Sempre Foi Você
Capítulo 24
18 de maio de 2012
A chuva estava caindo sobre o telhado, batendo como cascos de mil cavalos. Hanna
suspirou alto, vendo Matty correr de um quarto para outro, desesperado para gastar um pouco
de energia. A tempestade de verão tinha começado de repente. O amarelo-azulado do céu
matinal foi rapidamente tingido de cinza, as nuvens ficando mais pesadas até que não puderam
mais conter a chuva. Não houve uma queda suave de gotas na janela; a tempestade começou
como pretendia continuar: dura e forte.
Matty não era uma criança de ficar dentro de casa. Ele precisava de ar fresco e grama e
areia. Amava explorar, colher flores e correr atrás de animais, gritando de frustração sempre
que eles fugiam de seu aperto. Ficar preso dentro de casa era meramente uma contenção. E a
pressão da energia não gasta pareceu crescer tanto que Hanna sentiu que poderia explodir o
telhado da casa.
Ele estava batendo na porta. Richard estava lá dentro, trabalhando em seu laptop. Ele tinha
murmurado algo sobre uma videoconferência durante uma das conversas tensas deles. Hanna
puxou o braço de Matty, pedindo silêncio enquanto tentava afastá-lo.
– Não! – o rosto de Matty comprimiu-se de raiva. Hanna engoliu duro e juntou sua coragem
de mãe.
– Saia de perto da porta, Matty – o tom dela foi firme. Era algo que tinha aprendido: se
você era firme, era ouvido.
– Não – Matty balançou a cabeça e virou-se de novo, batendo os punhos na madeira. Hanna
suspirou e ergueu-o, afastando-o da porta. Por um momento, Matty encarou-a com a boca
aberta, como se estivesse surpreso por ela ter ousado desafiá-lo. Seus lábios tremeram e seus
olhos se apertaram, enquanto um lamento alto escapou da sua garganta.
Ela tentou se afastar o mais rápido possível, mas Matty tinha pulmões surpreendentemente
fortes. Alguns segundos depois, Richard abriu a porta, aparecendo no corredor, encarando
Hanna e Matty com um olhar questionador.
– Ele está bem? – ele disse com gentileza, enquanto olhava o filho.
– Sinto muito, não queria perturbá-lo. Ele está enlouquecendo de tanto ficar em casa.
Aquilo a estava matando lentamente. Um olhar aqui, uma palavra polida ali. Toda interação
com Richard era uma tortura, desde as manhãs na cozinha alimentando Matty até as noites,
quando ele passava por ela e ia direto para o quarto.
Hanna estava desesperada para conversar. Estava desesperada para ouvir. Não importava
se ele quisesse desabafar, dizendo o quanto a odiava – ele podia gritar o quanto quisesse. Ela
suportaria gritos muito melhor do que aquela polidez intensa e inata.
Ele estava lá fazia cinco dias. Cinco dias pisando em ovos sobre o futuro deles. Era como se ele soubesse que isso seria uma tortura maior do que gritos e repreensões.
E era.
Matty começou a lutar nos braços dela, querendo ser posto no chão, desesperado para
correr até o pai. Richard moveu-se na direção deles, um sorriso curvando os lábios, e quando
estava a apenas alguns passos deles, Matty estendeu os bracinhos gorduchos, contorcendo-se
no aperto de Hanna.
– Pai – ele estava quase gritando. – Papai!
Hanna congelou.
O peito dela inflou, pressionando as costelas até ela achar que iria explodir. Ela olhou para
Richard, notando que os olhos dele estavam úmidos. Ela queria enxugar as lágrimas antes que
elas se formassem.
– Ele me chamou de pai.
Hanna assentiu, lágrimas escapando dos próprios olhos. Richard pegou Matty nos braços,
apertando-o com força contra o peito e segurando a cabeça do filho em sua mão larga.
– Pode dizer de novo, Matty? – ele sussurrou. – Diga “papai”.
Matty ergueu os olhos para o pai, os olhos brilhando quando percebeu que era outro jogo.
Ele era bom em jogos.
– Papai – suas palavras foram recompensadas com um gritinho de Hanna e um beijo de
Richard. Eles olharam-se de novo, e Hanna notou uma suavidade que nunca tinha visto antes
nele. Ela queria se envolver naquilo.
– Que menino esperto – ela estendeu a mão e acariciou a cabeça dele, sentindo as mechas
suaves na sua pele.
Richard continuou a encará-la, e Hanna sentiu o rosto ficar mais quente. Ela era atraída por
ele como um ímã, seus olhos fixos nos dele. Emoções borbulharam dentro dela como uma
garrafa de champanhe recém-aberta. Ela não estava perdoada – sabia disso e, pior, podia
entender – mas não podia esmagar a esperança de que um dia pudesse ser.
– Preciso terminar minha conferência – Richard estava engasgado de emoção. Havia um
tique no seu maxilar, e ela queria pôr a mão em torno de seu rosto e aliviar a tensão.
– Eu fico com ele – ela ofereceu, estendendo os braços. Matty lutou e agarrou-se em
Richard, fazendo ambos sorrirem.
– Ele pode vir comigo, se você não se importar. Só deve levar alguns minutos – eles tinham
voltado a ser educados.
Um passo de cada vez, ela se lembrou.
– Sem problemas. Estarei na cozinha se precisar de mim – me convide pra ir com vocês.
Por favor, me convide.
– Estamos bem – virou-se e voltou para dentro da orangerie, abrindo a porta para que ele e
Matty pudessem entrar. Hanna mordeu o lábio inferior enquanto via Richard indo embora,
lembrando-se da mensagem de texto que recebera de Ruby naquela manhã.
Dê um tempo a ele. Ele vale a pena.
***
Quando a noite caiu, o corpo de Hanna doía de tanto abrir sorrisos educados e de andar na
ponta dos pés com Richard. Nos últimos dias, eles tinham caído numa rotina de jantar com Matty, dar banho nele e colocá-lo para dormir. Richard participava avidamente, seu rosto
brilhando enquanto brincava com o filho, correndo pela casa e evitando a questão que ambos
sabiam estar lá.
– Ele está dormindo – Richard sussurrou quando saiu do quarto de Matty.
Hanna sorriu e passou por ele, sabendo que ele iria direto para o quarto. Ela parou no berço
de Matty e inclinou-se para acariciar o rosto tranquilo dele, seus dedos se demorando sobre a
pele gordinha das suas bochechas.
– Boa noite, meu anjo – ela beijou os dedos médio e indicador antes de pressioná-los
contra a testa dele. A hora de dormir sempre era melancólica; parte dela ficava aliviada,
sabendo que era o fim de um dia correndo atrás dele e que enfim ela teria uma noite de
descanso. A outra parte sentia falta dos sorrisos e risadas dele, e da sensação dos seus braços
amorosos envolvendo-a com carinho.
Ela saiu silenciosamente do quarto, fechando a porta atrás de si. Estava tão perdida em
pensamentos que não percebeu que Richard ainda estava lá, encostado na parede. Ele tinha
enfiado as mãos nos bolsos, e os tendões dos braços estavam tensos e definidos.
– Você quer conversar?
O estômago dela se revirou. Era o momento pelo qual ela vinha esperando a semana toda,
mas agora que tinha chegado a hora, ela estava tremendo de medo.
Ela assentiu, incapaz de falar por um momento. Richard desencostou da parede e foi para a
sala de estar. Ela o seguiu, sua mente num turbilhão de pensamentos e preocupações.
Havia uma garrafa de vinho tinto aberta na mesa de centro, junto com duas taças meio
cheias. Hanna se perguntou se era uma boa ideia beber com Richard por perto. Ele já
sobrecarregava seus sentidos até ela achar que explodiria. Quão pior seria enfrentá-lo com a
coragem falsa que o vinho lhe daria?
– Achei que isso poderia ajudar – ele ergueu uma taça e ofereceu-a para ela. Hanna tomou-a
pela haste, sentindo a fragilidade do cristal. Ela se perguntou se o quebraria se ficasse ainda
mais tensa.
– Obrigada – ela murmurou, sentando-se à frente dele. A mesa de centro estava entre eles,
uma barreira bem-vinda. Levando a taça aos lábios, ela tomou um gole, deixando o fluido em
temperatura ambiente dançar em suas papilas gustativas antes de engolir.
Richard limpou a garganta.
– Nosso filho é lindo.
Ela assentiu de novo, o nó na garganta crescendo.
– É mesmo.
– Ainda estou arrasado com tudo que aconteceu, mas precisamos nos concentrar em Matty –
ele estava passando o dedo pela beirada da taça. – A felicidade dele é a coisa mais
importante.
– Só me importo com isso – ela concordou, com a voz fraca.
– Você é uma mãe maravilhosa, Hanna. Não quero tirá-lo de você.
Ela sentiu que podia respirar pela primeira vez desde muito, muito tempo.
– Mas preciso ficar com ele também – ele acrescentou, num sussurro. – Agora que o
conheci, não quero me afastar dele.
– Eu sei – o coração dela se encheu de amor. – Quero que fique com ele. Você é o pai dele e
ele o ama – estava claro para ela agora, pelo modo como Matty olhava para Richard com adoração. – Nunca o vi aceitar alguém tão rápido.
Richard virou a taça antes de colocá-la na mesa.
– Mas o fato é que vivemos em países diferentes. Em continentes diferentes, pelo amor de
Deus.
Lá estava outra vez: a barreira que os assombrava havia doze anos, agora com maiores
complicações.
– Podemos dar um jeito – Hanna argumentou, sem saber a quem estava tentando convencer.
– Se estivermos ambos dispostos a tentar.
Richard inclinou-se para a frente, e, por um momento, ela desejou que a mesa de centro
desaparecesse.
– Estou disposto.
A boca dela estava seca demais para engolir, e ela podia sentir o coração acelerando
quando ele manteve os olhos fixos no seu rosto. Os olhos dele estavam escuros na luz
ambiente do abajur, mas o halo verde que os cercava a deixava fascinada.
– Matty e eu podemos nos mudar para Nova York – a boca dela se abriu antes que seu
cérebro notasse o que estava dizendo, mas ela não se arrependeu. – Eu procuro um
apartamento e a gente pode dividir a guarda dele.
As sobrancelhas dele se ergueram em surpresa.
– Você faria isso?
Hanna estava quase tão chocada quanto ele, mas assentiu devagar.
– Sim, faria. Matty merece ver você não apenas nos feriados, mas à noite e nos fins de
semana. Não consigo pensar em outro jeito.
– Não sei o que dizer.
Ela abriu um pequeno sorriso para ele.
– Não precisa dizer nada. Estou fazendo isso tanto por mim quanto por vocês dois – ela
inclinou-se e pôs a taça na mesa. No mesmo instante, Richard pegou sua mão. Ela prendeu a
respiração quando sentiu o contato, o calor da mão dele e sua pele mais áspera. Era a primeira
vez que se tocavam em dois anos. As lembranças invadiram sua alma até se tornarem uma dor
constante no peito.
Ela encarou a mão dele envolvendo a dela, o matiz quente da pele dele contrastando com
sua própria pele, mais pálida. Respirando fundo, ela se obrigou a erguer os olhos, querendo
ver a emoção que estava por trás do gesto.
Quando, por fim, olhou para o rosto dele, ele estava olhando-a de volta. Sua expressão era
terna. Ela sabia que ele só estava agradecido pela oferta, mas isso não impediu seu coração de
acelerar quando viu seu sorriso gentil e as linhas ao redor dos olhos. Os anos não haviam
diminuído a beleza dele; ele parecia ter ficado mais bonito com o tempo, e pelo modo como
os sentimentos estavam despejando dela, ela soube de um fato inegável.
Ela ainda era apaixonada por Richard Larsen.
***
Hanna tentou não fazer uma careta enquanto atravessava a pista, mas foi uma batalha
perdida quando viu a aeronave branca esperando por eles. Estava mais perto do chão do que
estava acostumada, a seis passos de metal galvanizado, e as cinco vigias à sua frente brilhavam.
Ela virou-se para olhar Matty, que estava agarrado ao pescoço de Richard com um braço, o
outro apontando para o avião.
– Isso? – ele perguntou, e Hanna abriu um sorriso.
– É um avião. Vai nos levar para o céu – ela acariciou a bochecha dele.
– Até Londres – Richard acrescentou.
Ela voltou a franzir as sobrancelhas.
– Tudo bem? – ele perguntou, notando como ela se retraiu.
Hanna assentiu. Ela ficaria bem quando a viagem a Londres chegasse ao fim. Estava com
medo de ver Claire e Steven e estava cogitando ficar no hotel enquanto Richard levava Matty
para conhecê-los. Ela sabia que era covarde, mas aquele encontro só poderia terminar de um
jeito.
Em lágrimas.
– Acho que essa coisa só vai nos levar até Londres – Richard bateu no avião, emitindo um
som metálico. – Precisamos embarcar num avião normal para Nova York.
– Que terrível – Hanna abriu um sorrisinho. – Odeio voar como pobre.
Os lábios de Richard curvaram-se levemente para cima.
– Não é de você que eu estou com pena, e sim dos outros passageiros, quando soltarmos o
nosso menino no avião.
Hanna fechou os olhos e tentou imaginar Matty correndo pela primeira classe, derrubando
bebidas e perturbando executivos. Talvez uma parada de três dias em Londres não fosse uma
ideia tão ruim assim.
Eles subiram os degraus. Hanna tirou Matty dos braços de Richard enquanto ele parava
para conversar com o piloto, discutindo o plano de voo e a estimativa de chegada. Entrando na
cabine principal, ela perdeu o fôlego – era muito diferente da classe econômica em que
normalmente viajava. As cores brilhantes da companhia aérea tinham sido substituídas por
couro bege discreto e verniz escuro. Elas criavam um efeito tranquilizador e, quando se sentou
com Matty no colo, ela se permitiu relaxar.
– Vamos decolar em dez minutos, eles estão fazendo a verificação final – Richard explicou
quando entrou na cabine. Matty imediatamente virou a cabeça quando ouviu a voz do pai, os
olhos procurando Richard enquanto ele se aproximava. – Ei, garoto, está animado pra voar? –
ele olhou para Hanna. – Você trouxe uma garrafa para as orelhas dele?
– Ali – ela apontou para a mesa à frente deles. – Enchi de água.
Ambos temiam que Matty tivesse herdado os problemas auditivos de Hanna. Ela tinha
dificuldades sempre que voava, e a ideia de que seu filho enfrentaria a mesma dor era demais
para suportar. Eles tinham trazido garrafas e chupetas, esperando que ele pudesse chupar e
aliviar a pressão nos canais auditivos.
– Se suas orelhas doerem, eu fico com ele – Richard prometeu, ajudando Hanna a fechar a
extensão do cinto de segurança ao redor de Matty. Ele era pequeno demais para ficar sozinho
num assento.
– Estou torcendo para que não doam, já que é um voo mais curto. É com o de sexta que
tenho que me preocupar.
Richard esfregou o braço dela e Hanna ficou tensa. Ela não queria que ele visse como sua
gentileza a afetava.
– Veremos. Estarei aqui para ajudar.
Novamente, Richard demorou mais para passar pela imigração. Hanna aproveitou para
trocar a fralda de Matty e se recompor, tentando não olhar muito de perto seu rosto cansado no
espelho enquanto aplicava gloss. Quando emergiram, Richard os esperava, os olhos tão
cansados quanto os de Hanna.
– Se o faz sentir-se melhor, quem vai ser interrogada em Nova York serei eu.
– Você tem passaporte americano – ele lembrou.
– Eu tenho, mas Matty ainda não.
Richard tirou o filho dos braços dela, colocando-o sobre o carrinho que estava empurrando.
– O que você pôs na certidão de nascimento dele? – seu tom era leve, mas ela podia sentir a
tensão por trás da pergunta.
– Só o meu nome – ela tinha registrado Matty no consulado na França.
– Precisamos mudar isso também – Richard franziu a testa, olhando para Matty. – Ele
precisa ter meu nome lá. Vou falar com meus advogados.
Hanna olhou para ele, vendo a preocupação em seu rosto. Obviamente, aquilo era
importante para ele.
– É claro. Precisamos arranjar algum tipo de visto para ele, se formos ficar em Nova York.
– Lisa já está providenciando. Tudo deve ficar pronto na quinta.
Richard montou o carrinho de Matty e Hanna ergueu-o gentilmente, fechando o cinto no colo
e fazendo-o rir quando a alça tocou suas pernas. Ela não tinha perguntado a Richard onde eles
ficariam ou como chegariam lá, mas de repente estava desesperada para saber.
Eles iam para Londres. Era a cidade dela, o terreno dela. Ela estava encantada por estar em
casa, mesmo que só por alguns dias.
– Onde vamos ficar? – ela manobrou o carrinho de Matty sobre o chão polido. Richard
acompanhou o ritmo dela, empurrando o carrinho de bagagem. Estava empilhado com malas
cheias de roupas e brinquedos e a parafernália normal de bebês.
– Reservei uma suíte para a gente no Dorchester – Richard disse. – Com dois quartos. Pedi
que um berço fosse colocado no seu.
Hanna sorriu. Ela não gostava da ideia do filho sozinho num lugar estranho. Era muito
melhor tê-lo com ela.
– Obrigada por arranjar tudo.
Ele encarou-a por um momento, permitindo que um sorriso se abrisse em seus lábios. O
coração dela parou de bater por um momento.
– Sou eu quem deveria agradecer. É você quem está deixando tudo e se mudando milhares
de quilômetros.
– É a coisa certa a fazer – Hanna disse simplesmente. Richard apertou a mão dela, que
estava segurando o carrinho. Ela prendeu a respiração com o gesto inesperado.
– Obrigado mesmo assim – ele sussurrou. Ela ergueu a mão e retribuiu o aperto.
Eles estavam no fim da passarela quando o sorriso de Richard se desfez e sua boca se
abriu. Ele parou de andar, olhando para Hanna com preocupação, e ela sentiu o coração
acelerado.
Alguma coisa estava errada.
– Pedi a eles para que não fizessem isso – ele apertava a mão dela com força, como se
estivesse com medo de que ela fosse fugir. – Desculpe, Hanna, prometo que estarei com você.
Ela seguiu a linha de visão dele. Um pouco afastados da multidão, encarando-os com a boca
aberta, estavam Steven e Claire. Nenhum dos dois parecia particularmente feliz ou contente de
vê-los, mas ela notou com alívio que suas expressões se suavizaram quando avistaram Matty.
Ele estava se mexendo no carrinho, cantando para si mesmo.
Toda esperança de evitar um confronto pareceu inútil. Ela deixou Richard guiá-los até seus
pais, o aperto em sua mão nunca relaxando. Ela respirou fundo, tentando manter sua respiração
regular e controlar sua expressão para tentar esconder o medo.
– Richard! – Claire atravessou os últimos metros correndo e lançou os braços ao redor
dele. Hanna viu-o abraçá-la de volta, antes de se voltar para Steven e apertar sua mão. Todos
se inclinaram para falar com Matty.
Matty ficou assustado e abriu a boca, soltando um lamento alto. Claire e Steven pularam
com o som, dando um passo para trás, abrindo um pouco de espaço para eles. Richard podia
sentir Hanna ficar tensa ao seu lado, e quando olhou para ela, viu preocupação e agitação em
seu rosto. Ele a conhecia bem o bastante para saber que ela queria acalmar o filho, mas estava
com medo de chatear os pais dele se entrasse na frente deles e tirasse Matty do carrinho. Ele
apertou a mão dela e abaixou-se, abrindo o cinto sobre a cintura do filho, erguendo-o e
murmurando palavras de conforto enquanto segurava sua cabeça.
– Shhh, está tudo bem, está tudo bem.
Matty enfiou o dedão entre os lábios e começou a chupar a ponta. Soluços silenciosos
faziam seu peito subir ritmicamente, seus olhos fechados e apertados.
– Mamãe…
Richard virou-se para Hanna, que estendeu uma mão para a bochecha de Matthew,
acariciando a pele macia de um modo reconfortante.
Claire endireitou-se.
– Hanna.
– Claire. Como está? – Matty agarrou a mão de Hanna e ela apertou de volta.
– Não sei. Realmente não sei – Claire balançou a cabeça, os cachos pulando sobre os
ombros. – Não sei dizer como estou me sentindo agora.
– Eu sei. Estou bem furioso, Hanna – Steven interveio, fazendo Claire pôr uma mão no
ombro dele. Ele endireitou os ombros, encarando Hanna com olhos azuis gélidos enquanto
balançava a cabeça devagar. – No que você estava pensando?
– Esperem um pouco… – Richard deu um passo à frente, passando Matty para Hanna. Ela
segurou-o por baixo e ele jogou as mãos ao redor do seu pescoço, o peito ainda atacado por
soluços. – O que aconteceu é entre Hanna e eu. Não preciso que vocês intervenham por mim.
Claire se pôs entre eles, sua expressão ilegível.
– Ninguém está brigando, Richard. Só queremos algumas respostas. Acho que temos esse
direito.
Atrás dela, Steven tinha o semblante de um homem no limite. Ele se mantinha imóvel
demais, o rosto calmo demais. Pela primeira vez na vida, Richard sentia que talvez tivesse
que enfrentar o pai. Hanna ficou em silêncio, e do canto do olho, ele a viu tremendo. Ele
queria puxá-la para perto e apertá-la em seus braços.
– Não é nem a hora nem o lugar para isso, Claire. Eu disse que encontraríamos vocês em
casa justamente para evitar esse tipo de espetáculo – Richard indicou o aeroporto lotado. Eles
estavam sendo empurrados toda hora por passageiros tentando ir embora.
– Só quero falar com Hanna, ok? Não a mãe do seu filho ou a mulher que o abandonou, mas
com a filha que eu conhecia – Claire enxugou uma lágrima. – Podemos tomar um café ou algo
assim?
Ele virou-se para Hanna, que assentiu depressa. Matty estava olhando para todos eles, o
dedão ainda na boca. As lágrimas tinham secado, deixando uma trilha brilhante em suas
bochechas, que se refletia na luz forte do aeroporto.
– Claire, Steven, esse é Matty – Hanna respirou fundo antes de dar um passo à frente. –
Matty, essa é… – ela franziu a testa e olhou para Claire. – Como devo apresentá-la?
– Não tenho certeza. Não tinha pensado nisso – Claire ficou parada por alguns instantes,
mordendo os lábios enquanto pensava. – Minha mãe era vovó, então acho que serei também –
ela virou-se para olhar Steven. Ele estava encarando Matthew, examinando seu cabelo e rosto.
– Não há dúvida, ele é a sua cara, Richard – ele estendeu um dedo e fez cócegas sob o
queixo de Matty, fazendo-o soluçar com uma risada trêmula. – Acho que posso ser o vovô,
então.
– Matty, quer dizer oi para a vovó e o vovô? – Hanna perguntou, balançando o filho nos
braços.
Matty tirou o dedão da boca com um som molhado e fez um biquinho.
– Oi – ele acenou com a mão.
– Garoto esperto – Richard sorriu, acariciando os cachos do filho. Matty sorriu e bateu
palmas, sem vergonha e muito feliz.
– Ele é lindo – Claire puxou Richard para um abraço apertado. – Estou tão orgulhosa de
você, querido – Richard afastou-se, corando de vergonha. Ele não sabia bem o que responder.
– Ele é lindo mesmo – Steven concordou. – Hanna, me desculpe pela raiva. Você precisa
nos dar um pouco de tempo para superar tudo isso.
– Você não tem que se desculpar – o sorriso dela sumiu. Ela estava apertando Matty contra
o corpo como um talismã. – Sei que tudo isso é culpa minha e nem sei dizer o quanto quero
compensar tudo isso pra vocês – ela olhou para Richard e os olhares deles se cruzaram.
– Não é tudo culpa sua – ele interveio. Ele desmontou o carrinho e colocou-o em cima das
malas, então apertou o ombro de Hanna. – Nós dois erramos em algum ponto ao longo do
caminho. Eu devia ter ligado pra você, minha mãe devia ter me dito que você me ligou…
– Caroline sabia disso? – a voz de Steven estava gélida. Ele ergueu a mão e passou-a pelo
grosso cabelo loiro. – Como assim?
– Ela disse a Hanna que Meredith estava numa cadeira de rodas e que eu não ia deixá-la –
Richard contou ao pai. Apesar da movimentação no aeroporto, foi como se eles cinco
estivessem suspensos numa bolha. As pessoas davam-lhes espaço, passando ao redor deles.
Richard não sabia se era por causa da raiva latente no ar ou pelo modo como todos estavam
tão rígidos que parecia artificial.
– Eu liguei para contar a Richard sobre a gravidez – Hanna explicou. – Mas ela não sabia
que eu estava grávida.
– Não interessa se ela sabia ou não. Ela interferiu… – Steven percebeu o que estava
dizendo e parou. Do canto do olho, Richard notou que Claire tentava esconder um sorriso. –
Você conversou com ela sobre isso, Richard?
– Ainda não estou pronto para falar com ela. Mas quando falar, se falar, transmitirei seus
cumprimentos.
Matty virou-se nos braços de Hanna até estar encarando Claire. Ele estendeu a mão e tocou
o cabelo dela, fazendo-a rir quando puxou. Pela primeira vez, a expressão de Steven se
suavizou, um meio sorriso passando sobre seus lábios. Richard exalou devagar.
Eles foram até um café perto da saída, tentando evitar os passageiros em trânsito. Hanna e
Claire iam à frente, Claire segurando a mão de Matty, um sorriso permanente no rosto. Todos
sabiam que a provação ainda não tinha chegado ao fim, que nem todas as diferenças tinham
sido resolvidas, mas Richard podia ter esperança de que um dia fossem.
Se ele olhasse para o futuro, não havia nada que desejasse mais do que estar cercado por
todas as pessoas que amava.
***
Um som alto no outro quarto o acordou. Seus olhos estavam cansados e grudados de sono, o
quarto escuro e desconhecido. Esfregou-os um pouco, tentando se orientar, a estranha luz
verde do despertador não o ajudando a determinar sua localização.
Sua boca estava seca e ele estendeu a mão para o criado-mudo, tentando encontrar um copo
de água. Sua mão só encontrou ar.
Só quando Matty começou a chorar do outro lado da parede, ele percebeu exatamente onde
estava.
Em Londres.
Num hotel.
De madrugada.
Ele sentou na cama, pondo uma mão para trás para ligar o interruptor na cabeceira de
madeira. O abajur no criado-mudo emitia uma luz quente e amarela, suficiente para iluminar
mas não tão ofuscante. Tudo no quarto tinha sido planejado para acolher e mimar.
Houve outro choro, seguido por uma voz mais baixa. Hanna estava murmurando para Matty,
tentando acalmá-lo e fazê-lo dormir outra vez. Pela resposta irritada que deu, Matty não estava
se deixando convencer.
Puxando as cobertas, Richard jogou as pernas para fora da cama, verificando se estava
coberto o suficiente para ser visto. A calça do pijama listrado caía dos quadris, e seu peito
estava nu, brilhando sob a luz do abajur.
Ele andou sobre o tapete caro e entrou na sala principal, empurrando a porta devagar caso
Matty já tivesse caído no sono. Hanna estava andando sobre o chão de madeira, descalça. O
esmalte em suas unhas era quase preto na meia-luz. Matty lutava em seus braços, batendo as
mãos nela enquanto ela fazia esforços inúteis para acalmá-lo.
– Tudo bem por aqui? – Richard usou um tom suave enquanto se aproximava, mas ela pulou
mesmo assim. Hanna olhou para ele com olhos arregalados, lançando-lhe um sorriso
apologético.
– Sinto muito, não queria acordar você. Ele escapou do berço. Deve ser mais baixo que o
de casa – uma das alças da camisola tinha deslizado do ombro dela, revelando a pele lisa de
alabastro. No quarto escuro, parecia porcelana.
– Ele está bem? – Richard franziu a testa. – Deve ter sido uma queda considerável.
Hanna sorriu.
– Está tudo bem. Ele escapou para cá antes que eu soubesse o que estava acontecendo. Tem um futuro brilhante como mágico.
Como se percebesse que estavam falando dele, Matty chorou de novo, seu tom adquirindo
uma nota de desespero. Ele olhou para Richard com olhos vermelhos, o rosto contorcido de
raiva.
– Quer que eu pegue ele? – a voz de Richard ainda estava baixa. Ele estava distraído pela
pele dela. Ele se lembrava do gosto que tinha.
– Acho que ele está assustado, não reconhece onde está. Até eu me sinto um pouco
desorientada – o olhar deles se cruzou e por um momento eles caíram em silêncio, ambos
sentindo o cansaço. Então Matty abriu a boca outra vez e gritou.
Richard passou a mão pela bochecha do filho. Para sua surpresa, isso o silenciou por um
momento, enquanto ele notava a mudança.
– Ei, Matty, é hora de dormir – Richard murmurou, a mão gentil, mas firme.
– Papai – Matty estendeu a mão para ele, a voz, um lamento. Richard pegou-o, liberando
Hanna do fardo, e apertou o filho contra o peito tentando fazer com que ele se sentisse seguro.
Pareceu funcionar; sua respiração tornou-se mais lenta, mais regular, e sua mão foi para a
boca, o dedão estendido. Richard esfregou as costas dele, balançando em um ritmo silencioso,
a cabeça enfiada no cabelo do filho.
Ele cheirava tão bem.
– Vamos tentar de novo? – Richard perguntou para Hanna. Ela estava de pé ao lado da mesa
de jantar, mexendo numa chaleira.
– Sim, por favor. Vou colocá-lo na cama comigo. Não quero arriscar que caia do berço
outra vez, podia ter sido muito pior.
Richard entrou no seu quarto, a fragrância familiar e tentadora. Lembrava-o de dias
preguiçosos em Londres e noites frenéticas em Nova York. Matty bocejou, o dedão enfiado na
boca, e Richard o pôs sobre o travesseiro não usado, suas pálpebras tremendo sob o peso da
fadiga.
– Tente dormir – ele inclinou-se para beijar a bochecha de Matty, a pele macia, suave e
gordinha. Matty suspirou, virando-se de lado, as pernas enroladas embaixo da fralda. Richard
permaneceu alguns instantes ali, vendo o filho chupar o dedo, os sons que fazia de vez em
quando quebrando o silêncio da noite.
– Bons sonhos – ele murmurou, saindo do quarto e fechando a porta atrás de si. Ele
procurou Hanna e encontrou-a sentada no sofá estofado, as pernas dobradas embaixo de si e as
mãos ao redor de uma xícara de chá.
– Fiz um pra você, se estiver com sede – ela apontou para a mesa. Richard foi até lá e
pegou a xícara. O vapor subiu e ele levou-a aos lábios, o líquido quente e doce despejando-se
sobre a beirada para dentro da boca. Ele engoliu como um moribundo.
– Obrigado.
– De nada – a resposta de Hanna foi rigidamente polida. Richard se perguntou o que
quebraria aquela barreira, até que tudo o que restasse fossem feridas abertas e honestidade.
– Ainda não pedi desculpas pela emboscada no aeroporto – ele sorriu nervosamente,
tentando não encará-la demais. Embora o pijama que vestia fosse relativamente conservador
(blusa e calça preta longa), era estranhamente erótico saber que ela estava nua debaixo deles.
Ele se lembrava bem demais do corpo dela sem roupas.
Já era difícil lidar com suas emoções conflitantes durante o dia, muito mais na escuridão da noite.
– Não foi culpa sua. Sabia que teria que vê-los em algum momento – ela tomou outro gole,
os lábios macios tocando a porcelana. Ele observou-a engolindo, seus olhos fechando-se por
um momento enquanto saboreava o chá.
– Achei que tudo foi surpreendentemente bem, considerando-se tudo – Richard sentou-se no
sofá ao lado dela, as pernas a centímetros dos pés dela. Ele queria erguê-los e colocá-los
sobre seu colo, fazendo-lhe uma massagem.
Mas não fez isso.
– Eles são sempre elegantes. Sei que deve ter sido difícil para eles serem educados comigo
depois de tudo o que aconteceu – Hanna pôs a xícara sobre a mesa de centro – mas parece que
eles gostaram de Matty. É tudo que importa.
– Vai ficar mais fácil, sabe, a cada vez que a gente contar para as pessoas – ele percebeu
quando ela prendeu a respiração ao ouvir “a gente”. – As coisas só vão melhorar.
Ela sorriu, iluminando a penumbra da sala. Apesar do cansaço e da tensão do dia, ela ainda
era linda, como uma obra de arte. Desde que se tornara mãe, seus seios estavam mais
redondos e as maçãs do rosto, mais definidas. Mas foi a mudança interna que mais o afetou,
cada vez que via a mãe interagir com o filho. Ele poderia se apaixonar pelo modo como ela
adorava Matty.
Hanna limpou a garganta.
– Não contei para o meu pai ainda. Ia visitá-lo depois de falar com você, quando estava em
Nova York. Acho que vou ter que contar as novidades depois de chegarmos – ela franziu a
testa.
– Se faz você se sentir melhor, eu vou ter uma conversa com minha mãe quando voltarmos
também – ele respondeu.
Hanna ergueu as sobrancelhas, mordendo o lábio de leve.
– Nunca acaba, não é? Quando você acha que o pior já passou, alguma outra coisa aparece
no lugar.
Richard estendeu a mão e, então, a puxou de volta, traçando o dedo pelo padrão da estampa
do sofá. Em seguida, ergueu a cabeça e olhou para ela, a expressão séria.
– Sabe, quando vim para Londres e não te encontrei, achei que nunca seria feliz de novo – o
rosto dela congelou com as palavras. – Achei que seria tão fácil, que eu passaria no seu
apartamento e te carregaria de volta para Manhattan.
Hanna inclinou-se para ele, os olhos brilhando. Parecia que ela queria dizer algo, mas seus
lábios continuaram imóveis enquanto ela mordia o inferior.
Ele respirou fundo outra vez, sem saber ao certo aonde queria chegar com aquilo. Ele
queria contar para ela o que ele tinha passado – precisava que ela soubesse. Mas feri-la era
como ferir a si mesmo.
– Sinto que só existi por dois anos, como se tivesse pausado as coisas. E saber que podia
ter passado esses dois anos com Matty e você… – a voz dele falhou antes que terminasse a
frase.
– Sinto muito, mesmo – Hanna se pôs de joelhos, pegando a mão dele e colocando-a no
próprio rosto. – Sei que fiz tudo errado. Se pudesse voltar e mudar, faria tudo diferente – as
lágrimas dela umedeciam seus dedos, e ele passou o dedão no rosto dela, enxugando-as. –
Odeio que você tenha perdido tudo isso e odeio ter acreditado que você ainda estava com Meredith. E o pior é que eu tinha um pedaço de você comigo e você não tinha nada.
Richard girou os quadris, virando-se para ela. Sua pele era lisa sob os dedos dele, tesos
sobre as maçãs do rosto dela. Mais alguns centímetros e ele poderia acariciar seu pescoço,
enfiar os dedos no seu cabelo. Puxá-la até que seus lábios…
Ele balançou a cabeça, tentando esvaziá-la das emoções conflitantes. Ele queria trazê-la
para ele, beijá-la até que estivesse sem ar e esfregar o corpo contra o dela até que ela
implorasse por mais. Mas havia uma parte mais profunda e furiosa dele que queria sacudi-la
até que seus dentes tremessem e gritar com ela até que implorasse por misericórdia.
Ele precisava ir para a cama. Sozinho. Não confiava em si mesmo para não machucá-la.
Não podia confiar que ela não faria o mesmo. A rede só ficava mais intricada.
***
O voo para Nova York foi tão ruim quanto eles esperavam. No início, Matty ficara distraído
pelos filmes na tela à sua frente: Hanna apontava seus personagens preferidos enquanto
tentava impedi-lo de tirar os fones de ouvido. Depois, ele passou por vinte minutos maníacos,
no meio do voo, tentando escapar deles e correndo pelo corredor, não entendendo que
precisava ficar quieto. Richard tinha segurado o filho e andado pela cabine até que sua cabeça
caísse pesada de sono, antes de deitá-lo no colo deles, passando as mãos sobre ele enquanto o
menino sonhava tranquilamente.
Eles não falaram sobre a noite anterior. As lágrimas de Hanna e a resposta constrangedora
dele estavam enterradas sob os problemas maiores deles. Matty era o escudo e a cola deles,
mantendo-os juntos e permitindo-lhes ignorar tudo o que aconteceu entre eles.
– Pedi que a equipe preparasse quartos para você e Matty – Richard disse, passando a mão
pelo cabelo do filho. – Arranjei uma cama em vez de um berço, caso ele queira brincar de
Houdini de novo.
Hanna tentou abrir um sorriso.
– Ele vai ter que se contentar em arrombar cofres e fazer base jumping, então – ela
encarou-o. – Obrigada por deixar a gente ficar enquanto procuro algo mais permanente.
Era fim da tarde, quando eles chegaram ao apartamento dele. Matty estava
surpreendentemente calmo, como se tivesse gasto toda a energia no avião. Sua cabeça estava
encostada no braço de Hanna enquanto ele olhava para fora da janela do carro, raspando os
dentes ritmicamente sobre o dedão. De vez em quando, algo atraía seu interesse e ele
apontava, usando palavras simples para perguntar o que era. Hanna pacientemente lhe dizia a
palavra, explicando mais sobre a coisa, e Richard tentava não encarar seus lábios se movendo
enquanto ela falava.
Ele estava enlouquecendo com a proximidade, mas seria muito pior quando eles se
mudassem. Ele queria encontrar um jeito de mantê-los por perto, para que pudesse cuidar
deles e garantir que ficassem seguros. Estarem na mesma cidade não era suficiente; Richard
queria-os embaixo do mesmo teto.
Jack levou a bagagem deles para cima, colocando as malas de Hanna no quarto dela, sem
saber o que pertencia a ela ou Matty. Ela tinha arrumado uma mala menor com as coisas
noturnas do filho, e rapidamente deu um banho em Matty antes de colocá-lo num pijama
confortável coberto de desenhos de carros. Richard ficou no quarto, vendo o filho brincar com os brinquedos de plástico que ele pedira a Lisa para comprar, sorrindo enquanto Matty
engatinhava da garagem de plástico à cozinha, os olhos arregalados de prazer.
– Parece que a Toys ‘R’ Us vomitou no seu apartamento – Hanna notou, vendo Matty bater
uma frigideira de plástico na cabeça dele. – É tão incongruente.
Richard coçou o queixo. Era óbvio que o apartamento não tinha sido decorado para
crianças; uma olhada para as paredes brancas e estofados de seda era suficiente para perceber
aquilo. Mas, de algum modo, ter o filho ali, cercado por sua parafernália infantil, atraía-o
mais do que o trabalho de um designer de milhares de dólares.
– Só encomendei o básico. Vamos ter que pensar no que mais ele precisa – ele olhou para
ela. Sua íris cor de chocolate estava enorme enquanto ela retornava o olhar, os lábios dele
entreabertos. Então ela olhou para baixo, os cílios roçando o rosto e os dedos trêmulos ao
estender a mão para o filho.
– Vou colocá-lo na cama. Amanhã vai ser um longo dia.
***
Na tarde seguinte, ele estava esperando no Central Park, no lago de patos, vendo as
crianças jogarem pão. Hanna e Matty deveriam encontrá-lo à uma, mas já era uma e quinze.
Ele estava começando a ficar preocupado.
Alguém jogou algo pesado no lago, assustando os pássaros e levando-os a abrir as asas e
roçar a superfície da água em sua pressa de escapar. Richard inclinou a cabeça, vendo um
grupo de adolescentes do outro lado da água, rindo loucamente com suas ações tolas.
– Desculpe o atraso – a voz dela estava embargada, seus olhos vermelhos. Matty correu até
ele e agarrou suas pernas, os dedos grudentos puxando o tecido da sua calça social.
– Como foi? – ele não precisava perguntar. A expressão dela dizia tudo.
– Meu pai foi difícil. Disse que eu era igual a minha avó imprestável. Então ligou para
Olivia, que gritou no telefone, e até pude ouvi-la dizendo que Matty ficaria melhor se o
puséssemos para adoção – ela estava encarando o chão, os dedos mexendo no bracelete. Ele
queria tocá-la e acalmar seus movimentos.
– Eu devia ter ido com você. Queria ter ido – ele ia fazer aquilo, precisava fazer aquilo,
pelo bem dela tanto quanto pelo dele. Dando um passo à frente, endireitou os ombros e
estendeu uma mão para tocar o braço dela. Ela olhou-o com os olhos brilhando de lágrimas, e
abriu a boca para dizer palavras que saíram silenciosas.
Um instante depois ela estava em seus braços, seu corpo magro envolto pelo dele. Richard
hesitou, tentando descobrir onde pôr as mãos, e então colocou-as no meio das costas dela,
fazendo um carinho através do tecido fino do vestido.
– Sinto muito que ela tenha dito isso – ele murmurou. – Mas você sabe que ela está errada.
Matty é a melhor coisa que aconteceu com a gente em muito tempo.
– Ele disse que não me conhecia – ela soluçou na camisa dele. – Que não queria me
conhecer. Sei que menti por omissão, mas ele foi tão cruel – ela ergueu a mão do braço dele e
enxugou o rosto, manchas escuras de rímel sujando a face. – Ele reagiu pior do que você, e
você tinha muito mais pelo que me culpar.
– Também tenho muito mais a agradecer – Richard pegou Matty nos braços, e os três
abraçaram-se como uma família de verdade. Ele queria fechar os olhos e inalar o aroma da felicidade. – Ainda temos muito a fazer antes de resolver tudo, mas pelo menos estamos
dispostos a tentar.
Eles foram até um banco e ele viu os músculos da perna dela flexionarem-se com o
movimento. Na semana desde que haviam chegado a Nova York, ela tinha ganhado cor depois
de passar os dias com Matty no parque, mostrando os animais para ele e deixando-o correr
livre pela grama.
À noite, ele voltava para o apartamento com um coração tão cheio que era quase doloroso.
Ver Hanna de pé na cozinha, preparando o chá de Matty, fazia sua alma doer. Mas era uma dor
agradável. Ele tinha que se perguntar: ele ainda se sentia atraído por ela – por quem ela era –
ou só queria a unidade familiar perfeita? O modo como seu corpo estremecia a cada vez que
ela se inclinava, permitindo-lhe ver a curva dos seus seios, dizia-lhe que era a primeira
opção.
Ela estava ocupada tirando o almoço de Matty da sua bolsa enorme, tentando encontrar
lenços umedecidos e o babador. Matty reclinou-se no banco, balançando as pernas para a
frente e para trás e cantando para si mesmo com palavras inventadas.
– Seu pai chegou a olhar para Matty? – Richard sabia que estava cutucando a ferida, mas
não conseguia acreditar que Philip rejeitaria sua própria carne e sangue. Aquilo lembrava-o
também de um confronto mais doloroso e difícil que ele precisaria ter com a própria mãe. Um
confronto que ele vinha adiando.
– Só uma olhada quando Matty puxou alguns papéis da mesa dele. Então ele bufou e
apanhou os papéis, dizendo que o escritório não era lugar para uma criança – ela tirou a tampa
de um pote de iogurte, enfiando a colher e erguendo-a até a boca de Matty.
– Talvez ele precise de um pouco de tempo. É muita coisa para absorver – ele escondeu um
sorriso, ciente de que as palavras se referiam a ele tanto quanto a Philip Vincent.
– Vou deixar que ele me ligue quando estiver pronto… se estiver pronto algum dia – Hanna
tirou um lenço e passou-o no rosto de Matty. Ele fez uma careta em protesto, virando a cabeça
para fugir. Ela fez cócegas embaixo do seu queixo até que ele riu, então se inclinou depressa,
pegando o iogurte antes que caísse da sua boca. Sua expressão de vitória foi suficiente para
fazer Richard sorrir, e ela notou o seu olhar, seu próprio sorriso iluminando suas feições.
– O quê? – ela perguntou.
– Você estava parecendo tão satisfeita consigo mesma – ele respondeu. – Como se pegar um
pouco de iogurte fosse equivalente a ganhar um prêmio Pulitzer ou algo do gênero.
– Se você tem que lavar tanta roupa quanto eu, cada gota num lenço é uma enorme vitória –
inclinou-se e esfregou o lenço na cara de Richard, o aroma doce do tecido invadindo seus
sentidos.
– Ei! Eu não tomei iogurte hoje – ele sorriu, inclinando-se para pegar outro lenço. – Se
alguém precisa ser limpo, é você – ela tentou se afastar, reclinando-se no banco. Richard
seguiu cada movimento, como um leão com sua presa. Ele estava a centímetros do rosto dela e
viu a expressão dela mudar quando o olhou, perdendo o fôlego com a proximidade.
Ela umedeceu os lábios com a língua, e as maçãs do rosto ficaram coradas. Do canto do
olho, ele podia ver Matty balançando as pernas, lentamente comendo uma banana enquanto
encarava os pássaros voando entre as árvores.
Richard inclinou-se, passando o lenço pelo rosto de Hanna, limpando as manchas de rímel
que tinham sujado sua face depois de ter chorado por causa do pai. O olhar deles se cruzou, bloqueando o resto do mundo. O riso sumiu sob a intensidade da conexão deles, os lábios
relaxando e caindo até serem substituídos por desejo.
– Sua pele é perfeita – ele sussurrou, passando os dedos pelas bochechas dela,
abandonando as tentativas de limpar seu rosto. – Tinha me esquecido de como era suave.
Hanna engoliu enquanto ele continuava a acariciá-la. Ela pôs a mão sob a jaqueta dele,
passando-a ao redor da sua cintura. A camisa fina de algodão não diminuiu a sensação do
toque dela. Ele queria tirar sua mão da cintura e incentivá-la para dentro da camisa, até que
sua palma se esfregasse contra o peito nu dele. Não era suficiente olhá-la. Ele precisava
sentir.
– Janta comigo hoje? – as palavras escaparam da sua boca, de repente. As sobrancelhas de
Hanna se franziram em confusão, sua mão gentilmente apertando a cintura dele.
– E Matty? Não posso deixá-lo sozinho com uma babá. Ainda não.
Ela não tinha dito não. Ele sorriu.
– Pode ser em casa. Colocamos Matty para dormir e eu peço alguma coisa. Só para nós
dois. Assim temos uma chance de conversar.
Ela abriu um sorriso.
– Sim, por favor. Adoraria jantar com você.
Não importa o que fosse preciso; Richard estava determinado a fazer aquilo direito. Ele
queria conquistar aquela garota, seduzi-la até que não pudesse jamais fugir de novo. Eles
tinham sido descuidados antes, deixando o amor escapar pelos dedos como areia numa
ampulheta. Nenhum dos dois era inocente por aquela confusão em que se encontravam. Ambos
tinham desistido antes do que deveriam.
Dessa vez, ele estava determinado a não deixá-la escapar.