Sempre Foi Você

Carrie Elks · Capítulo 9 de 29

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Sempre Foi Você

Capítulo 8

 

29 de junho de 2002

 

– O que é isso? – Josh apanhou o pacote em cima da cama, enquanto Hanna continuava a

enfiar coisas na mochila, apertando tudo o que cabia lá dentro.

Hanna virou-se para ele, que tirava uma camiseta do pacote. Ele a desdobrou, revelando

uma camiseta vintage de 1973 do New York Dolls, que Richard lhe mandara.

– É um presente de Richard.

– Não gosto que ele fique te mandando coisas – Josh caiu de volta na cama, mexendo os

dedos como se estivesse tentando remover todos os traços do presente dele. – É estranho.

Hanna parou o que fazia, inclinando-se para acariciar o rosto dele.

– Ele é só um amigo, Josh.

– Amigos não se dão presentes de centenas de libras, Hanna. Está na cara que ele é a fim de

você. Quer dizer, ele mal consegue tirar os olhos de você.

Hanna reprimiu uma risada.

– Josh, você sabe que não tem nada acontecendo. Ele mora a milhares de quilômetros de

distância, e eu estou com você. Tenha um pouco de confiança, ok? – ela inclinou-se e tocou

seus lábios nos dele. – Vou ficar lá até domingo, então não vamos nos despedir desse jeito.

– Ainda não gosto disso.

Apesar dos argumentos dela, o mau humor dele continuou até a Paddington Station, onde ele

a deixou. Hanna deu-lhe um beijo rápido antes de sair do carro, sentindo a irritação dele

quando ele respondeu com um beijinho. Mal fechou a porta, ele já acelerou, e ela viu o carro

desaparecer no trânsito de Londres. A preocupação por seu relacionamento com Josh causava

uma náusea que revolvia seu estômago.

Assim que sentou no trem, ela suspirou, decidindo que se preocuparia com a briga quando

voltasse para Londres. Então tocou o bolso para verificar que a carta de Richard ainda estava

lá, e puxou-a para lê-la mais uma vez.

 

20 de junho de 2002

Querida Hanna,

Obrigado pelo presente. Depois de todos esses anos, anos, anos, finalmente

finalmentefinalmentefinalmente receber o prometido CD me fez sorrir como um louco.

Quando li a lista de músicas, gargalhei de verdade. Começar com “Wall Street Shuffle”

pode ter sido meio óbvio, mas seguir com “Money for Nothing” do Dire Straits foi

realmente inspirado. A música final, “All About the Benjamin’s”, do Puff Daddy, é uma das

minhas favoritas, na verdade.

Enfim, para agradecê-la pelo presente, você ficará feliz em ver que gastei alguns Benjamins numa camiseta pra você. Não tenho certeza se é fã do New York Dolls ou não,

mas quando vi a camiseta lembrei de você e da noite dos Strokes.

Vamos repetir em breve, ok?

Richard

 

Sentada no bar dos bastidores do Festival de Glastonbury, Hanna viu Tom McLean

atravessar o recinto e colocar cinco garrafas geladas de Stella Artois na mesa de plástico

grudenta à frente deles. Ela apanhou uma e encostou-se na frágil cadeira dobrável, tomando

um longo gole de cerveja, para o divertimento do resto da banda.

– Então, o que achou? – Tom perguntou, tentando parecer indiferente enquanto puxava outra

cadeira, colocando-a tão perto de Hanna que as pernas deles quase se tocavam.

– Oficialmente ou extraoficialmente? – Hanna provocou, tocando o passe de jornalista

pendurado ao redor do pescoço.

Tom encarou-a por um instante, estreitando os olhos enquanto considerava as palavras.

– O que eu for gostar mais.

– Estou brincando, seu bobo – ela estava sorrindo. – Vocês foram absolutamente fantásticos.

Adorei o novo setlist. É genial. A plateia ficou vidrada em cada nota.

– Fomos melhores que o Coldplay? – Robert, o baixista, inclinou-se para a frente, o queixo

apoiado nas mãos. Ele olhava para Hanna com olhos brilhantes e atentos.

Ela não conseguia acreditar em como eles estavam interessados na sua opinião, embora a

antecipação deles alimentava seu ego de um jeito extremamente bem-vindo. Não era a

primeira vez desde que estivera no festival que uma banda parecia sinceramente interessada

no que ela pensava sobre eles. De algum modo, o juízo dela se tornara cobiçado. Ela

imaginava que tinha algo a ver com o fato de ser estagiária da Music Train, com o passe deles

pendurado no pescoço onde quer que fosse. Todas as bandas queriam uma boa crítica da

revista de música mais popular do país.

– O Coldplay foi excelente, todo mundo estava cantando junto – Tom ficou pálido com as

palavras, e Hanna apressou-se em acrescentar: – Mas vocês foram algo excepcional. As

pessoas não estavam só cantando, estavam adorando. Se lançando como sacrifícios aos deuses

do rock.

Um sorriso largo apareceu no rosto de Tom. Ele levantou-se e ergueu-a num abraço forte, os

lábios descendo para os dela com um estalo alto.

– Hanna Vincent, amo você! Agora, não se esqueça de me chamar de deus do rock em sua

crítica.

– Você sabe que a Music Train tem escritores de verdade aqui, né? Terei sorte se eles

publicarem um artigo genérico sem passar por cinco editores antes – ela contorceu-se numa

tentativa fingida de escapar do abraço dele. Não que se importasse que ele fosse efusivo; já

estava acostumada com isso. Ele era como um garoto de cinco anos entusiasmado, jogando-se

em todo mundo, não apenas nela.

– Falei com seu chefe mais cedo e prometi uma entrevista exclusiva, mas só se você a

escrever – ele deu uma piscadinha enquanto se afastava, prestes a se sentar outra vez.

– Ai, meu Deus! – ela exclamou, tentando não puxá-lo para outro abraço. As pessoas

estavam começando a observar. – Ai, meu Deus do Rock, por favor.

Eles encararam-se com sorrisos semelhantes no rosto. Era difícil acreditar que apenas dois anos atrás ela o vira tocar num pequeno pub, sem ter ideia de que ele se tornaria

internacionalmente famoso. Como as coisas tinham mudado.

– Tom, querido! – uma voz fina e aguda veio do outro lado do bar. Hanna observou

divertida enquanto uma loira baixinha corria até eles e se jogava nos braços de Tom,

envolvendo as pernas ao redor da cintura dele e lhe dando um beijo firme nos lábios.

– Não é a Pinky Jones? – Hanna sussurrou para Robert.

– Ah, sim. Tem sido a nossa cruz o verão inteiro. Toda vez que você se vira, ela está lá.

Fica nos rodeando como uma mosca em cima de uma pilha de merda.

– Que metáfora boa. Especialmente porque compara vocês a uma pilha de esterco – ela

respondeu, sarcástica, vendo Tom sentar-se novamente, puxando Pinky para seu colo. Hanna

mordeu o lábio inferior para não soltar uma risadinha, fazendo Tom erguer uma sobrancelha.

– Você não vai cantar hoje? – Robert perguntou à loira. Pinky riu e balançou a cabeça antes

de encostá-la no ombro de Tom, acariciando o pescoço dele. Hanna notou um brilho peculiar

nos olhos dele. De repente, percebeu que Tom McLean estava apaixonado por uma

celebridade Z, a segunda classificada do reality show Rock Star daquele ano.

Hanna tentou deter o sorriso largo que estava ameaçando despontar em seu rosto, porque

sabia que Tom pensaria que ela estava rindo dele, mesmo que não estivesse. Na verdade, um

cantinho do seu coração estava se aquecendo com a imagem do amigo sendo conquistado por

uma mulher.

– Pinky, essa é Hanna Vincent, uma das minhas amigas mais velhas – Tom ergueu os olhos e

piscou para Hanna.

– Você não parece tão velha – Pinky respondeu, franzindo a testa em confusão. Hanna ouviu

Robert começar a gargalhar ao seu lado.

– Não, querida, ela não é uma amiga velha em anos, é velha porque eu a conheço há anos.

– Tenho vinte anos – Hanna decidiu que seria mais fácil dizer logo.

Pinky recompensou a resposta franca com um sorriso deslumbrante, e Hanna entendeu

exatamente o que Tom via nela. Seu rosto era honesto e inocente, e mesmo que ela não

parecesse ter muita coisa entre as orelhas, o que havia lá parecia gentil e amigável.

– Vocês dois se conhecem há muito tempo? – Hanna perguntou, interessada na resposta. Ela

suspeitava que conseguiria viver daquela história pelos próximos meses.

– A gente se conheceu na festa de fechamento do Rock Star. Tommy veio falar comigo e me

disse que votava pra mim cem vezes todas as semanas.

A vontade de rir tomou conta de Hanna outra vez. Com a reputação de roqueiro dele e o

apelo de tabloide dela, Tom e Pinky seriam um alvo perfeito para os paparazzi.

 

***

 

Hanna chegou ao flat de Josh mais cedo do que planejara no domingo. Vasculhando a bolsa

de mão, encontrou a chave e entrou no prédio, tentando não respirar o ar rançoso e úmido do

corredor. Ela passou a mochila para o ombro, os pés calçados com sandálias pisando no

tapete puído das escadas. Lentamente, subiu ao segundo andar, sentindo os músculos ficarem

pesados como chumbo pelo esforço. Seu corpo doía. Ela só queria entrar no chuveiro

minúsculo de Josh e depois ficar sob as cobertas com ele por algumas horas.

O apartamento estava silencioso, e ela percebeu que sua suposição inicial – de que ele nem tinha se dado ao trabalho de se levantar ainda – estava correta. A carteira e as chaves dele

ainda estavam no balcão da pequena cozinha. Abrindo a porta do quarto, seus olhos

vagarosamente ajustaram-se à penumbra criada pelas cortinas. Ela pôs a mochila ao lado da

porta e deu alguns passos na direção da cama.

Suas pernas reagiram antes da sua mente, como se pressentissem algo errado naquela cena.

Hanna parou de repente, vendo duas formas adormecidas, os corpos nus entrelaçados sob a

cobertura de um fino lençol branco. O braço de Josh estava ao redor da cintura da mulher, sua

cabeça enfiada no pescoço dela enquanto ele respirava suavemente. Seu rosto adormecido era

a própria imagem da inocência.

Hanna sentiu-se entorpecida. Reconhecia a mulher. Elas tinham se visto algumas vezes

quando ela acompanhou Josh e os amigos do trabalho num pub de sexta à noite. Ele a

apresentara como sua chefe, e os dois mal interagiram todas as vezes que ela os vira juntos.

Mas pelo visto a conexão era mais próxima, e Hanna mordeu o lábio numa tentativa de frear

um grito que tentava escapar da sua garganta.

Lutar ou fugir? Ela mordeu o dedo, o rosto contorcido de infelicidade, tentando decidir o

melhor a fazer. Deveria confrontá-los antes que eles tivessem tempo de inventar uma história

como desculpa? Ou deveria correr do quarto com uma parcela da sua dignidade intacta?

A decisão foi tomada quando Josh se moveu languidamente, erguendo o braço da cintura da

mulher e alongando-o sobre a cabeça, os olhos piscando com lentidão em reação à pouca luz

do quarto. Erguendo a cabeça do travesseiro, ele avistou Hanna e sorriu, abrindo a boca para

dizer algo – e então olhou para baixo e viu a mulher nua, deitada ao seu lado.

A expressão de horror que passou pelo rosto dele foi quase cômica.

– O que diabos…?

– Acho que essa é a minha fala – a voz de Hanna estava surpreendentemente controlada,

enquanto ela examinava o desastre que era seu relacionamento.

– O que você está fazendo aqui? Achei que estava em Glastonbury – ele puxou o lençol para

cobrir os corpos nus deles. Uma risada subiu pela laringe dela quando Hanna percebeu que

ele estava tentando culpá-la por aquilo. Então, a risada se transformou num soluço, e ela soube

que precisava sair de lá imediatamente.

A razão voltou ao cérebro, superando o entorpecimento, e ela se virou para apanhar a

mochila antes de sair do quarto. Ouviu Josh gritar por ela, mas não respondeu, andando mais

rápido até atravessar a sala e chegar à porta da frente.

Era como se seu corpo inteiro tivesse sido atingido por um golpe. Os músculos estavam

rígidos enquanto ela descia as escadas correndo, mal notando o peso da mochila enquanto se

movia. O coração estava acelerado pelo choque de vê-los lá. Ela não tinha ideia de como

conseguiu sair para a rua sem tropeçar.

Hanna queria enfiar a mão na cara de Josh Chambers até ouvir o estalo satisfatório dos

dentes dele batendo contra a bochecha. Queria subir no colo da mãe como se tivesse cinco

anos outra vez, como se um simples abraço pudesse apagar toda a dor.

Mas, mais do que tudo, queria ir para casa e se enfiar na sua cama de solteiro, puxar as

cobertas sobre a cabeça e chorar por horas.