Rush sem limites
Capítulo 27
Não consegui dormir. Fiquei lá deitado durante horas, vendo Blaire dormir em meus braços. Ela estava enroscada e agarrada a mim como se eu fosse sua única fonte de calor. O medo de que eu pudesse nunca mais ter aquilo era muito real. Por mais que não quisesse acreditar que ela iria me deixar, eu sabia que poderia perdê-la. Como eu sobreviveria a isso? Puxei-a mais para perto de mim e a segurei com força. Se eu ao menos pudesse fugir com ela. Nunca deixaria que soubesse a terrível verdade. Por que eu sempre precisava magoá-la, quando tudo o que queria fazer era protegê-la?
– Eu amo você – sussurrei em seus cabelos.
Isso precisava ser o bastante por nós.
Vi o sol nascer e a manhã clarear. Ela precisava dormir. Provavelmente dormiria até o meio-dia. Eu tinha que falar com minha mãe e Abe antes de Blaire acordar. Eles precisavam saber como eu me sentia em relação a ela. Ela se tornara minha prioridade. Isso precisava ficar claro.
Fechando os olhos, inspirei e desfrutei da sensação dela em meus braços. Tão confiante. Obriguei a mim mesmo a sair da cama e a pus para o lado, fora do meu abraço. Estava pronto para descer e lidar com a verdade. A verdade feia, horrível e sórdida que iria magoá-la. Eu não podia impedir isso. Esperava que eu fosse bom o bastante para ajudá-la a sarar.
Vesti minhas roupas e segui para a escada, então parei e olhei de novo para Blaire deitada na minha cama. Ela estava enroscada nas cobertas agora. Seus longos cabelos louros estavam espalhados sobre o meu travesseiro. Quando criança, eu sempre me perguntei se os anjos existiam. Aos 10 anos, decidira que não. Achava que tudo era uma grande bobagem. Agora eu percebia que estava errado.
Blaire era meu anjo.
Abe estava de pé na cozinha, tomando uma xícara de café e olhando pela janela. Aquele era o homem que havia abandonado a minha Blaire. Ele a deixara enterrar a mãe e resolver tudo sozinha.
Eu o odiava.
Ele não merecia a filha que tinha.
Abe se virou e viu meu olhar furioso. Franziu o rosto e tomou mais um gole de café antes de se virar para olhar pela janela outra vez. Estava acostumado com o meu ódio. Mas não fazia ideia de quanto eu o odiava ainda mais desde a última vez que me vira. Eu tinha vontade de arrancar os braços do corpo dele. Só olhar para ele já me enfurecia.
– Você vai perguntar por ela? – rosnei.
Ele deu de ombros.
– Ela está aqui, suponho. – Ele supunha. Não se importava. Apenas supunha.
– Por que você é um fodido tão insensível? – perguntei, as palavras permeadas de ódio.
– Por causa de uma dor que você jamais conseguiria compreender, garoto – respondeu ele. Sua voz não continha emoção nenhuma.
– Ela enterrou a mãe sozinha, seu filho da puta. E você sabia disso.
Ele não respondeu.
– Ela é tão inocente e solitária – falei.
Precisava que ele a reconhecesse, ou eu ia perder a cabeça.
– Não é mais, é? Inocente e solitária, quero dizer – retrucou ele.
Minha raiva chegou ao ápice, e atravessei a cozinha. Ele se virou bem a tempo de eu agarrá-lo e atirá-lo contra a parede.
– Seu filho da puta! Nunca mais, e eu quero dizer nunca mais, caralho, insinue por um instante que Blaire é qualquer coisa menos do que inocente. Eu acabo com a sua raça! Estou cagando para quem queira você! – berrei.
Abe largou o café, e a xícara se espatifou no chão, mas eu ignorei isso. Ele não parecia ligar. Havia um vazio naquele homem que eu não compreendia. Era como se ele não tivesse alma.
– Você dormiu com ela? – perguntou ele calmamente.
Bati com ele contra a parede, com força suficiente para sacudir as paredes e derrubar pratos, que se juntaram à xícara quebrada.
– Cale essa boca! – rugi.
– Rush! – O grito histérico da minha mãe interrompeu a minha fúria.
– Não é da sua conta, mamãe – falei, sem tirar os olhos do homem que eu estava prestes a matar com as minhas próprias mãos.
– Ela não parece mais estar solitária também – disse Abe.
Engoli o medo que me sufocava.
– Ela não está. Nunca vai estar. Eu sempre estarei lá para ela. Vou mantê-la em segurança. Vou cuidar dela. Ela sempre terá a mim.
– Quem? Do que você está falando, Rush? Solte o Abe! – Minha mãe estava ao meu lado, puxando meu braço.
Blaire ia descer logo. Não podia matar o pai dela. A menos que ela me pedisse. Então ele seria um homem morto. Eu o soltei e dei um passo para trás.
– Cuidado como você fala dela. Tudo o que quero na vida é ver você sofrer – eu o avisei.
– Rush, já chega! – Minha mãe enfiou as unhas no meu braço, e eu me soltei dela.
– Não me toque você também. Você quis esse merda nas nossas vidas. Você permitiu que ele a deixasse. – Apontei o dedo para ela.
O choque da minha mãe se transformou em confusão enquanto ela olhava para a louça quebrada ao redor.
– Vocês fizeram uma bagunça aqui. Vão para a sala de estar antes que alguém se corte. Quero que me explique seu comportamento – disse ela, saindo da cozinha e esperando que a seguíssemos.
Eu a vi sair, então olhei para Abe.
– Nada que você possa fazer será comparável ao que eu passei – disse Abe, virando-se e seguindo minha mãe para fora da cozinha.
Como aquele homem havia criado alguém como Blaire? Eu não compreendia como aquela mulher na minha cama podia ser produto desse homem. Nan, eu entendia, mas não Blaire.
Eu precisava conversar com os dois. Foi por isso que me levantei e saí da cama enquanto Blaire continuava lá. Entrei na sala, e minha mãe olhou para mim boquiaberta. Aparentemente, Abe havia contado alguma coisa.
– Você... você... Não acredito, Rush. Sei que você tem um problema com mulheres, mas é preciso traçar um limite. Aquela garota usou o corpo para manipular você.
Balancei a cabeça e fui pisando duro até a minha mãe. Não aguentava mais ouvi-los falar sobre Blaire. Não me importava mais quem dizia o quê, todos iriam pagar.
Abe ficou entre nós, mas com a atenção voltada para a minha mãe.
– Cuidado com o que diz sobre ela. Blaire é minha filha. – O tom de alerta em sua voz me surpreendeu. Não compensava o resto da merda, mas ele a defendera.
– Não acredito, Rush! Onde você estava com a cabeça? Sabe quem ela é? O que ela significa para esta família? – disse minha mãe em um tom horrorizado, como se eu tivesse cometido um crime. Ela culpava Blaire por algo que jamais fora culpa dela. Que raciocínio maluco era aquele em que a minha família tanto acreditava?
– Você não pode pôr a responsabilidade nela. Ela nem tinha nascido. Você não faz ideia do que ela sofreu. Do que ele a fez sofrer – falei, apontando para Abe. Porque eu sabia, e eu jamais iria esquecer.
– Não comece a se comportar como um cavalheiro ofendido. Foi você quem o encontrou para mim. Por mais que ele a tenha feito. E aí você vai e transa com ela? Pelo amor de Deus, Rush! Onde você estava com a cabeça? É igualzinho ao seu pai. – Minha mãe adorava me acusar de ser igualzinho a Dean quando estava com raiva de mim. Eu simplesmente me sentia grato por não ser nada parecido com ela.
– Mãe, lembre-se de quem é o dono desta casa – lembrei a ela.
– Dá para acreditar? Ele está se virando contra mim por causa de uma menina que acabou de conhecer. Abe, você tem que fazer alguma coisa!
Minha mãe suplicou para Abe, e eu tive vontade de rir. Ela esperava que ele fizesse alguma coisa. Que merda. Eu estava cansado daquilo. Precisava acertar tudo antes que Blaire acordasse.
– Georgie, esta casa é dele. Não posso forçá-lo a fazer nada. Deveria ter imaginado que isso iria acontecer. Ela é igualzinha à mãe.
O que ele disse me fez parar. Que diabos ele queria dizer com aquilo?
– Como assim? – rugiu minha mãe, obviamente já sabendo o que ele queria dizer, ou não estaria prestes a perder as estribeiras com ele.
– Já falamos sobre isso. Eu deixei você porque ela exercia sobre mim uma atração... Eu não conseguia me afastar dela.
– Eu sei disso. Não quero ouvir outra vez. Você a desejava tanto que me largou grávida com um monte de convites de casamento para cancelar – disse minha mãe, interrompendo-o.
– Amor, calma. Eu amo você. Estava só explicando que Blaire tem o mesmo carisma da mãe. É impossível não ficar atraído por ela. E ela é tão cega em relação a isso quanto a mãe era; não pode fazer nada a respeito – disse Abe.
Olhei para ele horrorizado. Ele achava que era isso? Ele acreditava naquilo? Eu não estava apaixonado por uma porra de um carisma. Ela era muito mais. Ele não via isso? Poderia haver um cretino mais cego?
– Aaahh! Será que essa mulher nunca vai me deixar em paz? Será que vai estragar a minha vida para sempre? Ela morreu, caramba! Eu recuperei o homem que amo e nossa filha enfim tem um pai. E agora isso. Aí vem você e transa com essa... com essa menina! – Minha mãe estava ficando alterada, e eu não tinha tempo para o chilique dela. Precisava me preocupar com Blaire.
– Se disser mais uma palavra contra ela, eu expulso você desta casa – avisei minha mãe pela última vez. Ela não iria desrespeitar Blaire de jeito nenhum.
– Georgie, meu amor, calma. Por favor. Blaire é uma boa menina. O fato de ela estar aqui não é o fim do mundo. Ela precisa de um lugar para ficar. Eu já lhe expliquei isso. Sei que você odeia a Rebecca, mas ela era a sua melhor amiga. Vocês eram amigas desde crianças; eram praticamente irmãs até eu aparecer e estragar tudo. Blaire é filha dela. Tenha um pouco de compaixão. – A argumentação dele não ia funcionar com a minha mãe. Ela era tão egoísta quanto a minha irmã.
– Não! Calem a boca, todos vocês! – A voz de Blaire foi como uma faca atravessando o meu coração.
Não. Meu Deus, não, ainda não. Ela não devia ouvir tudo desse jeito.
– Blaire. – Comecei a caminhar na sua direção, mas ela levantou as mãos para me deter. O olhar louco que me atravessou fez com que eu paralisasse.
– Você – disse ela, apontando para Abe. – Você está deixando que eles mintam sobre a minha mãe! – gritou ela. Eu estava morrendo de medo que ela estivesse magoada, mas a frieza absoluta e distante em seus olhos era assustadora.
– Blaire, me deixe explicar... – Abe começou a dizer.
– Cale essa boca! – vociferou Blaire, interrompendo-o. – Minha irmã morreu, minha outra metade. Ela morreu, pai. Em um acidente de carro a caminho do mercado com você. Foi como se a minha alma tivesse sido arrancada de dentro de mim e rasgada ao meio. Perder a Valerie foi insuportável. Tive que ver a minha mãe chorar e uivar de dor, depois tive que ver o meu pai ir embora para nunca mais voltar. Enquanto a sua filha e a sua mulher tentavam colar os caquinhos do mundo sem Valerie. Aí a minha mãe ficou doente. Eu liguei, mas você não atendeu. Então arrumei um emprego depois da escola, e comecei a pagar as despesas médicas. Não fazia nada a não ser cuidar dela e estudar. Só que no meu último ano ela piorou tanto que eu tive que largar a escola. Fiz a prova de conclusão do ensino médio e parei de estudar, porque a única pessoa no planeta que me amava estava morrendo enquanto eu assistia sem poder fazer nada. Segurei a sua mão quando ela deu o último suspiro, organizei o enterro, vi quando eles baixaram o caixão na cova. Você não ligou nem uma vez! Nenhuma! Aí tive que vender a casa que a vovó nos deixou e todos os objetos de valor que havia lá dentro só para pagar as despesas médicas. – Ela parou de falar e deixou escapar um soluço. Lágrimas escorriam pelo rosto dela, e meu coração explodiu.
Eu não sabia de tudo aquilo. Ela me contara apenas uma parte. Passei os braços ao redor dela, precisando abraçá-la, mas ela começou a se debater e a lutar contra mim como alguém que tivesse perdido a cabeça.
– Não toque em mim! – berrou, e eu precisei soltá-la ou correr o risco de ela ferir a si mesma. – E agora estou sendo obrigada a ouvir vocês falarem sobre a minha mãe, que era uma santa. Estão me ouvindo? Ela era uma santa! Vocês são todos uns mentirosos. Se tem alguém culpado nessa merda toda que estou ouvindo sair da boca de vocês é esse homem aí. – Ela apontou para o pai.
Eu havia enganado a mim mesmo ao pensar que ela me escutaria e me deixaria explicar. Seu mundo havia virado de cabeça para baixo com aquelas notícias. Eu não havia contado a ela. Não queria ver a expressão de dor em seus olhos, que não sabia como aliviar. Em vez disso, havia deixado aquilo acontecer, e era muito pior.
– O mentiroso é ele. Ele não vale o chão que eu piso. Se Nan é filha dele, se você estava grávida... – Blaire apontava para Abe enquanto falava, mas parou e voltou a atenção para a minha mãe.
Pela primeira vez, ela realmente olhou para a minha mãe. E se lembrou. Ela cambaleou para trás, e eu tive vontade de estender a mão e segurá-la novamente, mas não fiz isso. Ela precisava assumir o controle sozinha. Não queria a minha ajuda.
– Quem é você? – perguntou ela, enquanto a minha mãe olhava para ela com uma expressão atormentada nos olhos.
– Cuidado como vai responder – alertei minha mãe, depois de parar atrás de Blaire, para o caso de ela precisar de mim.
Minha mãe olhou para Abe e então de novo para Blaire.
– Você sabe quem eu sou, Blaire. Nós já nos encontramos.
– Você foi à minha casa. Você... você fez a minha mãe chorar.
Minha mãe revirou os olhos, e eu fiquei tenso.
– Mãe, último aviso – rosnei.
– Nan queria conhecer o pai, então a levei até lá. Assim ela pôde ver a linda familiazinha dele, as duas lindas filhinhas gêmeas e louras que ele amava e a esposa igualmente perfeita. Eu estava cansada de ter que dizer à minha filha que ela não tinha pai, porque ela sabia que tinha. Então mostrei a ela o que o seu pai tinha escolhido em seu lugar. Ela só voltou a perguntar sobre ele anos mais tarde.
Os joelhos de Blaire bambearam, e ela ficou com falta de ar. Merda, ela ia ter um ataque de pânico.
– Blaire, por favor, olhe para mim – implorei, mas ela não reagiu. Ela manteve o olhar no chão enquanto tudo começava lentamente a fazer sentido. Detestei ver aquela cena. Queria mandar todos embora para poder abraçar Blaire até tudo ficar bem de novo. Mas ela precisava disso. A verdade estava na mesa. Ela queria respostas.
Abe falou.
– Eu estava de casamento marcado com Georgianna, que estava grávida de Nan. Sua mãe foi visitá-la. Ela era diferente de todas as outras mulheres que eu conhecera; sua mãe era viciante. Não consegui ficar longe dela. Georgianna ainda estava a fim do Dean e Rush ainda visitava o pai a cada quinze dias. Para mim, no mesmo segundo em que Dean decidisse sossegar o facho, Georgie ficaria com ele. Eu nem tinha certeza de que Nan era minha filha. A sua mãe era inocente e divertida. Não gostava de roqueiros e me fazia rir. Quando dei em cima dela, ela me ignorou. Então menti para ela. Disse que Georgie estava grávida de outro filho de Dean. Ela sentiu pena de mim. Não sei como, mas consegui convencê-la a fugir comigo. A jogar fora aquela amizade de uma vida inteira. – Quando Abe terminou de explicar, percebi que aquilo havia sido o máximo que eu o ouvira dizer de uma só vez.
Blaire cobriu os ouvidos e fechou bem os olhos.
– Pare. Não quero ouvir isso. Só quero as minhas coisas, quero ir embora daqui. – Blaire soluçou, partindo-me ao meio.
– Gata, fale comigo, por favor. Por favor – implorei e toquei em seus braços, precisando de alguma forma de conexão com ela.
Ela se afastou, mas não olhou para mim.
– Não consigo olhar para você. Não quero falar com você. Eu só quero as minhas coisas. Quero voltar para casa.
Não. Não. Não. Eu não podia perdê-la. Não. Ela não ia me deixar. Eu a amava. Eu era dela. Ela precisava lutar por nós. Eu precisava que ela lutasse.
– Blaire, querida, você não tem casa – disse Abe. Eu sabia que ele queria lembrá-la de que ela não tinha aonde ir, mas tive vontade de dar um murro na cara dele. Ela não precisava ouvir aquilo dele naquele momento.
Blaire olhou furiosa para o pai.
– Minha casa são os túmulos da minha mãe e da minha irmã. Quero ficar perto delas. Fiquei aqui parada ouvindo vocês dizerem que a minha mãe era alguém que eu sei que não era. Ela jamais teria feito isso de que a estão acusando. Pode ficar aqui com a sua família, Abe. Tenho certeza de que ela vai amá-lo tanto quanto a sua antiga o amava. Só tente não matar ninguém desta vez – disse ela, com as palavras permeadas de ódio.
Então ela se virou e subiu correndo a escada. Olhei para ela e cogitei trancá-la em meu quarto e obrigá-la a ficar comigo. A me ouvir. Será que assim ela me perdoaria? Eu podia fazer isso com ela?
– Ela é instável e perigosa – sibilou minha mãe.
Fui pisando duro até ela e enfiei o dedo em seu rosto pela primeira vez na vida.
– O mundo dela acabou de ser arrancado de debaixo dos seus pés. Tudo o que ela conhecia. Então, pela primeira vez na vida, deixe de ser uma vaca egoísta e cale a porra dessa boca. Porque eu estou prestes a expulsar vocês dois daqui e deixar que descubram uma forma de sobreviverem por conta própria, caralho.
Não esperei para ouvir a resposta, porque sabia que me faria pirar completamente. Eu precisava tentar falar com Blaire sem o pai dela e a minha mãe interferindo.
Fiquei parado na porta do quarto enquanto ela enfiava as roupas na mala com que havia chegado ali apenas algumas semanas atrás.
– Você não pode me abandonar – eu disse, lutando contra a emoção que trancava a minha garganta.
– Não só posso como vou – respondeu ela.
O vazio em sua voz estava me matando. Aquela não era a minha Blaire. Eu não deixaria aquela mentira tirá-la de mim. Minha Blaire não era tão insensível e fria por dentro.
– Blaire, você não me deixou explicar. Eu ia lhe contar tudo hoje. Aí eles chegaram ontem à noite e eu entrei em pânico. Tinha que lhe contar primeiro. – Eu não estava conseguindo fazer nenhum sentido, e ela estava indo embora, mas eu não sabia que porra dizer para fazê-la ficar. Dei um soco no batente da porta e tentei me concentrar. Eu precisava dizer a coisa certa. – Não era para você descobrir assim. Não assim. Meu Deus, não assim. – Eu estava pirando. O pânico e o medo estavam prejudicando o meu raciocínio.
– Não posso ficar aqui – ela disse. – Não posso ver você. Você representa dor e traição não só em relação a mim, mas a minha mãe também. O que nós tivemos acabou. Morreu no mesmo instante em que eu desci a escada e entendi que o mundo que conheci a vida inteira era uma mentira.
Suas palavras foram definitivas. Como eu poderia lutar se ela se recusava a nos dar uma chance? Ela nunca conseguiria olhar para mim de outra forma de novo? Eu não conseguiria viver em um mundo como aquele. Um mundo sem Blaire.