Rush sem limites
Capítulo 2
Blaire andava na direção de uma picape velha e detonada quando abri a porta de casa e saí. Fiz uma pausa, imaginando se a caminhonete era dela ou se alguém a havia levado até ali. Grant não tinha mencionado mais ninguém. Estreitei os olhos na escuridão para tentar enxergar alguém dentro do veículo, mas não consegui assimilar nada daquela distância.
Ela abriu a porta do motorista e fez uma pausa para respirar fundo. Foi quase dramático, ou pelo menos teria sido se ela soubesse que estava sendo observada. No entanto, pela forma como os ombros dela arquearam antes de entrar na picape, Blaire não fazia ideia.
Mas, por outro lado, talvez sim. Eu não sabia nada sobre aquela garota. Apenas que o pai dela não passava de um aproveitador. Ele aceitava o afeto ou amor que minha mãe e Nan lhe davam, mas nunca retribuía. O sujeito era frio. Eu via isso nos olhos dele. Não se importava nem um pouco com Nan ou com a idiota da minha mãe. Estava usando as duas.
A garota era linda. Ninguém poderia questionar isso. Mas ela também havia sido criada por aquele homem. Podia ser uma grande manipuladora. Usar a beleza para conseguir o que queria, sem se importar com quem poderia machucar pelo caminho.
Desci as escadas e andei na direção da picape. Blaire ainda estava sentada lá, e eu queria que fosse embora antes que Grant saísse e caísse em seu golpe. Acabaria levando-a para casa. E ela o usaria até ficar entediada. Eu não estava protegendo apenas Nan, mas Grant também. Ele era um alvo fácil para ela.
Blaire se virou, e nossos olhares se cruzaram logo antes de ela soltar um grito. Seus olhos vermelhos davam a real impressão de que estava chorando de verdade. Como não havia ninguém ali fora, talvez aquilo não fosse mesmo um golpe.
Esperei que ela fizesse algo além de me encarar como se o estranho fosse eu, quando ela é que estava na minha propriedade. Como se tivesse lido a minha mente, ela voltou para o volante e girou a chave na ignição.
Nada.
Começou a ficar histérica ao tentar fazer a picape pegar, mas, pelo barulho, imaginei que não houvesse uma gota de combustível no tanque. Talvez estivesse desesperada. Eu ainda não confiava nela.
Vê-la frustrada dando tapas no volante foi uma cena engraçada. De que adiantaria aquilo se a idiota havia deixado o tanque vazio?
Ela finalmente abriu a porta da picape e olhou para mim. Se não era tão inocente quanto aparentava, a garota era uma ótima atriz.
– Problemas? – perguntei.
A expressão em seu rosto denunciava que ela não queria me dizer que não conseguia ir embora. Lembrei a mim mesmo que ela era filha de Abe Wynn. A que ele havia criado. A que ele preferira, abandonando Nan durante todos aqueles anos. Eu não sentiria pena dela.
– Acabou a gasolina – disse ela, baixinho.
Fala sério. Se a deixasse voltar para casa, eu teria que lidar com Nan. Do contrário, seria Grant quem cuidaria dela. E então era bem provável que ela se aproveitasse dele.
– Quantos anos você tem? – perguntei. Eu já deveria saber a resposta, mas, droga, pensei que ela fosse mais velha do que parecia.
Os olhos arregalados e a expressão assustada faziam com que Blaire parecesse mais nova. A forma como ela preenchia a regata e os jeans era o único sinal de que ela era ao menos maior de idade.
– Dezenove – respondeu.
– Sério? – retruquei, sem saber se acreditava nela.
– Sério. – A testa franzida era uma graça. Droga. Eu não queria achar que ela era uma graça. Ela significava uma porra de uma complicação da qual eu não precisava.
– Foi mal. É que você parece mais nova – disse, abrindo um sorriso malicioso. Então passei meus olhos pelo corpo dela. Não queria que ela pensasse que eu era alguém em quem podia confiar. Não era. Nunca seria. – Retiro o que eu disse. Seu corpo tem toda a pinta de 19. É o seu rosto que parece muito jovem. Você nunca usa maquiagem?
Ela não se ofendeu, mas franziu a testa ainda mais. Não era o efeito desejado.
– A gasolina acabou. Eu tenho 20 dólares na bolsa. Meu pai fugiu e me abandonou depois de me dizer que me ajudaria. Acredite em mim: ele era a ÚLTIMA pessoa para quem eu pediria ajuda. E não, eu não uso maquiagem. Tenho problemas mais graves no momento do que ficar bonita. E agora, você vai chamar a polícia ou um reboque? Se eu puder escolher, prefiro a polícia.
Blaire tinha mesmo sugerido que eu chamasse a polícia? E era mesmo desprezo pelo querido papai que ouvi na voz dela? Tinha quase a maldita certeza de que sim. Talvez ele não tenha sido o modelo de pai que Nan imaginara ao fazer aquela curta visita quando criança. Parecia que Abe estava na lista negra de Blaire.
– Eu não gosto do seu pai e, pelo tom da sua voz, você também não – ponderei, trabalhando com a ideia de que talvez ela fosse outra vítima de Abe Wynn. Ele abandonara Nan e parecia ter abandonado aquela filha ali também. Eu estava prestes a fazer algo de que me arrependeria.
– Tem um quarto vazio hoje à noite. Vai ficar vazio até a minha mãe voltar. Eu não peço para a empregada dela vir quando ela está viajando. Nas férias dela, Henrietta só vem fazer faxina uma vez por semana. Você pode ficar no quarto debaixo da escada. É pequeno, mas tem cama.
A descrença e o alívio que atravessaram o rosto dela por pouco fizeram a ideia de enfrentar Nan valer a pena. Embora eu tivesse quase certeza de que as duas tinham sido abandonadas pelo pai, sabia que minha irmã jamais aceitaria isso. Ela estava determinada a odiar alguém, e Blaire acabaria pagando o pato.
– Minha alternativa é esta picape. Posso garantir a você que o que está me oferecendo é bem melhor. Obrigada – respondeu ela com a voz tensa.
Porra. Eu ia mesmo deixar essa garota dentro de uma picape? Era perigoso.
– Cadê sua mala? – indaguei, querendo acabar logo com aquilo e ir conversar com Nan.
Blaire fechou a porta da picape e foi até a traseira pegar a mala. Não havia como aquele corpinho frágil levantá-la por cima da carroceria. Estendi o braço por trás dela e peguei a bagagem.
Ela se virou, e o olhar espantado me fez sorrir. Pisquei para ela.
– Posso carregar a sua mala. Não sou tão babaca assim.
– O-obrigada – gaguejou, sem tirar aqueles olhos imensos inocentes de cima de mim.
Caramba, Blaire tinha cílios longos. Não costumava ver garotas sem maquiagem com frequência. A beleza natural de Blaire era espantosa. Eu precisava me lembrar de que ela representava problemas. Tinha que manter distância. Deveria ter deixado que ela pegasse a própria mala. Se Blaire me achasse um cretino, ficaria longe.
– Ah, que bom que você a deteve. Eu estava dando cinco minutos antes de sair para me certificar de que não tinha afugentado totalmente a menina – disse Grant, me tirando do transe a que aquela garota me submetera. Puta que pariu, eu precisava parar com essa merda.
– Ela vai ficar no quarto da Henrietta até eu conseguir falar com o pai dela e dar algum outro jeito – respondi, entregando a mala para Grant. – Tome, mostre o quarto a ela. Tem gente me esperando.
Não olhei novamente para Blaire. Também não fiz contato com Grant. Precisava ficar longe dela. E precisava falar com Nan. Ela não ia ficar feliz, mas de jeito nenhum eu deixaria aquela garota dormir na picape. Ela chamaria atenção. Era maravilhosa e incapaz de cuidar de si mesma. Droga! Por que eu tive que trazer Abe Wynn para as nossas vidas? Era ele que estava causando toda essa merda.
Nan estava parada na porta com os braços cruzados sobre o peito, me fitando. Eu a queria irritada. Enquanto estivesse brava comigo, não choraria. Não conseguia lidar com ela quando chorava. Era sempre eu que tentava consolá-la desde que era pequena. Quando Nan chorava, eu imediatamente começava a tentar consertar as coisas.
– Por que ela ainda está aqui? – Nan perguntou, olhando por cima do meu ombro antes que eu pudesse fechar a porta e esconder o fato de que Grant estava vindo com Blaire.
– Precisamos conversar. – Segurei o braço dela e a puxei para longe da porta, na direção da escada. – Lá em cima. Você vai ficar gritando, e não quero escândalos – disse a ela, certificando-me de usar uma voz séria.
Minha irmã franziu a testa e subiu as escadas pisando duro, como uma menina de 5 anos.
Eu a segui, esperando que Nan ficasse longe da porta o suficiente antes que ela se abrisse. Só consegui respirar fundo quando ela entrou em seu antigo quarto de quando esta era nossa casa de veraneio. Antes de eu ser maior de idade e assumir o que era meu.
– Você engoliu o papo dela, não foi? Grant convenceu você! Eu devia ter ido atrás dele. Ele é um idiota. Está fazendo isso só para me atingir – disparou ela antes que eu pudesse dizer qualquer coisa.
– Ela vai ficar no quarto embaixo da porra da escada. Nem a colocarei num quarto de hóspedes aqui em cima. E é só até eu encontrar Abe e descobrir o que fazer. A picape não tem gasolina e ela está sem dinheiro para ficar num hotel. Se quer sentir raiva de alguém, ótimo, mas desconte no maldito do seu pai! – Eu não pretendia levantar a voz, mas, quanto mais pensava no Abe fugindo para Paris sabendo que a filha estava vindo para cá numa picape caindo aos pedaços e sem dinheiro, mais puto eu ficava. Alguma coisa poderia ter acontecido com ela. Ela era tão frágil e carente...
– Você a achou gostosa. Eu vi o jeito que você olhou para ela. Não sou burra. É só isso – disse Nan, antes de fazer beicinho. – A presença dela me magoa, Rush. Você sabe disso. Ela teve o papai por dezesseis anos. Agora é a minha vez!
Balancei a cabeça, sem acreditar. Nan achava que tinha Abe agora? Sério? Ele estava viajando, aproveitando Paris com o dinheiro da minha mãe, e minha irmã pensava que por isso ela havia vencido?
– Ele não passa de um fracassado, Nan. Blaire teve aquele idiota como pai por dezesseis anos. Isso não significa que ela ganhou alguma coisa. Ele a mandou vir para cá prometendo ajudá-la. Sabia que era uma garotinha indefesa com grandes olhos tristes da qual qualquer homem pode tirar vantagem. – Segurei a língua, porque já estava falando demais.
Nan arregalou os olhos.
– Puta merda! Não vá comê-la! Entendeu? Não tenha nada com ela! Ela vai embora assim que você puder expulsá-la. Eu não a quero aqui.
Conversar com minha irmã era como conversar com uma parede. Ela era muito teimosa. Eu não aguentava mais. Nan podia fazer todas as exigências que quisesse, mas a casa era minha. O apartamento dela era meu. Tudo na vida dela era meu. Eu estava no controle. Não ela.
– Volte para a sua festa e os seus amigos. Eu vou para a cama. E me deixe lidar com a situação do jeito certo – disse, e então me virei e fui andando em direção à porta.
– Mas você vai comê-la, não vai? – Nan perguntou atrás de mim.
Eu queria que ela parasse de usar aquela palavra para se referir a Blaire, porque, puta que pariu, estava me fazendo pensar naqueles cabelos louros claríssimos no meu travesseiro e naqueles grandes olhos me olhando durante o orgasmo. Não respondi. Eu não ia comer Blaire Wynn. Eu ficaria o mais longe possível dela. Mas Nan também não me daria ordens. Eu fazia as minhas próprias escolhas.