Rush sem limites
Capítulo 14
Passei caminhando rapidamente pelas poucas pessoas na cozinha e segui para a porta da frente. Precisava sair e me acalmar. Ar fresco sem ninguém para me ver perdendo o controle. Dizer não a Blaire havia praticamente me matado. Rejeitar aqueles lábios doces e receptivos... Puta merda, nenhum homem deveria ser submetido a essa tortura.
– Quer conversar? – perguntou Grant quando a porta fechou atrás de mim.
– Preciso ficar sozinho – falei. Agarrei o parapeito da varanda e mantive os olhos fixos na entrada cheia de carros.
– Você não vai conseguir continuar com isso. Ela tomou conta de você – disse Grant, parando ao meu lado. Eu deveria saber que ele ignoraria o pedido para me deixar sozinho para pensar.
– Não vou magoá-la – disse a ele.
Grant suspirou e virou para se apoiar no parapeito ficando de frente para mim com as mãos cruzadas.
– Por mais doce que Blaire seja, eu não estou preocupado com ela. Estou mais preocupado com você – disse ele.
– Está tudo certo.
– Não. Não está. Você está mantendo as mãos longe dela quando ela olha para você de um jeito que o deixaria tocá-la como você quisesse. Mas você não está tocando nela. Eu nunca, e quero dizer nunca mesmo, vi você rejeitar isso a alguém com a aparência de Blaire. O que quer dizer que... sente alguma coisa por ela. É por isso que estou preocupado com você. Ela vai descobrir sobre o pai dela e sobre Nan. E, quando isso acontecer, vai sair correndo. A garota vai odiar todos vocês. Eu não quero ver você magoado.
– Eu sei – resmunguei. Eu sabia disso, porra. Era por isso que não a levava até meu quarto e a trancava lá dentro comigo. Eu não podia fazer isso com ela.
– Ela está lá fora, nos fundos, com o Woods – disse Grant.
Me endireitei, soltei o parapeito e olhei para a porta.
– Como você sabe?
– Eu a vi saindo antes de vir atrás de você – ele respondeu.
Eu também não ia deixar Woods chegar perto dela. Ele a magoaria. Ele a usaria, e ninguém iria usar Blaire. Ninguém. Nunca. Eu iria garantir isso, porra.
– Preciso ir atrás dela. Eu a deixei chateada – comentei, seguindo para a porta.
– Ele sabe que ela é inocente. O Woods não é um escroto. Ele é um cara legal. Pare de agir como se ele fosse uma porra de um tarado.
Apertei a mão ao redor da maçaneta e respirei fundo.
– Não me diga o que fazer, Grant.
Ele soltou uma risadinha.
– Nunca, mano. Nunca.
Abri a porta e entrei em casa, decidido a encontrar Blaire e mandar Woods para fora dali.
– Oooooooi, Ruuush! – disse uma garota com a voz arrastada e excitada, grudando-se ao meu braço. Olhei para baixo e vi uma das amigas de Nan cujo nome eu não lembrava me segurando.
– Não – respondi e continuei andando. Ela não soltou. Em vez disso, ficou dando risadinhas e falando sobre sua calcinha molhada. Esse tipo de merda costumava me deixar excitado, mas o cheiro de Blaire e a lembrança daqueles olhões enquanto ela se aproximava mais para examinar a minha língua fazia tudo o mais parecer vulgar.
– Sou a Babs. Lembra? Eu costumava passar a noite com a sua irmã durante o ensino médio – disse ela, encostando o corpo no meu.
– Não estou interessado – disse a ela, tentando me soltar, quando entramos na cozinha e meus olhos travaram nos de Blaire. Ela estava sozinha. Sem o Woods. E estava me vendo. Com... Babs, ou quem quer que fosse aquela pendurada no meu braço. Cacete.
– Mas você falou – Babs começou a argumentar. Não faço ideia do que ela pensou que eu tivesse dito. Então beijou meu braço. Porra. – Eu tiro a calcinha aqui embaixo, se você quiser – continuou a garota, sem aceitar não como resposta. Ela estava perdendo o equilíbrio nos saltos e se pendurando ainda mais em mim.
– Babs, já falei que não. Não estou interessado – repeti em voz alta, mantendo os olhos fixos nos de Blaire. Queria que ela me escutasse. Eu sabia que não era isso que eu queria. Quem eu queria.
– Vai ser bem safado – ela me prometeu, então começou a rir. Nada nela era atraente.
– Não, vai ser chato. Você está bêbada e sua voz esganiçada está me deixando com dor de cabeça – respondi, ainda olhando para Blaire. Ela precisava acreditar em mim.
Blaire desviou os olhos dos meus e se virou para entrar na despensa. Ótimo. Ela estaria segura lá dentro, e precisava dormir.
– Ei, aquela menina vai roubar a sua comida – falou Babs.
O rosto de Blaire ficou completamente vermelho, e eu arranquei Babs do meu braço, deixando-a cambalear até se equilibrar.
– Ela mora aqui, pode comer o que quiser – informei a quem quer que pudesse dizer alguma coisa para constrangê-la.
Os olhos de Blaire voltaram a encontrar os meus.
– Ela mora aqui? – perguntou Babs.
A dor nos olhos de Blaire fizeram um buraco no meu peito. Não consegui suportar.
– Não deixe que ele minta para você – disse Blaire. – Eu sou a hóspede indesejada que mora debaixo da escada. Já quis algumas coisas, mas ele só me diz não.
Porra.
Blaire bateu a porta atrás de si. Eu queria ir atrás dela, mas sabia que, se entrasse lá, não sairia. Eu não conseguiria ficar com as mãos e a boca longe dela.
Woods entrou na cozinha e olhou para mim.
– Você não a merece – disse ele friamente.
– Você também não – respondi, virando e seguindo para a escada. Eu precisava me afastar daquela gente.
Grant me encontrou no corredor.
– Certifique-se de que o Woods vá embora. Se Blaire sair do quarto, venha me chamar – ordenei, sem parar para olhá-lo. Então segui para o meu quarto, a fim de lembrar a mim mesmo, mais uma vez, por que eu não podia tocar em Blaire.
Daria para não ser legal só por um beijo? Por favor? Aquelas palavras haviam me mantido acordado a porra da noite toda. Como diabos saí daquele quartinho, eu não fazia ideia. Eu precisava parar com isso. Não podia mais deixar que ela entrasse. Ela não sabia a verdade. Eu precisava protegê-la. Meus sentimentos por ela já eram perigosos demais.
Ainda que eu quisesse contar a ela sobre Nan, não podia fazê-lo. Ela ia me odiar, e eu já estava envolvido demais agora. Não conseguiria viver com Blaire me odiando. Pelo menos não tão cedo. Eu não estava pronto para ela me deixar. Olhei por cima do ombro para a porta fechada da despensa. Na noite anterior, o comentário de Blaire sobre ela ser a hóspede indesejada havia me deixado furioso. Eu ia mudar isso. Talvez ainda não estivesse pronto para levá-la lá para cima, mas eu lhe daria comida. Não sabia ao certo o que ela comia de manhã, mas ela ia dormir até mais tarde, e eu teria tempo de preparar o café.
A porta da despensa se abriu atrás de mim. Olhei para trás e vi Blaire me encarando com uma expressão de surpresa no rosto. Não havíamos terminado bem as coisas na noite anterior. Naquela manhã, eu ia mudar isso.
– Bom dia. Hoje deve ser a sua folga.
Ela não se mexeu e me deu um sorriso forçado.
– Que cheiro bom.
– Pode pegar dois pratos. Eu faço um bacon incrível. – Eu ia amolecê-la. Sabia que ainda estava brava comigo por tê-la deixado na noite passada, mas, caramba, eu tinha feito isso por ela. Não por mim.
– Já comi, mas obrigada – agradeceu, mordendo o lábio inferior enquanto olhava com apetite para o bacon. Que diabos isso queria dizer? E quando ela havia comido? Eu estava acordado fazia duas horas, e ela não havia saído do quarto.
Larguei o garfo que estava usando e me foquei nela em vez do bacon.
– Como assim, já comeu? Você acabou de acordar. – Fiquei olhando atentamente, para o caso de ela decidir não me contar toda a verdade. Se isso tivesse a ver com não querer comer na minha frente ou algum problema feminino ridículo do gênero, ela teria que superar.
– Tenho manteiga de amendoim e pão lá no quarto. Comi antes de sair.
O que foi que ela disse?
– Por que você tem manteiga de amendoim e pão no quarto? – perguntei.
Ela mordiscou o lábio nervosamente por um instante, então suspirou:
– Esta cozinha não é minha. Eu guardo tudo que é meu no quarto.
Ela guardava todas as coisas dela no quarto? Espere aí... O quê?
– Está me dizendo que só come manteiga de amendoim e pão quando está em casa? É isso? Você compra, guarda no quarto e só come isso? – Meu estômago se revirou de uma forma que eu não sentia desde garoto. Se ela me dissesse que tudo o que comia eram malditos sanduíches de manteiga de amendoim, eu ia perder a cabeça. Deixei que ela pensasse que não podia comer a minha comida? Puta que pariu!
Ela assentiu lentamente. Seus grandes olhos estavam ainda maiores. Eu era um cretino. Não... Eu era pior do que um cretino.
Dei um soco no balcão e fiquei olhando para o bacon enquanto fazia um esforço dos infernos para me controlar.
Isso era culpa minha. Caralho, tudo era culpa minha. Ela nunca reclamou, quando qualquer outra mulher no planeta teria reclamado. E estava comendo sanduíches de manteiga de amendoim de merda todos os dias. Meu peito doía. Não podia mais fazer isso. Eu havia tentado. Não iria mais mantê-la a distância.
– Pegue as suas coisas e se mude lá para cima. Pode escolher qualquer quarto do lado esquerdo do corredor. Jogue fora essa porcaria de manteiga de amendoim e coma o que quiser da minha cozinha – falei.
Ela continuou parada. Por que não estava me ouvindo?
– Blaire, se quiser ficar nesta casa, mude-se lá para cima agora. Depois desça e venha comer alguma coisa da porra da minha geladeira na minha frente – rosnei. Ela ficou tensa diante da minha reação. Eu precisava me acalmar. Não queria assustá-la. Só queria que ela se mudasse lá para cima, caramba. E comesse bacon!
– Por que agora você quer que eu me mude lá para cima? – perguntou, baixinho.
Pus o último pedaço de bacon sobre a toalha de papel antes de olhar para ela de novo. Vê-la magoada me dava uma dor física. Saber que eu a havia tratado tão mal e que ela havia suportado tudo estava me deixando com dificuldade para respirar.
– Porque sim. Detesto ir para a cama à noite pensando que você está dormindo debaixo da minha escada. Agora fiquei com a sua imagem comendo esses malditos sanduíches de manteiga de amendoim sozinha lá dentro e isso é demais para mim. – Pronto, falei.
Desta vez, ela não discutiu. Apenas se virou e voltou para a despensa. Fiquei ali parado e esperei que ela saísse, carregando a mala em uma das mãos e um pote de manteiga de amendoim e pão na outra. Ela pôs o pote e o pão em cima do balcão sem olhar para mim e caminhou na direção do hall.
Eu fazia um esforço para continuar me segurando na beirada do balcão e não atirar aquele pote de manteiga de amendoim contra a parede. Queria bater em alguma coisa. A raiva que me consumia estava aumentando, e eu precisava destruir alguma coisa para aliviar. A raiva que estava direcionada completamente contra mim mesmo por ser um cretino tão egoísta. Eu estava tão preocupado em não tocá-la, caralho, que a havia negligenciado de outras formas. Ela sobrevivia à base de pão com manteiga de amendoim, porra.
– Não preciso ir lá para cima. Eu gosto do quartinho. – A voz suave de Blaire interrompeu meus pensamentos, e precisei agarrar o balcão ainda com mais força. Eu a tratara mal. Negligenciara suas necessidades. Tudo o que eu queria era tocar nela, sentir a porra do seu cheiro e abraçá-la, mas eu a havia decepcionado. Jamais conseguiria me perdoar por isso.
– O seu lugar é em um dos quartos lá de cima, não debaixo da escada. Nunca foi – admiti, sem olhar para ela.
– Pelo menos me diga que quarto escolher. Não me sinto à vontade para decidir sozinha. Esta casa não é minha.
Eu a estava assustando. Mais uma coisa de que ela não precisava. Soltei o balcão e olhei para ela. Blaire parecia prestes a voltar correndo para a despensa a qualquer instante.
– Os quartos da esquerda são todos de hóspedes. São três. Acho que você vai gostar da vista do último, que dá para o mar. O do meio é todo branco com detalhes rosa-claro. Ele me lembra você. Vá lá escolher. Pegue o que preferir. E depois desça aqui para comer.
– Mas eu não estou com fome. Acabei de...
– Se me disser de novo que comeu essa maldita manteiga de amendoim, eu vou arremessar o pote na parede. – Porra, pensar naquilo me deixava furioso. Respirei fundo e me concentrei em parecer calmo. – Por favor, Blaire. Venha comer alguma coisa, por mim.
Ela assentiu com a cabeça e subiu a escada. Eu devia ter levado a mala, mas sabia que ela não me queria por perto naquele momento. Ela precisava fazer isso sozinha. Eu havia acabado de agir feito um maluco. Lavei a frigideira em que havia preparado o bacon. Depois de guardá-la e enquanto Blaire ainda não havia descido depois de escolher seu quarto, peguei um prato grande do armário e o enchi com ovos e bacon antes de me sentar à mesa. Ela podia comer do meu prato.
Blaire entrou na cozinha. Quando levantei a cabeça, vi que ela me encarava abertamente.
– Escolheu? – perguntei.
Ela assentiu com a cabeça e foi até o outro lado da mesa.
– Sim. Acho que escolhi. Aquele que você disse que tinha uma vista maravilhosa... verde e azul, né?
– É. – Não consegui deixar de sorrir. Gostei que tivesse ficado com o quarto que eu imaginava que escolheria. Mesmo que fosse o mais perto de mim.
– E tudo bem eu ficar lá? É muito legal. Se esta casa fosse minha, eu iria querer aquele quarto. – Ela ainda estava se certificando de que eu não mudaria de ideia e a atiraria de volta embaixo da escada.
Dei a ela um sorriso tranquilizador.
– Você ainda não viu o meu. – Eu disse ainda. Eu iria ceder. Não levava garotas para o meu quarto. Era só meu. Mas queria vê-la lá dentro. Com as minhas coisas.
– Fica no mesmo andar? – ela perguntou.
– Não, o meu ocupa o último andar inteiro – expliquei.
– Todas aquelas janelas? Aquilo tudo é um quartão só? – Era difícil não perceber o espanto na voz dela. Eu a levaria lá para ver antes que tudo estivesse acabado.
– É. – Comi um pedaço de bacon enquanto tentava corrigir meus pensamentos vagando com Blaire em meu quarto. Não seria uma boa ideia. – Já arrumou as suas roupas? – perguntei, tentando pensar em outra coisa. Qualquer outra coisa.
– Não, queria confirmar com você antes de desfazer a mala. Talvez o melhor seja deixar tudo lá dentro. No final desta semana vou estar pronta para me mudar. As gorjetas que ganhei no clube foram boas e guardei quase tudo.
Não. Ela não poderia morar sozinha. Não seria seguro. Ela achava que precisava se mudar por minha causa. Aquele pai infeliz nem ligara para saber como ela estava. Blaire não tinha ninguém, e era tão vulnerável. Alguém precisava protegê-la. Ela não ia sair dessa casa. Eu não podia suportar a ideia de alguém fazendo mal a ela. Mantive o foco na praia do lado de fora, esperando que isso me acalmasse, mas estava sendo dominado pelo pânico diante da ideia de ela morar sozinha.
– Blaire, você pode ficar aqui o tempo que quiser – garanti. Eu precisava dela ali.
Ela não disse nada. Puxei uma cadeira.
– Sente-se aqui do meu lado e prove um pouco deste bacon. – Ela se sentou lentamente, e eu empurrei meu prato para ela. – Coma.
Ela pegou um pedaço de bacon e deu uma mordida. Seus olhos piscaram de uma forma que os cílios abanaram seu rosto. Puta merda, aquilo era sexy para cacete.
Empurrei o prato na direção dela de novo.
– Coma outro. – Ela estava sorrindo para mim como se estivesse achando a situação engraçada, e a dor que eu estava sentindo aliviou. Eu poderia mantê-la ali. Daria um jeito de ela jamais querer ir embora.
– Quais são os seus planos para hoje? – perguntei.
– Ainda não sei. Pensei em talvez procurar um apartamento.
Lá se foi a minha calma. Cacete, não, ela não ia procurar apartamento.
– Pare de falar em se mudar, ok? Eu não quero que você se mude antes de os nossos pais voltarem. Você tem que falar com o seu pai antes de sair correndo para morar sozinha. Não é muito seguro. Você é nova demais.
Ela riu. Aquele som suave e musical que eu ouvia com tão pouca frequência.
– Não sou, não. Qual é o seu problema com a minha idade? Tenho 19 anos, já sou bem grandinha. Posso morar sozinha com toda a segurança. Além disso, consigo acertar um alvo em movimento melhor do que a maioria dos agentes de polícia. Meu talento para atirar é bem impressionante. Então pode parar com esse papo de insegurança e de que sou nova demais.
A ideia de Blaire com uma arma me deixava excitado e apavorado ao mesmo tempo. Por mais sexy que parecesse, eu também me preocupava que ela se machucasse.
– Quer dizer que você tem mesmo uma pistola?
Ela sorriu e assentiu com a cabeça.
– Pensei que Grant estivesse brincando. O senso de humor dele às vezes é horrível.
– Não. Eu apontei a pistola para ele na minha primeira noite aqui.
Foi a minha vez de rir.
– Adoraria ter visto.
Ela apenas sorriu e manteve a cabeça baixa. Não estava olhando para mim, e eu sabia que sua primeira noite aqui não era uma lembrança agradável.
– Não quero que você fique aqui só porque é nova. Entendo que consegue cuidar de si mesma, ou pelo menos acha que consegue. Quero você aqui porque... gosto de tê-la aqui. Não vá embora. Espere o seu pai chegar. Pelo que parece, vocês dois precisam conversar. Aí você pode resolver o que fazer. Por enquanto, que tal ir lá para cima e desfazer a mala? Pense em todo o dinheiro que pode economizar morando aqui. Quando se mudar, já vai ter uma conta no banco bem recheada. – Eu havia acabado de dizer muito mais do que pretendia. Mas precisava fazê-la ficar.
– Está bem. Se estiver mesmo falando sério, então, obrigada.
Pensamentos dela nua na minha cama começaram a me provocar. Eu não podia deixar a coisa ir para esse lado. Precisava me lembrar de Nan. E no que tudo aquilo significava para Blaire. Ela acabaria me odiando no final.
– Estou falando sério. Mas isso também quer dizer que aquele papo de a gente ser amigo tem que continuar valendo, totalmente – disse a ela.
– Combinado. – Eu não queria que ela concordasse. Queria que ela me implorasse, como na noite anterior. Porque, naquele momento, eu estava fraco e cederia. Tirei à força todos os pensamentos sexuais sobre Blaire da minha mente. Eu não podia pensar desse jeito, ou enlouqueceria.
– E você também vai começar a comer a comida daqui quando estiver morando lá em cima.
Ela balançou a cabeça.
– Blaire, não discuta. Estou falando sério. Coma a porcaria da minha comida.
Ela se levantou e me encarou com uma fúria decidida.
– Não. Vou comprar comida. Eu não sou... não sou igual ao meu pai.
Porra. Mais uma vez, era tudo culpa minha. Então me levantei e a olhei direto nos olhos.
– Acha que eu já não sei disso a esta altura? Você tem dormido dentro de um armário de vassouras sem reclamar. Limpa tudo o que eu sujo. Não come direito. Dá para ver que não tem nada em comum com o seu pai. Mas você é hóspede aqui na minha casa e quero que coma na minha cozinha e que a trate como se fosse sua.
Os ombros tensos de Blaire relaxaram um pouco.
– Vou pôr a minha comida na sua cozinha e comê-la aqui. Fica melhor assim?
Não. Não era melhor. Eu queria que ela comesse a minha comida!
– Se você só pretende comer manteiga de amendoim e pão, não. Quero que coma direito.
Ela começou a balançar a cabeça, e eu estendi o braço e segurei sua mão.
– Blaire, ficarei feliz se souber que você está comendo. Henrietta faz compras uma vez por semana e abastece a casa supondo que eu vá receber vários convidados. Tem comida mais do que suficiente. Por. Favor. Coma. A. Minha. Comida.
Ela mordeu o lábio inferior, não sem antes deixar escapar uma risadinha. Caramba, que gracinha.
– Está rindo de mim? – perguntei, sentindo também a necessidade de sorrir.
– Estou. Um pouco – respondeu ela.
– Isso quer dizer que vai comer a minha comida?
Então ela soltou um grande suspiro, mas ainda estava sorrindo.
– Só se você me deixar pagar toda semana.
Balancei a cabeça negativamente, e ela puxou a mão e começou a se afastar. Maldita mulher teimosa!
– Para onde você vai? – perguntei.
– Cansei de discutir com você. Vou comer a sua comida se puder pagar a minha parte. É o único acordo que aceito. É pegar ou largar.
Grunhi, mas ia acabar tendo de ceder.
– Tudo bem.
Ela olhou de novo para mim.
– Vou tirar as minhas coisas da mala e depois vou tomar um banho naquela banheirona. Depois disso não sei. Não tenho plano nenhum até a noite.
A noite?
– Com quem? – perguntei, não sabendo se gostei do som daquilo.
– Com a Bethy.
– Bethy? A menina do country club? Aquela que o Jace come? – Não gostei mesmo do som daquilo. Bethy era encrenca. Ela ficaria bêbada e se esqueceria de Blaire. Pensei nos homens que poderiam fazer mal a ela. Não, ela não iria sem mim. Alguém precisava proteger aquela gracinha.
– Comia. A menina que o Jace comia. Ela ouviu a razão e partiu para outra. Hoje à noite, a gente vai a um bar de música country para arrumar uns trabalhadores de macacão que suem a camisa. – Blaire se virou e subiu a escada correndo.
Essa conversa não havia terminado.