar hoje. Vai tomar banho e se arrumar lá – explicou.

Saí da garagem e virei na direção do clube. Blaire e Bethy eram duas pessoas completamente diferentes. A amizade delas não tinha muito sentido.

– Como vocês ficaram amigas?

– Trabalhamos juntas um dia. Acho que estávamos precisando de uma amiga. Ela é divertida e cheia de energia. Tudo o que eu não sou.

Não pude deixar de rir.

– Você fala como se isso fosse uma coisa ruim. Acredite: você não iria querer ser como a Bethy.

Ela não discutiu. Pelo menos sabia que Bethy não servia de exemplo para ninguém. Como ficou calada, me concentrei em dirigir sem olhar para suas pernas, que ela havia acabado de cruzar, encurtando ainda mais a saia. Blaire tinha pernas lindas. O pouco de sol que havia tomado na praia deixara sua pele brilhando.

A ideia daquelas pernas envolvendo o meu corpo me fez estremecer. Mantive os olhos na estrada e, quando ela se mexeu, não olhei para baixo. Ela tinha trocado as pernas de posição. Caramba.

Quando estacionei na frente do prédio da administração do clube, Blaire abriu a porta e saltou do carro. Cacete. Será que ela estava saindo para dar lugar a Bethy? Não queria Bethy ao meu lado.

Blaire estava a caminho do escritório quando Bethy saiu, vestida como se estivesse pronta para o sexo. Short de couro vermelho? Sério?

– Que papo é esse? Por que você veio em um dos carros do Rush? – perguntou ela, olhando do Range Rover para Blaire.

– Ele vai com a gente. O Rush também quer dar uma conferida nesse tal bar. Daí... – Blaire olhou para mim.

– Isso vai prejudicar seriamente as suas chances de pegar alguém. Só um toque – disse Bethy, descendo as escadas. Então ela fez uma pausa e avaliou a roupa de Blaire. – Ou não. Você está uma gata. Quero dizer, já sabia que era linda, mas está muito gata com essa roupa. Eu quero umas botas de cowgirl de verdade. Onde arrumou essas daí? – Era verdade. Ela estava incrivelmente bonita. Não tinha convivido muito com Bethy, mas gostei de ver que ela não era invejosa para não admitir que Blaire estava incrível.

– Obrigada. Quanto às botas, ganhei de Natal da minha mãe dois anos atrás. Eram dela. Eu adorava as botas desde que ela as tinha comprado, e depois que ela... que ela ficou doente... acabou dando para mim.

Senti um aperto no peito. Não sabia que as botas eram da mãe dela. Merda. Olhei aquelas botas com segundas intenções e elas eram uma lembrança da mãe dela. Fiquei me sentindo um escroto.

– Sua mãe ficou doente? – perguntou Bethy. Pelo jeito, elas não haviam conversado muito. Ou Blaire falara sobre a mãe apenas para mim?

– Ficou. Mas isso é outra história. Venha, vamos arrumar uns caubóis – respondeu Blaire, fugindo do assunto. Ela queria encontrar um caubói. Cacete, isso me incomodou. Blaire não teria dificuldade em encontrar um cara entusiasmado. Todos correriam na direção dela quando a vissem. Eu não poderia atrapalhar sua diversão. Ou não sairíamos juntos de novo.

Seria difícil encontrar uma forma de me manter por perto e observá-la sem ficar no caminho. Difícil para cacete. Eu ia querer arrancar os braços de qualquer um que tocasse nela. Não me responsabilizaria caso alguém ousasse passar a mão na bunda dela. Esse eu pegaria.

Bethy caminhou a passos largos na direção do Range Rover, lançando um sorriso para mim como se conhecesse o meu segredo. Então passou pelo lado do passageiro e abriu a porta de trás.

– Vou deixar você ir na frente porque tenho um palpite de que é lá que o motorista quer que você se sente – disse ela, deixando os cabelos caírem no rosto e dando uma piscadela para mim.

Hum. Até que essa garota não era nada má.

Blaire se sentou no banco da frente e sorriu para mim.

– Hora de ouvir música country – disse ela com um brilho nos olhos.