Rush sem limites

Abbi Glines · Capítulo 23 de 37

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Rush sem limites

Capítulo 20

 

Eu estava na varanda quando ouvi a voz de Nan.

– Cadê você? – chamou ela. Não estava feliz por estar ali. Ótimo. E não ficaria feliz quando eu tivesse terminado a conversa.

Entrei quando ela chegou à sala de estar ainda vestindo a saia de pregas de tenista e parecendo furiosa. Eu esperava que ela estivesse com raiva, mas fiquei puto por ela achar que tinha direito de estar assim. Pensou que eu não chamaria sua atenção depois de como havia tratado Blaire?

– Você estragou os meus planos. É bom que seja por um bom motivo – disparou.

Larguei o café em cima da mesa mais próxima e virei para olhar minha irmã.

– Deixe eu esclarecer uma coisa, porque talvez você precise de uma relembrada. A menos que consiga um emprego e pague por tudo o que tem, eu posso me meter no que você faz ou em como age. Eu deixei que você fosse uma fedelha mimada durante quase toda a sua vida porque amo você. Sei que sua vida com a mamãe foi injusta. Mas eu não vou... – fiz uma pausa, dei um passo na direção dela e a encarei para que percebesse quanto eu estava falando sério. – Eu não vou permitir que você magoe Blaire. Nunca. Ela não fez nada para você. Você a culpa pela porcaria de pai que tem. Mas ela é tão vítima daquele homem quanto você. Então, nunca mais fale com ela como fez hoje. Eu juro, Nan, eu amo você, mas não vou permitir que a magoe. Não me teste.

Nan arregalou os olhos de surpresa, e as falsas lágrimas com que eu estava tão acostumado deram o ar da graça.

– Você está me preterindo! Você está... você está transando com ela? É isso, não é? Aquela vadiazinha!

Aproximei-me de Nan tão rápido que ela até tropeçou. Agarrei seu braço para que ela não caísse e a ajudei a ficar de pé.

– Não diga isso. Juro por Deus, Nan, você está passando dos limites. Pense antes de falar.

Ela fungou e deixou que as lágrimas rolassem pelo rosto. Parecia que tinha ligado a porra de uma torneira. Detestei fazê-la chorar. Quando alguém a magoava, meu estômago costumava embrulhar. Isso estava acontecendo agora.

– Eu... Eu sou sua irmã. Como você pode fazer isso comigo? Eu... Você sabe o que ela fez? Quem ela é? Ela o afastou de mim! Meu pai, Rush. Eu vivi essa vida porque não tive um pai presente. – Agora Nan soluçava e sacudia a cabeça, como se não pudesse acreditar que eu tivesse me esquecido de tudo aquilo.

Ela nunca enxergaria a verdade. Estava determinada a culpar e odiar alguém, mas se recusava a odiar a pessoa que mais merecia isso.

– Blaire era uma criança. Ela não fez nada para você. Ela não podia evitar ter nascido. Nem sabia que você existia. Por que não vê isso? Por que não percebe como sua irmã é gentil, sincera, generosa e trabalhadora? Ninguém consegue odiá-la! Ela é perfeita, porra!

– Não... – Ela apontou o dedo para mim, horrorizada. – Não se refira a ela como minha irmã! – berrou Nan de forma histérica.

Suspirando, me sentei no sofá e segurei a cabeça nas mãos. Nan era muito teimosa.

– Nan, vocês têm o mesmo pai. Isso faz dela sua irmã.

– Não. Eu não me importo. Não me importo. Eu a odeio. Ela é manipuladora e falsa. Está usando o sexo para controlar você.

Levantei de repente.

– Eu nunca transei com ela, então não diga isso! Pare de acusá-la do que você não sabe. Blaire não é uma vagabunda. Ela é virgem, Nan. Virgem. Quer saber por que ela é virgem? Porque passou a adolescência toda cuidando da mãe doente e da casa e indo para a escola. Ela não teve tempo de ser uma garota. Não teve tempo de namorar ninguém. E foi abandonada pelo pai por sua causa. Então, ela é que deveria odiar você.

Nan endireitou a postura, as lágrimas secas, o que facilitou a situação para mim. Eu era tudo o que Nan tinha, e sabia disso. Não queria que ela pensasse que eu a havia abandonado. Ela sempre seria a minha irmãzinha. Mas era adulta agora, e estava na hora de começar a agir como tal.

– E você. Ela deveria odiar você também – disse Nan, virando-se e seguindo para a porta. Não pedi que voltasse. Estava cansado da discussão. Confiava que ela deixaria Blaire em paz por ora.

Passei o resto do dia tentando esquecer o que Nan dissera e me concentrei em comprar um celular para Blaire. Também tinha que checar os ingredientes para lhe preparar uma refeição. Uma boa refeição. Algo que a impressionasse e a fizesse falar comigo. Queria que ela me perdoasse por tê-la mantido no escuro na noite anterior.

Como sabia que ela não aceitaria um presente meu, deixei um bilhete na picape dizendo que era do pai dela. Detestava dar crédito àquele idiota, mas eu realmente queria que Blaire ficasse com o aparelho. Para o bem da minha sanidade. Se eu pretendia que ela ficasse em segurança, ela precisava ter um celular.

Dei uma olhada no relógio e percebi que ela deveria estar dirigindo naquela hora. Peguei o telefone e chamei o número dela, que havia salvado na minha agenda.

– Alô – atendeu ela, baixinho. Pude perceber a confusão em sua voz. Ela não tinha lido o bilhete?

– Estou vendo que encontrou o celular. Gostou? – perguntei.

– Gostei, é bem legal. Mas por que o meu pai queria que eu tivesse um celular? – perguntou. Era por isso que ela estava confusa. Não esperava que aquele cretino egoísta fizesse algo por ela. Não era idiota.

– Por segurança. Toda mulher precisa ter um celular. Principalmente aquelas que dirigem carros mais velhos que elas. Essa sua picape pode quebrar a qualquer momento – respondi, decidindo dizer a ela por que eu queria que ela tivesse um celular.

– Eu ando armada – retrucou, com determinação na voz.

Ela tinha muita certeza de que podia cuidar de si mesma.

– Eu sei, valentona. Mas não dá para rebocar a picape com uma pistola. – Pronto, vamos ver se ela vai argumentar agora. – Você está vindo para casa? – perguntei. Não havia pensado no fato de que ela poderia ter planos naquela noite quando decidi preparar um jantar e montar uma cena de sedução.

– Estou, se não tiver problema. Posso fazer outra coisa se você quiser que eu não vá – respondeu. Blaire ainda não entendia. Achava que eu queria me afastar dela. Que eu preferiria fazer qualquer outra coisa no mundo a estar perto dela.

– Não. Eu quero que você venha. Fiz comida – falei.

Ela fez uma pausa, e eu ouvi um suspiro de surpresa que me fez sorrir.

– Ah, tudo bem. Chego daqui a pouco, então.

– Até já. – Encerrei a ligação antes que ela me ouvisse rir de felicidade. Ela estava vindo para casa. Aqui. Para passar a noite comigo. Eu ia consertar tudo. Ia encontrar uma forma de fazê-la compreender. Não podia perdê-la.

Voltei ao fogão. Não costumava cozinhar para os outros. Na maioria das vezes, quando realmente desejava uma comida, eu mesmo fazia e comia. Era diferente preparar algo para Blaire. Apreciei cada minuto.

Ela não estava acostumada a ser mimada, o que era uma pena. Blaire era o tipo de mulher que deveria ser adorada. Abri a geladeira, tirei uma Corona e a abri, então enfiei uma fatia de limão no gargalo. As garotas que eu conhecia gostavam de limão na cerveja. Não sabia se Blaire ia gostar, mas a bebida que mais combinava com a comida mexicana que eu estava preparando certamente era uma Corona.

Arrumei o queijo, o frango e os vegetais dentro das tortilhas, e as coloquei na frigideira quente.

– Que cheiro bom. – A voz de Blaire interrompeu meus pensamentos.

Olhei por cima do ombro e a vi com o uniforme do clube. Seus cabelos louros estavam presos em um rabo de cavalo e havia um sorriso nos lábios. Ela me flagrou cantarolando uma das mais novas canções do meu pai.

– Não é? – comentei, limpando as mãos no pano de prato e pegando a Corona que eu havia preparado para ela. – Tome, beba. As enchiladas estão quase prontas. Tenho que virar as quesadillas, elas precisam de mais alguns minutos. A gente deve poder jantar daqui a pouco.

Blaire pegou a garrafa e a levou lentamente aos lábios. Era a primeira vez que bebia cerveja. Ela não cuspiu, o que era bom sinal.

– Tomara que você goste de comida mexicana – comentei, tirando as enchiladas do forno. Esperava mesmo que a comida estivesse boa. Eu não preparava enchiladas havia um tempo. Tive que pegar algumas receitas no Google para ter certeza de que estava fazendo certo.

– Adoro – respondeu, ainda sorrindo. – Devo dizer que estou realmente impressionada com o fato de você saber cozinhar.

Ótimo. Eu queria impressioná-la essa noite. Convencê-la de que não era um babaca. Olhei para ela e dei uma piscadela.

– Tenho uma porção de talentos que deixariam você chocada.

Ela corou e tomou um gole maior da Corona. Eu a estava deixando nervosa. Não era a minha intenção. Esquecia que Blaire não estava acostumada a flertar.

– Calma, menina. Você precisa comer alguma coisa. Quando falei para beber, não quis dizer virar o troço todo – aconselhei. Não queria que ela ficasse bêbada ou enjoada.

Blaire assentiu e limpou a gota de cerveja em seus lábios.

Só consegui pensar em lamber aquela gota de sua boca. Em quanto seu lábio inferior era carnudo e macio. Precisei desviar o olhar. Minha comida já estava quase queimando, caralho.

Como já havia preparado os tacos e os burritos, passei as quesadillas no mesmo prato dos demais. Não comeríamos tudo aquilo, é claro. Não sabia direito do que ela gostava, então acabei exagerando, e também queria que Blaire aproveitasse a refeição. Vê-la comendo estava me viciando.

– O resto já está na mesa. Pegue uma Corona para mim na geladeira e venha comigo – pedi, saindo da cozinha com a bandeja. Segui para a varanda. Inicialmente não gostei muito da ideia de servir o jantar ali, onde ela tinha me visto com uma garota, e não queria que essa imagem voltasse na mente dela. Mas as ondas e a brisa do golfo pareciam deixar tudo mais íntimo. Só esperava que ela não ficasse pensando em mim comendo outra mulher enquanto estivéssemos ali fora.

– Pode sentar, vou servi-la – eu disse.

Ela assentiu e se sentou na cadeira mais perto da porta. Pude ver a surpresa em seus olhos, e gostei que ela não estivesse esperando nada daquilo. Queria que pensasse em nós. Mais ninguém. Meu passado era apenas meu passado. Além disso, se ao menos ela soubesse com quem eu estava fantasiando naquela noite na varanda com Anya...

Arrumei seu prato e o coloquei diante dela. Então me inclinei até seu ouvido para sentir seu cheiro, que estava me deixando maluco.

– Quer outra cerveja? – perguntei, precisando de uma desculpa para cheirar o pescoço dela.

Ela balançou a cabeça, recusando.

Então me obriguei a ir para o outro lado da mesa. Arrumei meu prato e olhei para ela.

– Se estiver horrível, não precisa dizer. Meu ego não vai suportar.

Blaire comeu um pedaço da enchilada. Deve ter gostado, pois seus olhos brilharam. Quase suspirei de alívio. Eu não tinha ferrado com tudo.

– Está uma delícia e não posso dizer que estou surpresa – comentou ela.

Decidi eu mesmo experimentar. Sorrindo, comecei a comer e fiquei observando enquanto ela relaxava e tomava outro gole de cerveja antes de colocar mais um pedaço na boca. Cada vez que ela dava uma mordida, eu lutava contra o impulso de parar para assistir. Era meio doentio, na verdade. Ela só estava comendo. Por que eu tinha tanta obsessão com isso? Devia ser culpa da manteiga de amendoim. Eu não conseguiria superar aquilo tão cedo.

Comemos em silêncio. Não quis interrompê-la, já que ela parecia estar gostando. Quando Blaire se inclinou para trás e tomou um longo gole da garrafa, antes de largá-la em cima da mesa, soube que estava satisfeita.

– Sinto muito pelo jeito como Nan tratou você hoje – falei. Não era o suficiente. Nan lhe devia um pedido de desculpas, mas nada que eu fizesse convenceria minha irmã.

– Como é que você ficou sabendo? – perguntou Blaire, remexendo-se nervosamente na cadeira.

– O Woods me ligou. Disse que Nan seria convidada a se retirar do clube da próxima vez que fosse grossa com um funcionário – expliquei. Eu detestava fazê-lo parecer uma porra de um herói, mas era a verdade, e não queria acrescentar mais mentiras além das que já havia entre nós.

Blaire assentiu. Não pareceu muito impressionada, o que era bom. Não gostei da ideia de ela nutrir qualquer sentimento por Woods.

– Ela não deveria ter falado com você daquele jeito. Conversei com ela. Nan prometeu que isso não vai se repetir. Mas quero que me avise caso aconteça em algum outro lugar, por favor – eu disse a ela, o que não era exatamente verdade. Nan não havia me prometido nada. Mas o aviso que eu lhe dera fora incisivo. Eu sabia disso.

Os olhos de Blaire foram tomados pela decepção, e ela se levantou.

– Obrigada. Fico grata pelo seu gesto, foi muito gentil da sua parte. Garanto que não pretendo ir correndo contar para o Woods se a Nan tornar a ser grossa comigo. Ele só presenciou a cena de hoje por acaso. – Blaire pegou a cerveja. – Estava tudo ótimo, muito agradável depois de um dia de trabalho. Muito obrigada. – Ela se virou sem olhar para mim e entrou apressada.

Cacete. O que eu disse de errado? Levantei e a segui. Aquela noite não ia terminar assim. Eu já estava ficando maluco. Ela precisava parar de me tirar dos trilhos. Tinha feito tudo aquilo como um pedido de desculpas por ter me comportado como um babaca na noite anterior e porque queria agradá-la. Cuidar dela.

Ela estava lavando o prato na pia, e seus ombros caídos me deixaram arrasado.

– Blaire – chamei, encurralando-a contra o balcão. O cheiro dela invadiu a minha cabeça, e precisei fechar os olhos para não ficar zonzo. Porra, como aquilo era bom. – O jantar não foi uma tentativa de me desculpar por Nan. Foi uma tentativa de me desculpar por mim mesmo. Sinto muito por ontem. Passei a noite inteira acordado querendo que você estivesse comigo, querendo não ter afastado você. Eu afasto as pessoas, Blaire. É um mecanismo de proteção que eu tenho. Mas de você eu não quero me afastar. – Eu não sabia como explicar isso de outra forma.

Ela se encostou em mim e interpretei o gesto como um sinal verde.

Afastei os cabelos dela e beijei a pele macia e quente da curva do ombro.

– Por favor, me perdoe. Eu só quero mais uma chance, Blaire. Quero você.

Ela expirou com força e se virou de frente para mim. Levantou os braços e os enroscou ao redor do meu pescoço. Aqueles lindos olhos azuis dela se fixaram nos meus.

– Eu o perdoo com uma condição – disse ela, baixinho.

– Ok – respondi. Eu faria qualquer coisa por ela, caralho.

– Quero ficar com você hoje. Chega de joguinhos. Chega de esperar.

Não era o que eu estava esperando, mas tudo bem. Era o que eu mais queria.

– Nossa, claro – grunhi, puxando-a para junto de mim. Pronto.

Blaire seria minha. Eu iria ao inferno por ela se fosse preciso.